Catequese. Os Documentos do Concílio Vaticano II
IV. Constituição pastoral Gaudium et spes (GS 23-32)
3. A comunidade humana
Irmãos e irmãs, bom dia e bem-vindos!
Dedicando o segundo capítulo à “comunidade humana”, a Constituição Gaudium et spes (GS) convida a considerar a «multiplicação das relações entre os homens» «entre os principais aspetos do mundo atual» (n. 23). No entanto, esta realidade tem necessidade de encontrar o seu cumprimento «ao nível mais profundo da comunidade de pessoas», para a qual é indispensável «o mútuo respeito pela sua plena dignidade espiritual» (ibid.).
São afirmações que, nos nossos dias, adquirem maior urgência. Com efeito, por um lado o desenvolvimento tecnológico, a difusão dos mass media e dos social media, e o recurso crescente à inteligência artificial abrem novas possibilidades, abatendo barreiras e distâncias; por outro, as relações tendem a tornar-se cada vez menos pessoais, mais virtuais, e corremos o risco de nos habituarmos a delegar aos algoritmos decisões que competem exclusivamente à consciência humana. A tal respeito, fazer com que as relações sociais tenham peso real e profundidade pessoal é a contribuição que a comunidade cristã se propõe oferecer.
O Concílio convida a encontrar critérios e força no projeto criador de Deus, o qual desejou que «[todos] os homens formassem uma só família e se tratassem uns aos outros como irmãos»; por isso, «o amor a Deus e ao próximo é o primeiro e maior de todos os mandamentos», que em Cristo teve a sua plena revelação e a sua completa atuação (cf. GS, 24).
O aperfeiçoamento da pessoa humana e o desenvolvimento da sociedade devem ser considerados estreitamente interdependentes entre si: opô-los ou separá-los significaria torna-los vãos. A história, até a mais recente, confirma esta verdade de maneira clara e, por isso, não devemos cansar-nos de reiterar com os Padres do Concílio Vaticano II que «a pessoa humana, uma vez que por sua natureza necessita absolutamente da vida social, é e deve ser o princípio, o sujeito e o fim de todas as instituições sociais» (GS, 25).
Nesta perspetiva, a Gaudium et spes afirma que a diversidade das pessoas e dos povos no mundo não deve ser considerada um perigo nem uma ameaça, mas potencial de enriquecimento e crescimento. A oposição, que às vezes degenera em violência, constitui um fruto do poder do pecado e do modo como ele condiciona as mentalidades e as ações a todos os níveis, causando destruição e morte. É necessário abrir-se cada vez mais à lógica da reciprocidade, da partilha e do cuidado, como acontece também entre os diferentes membros do corpo humano (cf. 1Cor 12, 21-25).
Neste ponto, a Constituição pastoral oferece inclusive uma definição sintética de “bem comum”, recordando que ele consiste no «conjunto das condições da vida social que permitem, tanto aos grupos como a cada membro, alcançar mais plena e facilmente a própria perfeição» (GS, 26). Ao mesmo tempo, reconhecendo a interdependência entre os povos, ela afirma que «cada grupo deve ter em conta as necessidades e legítimas aspirações dos outros grupos e mesmo o bem comum de toda a família humana» (ibid.).
Em seguida, a partir desta abordagem, os Padres conciliares indicam algumas «conclusões práticas e mais urgentes» (GS, 27). Em primeiro lugar, o respeito pela pessoa humana. A Gaudium et spes afirma: «Tudo quanto se opõe à vida, como toda a espécie de homicídio, genocídio, aborto, eutanásia e suicídio voluntário; tudo o que viola a integridade da pessoa humana, como as mutilações, os tormentos corporais e mentais e as tentativas para violentar as próprias consciências; tudo quanto ofende a dignidade da pessoa humana, como as condições de vida infra-humanas, as prisões arbitrárias, as deportações, a escravidão, a prostituição, o comércio de mulheres e jovens; e também as condições degradantes de trabalho, em que os operários são tratados como meros instrumentos de lucro e não como pessoas livres e responsáveis. Todas estas coisas e outras semelhantes são infamantes» (ibid.).
Segunda conclusão: o respeito e o amor até pelos adversários ou por aqueles que pensam ou agem diferentemente de nós (cf. GS, 28).
Em terceiro lugar: a igualdade fundamental de todos os homens, que exige justiça social. O Documento diz: «Deve superar-se e eliminar-se, como contrária à vontade de Deus, qualquer forma social ou cultural de discriminação, quanto aos direitos fundamentais da pessoa, por razão de sexo, raça, cor, condição social, língua ou religião» (GS, 29).
Para concluir, os Padres conciliares exortam a superar a mentalidade individualista e a assumir uma atitude de responsabilidade e participação (cf. GS, 30-31).
Caros irmãos e irmãs, esta visão da humanidade como “comunidade de pessoas” é um legado precioso que o Concílio Vaticano II nos deixou. Ela ajuda todos nós a realizar um discernimento pessoal e comunitário, para avaliar com responsabilidade os projetos sociais e políticos de hoje, com base nos critérios da dignidade da pessoa humana, da justiça social e da livre participação na construção do bem comum. Pois o futuro da humanidade depende do compromisso de cada um para colaborar com Deus e com os irmãos na construção de um mundo mais humano (cf. GS, 30).

