«Estas paredes parecem de pedra e são de amor»[1], costumava dizer São Josemaria, ao falar de Villa Tevere. Ao caminhar pelos corredores desta casa, desponta a sensação de percorrer a sua alma, até nos encontrarmos com ele, aos pés de Santa Maria da Paz. Só isto já poderia levar-nos muito longe, a nós que seguimos Jesus através do espírito do Opus Dei. Peregrinar ao lugar onde repousa o corpo do nosso fundador leva-nos a ajoelhar diante da Rainha da Paz. De cada lado do presbitério, um anjo segura um livro aberto. Num, lê-se Gaudium cum Pace; no outro, Pax – In aeternum, como rezamos todos os dias[2]. As mesmas palavras adornam também a parede do fundo do oratório de Pentecostes, onde São Josemaria rezava todas as manhãs, com os olhos fixos naquele sacrário a que chamava “o coração da Obra”.
São petições em contraste com «a inquietante falta de paz do nosso tempo, que as manchetes dos jornais continuam a espelhar diariamente. Falta paz nas grandes manchetes e entre as grandes potências, mas também nas pequenas mensagens do quotidiano: entre familiares, vizinhos, amigos, colegas. Falta paz também nas consciências, onde muitas vezes reinam o medo, a dúvida, a ansiedade, a preocupação»[3].
Graças a Deus, são muitas as pessoas, também não cristãs, que promovem os valores humanos da paz, da convivência e da concórdia entre os povos. A paz, como escreveu São João Paulo II, é também «fruto da solidariedade»[4], e, nesse sentido, devem trabalhar lado a lado homens e mulheres de todos os credos. No entanto, a consciência cristã implica uma missão mais profunda: trata-se de «anunciar o Evangelho da paz», porque «Cristo é a nossa paz» e foi Ele quem estabeleceu a paz pela cruz (cf. Ef 2, 14-16)[5].
Ao pensar nas pessoas que viriam para o Opus Dei ao longo dos séculos, São Josemaria vislumbrava-as «defendendo a paz de Cristo [...]. Contribuiremos para que os direitos da pessoa humana, da família, da Igreja sejam reconhecidos na sociedade. O nosso trabalho fará com que diminuam os ódios fratricidas e as desconfianças entre os povos, e as minhas filhas e os meus filhos – fortes in fide, firmes na fé – saberão ungir todas as feridas com a caridade de Cristo, que é bálsamo suavíssimo»[6]. Sendo assim, quando São Josemaria fala de ser «semeadores de paz» não se está a referir apenas a uma cordialidade humanitária: está a convidar-nos a ser testemunhas de Cristo. A paz é um dom, mas também uma missão[7], que exige dar testemunho da cruz de Jesus no mundo, embora pregar Cristo crucificado possa ser «escândalo» e «loucura» para muitos (cf. 1Cor 1, 23).
Duas lógicas
O céu de Jerusalém cobriu-se de trevas. A libertação é iminente. Jesus leva quase três horas pregado na cruz e só agora começa a revelar-se o sentido daquelas palavras que o Senhor tinha pronunciado tempos antes: «Se alguém quiser vir após Mim, tome a sua cruz e siga-Me» (Mt 16, 24). Neste momento crucial, centro da história, em que a lógica de Deus está prestes a vencer a lógica do mundo, Jesus enfrenta uma última tentação: «Desça da cruz, e acreditaremos nele» (Mt 27, 42). Se demonstrares o teu poder, acreditaremos. A nossa lógica é, tantas vezes, a do poder: triunfarás se dominares com o teu poder. É a lógica que o diabo respira constantemente, a mesma com que tentou seduzir Jesus no deserto: «Dar-te-ei todo este poderio e a sua glória, porque me foi entregue» (Lc 4, 6). Os discípulos de Jesus não eram alheios a esta mentalidade. Por várias vezes discutiram entre si sobre os lugares de poder no reino humano que imaginavam (Lc 22, 24-26).
Jesus apresenta-nos, pelo contrário, um novo modo de ver e de pensar, uma lógica que vem virar tudo do avesso: «Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, abençoai os que vos amaldiçoam, rezai pelos que vos caluniam» (Lc 6, 27-28). Talvez, por força do hábito, lemos estas passagens com a consciência adormecida e já não nos surpreende a gramática desconcertante que atravessa toda a vida e, sobretudo, a paixão do Senhor. Quando São Pedro tenta defendê-lo com a espada, Jesus fala de «mais de doze legiões de anjos» que poderiam vir em sua defesa, se recorresse ao Pai (cf. Mt 26, 53). Quando Pilatos o interroga sobre o seu poder, Jesus declara: «O Meu Reino não é deste mundo» (Jo 18, 36); se o fosse, os seus «guardas» viriam e impediriam que fosse entregue.
Perante estas referências a potestades angélicas, a imaginação talvez não consiga evitar divagar: podemos pensar que, afinal, os exércitos celestes poderiam trazer alguma ordem e justiça ao nosso mundo. Ainda hoje, a via do poder apresenta-se como um atalho sedutor para alcançar o bem, promover a justiça, até a paz no mundo. Mas Jesus não veio trazer a paz do mundo, mas a Sua paz (Jo 14, 27). E a paz de Jesus é fruto da cruz, que é, «ação do amor», o misterioso «trono da sua realeza»[8].
Numa ocasião, Bento XVI refletia sobre o poder de Cristo. Ele é, em última análise, o Rei do Universo… O seu domínio, porém, não é o dos «reis e dos grandes deste mundo; é o poder divino de dar a vida eterna, de libertar do mal, de derrotar o domínio da morte. É o poder do Amor, que do mal sabe obter o bem, enternecer um coração endurecido, levar paz ao conflito mais áspero, acender a esperança na escuridão mais cerrada. Este Reino da Graça nunca se impõe, e respeita sempre a nossa liberdade. [...] Escolher Cristo não garante o sucesso segundo os critérios do mundo, mas assegura aquela paz e alegria que só Ele pode dar»[9].
Jesus carrega com as nossas culpas sobre os seus ombros inocentes. Detém o seu olhar misericordioso sobre aqueles que lhe fazem mal. Implora ao Pai o perdão para os seus verdugos. Não há crime maior do que torturar e matar um homem justo – e esse homem é Deus. Jesus reafirma a sua inocência, mas responde a essa injustiça extrema intercedendo pelos violentos, pelos impiedosos, pelos que escarnecem: «Perdoa-lhes, ó Pai» (Lc 23, 34).
São João Paulo II disse uma vez, com profundo sentido profético, que «não há paz sem perdão»[10]. E esse perdão que traz a paz deixou de ser um sonho inalcançável. Com a sua entrega e a sua misericórdia, Jesus quebrou, a partir de dentro, a lógica do fratricídio invejoso de Caim, essa cadeia infinita de violência e vingança que se tinha apoderado da humanidade. O ódio e a violência não terão a última palavra. No momento mais sombrio da história, a partir do perdão do imperdoável, começou a abrir-se caminho, já de modo irreversível, um mundo novo, uma paz que não terá fim (cf. Is 9, 6-7).
Para sermos reconhecidos como filhos de Deus
O primeiro fruto da morte de Cristo na cruz será a fé de um pagão, o centurião Longinos: «Este era verdadeiramente o Filho de Deus» (Mt 27, 54). A Basílica de São Pedro presta-lhe homenagem: a sua estátua, esculpida por Bernini, encontra-se junto do túmulo do príncipe dos apóstolos; e num dos pilares da cúpula conserva-se, segundo a tradição, uma relíquia da sua lança. A declaração do soldado romano faz eco àquelas palavras pelas quais Simão se tornou Pedro, a pedra fundacional da Igreja: «Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo» (Mt 16, 16). Juntas, estas duas confissões de fé fazem ressoar a promessa de Jesus: «Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus» (Mt 5, 9). Se queres ser reconhecido como filho de Deus, semeia a paz à tua volta.
Numa das suas últimas cartas, D. Javier recordava «uma ocasião em que perguntaram a São Josemaria sobre o sentido da saudação que os primeiros cristãos usavam entre si e que também usamos na Obra. E esta foi a sua resposta: “Pax! Não o dizemos a gritar, mas procuramos levar connosco a paz onde quer que estivermos. Por isso, quando as ondas se levantam, lançamos em cima das nossas paixões e nas dos outros um pouquito de compreensão, um pouquito de convívio, numa palavra, um pouco de amor. Levamos a paz e deixamos a paz”»[11].
Os primeiros cristãos seguiam o exemplo de Cristo ressuscitado. «A paz seja convosco», diz Jesus em três ocasiões aos discípulos, segundo o relato de João (Jo 20, 19-26). Essa é a paz que pedimos todos os dias na Missa, depois do Pai-Nosso: «Livrai-nos de todo o mal, Senhor, e dai ao mundo a paz em nossos dias». A paz de Cristo é fruto da cruz e da oração. Por isso, ao contemplar o crucifixo, aprende-se a olhar o mundo com misericórdia.
Aqueles que tinham presenciado a crucificação, regressam a casa batendo no peito (cf. Lc 23, 48). Deixam de acusar («Crucifica-O!») e começam a acusar-se a si mesmos: a graça da cruz abre espaço à humildade e à conversão[12]. A lógica de Deus começa a fender o reino de Satanás. E isto continua a acontecer hoje: a lógica mundana e a lógica divina travam um combate em cada coração, em cada instante. A paz e a guerra decidem-se em cada batimento, em cada respiração.
[1] São Josemaria, Em diálogo com o Senhor, n. 3.
[2] cf. «As Preces do Opus Dei» em www.opusdei.pt
[3] Fernando Ocáriz, «Semeadores de paz e de alegria», El Mundo, 26/06/2025.
[4] cf. São João Paulo II, Sollicitudo Rei Socialis, n. 39-40: «O lema do Pontificado do meu venerável predecessor Pio XII era Opus iustitiae pax: a paz é o fruto da justiça. Hoje poder-se-ia dizer, com a mesma justeza e com a mesma força de inspiração bíblica (cf. Is 32, 17; Tg 3, 18), Opus solidarietatis pax: a paz é o fruto da solidariedade. A meta da paz, tão desejada por todos, será certamente alcançada com a realização da justiça social e internacional; mas contar-se-á também com a prática das virtudes que favorecem a convivência e nos ensinam a viver unidos, a fim de, unidos, construirmos dando e recebendo, uma sociedade nova e um mundo melhor. A solidariedade é indubitavelmente uma virtude cristã. Na exposição que precede já foi possível entrever numerosos pontos de contacto entre ela e a caridade, sinal distintivo dos discípulos de Cristo (cf. Jo 13, 35)».
[5] cf. São João Paulo II, «Um compromisso sempre atual: educar para a paz», Mensagem para o XXXVII Dia Mundial da Paz de 2004 (08/12/2003): «O esforço de educar a nós mesmos e aos outros para a paz, nós, cristãos, sentimo-lo como fazendo parte da índole mesma da nossa religião. De facto, para o cristão proclamar a paz é anunciar Cristo que é “a nossa paz” (Ef 2, 14), anunciar o seu Evangelho que é “Evangelho da paz” (Ef 6, 15), chamar todos à bem-aventurança de ser “obreiros da paz” (cf. Mt 5, 9)».
[6] São Josemaria, Carta 4, n. 26.
[7] Bento XVI, «A pessoa humana, coração da paz», Mensagem para o XL Dia Mundial da Paz de 2007 (08/12/2006).
[8] São Josemaria, Via-Sacra, II estação.
[9] Bento XVI, Angelus, 22/11/2009.
[10] São João Paulo II, «Um compromisso sempre atual: educar para a paz», Mensagem para o XXXVII Dia Mundial da Paz de 2004 (08/12/2003): «Sinto o dever de recordar que, para a instauração da verdadeira paz no mundo, a justiça deve ser completada pela caridade. [...] Justiça e amor aparecem às vezes como forças antagonistas, quando, na verdade, não passam de duas faces duma mesma realidade, duas dimensões da existência humana que devem completar-se reciprocamente. É a experiência histórica que o confirma, mostrando como frequentemente a justiça não consegue libertar-se do rancor, do ódio e até da crueldade. A justiça, sozinha, não basta; e pode mesmo chegar a negar-se a si própria, se não se abrir àquela força mais profunda que é o amor».
[11] Javier Echevarría, Carta pastoral, 01/03/2016.
[12] «Se cada um de nós, a todos os níveis, em vez de acusar os outros, reconhecesse em primeiro lugar as próprias falhas, pedisse perdão a Deus e, ao mesmo tempo, se colocasse no lugar dos que sofrem, mostrando-se solidário com os mais fracos e oprimidos, então o mundo mudaria» (Leão XIV, Mensagem Urbi et orbi, 25/12/2025).

