A propósito de uma reportagem da revista “Sábado” do dia 6 de Dezembro de 2007

Comunicado do Gabinete de Imprensa do Opus Dei em Portugal.

Comunicados de imprensa

A revista “Sábado” publicou hoje uma reportagem intitulada “Os estranhos códigos do Opus Dei".

A reportagem inclui depoimentos de pessoas que durante algum tempo estiveram ligadas ao Opus Dei. Algumas dessas pessoas recordam essa experiência com ressentimento e o seu testemunho é negativo.

Mesmo podendo não concordar com a leitura que fazem dos factos, queremos expressar um sincero respeito por essas pessoas e pela sua mágoa. Lamentamos muito se porventura esse sofrimento tenha indesejavelmente surgido no contexto da ajuda que se pretendia dar com a formação da prelatura. Teríamos gosto em conversar com essas pessoas e tentar resolver possíveis mal-entendidos.

O retrato do Opus Dei que a reportagem faz lembra, nalguns pontos, a caricatura que Dan Brown esboçou no livro “Código Da Vinci”. A capa da revista é, nesse sentido, sintomática.

A maior diferença do retrato em relação à realidade é dupla: por um lado, o caminho do Opus Dei é normalmente vivido de forma gratificante e livre; por outro lado, as “estranhezas” apontadas ao Opus Dei são, fora os exageros da caricatura, “estranhezas” que afinal vamos também encontrar na tradição do cristianismo.

No passado dia 28 de Novembro o Cardeal D. José Policarpo, numa Eucaristia celebrada no Oratório de S. Josemaria, em Lisboa, lembrou o essencial:

«Um sector importante da missão da Igreja que esteve sempre presente, desde o princípio, e que nos últimos textos do Magistério tem sido muito desenvolvido é a missão que os cristãos leigos realizam no meio do mundo, pelo próprio facto de serem cristãos no meio do mundo, portanto nas realidades terrestres. (...) Esta é uma das chaves da espiritualidade de São Josemaria - da santificação no meio onde se está. Isto é de um realismo cristão enorme, de um realismo evangélico...»

A ajuda que, para esse fim, a prelatura está chamada a dar como parte da Igreja Católica não pode dispensar a autonomia pessoal.

A maior parte das pessoas do Opus Dei vão a um centro do Opus Dei, quando muito, uma vez por semana. E mesmo os poucos que vivem em centros passam a maior parte da vida no trabalho com colegas, nas horas de ponta, em casa com a família, e junto dos amigos. Fazem poupanças, adoecem, sabem rir, às vezes choram, tentam e falham, tentam e acertam.

O paradigma do espaço fechado não é o paradigma do cristão leigo, não é também o paradigma da pessoa do Opus Dei. Por isso, cada situação diária de vida é um teste de autenticidade ao empenho de viver a proposta da Igreja com liberdade interior. Um teste a que nenhum leigo se quer subtrair.

Como noutras instituições da Igreja, há pessoas que, depois de terem desejado estar ligadas ao Opus Dei, optam com igual liberdade por se desligar, conservando habitualmente as relações de afecto, sem ressentimentos de parte a parte.

Tal como há pessoas que com a mesma intensidade de liberdade continuam a achar que o espírito cristão do Opus Dei é um ingrediente que entra na receita pessoal da alegria de viver, como cristão e como cidadão.

A seguir deixamos à disposição alguns elementos que permitem esclarecer mais extensamente algumas das questões levantadas pela reportagem.

Antes, uma nota final. Julgamos que para dar aos leitores uma ideia completa sobre o Opus Dei teriam sido necessárias perguntas nucleares: que proposta cristã faz?; que tem a dizer sobre os problemas do homem e da mulher de hoje?; ainda faz sentido pretender encontrar Deus na vida diária?. Desta maneira, uma reportagem evitaria encurralar-se em questões que, sem aquele contexto, dificilmente se poderão entender.

Em qualquer caso, o Gabinete de Informação tem de dar nota positiva à revista “Sábado” por lhe ter solicitado colaboração, que foi a possível para o prazo de três dias úteis que lhe foi dado.

Pedro Gil - [email protected] Gabinete de Imprensa do Opus Dei em Portugal

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Comportamento e rituais

A moral da Igreja diz respeito a todos os cristãos, e por isso também às pessoas do Opus Dei. Então, comportamentos “interditos” são os que têm a ver com essa moral comum, como por exemplo os que constam daqueles dos 10 mandamentos que têm uma formulação negativa.

Quanto ao mais, cada um age segundo as suas preferências e opções. Tudo isso tem a ver com a personalidade de cada um, que se constrói dentro dos condicionamentos em que toda a gente vive: as possibilidades económicas, a tradição de família, mudanças nos usos sociais e na moda...

A formação e a espiritualidade do Opus Dei traduzem-se, como é compreensível, em sessões de formação concretas e num caminho específico de vida de oração, que precisamente a pessoa opta por querer viver.

O Opus Dei propõe práticas já experimentadas na Igreja e que ajudam a ter uma relação viva com Deus. Isto implica, principalmente, cultivar a vida espiritual mediante a oração pessoal (até uma hora por dia), a leitura das escrituras e de outros livros sobre temas cristãos (até 15 minutos), a recitação do terço, a penitência sobretudo em pequenas coisas, e a recepção dos sacramentos (Eucaristia diária e, semanalmente, sacramento da reconciliação). A forma de o fazer depende muito das circunstâncias de vida, não havendo um horário tipo. E cada pessoa deve encontrar a forma muito pessoal de tirar proveito.

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Livros e leituras

Para as pessoas do Opus Dei, que têm variadas profissões, os livros são muito importantes. Muitas dessas pessoas têm uma profissão de tipo intelectual, e os livros são o objecto do trabalho quotidiano. Para todos o estudo é recomendado como hábito diário.

Além disso, a leitura é fonte de formação espiritual, de enriquecimento, de reflexão, de amadurecimento, com o recurso a livros de teologia e espiritualidade, sem esquecer que a literatura ajuda a conhecer o espírito humano.

O aconselhamento sobre as leituras é um tema abordado pelo Papa João Paulo II no seu livro “Levantai-vos! Vamos!”:

«Sempre tive este dilema: o que hei-de ler? Procurava escolher aquilo que era mais essencial. A produção editorial é tão vasta! Nem todos os livros têm o mesmo valor e utilidade. É preciso saber escolher e pedir conselho a respeito daquilo que merece ser lido.» (p. 85)

Poder contar com uma opinião sobre a leitura ajuda a encontrar o que é essencial. Muitas vezes foi o testemunho de outras pessoas que nos conduziu a obras que podem ter sido determinantes para nós.

No Opus Dei recomenda-se a procura pessoal de informação sobre as leituras, salvaguardada a liberdade de decisão, que é exclusiva de cada pessoa. Não se trata portanto de haver livros proibidos, ou de ser obrigatório pedir autorização, mas de uma prática que se situa num nível de vivência espiritual: apura o que merece ser lido, com o desejo de escolher livros em sintonia com a fé pessoal e com as livres opções de vida.

A fé não é só um caminho de vida, também é uma trajectória da inteligência que procura compreender. Por isso o cristão está atento a fazê-la crescer, numa harmonia entre vida e intelecto.

A explosão da edição de livros - inclusivamente sobre temas religiosos - atingiu um tal ponto que hoje é bem mais difícil escolher o que é melhor ler, e perceber o que é que está para além da nossa capacidade. Antigamente publicavam-se livros do género antologias bibliográficas que ajudavam a conhecer os livros do ponto de vista da fé, embora o resultado fosse por vezes demasiado esquemático e, por isso, um pouco arbitrário.

Há já muito tempo que os fiéis da Prelatura são encorajados a partilhar com outros o enriquecimento que tenham obtido com as leituras, e também os aspectos negativos que tenham encontrado.

Isso levou a que se reunisse uma base de dados, para a qual contribuíram milhares de pessoas, e que teve um carácter evolutivo: o volume de livros resenhados aumenta, e as apreciações foram sendo ajustadas com o tempo. Há obras que, mesmo sem tratar temas religiosos, estão marcadas por ideologias não cristãs; outras têm sintonia com o Evangelho, outras são opostas à moral cristã, outras são de grande ajuda para todo o tipo de leitores.

O resultado desse esforço foi uma colecção crescente de dados que é, para dizer de alguma maneira, de carácter bastante amador. Não se trata de uma lista oficial, nem é uma tentativa de contributo científico, e as valorações que contém são por definição aperfeiçoáveis. É uma orientação elementar, uma fonte de informação, para ajudar a ponderar. É mais um elemento a acrescentar aos elementos recolhidos noutras fontes que se podem consultar: publicações científicas, críticas literárias, a sugestão de um professor ou de um amigo. Aquelas valorações são feitas do ponto de vista da fé e é uma informação que é preciso cruzar e integrar com outras. A decisão cabe sempre a cada um, que deverá agir em consciência.

Esta base de dados poderá ser um dia colocada à disposição de um público mais amplo, num site por exemplo. Mas como é um material que se foi acumulando com o tempo e não está sistematizado, primeiro seria preciso garantir que a selecção de temas é equilibrada, que eventuais simplificações sejam corrigidas, que haja critérios de valoração homogéneos e transparentes. Também seria importante assegurar a manutenção constante do serviço, por uma equipa preparada, que se responsabilize pelo trabalho e atenda eventuais pedidos. Tudo isto exige pessoas, tempo e trabalho.

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Filmes, futebol e numerários

Os numerários normalmente não participam em espectáculos públicos (cinema, futebol...) se não existir um motivo particular que o aconselhe. É uma tradição que se vive desde o início do Opus Dei, como sinal de austeridade, de doação a Deus e, concretamente, de doação do próprio tempo. Os numerários que por profissão se dedicam ao espectáculo (autores, músicos, compositores, críticos, e outros) como é óbvio participam habitualmente nesses eventos.

Os supranumerários actuam dentro dos critérios que usam todos os cristãos.

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Mortificação corporal

A mortificação corporal pertence à vida cristã: o jejum e a abstinência são propostas que anualmente a Igreja volta a fazer. A história dos pequenos pastorinhos de Fátima mostra como a alegria pode estar ligada à renúncia. E que a penitência significa ter parte da paixão de Cristo e purificar-se dos próprios pecados. A mortificação melhora a pessoa na medida em que a une a Jesus que sofreu para que outros não sofressem.

Porém, a mortificação corporal não é de modo nenhum mais importante que o esforço diário por cumprir o dever e por ser amável.

E, sobretudo, a mortificação corporal, mesmo na forma do cilício e das disciplinas usada por pessoas como a Madre Teresa de Calcutá, não tem nem a crueldade nem, muito menos, o fim perverso do retrato que o Código Da Vinci popularizou. É materialmente impossível que o uso das disciplinas faça sangrar ou provoque algum mal à saúde; provoca apenas um ligeiro incómodo.

Em 2000 a Irmã Lúcia publicou um livro "Apelos da mensagem de Fátima". No ponto 9 "Apelo ao sacrifício" fica extensamente explicado o sentido da mortificação. Expõe o pedido feito por Nossa Senhora: "Oferecei constantemente ao Altíssimo orações e sacrifícios", e, querendo exemplificar formas concretas de viver o espírito de sacrifício, reúne-as em cinco categorias:

"1º Fazer bem a nossa oração";

"2º Oferecer a Deus em sacrifício algum pequeno gosto na alimentação, de modo a não prejudicar as forças físicas de que precisamos para trabalhar",

"3º O sacrifício que podemos e devemos fazer a Deus no vestuário: suportar um pouco de frio ou então de calor, sem nos queixarmos, (...)";

"4º Suportar com serenidade as contrariedades que surgem no nosso caminho";

"5º Há depois as penitências e sacrifícios externos: obrigatórios uns, voluntários outros". E, quanto a este ponto, diz o seguinte: "Sacrifícios obrigatórios são, por exemplo, as abstinências e os jejuns estabelecidos pela Igreja. Mas podemos e devemos não nos limitar a isso (...). Existem alguns instrumentos de penitência que têm sido usados por muitos Santos, como são as disciplinas, os cilícios, etc. Praticam-se estas penitências unindo-nos a Cristo. Se Cristo assim sofreu por nós, é mais que justo que façamos alguma coisa por Ele e pela sua obra redentora."

A mortificação cristã é sempre voluntária.

S. Josemaria propôs às numerárias que dormissem habitualmente sobre tábuas de madeira colocadas em cima da cama, desde que não houvesse razões que o desaconselhassem. Porque razão S. Josemaria propõe mortificações diferentes para os homens e para as mulheres, apesar de se tratar de uma pequena excepção num contexto comum? Talvez tenha a ver com aquele pensamento que escreveu no “Caminho” : «Mais forte a mulher do que o homem, e mais fiel na hora da dor. - Maria de Magdala, e Maria Cleofas, e Salomé! Com um grupo de mulheres valentes, como essas, bem unidas à Virgem Dolorosa, que apostolado se não faria no mundo!». Talvez o fundador tenha estabelecido estas pequenas mortificações por ter particular necessidade de uma ajuda robusta e generosa das suas filhas espirituais.

Porém, as pequenas renúncias de cada dia são o campo normal do espírito de mortificação. Escreveu S. Josemaria no Sulco (n. 992) «"Prefiro as virtudes às austeridades", diz, com outras palavras, Iavé ao povo escolhido, que se engana com certas formalidades externas. Por isso, temos de cultivar a penitência e a mortificação como provas de verdadeiro amor a Deus e ao próximo.»

O mesmo sentido se encontra nesta passagem da Encíclica Spe Salvi de Bento XVI (30-XI-2007)

Gostaria de acrescentar ainda uma pequena observação, não sem importância para os acontecimentos de todos os dias. Fazia parte duma forma de devoção – talvez menos praticada hoje, mas bastante difundida ainda há não muito tempo – a ideia de poder «oferecer» as pequenas canseiras da vida quotidiana, que nos ferem com frequência como alfinetadas mais ou menos incómodas, dando-lhes assim um sentido. (…) O que significa «oferecer»? Estas pessoas estavam convencidas de poderem inserir no grande com-padecer de Cristo as suas pequenas canseiras, que entravam assim, de algum modo, a fazer parte do tesouro de compaixão de que o género humano necessita. .............................................................................

Correcção fraterna

Quando um acto de outra pessoa nos desagrada, pode haver várias reacções: esquecer, censurar por indirectas ou por ironia, desqualificar a pessoa junto de terceiros,... e também é possível falar com o interessado a sós manifestando o porquê do nosso desagrado. Esta última hipótese é mais difícil, mas talvez seja a melhor para o interessado, diminuindo o "ruído" do maldizer. Jesus Cristo recomendou dar essa ajuda, a que a Igreja desde cedo chamou "correcção fraterna": «Se teu irmão pecar contra ti, vai e corrige-o entre ti e ele só» (Mt 18). É um procedimento, pois, que é um bem comum da Igreja, não é um exclusivo do Opus Dei. Porém pode chocar porque talvez não encaixe bem na lógica de relacionamento com os outros que é mais corrente.

Acho que todos lembramos com reconhecimento, se tivermos tido essa sorte, aquelas pessoas que tiveram a frontalidade de nos dizer na cara o que em nós acharam equivocado. Um reparo acertado, no momento certo, do modo certo, e depois bem assimilado - mesmo que não imediatamente - é uma ajuda grande. O problema nasce quando não há acerto nalgum desses passos.

No Opus Dei os fiéis são encorajados a fazer a correcção fraterna quando, normalmente, se trate de hábitos, não de actos isolados, que pareçam não ser próprios de um cristão. Obviamente, não é possível ajuizar as intenções.

Por exemplo, fazer comentários racistas, ser egoísta, poluir o espaço público, ter uma condução perigosa, faltar à sobriedade, seriam possíveis advertências a fazer.

Para evitar ao máximo ferir a pessoa com advertências excessivas ou que se revelem sem razão de ser, sugere-se que se peça opinião ao director. Não se faz isto por delação.

A correcção fraterna é não mais que uma sugestão, que cada um pondera e assimila conforme lhe pareça adequado.

............................................................................. Mulher

O Opus Dei, tal como a Igreja, ensina que as mulheres e os homens têm igual dignidade e valor, e a sua acção é concordante com esse princípio. As mulheres que pertencem ao Opus Dei podem ser encontradas em todo o tipo de profissões, naquelas que a sociedade vê como prestigiantes e naquelas que a sociedade tende a subestimar, como o trabalho doméstico. O Opus Dei ensina que todo o trabalho honesto realizado com amor a Deus é de igual valor.

O Opus Dei não foi fabricado num laboratório, ou desenhado num quadro depois de uma discussão entre peritos. É um fenómeno histórico, nascido num dia concreto, num lugar determinado, que cresceu com certas características e não outras, dentro das muitas possíveis.

De facto, as numerárias auxiliares sempre foram apenas mulheres, e este dado pertencente ao quadro fundacional, e ultrapassa o lugar e o tempo em que a Obra nasceu. É assim em muitos países, com tradições diferentes, mesmo naqueles em que são os homens ficam encarregados das tarefas domésticas: também aí são mulheres a descobrir a sua vocação como numerárias auxiliares. Aliás, a verdade é que nos primeiros anos o fundador encarregou o cuidado das primeiras casas a alguns homens, que faziam os trabalhos domésticos. Não se pode, portanto, dizer que não tenha considerado essa possibilidade.

Sem dúvida, o trabalho das numerárias auxiliares - garantir que os centros do Opus Dei, de mulheres e de homens, são verdadeiramente casas de família e que nelas se respire um ambiente de família - requer uma grande dose de sensibilidade. As mulheres muitas vezes descobrem mais facilmente as necessidades dos outros, sabem meter-se na posição dos outros, conseguem intuir aquilo que o outro procura mesmo antes de que lho peça. Tudo isto ajuda, sem dúvida, a construir uma família.

Mas não é a razão principal: obviamente, também há muitos homens com sensibilidade que são capazes de cuidar de uma casa, até melhor que algumas mulheres. A razão, portanto, não está em que o Opus Dei tenha um modo próprio de ver o papel social dos homens e das mulheres. É mais simples e realista: neste aspecto concreto, a Providência quis esta característica concreta, confirmada pela experiência vivida.

Também é de justiça dizer que os homens também têm tarefas domésticas e contribuem para que haja um ambiente de família, mesmo se não o fazem com uma dedicação profissional exclusiva, como o fazem as numerárias auxiliares, que têm uma preparação específica. Tratam dos doentes, fazem reparações e manutenção, atendem à porta e aos telefones, estão atentos às coisas da casa. Alguns despendem muito tempo nestas tarefas, quando as necessidades das pessoas ou do centro o exigem.

Exames de consciência

O exame de consciência é um exercício típico no catolicismo que cultiva a sensibilidade para descobrir a acção de Deus em cada um e abrir-se a uma cada vez maior correspondência ao amor que Deus tem por cada um.

Há muitas maneiras de exercitar-se em examinar a consciência. Uma é o exame de consciência pessoal como prática diária que é tradicional na Igreja e que os fiéis do Opus Dei costumam fazer diariamente, quase sempre ao terminar o dia. Esse breve momento, de poucos minutos, em que se procura agradecer a Deus o dia que se viveu com os seus pontos altos e baixos, não tem qualquer formalidade - cada um faz como gostar.

Nas sessões colectivas de formação a que usualmente se chama círculos, há um momento que consiste numa série de perguntas que são lidas para que cada um reflicta interiormente. O sentido dos exames de consciência incluídos nos círculos é recordar várias concretizações do projecto de vida de quem se dedica a Deus no meio do mundo

No círculo dos supranumerários há perguntas específicas que ajudam a rever o empenho por cuidar da família, alentam o espírito evangelizador também pela oração e pela acção para obter de Deus mais vocações sobretudo de numerários, recordam que a formação católica, precisamente no meio da vida moderna tão intensa e cheia de solicitações, é uma ajuda que compensa ir buscar.

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Aproximação e informação

O Opus Dei existe para difundir a mensagem evangélica da chamada universal à santidade. E difunde a mensagem de dois modos: de forma geral, propondo este ideal a todas as pessoas interessadas; e de modo específico, promovendo vocações para o Opus Dei, como fazem as restantes instituições da Igreja, convidando alguns homens e mulheres a dedicar-se livremente a esta missão, no caso de sentirem o apelo de Deus.

Este segundo aspecto não se percebe sem o primeiro. Isto é, a procura de novos membros não é um fim em si mesmo, tem em vista o apostolado cristão, a plena participação na missão evangelizadora da Igreja.

Todos os católicos são chamados a corresponder à proposta de Jesus Cristo de “se tornarem pescadores de homens”, de fazer, como Cristo, apóstolos entre os que estão à sua volta. E no entanto não diríamos que Jesus “recrutou” os apóstolos, diríamos até que os apóstolos, fascinados pelo Mestre, contagiavam quem estava à sua volta. A certa altura Jesus organizou os discípulos e mandou-os dois a dois para anunciarem o Reino de Deus a vários lugares. O apostolado nasceu assim dentro da Igreja, e faz-se assim desde sempre, e continuará assim.

O Opus Dei procura pôr em prática esta mandado explícito de fazer apostolado, com o objectivo de dar a conhecer Jesus ao maior número possível de jovens.

Trata-se de pôr em movimento aquilo que Bento XVI escreveu para a próxima Jornada Mundial da Juventude (2008)

Dilectos jovens, como reiteraram várias vezes os meus venerados Predecessores Paulo VI e João Paulo II, anunciar o Evangelho e dar testemunho da fé é hoje mais necessário do que nunca. Alguns pensam que apresentar o tesouro precioso da fé às pessoas que não a compartilham significa ser intolerante para com elas, mas não é assim, porque propor Cristo não significa impô-lo. De resto, há dois mil anos doze Apóstolos deram a vida para que Cristo fosse conhecido e amado. A partir de então, o Evangelho continua a difundir-se ao longo dos séculos, graças a homens e mulheres animados pelo seu próprio zelo missionário. Portanto, também hoje são necessários discípulos de Cristo que não poupem tempo nem energias para servir o Evangelho. São precisos jovens que deixem arder dentro de si o amor a Deus e respondam generosamente ao seu apelo urgente, como fizeram muitos jovens Beatos e Santos do passado e inclusive de épocas mais próximas a nós. Em particular, asseguro-vos que o Espírito de Jesus hoje vos convida, jovens, a serdes portadores da Boa Nova de Jesus aos vossos coetâneos. Abre-se o vasto mundo dos afectos, do trabalho, da formação, da expectativa, do sofrimento juvenil... Cada um de vós tenha a coragem de prometer ao Espírito Santo que conduzirá um jovem para Jesus Cristo, do modo como melhor considerar, sabendo "responder com doçura a todo aquele que vos perguntar a razão da vossa esperança" (cf. 1 Pd 3, 15). Mas para alcançar esta finalidade, queridos amigos, sede santos, sede missionários, porque nunca se pode separar a santidade da missão.

Normalmente, a aproximação de uma pessoa ao Opus Dei acontece no meio familiar ou na relação de amizade com colegas, vizinhos, pessoas da mesma idade. Tendo em conta que se alenta os cristãos a ter vivo o compromisso evangelizador é natural que se deseje partilhar o que se sabe e aprecia de Cristo, da Igreja e do Opus Dei.

Estas situações espontâneas da vida não têm nem um tempo nem um lugar específico, não têm regras.

Aliás, o fundador da Obra escreveu muito sobre este abrir aos outros a experiência de Cristo lhes poder dizer: “Vem e segue-me!” (a que dava o nome de “proselitismo”: fazer “prosélitos”, seguidores, numa época em que essa palavra não incluía o significado que hoje começa a ter de imposição coactiva). Nos livros “Cristo que Passa” e “Amigos de Deus” há abundantes referências, e homilias inteiras, dedicadas à atitude de proposta clara e respeito incondicional que a acção apostólica deve respirar. «Vejam como Cristo insinua sempre: se queres ser perfeito..., se alguém quer vir atrás de mim... Esse compelle intrarenão implica violência física nem moral; é reflexo do ímpeto do exemplo cristão, que mostra no seu proceder a força de Deus. Vede como o Pai atrai: deleita ensinando; não impondo a necessidade. Assim atrai a Si . (Amigos de Deus, 37)

Nos livros de breves pensamentos “Caminho”. “Sulco” e “Forja” encontram-se muitos pontos sobre “proselitismo” e “apostolado”. São ideias inspiradoras para amadurecer no coração, não são técnicas. Mais, a verdadeira escola do apostolado é a oração.

No momento em que a pessoa deseje participar em recolecções, retiros, círculos semanais ou mensais, acompanhamento espiritual pessoal, será sempre informado de que são acções do Opus Dei.

Todos os passos do crescimento e da aproximação devem ser livres e esclarecidos. E a Igreja recomenda aos educadores acompanhar de perto os jovens, com prudência e com fé em Deus, especialmente no momento em que se questionam sobre qual a sua vocação.

E na ponderação da vocação ao Opus Dei é importante conhecer tudo, até se completar o período de formação inicial que culmina com a oblação.

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Os pais

“Honrar pai e mãe” é um dos mandamentos, o quarto, comum a todos os cristãos. Deve ser muito grato, e não um peso, venerar os pais, respeitá-los, ser afectuoso com eles, tomar conta deles quando precisam, retribuir-lhes no tempo da velhice aquilo que nos deram nos melhores anos da sua vida. Além disso, o fundador do Opus Dei achava que os membros deviam noventa por cento da vocação ao Opus Dei aos seus pais, o que é um motivo acrescido.

Como acontece com quem casa e forma uma família, é certo que para os numerários a resposta à vocação requer uma disponibilidade plena para se dedicar às actividades apostólicas que existem em todo o mundo, e isto, a somar ao trabalho, implica que seja mais estreito o tempo disponível para a família natural.

É, por isso, necessário encontrar um equilíbrio que, não sendo sempre fácil, ajuda a amadurecer a personalidade. Um equilíbrio que também vive da consciência, por parte dos pais, de terem recebido um chamamento particular de Deus, que pede a sua generosidade e uma relativa renúncia. Esta atitude exemplar de muitos pais cristãos esteve sempre presente na tradição da Igreja e acaba por enchê-los de alegria.

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Formação dos mais novos

Não se pode fazer parte da Prelatura do Opus Dei se não se tiverem completado os 18 anos, e somente aos 23 anos essa pertença se torna definitiva.

Antes dos 18 anos, os jovens podem desejar receber os vários meios de formação cristã do Opus Dei. Durante este período recebem uma formação que incentiva a experiência de uma vida sacramental intensa, o crescimento nos hábitos próprios das virtudes humanas e cristãs (laboriosidade, sobriedade, desprendimento dos bens materiais, sinceridade, castidade, alegria), e o exercitar-se na liberdade pessoal. Toda essa formação pretende ajudar a viver as etapas da vida com maturidade, no contexto da vida familiar, com uma relação de plena confiança e de sinceridade. Assim se procura que se ponderem em família este tipo de temas, e se crie o hábito de partilhar as ambições, as inquietações espirituais, e os horizontes da vida cristã.

Quando algum adolescente, a partir dos 14 anos e meio, manifesta um desejo fundado de vir a ser do Opus Dei é convidado a esperar. Os jovens que estão nessa situação, informalmente chamados “aspirantes”, meramente podem “aspirar”, e esperar, pela altura própria. Informam os seus pais desse desejo, e a opinião dos pais é essencial neste período de discernimento vocacional.

Por tudo isto, os responsáveis dos centros frequentados por jovens actuam sempre em consonância com os pais, que assim se envolvem na formação dos jovens, obviamente com respeito pela sua liberdade e intimidade. Em suma, pode dizer-se que para que cada um possa ouvir o chamamento que Deus lhe faz é essencial que a escuta se dê num clima de serena compreensão recíproca.