O Padre no Uruguai: “A santidade consiste na plenitude do amor, não em não ter defeitos”

De 22 a 27 de agosto de 2026, Mons. Fernando Ocáriz esteve no Uruguai, a poucos meses do 70º aniversário da chegada dos primeiros membros do Opus Dei ao país. Encontrou-se com famílias, jovens e pessoas de diversas iniciativas educacionais e sociais. A crônica, as fotos e os vídeos apresentam alguns momentos desses dias.

De sábado, 22, a quinta-feira, 27 de agosto, o Padre realizou sua primeira visita pastoral ao Uruguai desde que foi eleito prelado do Opus Dei, após sua passagem pela Guatemala, Honduras e El Salvador.

A viagem coincidiu com a preparação do 70º aniversário da chegada dos primeiros membros do Opus Dei ao Uruguai, que será comemorado em outubro, como parte do caminho ao centenário da Obra.


Quinta-feira, 27. Último dia do Padre no Uruguai

Em seu último dia no Uruguai, Mons. Fernando Ocáriz teve uma reunião com os grupos promotores de diversas iniciativas apostólicas, que lhe contaram histórias, projetos e desafios de seu trabalho. O Padre os ouviu com atenção e compartilhou alguns conselhos. Antes de iniciar a viagem de volta, também recebeu várias famílias.

Assim terminaram alguns dias marcados por muitos encontros, desde Casavalle até a Universidade de Montevidéu, passando pelas tertúlias com jovens e famílias.

Por volta das 21h30, o avião do Padre decolou de Montevidéu com destino a Roma. No aeroporto, algumas famílias se aproximaram para se despedir e acompanhá-lo nos últimos momentos de sua visita ao país. Entre abraços e despedidas, terminou uma viagem muito aguardada, e muitas das palavras compartilhadas durante esses dias continuaram ressoando.

Até logo, Padre.

Quarta-feira, 26. Aula na Universidade de Montevidéu e encontro com jovens

Em sua visita à universidade, o Padre se reuniu com dirigentes, professores, alunos e membros da comunidade educacional e ministrou uma aula sobre a identidade cristã na vida universitária.

Antes da aula, o reitor da Universidade de Montevidéu, Alejandro Cid, deu as boas-vindas ao Prelado. Recordou o apoio espiritual e a orientação cristã que o Opus Dei oferece à Universidade desde o seu início e destacou a atualidade da mensagem de São Josemaria de buscar a Deus no trabalho e nas atividades cotidianas a serviço de todas as pessoas.

O Padre começou pelo centro da identidade cristã: Jesus Cristo. “O que confere a identidade cristã é a presença de Jesus Cristo”, afirmou. Ele distinguiu duas dimensões que precisam estar sempre unidas: a identidade cristã da instituição e a das pessoas. Uma universidade pode ter normas, princípios e estruturas que expressem sua inspiração cristã, explicou, mas isso não basta se essa identidade não tiver vida nas pessoas.

Abordou diversos aspectos da vida universitária: desde a harmonia entre fé e razão, o respeito à liberdade, até a dimensão evangelizadora da universidade por meio da ciência, das letras e de tudo o que constitui a vida universitária.

Também se referiu à tarefa dos professores, chamados não apenas a transmitir conhecimentos, mas a se doar aos alunos e aos colegas com quem trabalham: “O cristianismo é também doação”. A partir daí, apresentou a autoridade como serviço e o trabalho colegiado como “uma grande garantia de eficácia, porque sempre vários olhos veem mais do que um”.

Lembrou que uma universidade depende de todos, “desde o reitor até o aluno mais novo”, e que “o espírito cristão se transmite na ciência, nas letras, mas sobretudo no contato pessoal”. Sobre esse contato, ele se deteve na justiça e na caridade, e recordou algumas palavras de São Josemaria: “a caridade, mais do que em dar, está em compreender”. “O desejo de compreender — acrescentou — é o primeiro passo para amar”.

Mons. Ocáriz cumprimenta o núncio apostólico, Mons. Gianfranco Gallone, na Universidade de Montevidéu.
Mons. Ocáriz cumprimenta o núncio apostólico, Mons. Gianfranco Gallone, na Universidade de Montevidéu

Ao final, houve um momento de diálogo com os presentes. Sofía, da Faculdade de Comunicação, perguntou como levar para a profissão, a família e a sociedade o que se aprende durante os anos na Universidade. O Padre destacou a abertura como uma atitude necessária para ouvir opiniões e pontos de vista diferentes e levar essa convivência entre unidade e pluralidade para fora da Universidade.

Mónica, da Faculdade de Psicologia, compartilhou a história de um aluno que começou a questionar-se sobre a fé ao descobrir que seus colegas cristãos eram os mais alegres e dispostos a ajudar. Ela quis saber como fazer para que a identidade da universidade possa ser vivida por todos com liberdade. O Padre destacou que o caminho para transmitir a fé é a amizade: “A amizade autêntica é exigente, porque é uma forma de amor”, explicou.

Claudio, um dos primeiros promotores da Universidade, contou a alegria de ver a instituição hoje nas mãos de uma nova geração. Por meio da Fundação Amigos da Universidade, ele trabalha para conseguir bolsas de estudo para jovens sem os recursos necessários. “Todas as pessoas são importantes, e tudo o que permite abrir oportunidades para os outros é profundamente cristão”, lembrou o Padre.

María José, responsável pela área de Operações e Logística, perguntou sobre o valor do trabalho daqueles que sustentam a universidade por meio de tarefas não acadêmicas.

O Padre lembrou que esses trabalhos permitem que todo o resto funcione e que o valor de uma tarefa não depende do lugar que ela ocupa. Relembrando um ensinamento de São Josemaria, afirmou que o trabalho mais importante é aquele que se faz com mais amor a Deus.

Martín, médico e cirurgião, compartilhou o sonho de impulsionar uma Faculdade de Medicina centrada na pessoa e perguntou como enfrentar iniciativas que podem parecer grandes demais. “É preciso se lançar muitas vezes à aventura”, respondeu o Padre. Ele encorajou a combinar realismo e audácia, contando com a ajuda de Deus para enfrentar as dificuldades do caminho.

Também houve uma pergunta sobre o trabalho que os estudantes da universidade realizam com pessoas privadas de liberdade. O Padre enfatizou a importância de fazer com que elas se sintam compreendidas e amadas. “O que mais dói, às vezes, é a solidão, não a solidão física, mas a solidão da alma”, explicou.

No final, as perguntas abordaram o trabalho, os projetos profissionais e a história do Opus Dei no Uruguai.

A Universidade de Montevidéu quis deixar algumas lembranças de sua visita. O Padre recebeu um caderno com o blasão da UM e uma edição do Dom Quixote preparada pela universidade, que guarda uma das mais importantes coleções cervantinas da América Hispânica. A edição comemora a primeira publicação completa da obra na América do Sul, realizada em Montevidéu em 1880.

O encontro terminou com o agradecimento da comunidade universitária pelos ensinamentos, pelas sugestões e pelos horizontes que o Padre havia aberto durante a manhã. “A Universidade de Montevidéu é a sua casa”, disseram-lhe antes de se despedirem.

Quarta-feira, 26. Encontro com jovens: o Senhor conta comigo para ajudar os outros

À tarde, o Padre se reuniu com jovens universitárias e profissionais vindas de diferentes partes do Uruguai, juntamente com algumas jovens da Argentina, do Paraguai e do Brasil. No palco, uma frase de São Josemaria, “Seus braços para o Uruguai”, relembrava algumas palavras que ele havia dirigido a um jovem uruguaio em 1974, um convite para colocar também hoje os braços e o coração a serviço do país.

Ao iniciar o encontro, o Padre as convidou a colocar Jesus Cristo no centro da formação e da própria vida. Explicou que ser cristão não consiste apenas em aprender algumas ideias ou cumprir determinadas práticas, mas em buscar e amar alguém: “Conhecer Jesus Cristo, conviver com Jesus Cristo, amar Jesus Cristo”.

Também falou sobre não desanimar diante das próprias limitações e estar dispostas a começar e recomeçar. “A santidade consiste na plenitude do amor, não em não ter defeitos”, lembrou, pois mesmo com as próprias limitações sempre é possível recomeçar com mais amor de Deus.

Pierina, equinoterapeuta, animadora infantil e enfermeira, contou que sua vida é acompanhada por uma imagem que São Josemaria costumava usar: a dos patos que se lançam na água mesmo sem saber nadar. Esses “patos na água” a ajudam a sair de sua zona de conforto e, por isso, perguntou ao Padre como falar de Deus com amigos e familiares. O Padre enfatizou a amizade: quando é autêntica, explicou, falar sobre o que está dentro de nós surge de maneira natural. E lembrou que a oração é o primeiro passo para, depois, ajudar.

Abril, que mora na Residência Del Mar, chegou este ano vinda de Treinta y Tres — uma cidade a 249 km a nordeste da capital — para estudar Contabilidade Pública. Ela nunca tinha entrado em uma igreja, não era batizada e seus pais não têm fé. Ao chegar, começou a encontrar jovens que viviam sua fé com naturalidade e decidiu participar das meditações. “Tenho certeza de que uma das melhores decisões que tomei na vida foi vir para a Residência Del Mar”, afirmou.

Abril pediu ao Padre que rezasse para que sua fé continuasse crescendo. Ele lembrou então um pedido que os apóstolos faziam a Jesus: “Senhor, aumenta a nossa fé”. A fé, explicou, é um grande dom de Deus, mas também precisa ser pedida e acolhida.

As jovens da Del Mar lhe deram de presente um estojo para os óculos com uma frase de São Josemaria: “Senhor, que eu veja”
As jovens da Del Mar lhe deram de presente um estojo para os óculos com uma frase de São Josemaria: “Senhor, que eu veja”

Pilar tem 20 anos e contou que, no ano passado, perdeu duas pessoas da família. A dor a fez duvidar e ela tinha dificuldade em entender como um Deus que a amava poderia permitir algo que a fizesse sofrer tanto. Perguntou ao Padre como se entregar nas mãos de Deus. O Padre a convidou a olhar para Jesus Cristo na cruz e reconheceu que há momentos em que os planos de Deus são difíceis de compreender. “O que podemos fazer é amar, mesmo que não entendamos”, afirmou. E acrescentou: “O amor de Deus não nos abandona, mesmo que muitas vezes não o entendamos”.

Em seguida, veio um momento bem típico da região do Rio da Prata. Dois jovens cantaram para ela uma “payada” — uma canção improvisada em versos acompanhada de violão — que percorreu, com humor, algumas das tradições e rivalidades dos países da nova Região do Rio da Prata: o mate, o futebol e até mesmo as discussões com os vizinhos. Antes de começarem, duas alunas de Los Pilares lhe deram de presente um poncho. A payada terminou celebrando uma região que, além de suas diferenças, compartilha um mesmo coração.

Julieta, de 18 anos, contou que passou por um momento muito difícil na adolescência e que, anos mais tarde, voltou a sentir claramente a presença de Deus no PREU — um instituto pré-universitário de Montevidéu — onde se sentiu acompanhada e amada. Mais tarde, ela começou a participar das atividades de um centro do Opus Dei. Hoje, ela se pergunta se Deus a chama para essa vocação e quis saber como discernir uma decisão que pode marcar toda a vida.

O Padre explicou que Deus geralmente não mostra o caminho com uma clareza que elimine toda dúvida, pois respeita profundamente a liberdade. Ele recomendou rezar, pedir conselho e também considerar uma decisão generosa e pessoal. Deus deixa “uma certa incerteza”, explicou, para que cada um possa ter “um gesto de generosidade ao nos lançarmos nessa aventura”.

Maite, estudante de Comunicação e apaixonada por aquarela, falou sobre as redes sociais. No Instagram, ela compartilha suas pinturas e também procura mostrar com naturalidade sua relação com Deus. O Padre a encorajou a aproveitar esse espaço para transmitir a vida cristã e promover laços autênticos e lembrou que, embora haja amizade nas redes sociais, ela não é igual àquela que cultivamos nas relações do dia a dia.

Lula, que havia projetado o palco, contou que conheceu o Opus Dei por meio de uma amiga e que é supernumerária há pouco mais de um ano. Em sua família, a fé não teve um lugar importante e algumas de suas decisões foram questionadas. Ela perguntou como compartilhar com seus pais a alegria de sua vocação. O Padre propôs um caminho muito concreto: “Amar mais e melhor seus pais”, pois um relacionamento mais profundo com Jesus Cristo deve levar também a amar mais a própria família.

Mercedes, jogadora de hóquei do Los Ceibos, perguntou como fazer do esporte um espaço que não se reduza a competir e buscar resultados, mas que ajude também a crescer e a aproximar outras pessoas de Deus. O Padre voltou a falar da amizade como caminho para compartilhar a fé e pediu que não se sentissem intimidadas quando se encontrassem em ambientes onde Deus parece estar distante, e as encorajou a dizer: “Senhor, conte mais comigo para ajudar essas pessoas”.

Com a aproximação do centenário do Opus Dei, Mélani quis saber o que os jovens podem aprender com aqueles que viveram os primeiros anos da Obra no Uruguai. O Padre encorajou todas a serem fiéis e a perseverarem no caminho da santidade, sem encarar o passado como “uma espécie de época de ouro”, pois aqueles que as precederam fizeram o Opus Dei crescer com uma vida normal, “com o trabalho cotidiano e com o começar e recomeçar a cada dia”.

Antes da bênção do Padre, um grupo de jovens cantou “Oração do remanso”.

Terça-feira, dia 25. Encontro com famílias

No palco, um grande mural inspirado na obra do artista Joaquín Torres García reunia cenas que representam cada departamento do país: uma roda de mate, o trabalho no campo e no escritório, o lar, o esporte, a educação e a saúde. Uma composição que buscava também representar a mensagem de São Josemaria de encontrar Deus em meio às atividades do dia a dia.

Às 16h30, a espera chegou ao fim. O Padre foi recebido em meio a muita emoção. Marianne e Juan Pablo, responsáveis por conduzir o encontro, deram-lhe as boas-vindas: “Que alegria tê-lo em nosso país!”.

Ao iniciar o encontro, o Padre lembrou que, em poucos meses, o Papa Leão XIV estará no Uruguai e os incentivou a preparar desde já essa visita, rezando especialmente por ele, por seu trabalho e por suas intenções, com “uma grande fé na oração”. Às vezes pedimos algo a Deus e o que esperamos não acontece. Mas isso, explicou, não significa que Deus tenha se esquecido de nós ou que não nos tenha ouvido. “A oração nunca é inútil. Deus sempre nos ouve”.

O Padre falou também das dificuldades e do sofrimento, que de uma forma ou de outra surgem na vida, e convidou a olhar para Cristo na cruz e a confiar no amor de Deus, mesmo quando não conseguimos compreender o que acontece. “Se há amor, podemos ser felizes apesar do sofrimento, porque é o amor que dá sentido à vida”. Essa confiança em Deus, explicou, “abre nossa alma para nos preocuparmos com os outros”.

Os primeiros a se aproximarem foram Emilia, de seis anos, acompanhada por seus pais, Renato e Paula, que entregaram um buquê de flores para Nossa Senhora. Renato contou que, durante muitos anos, havia vivido afastado de Deus e que foi justamente sua filha quem começou a aproximá-lo novamente da fé: “ela foi minha ponte para Deus”, explicou. A partir dessa experiência, ele perguntou ao Padre como recuperar, já adulto, essa simplicidade infantil no relacionamento com Deus.

O Padre comentou algumas palavras de São Josemaria: “Rezar como rezam as crianças. Acreditar como acreditam as crianças. Esperar como esperam as crianças”. Explicou que essa infância espiritual deve estar unida a uma grande maturidade e sinceridade diante de Deus: apresentarmo-nos diante Dele tal como somos, com a simplicidade das crianças, e viver assim a oração, com total abertura.

Evangelina falou sobreFamília sem Barreiras, uma iniciativa que ela promove junto com o marido e outros casais para acompanhar famílias que vivem em contextos de vulnerabilidade. Ela perguntou ao Padre como falar de Deus àqueles que, devido às situações pelas quais passaram, se sentem abandonados por Ele, perderam a esperança ou nem mesmo encontram carinho dentro de sua própria família.

O Padre aconselhou pedir a Deus as palavras adequadas para cada pessoa: “Senhor, fala através de mim”. Em seguida, convidou a conhecer a situação da pessoa que está na nossa frente e, acima de tudo, a amá-la: “O mais importante é transmitir carinho, transmitir afeto. Trata-se de amar”. Cada pessoa, lembrou, “vale todo o sangue de Cristo”.

Várias famílias formaram o coro que acompanhou o encontro com canções para o Padre
Várias famílias formaram o coro que acompanhou o encontro com canções para o Padre

Houve também um momento para recordar os primeiros passos do Opus Dei no Uruguai. Por ocasião dos 70 anos da chegada dos primeiros membros da Obra ao país, que será comemorada em meados de outubro, ex-residentes de Iará — a primeira residência estudantil — prepararam um vídeo com lembranças, histórias e testemunhos desses primeiros anos.

Após as imagens, Luis conduziu a conversa dos 70 anos de história para o futuro e o caminho rumo ao Centenário do Opus Dei. Ao final, os netos de Luis se aproximaram para entregar ao Padre, em nome de todos os uruguaios, uma antiga bússola com relógio de sol, utilizada por navegantes para se orientarem em alto mar. O presente fazia referência a uma imagem que São Josemaria usava para falar do Opus Dei como uma “pequena barca”. “Queremos agradecer-lhe por continuar conduzindo esta embarcação por um rumo tão bom e com os olhos voltados para o Sol”, explicaram ao entregá-la.

O Padre recebe uma bússola antiga com relógio de sol, usada por navegantes para se orientarem em alto mar.
O Padre recebe uma bússola antiga com relógio de sol, usada por navegantes para se orientarem em alto mar.

Rosina, de Paysandú, contou que, em 2007, junto com outras famílias, fundou uma escola com o desejo de oferecer uma formação humana e cristã. Diante da próxima visita do Papa Leão XIV, ela perguntou ao Padre como aproveitar esse evento para renovar a fé e ajudar os pais a assumirem seu papel na formação cristã de seus filhos.

O Padre os encorajou a ouvir o Papa, considerando suas palavras como dirigidas pessoalmente a cada um. E lembrou que, mesmo diante das notícias de guerras e sofrimento em lugares distantes, podemos fazer nossos esses acontecimentos, rezando por aqueles que sofrem com eles. Sobre a educação dos filhos, lembrou que “o que forma as pessoas é a família”. Por isso, incentivou os pais a assumirem a responsabilidade de transmitir a fé e a ajudarem outras famílias a fazer o mesmo, principalmente por meio do contato pessoal e da amizade.

Juan Andrés e Ileana vieram com os filhos de Rocha, uma cidade no nordeste do país, a cerca de 200 km da capital. Ele trabalha no campo, longe da cidade, e contou que as distâncias e os horários muitas vezes dificultam sua participação na Missa e em outras atividades que o ajudam a crescer em sua vida cristã. Ele perguntou ao Padre como se manter próximo a Deus nessas circunstâncias. O Padre aconselhou-o a fazer tudo o que puder para participar da Eucaristia e continuar se formando, mas sempre com paz; e, quando as circunstâncias o impedirem, encorajou-o a pensar que não está sozinho: “Deus está com você” também no trabalho e em tudo o que você faz.

Juan Andrés e Ileana: como permanecer perto de Deus em circunstâncias difíceis?
Juan Andrés e Ileana: como permanecer perto de Deus em circunstâncias difíceis?

As últimas perguntas abordaram outros aspectos da vida cotidiana: a beleza como caminho para Deus, a amizade e o desafio de encontrar um equilíbrio entre o trabalho, a família e outros compromissos e atividades. O Padre encorajou todos a viver com alegria: “Deus quer que estejamos contentes” e a buscar uma beleza unida ao bem. Também lembrou que “a verdadeira amizade é uma forma de amor”. E, ao falar sobre como organizar o tempo entre tantas ocupações, disse que a família deve estar em primeiro lugar.

Antes de se despedir, o Padre voltou a lembrar a próxima visita do Papa Leão XIV ao Uruguai e renovou o pedido com o qual havia iniciado o encontro: “Rezemos muito pelo Papa”. Em seguida, agradeceu a acolhida e concedeu a bênção: “Que o Senhor esteja em seus corações, em suas famílias, em seus trabalhos, em todas as suas intenções e em sua alegria”.

Segunda-feira, 24 de agosto

A segunda-feira começou em Casavalle, um dos bairros mais vulneráveis de Montevidéu, onde Mons. Fernando Ocáriz visitou a Fundação Los Pinos e Los Rosales, duas iniciativas inspiradas nos ensinamentos de São Josemaria e que acompanham crianças e jovens desde a primeira infância até a adolescência, trabalhando junto com suas famílias para ajudá-los a desenvolver seus talentos e abrir oportunidades para que construam seu próprio projeto de vida.

Ao chegar a Los Pinos, o Padre percorreu as instalações e cumprimentou a equipe, os alunos que encontrou pelo caminho e teve uma breve reunião com o conselho administrativo das duas fundações.

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Enquanto isso, alunos, professores e outros funcionários o aguardavam no ginásio poliesportivo. Quando o Padre entrou, ouviram-se os primeiros versos da canção “Oração do remanso”: “Soy de la orilla brava del agua turbia y la correntada, que baja hermosa por su barrosa profundidad” [“Sou da margem agitada da água turva e da correnteza, que desce bela por sua profundidade lamacenta”].

Facundo foi o primeiro a se animar e contar sua história. Chegou a Los Pinos neste ano, depois de tentar conseguir uma vaga durante muito tempo. Inicialmente, tinha medo de não se adaptar, mas logo encontrou professores e colegas dispostos a ajudá-lo. Lá, também começou a conhecer a fé. Pouco a pouco, foi aprendendo a rezar, e com o tempo tomou uma decisão: receber o batismo. Ele perguntou ao Padre como poderia continuar crescendo na fé e se preparar para esse momento. Mons. Ocáriz lembrou-lhe que a fé é um dom de Deus que também precisa ser acolhido, e o encorajou a pedi-la ao Senhor. “Um ponto fundamental da fé é acreditar no amor de Deus por nós”, explicou. É preciso acreditar que Deus está conosco e nos ama, mesmo quando não conseguimos enxergá-lo claramente.

Luzmila contou que chegou a Los Rosales há quatro anos, depois de ter passado por situações muito difíceis durante a infância que a deixaram triste e muito revoltada com a vida: “Eu não sabia o que era me sentir compreendida e acompanhada”. Aos poucos, aprendeu a se deixar amar, a contar com os outros e também a rezar. Quando precisava de um pouco de calma, começou a ir à capela e a ficar lá por um tempo. “Sinto que Deus me ajudou a olhar para a minha vida de outra maneira”, disse antes de perguntar ao Padre como perdoar alguém que a fez sofrer e aprender a olhar para essa pessoa como Jesus olha.

O Padre reconheceu que perdoar nem sempre é fácil; por isso, encorajou-a a olhar para Jesus na cruz, que se entregou justamente para nos perdoar. Também lembrou as palavras do Pai Nosso: “Perdoa-nos, assim como nós perdoamos. Pedimos perdão a Deus, mas com a condição de que nós perdoemos aos outros”, explicou. Nesses momentos em que custa perdoar, convidou-a a pedir ajuda a Deus e a distinguir o perdão autêntico — que envolve a vontade — do mero sentimento: mesmo que a dor permaneça, a pessoa pode decidir perdoar e desejar o bem do outro. “Perdoar os outros é algo muito grandioso”, disse, e lembrou algumas palavras de São Josemaria: “O que há de mais divino em nossa vida é perdoar”.

Gonzalo, ex-aluno de Los Pinos e hoje coordenador de esportes, quis saber o que os educadores e colegas podem fazer para aproximar a fé dos jovens que ainda a consideram distante. O Padre o encorajou a rezar muito por todos: esse é o primeiro passo.

Com os alunos do ensino médio
Com os alunos do ensino médio

Para se despedir, os alunos interpretaram a canção “Virgen Morenita” e entregaram um presente ao Padre em nome da instituição.

Depois, o Prelado visitou Los Rosales. Percorreu as instalações, cumprimentando famílias, professores e diretores. Também parou por alguns momentos para rezar na capela.

Posteriormente, o Padre esteve na Catedral de Montevidéu. Ao entrar, encontrou um grupo de universitárias que se aproximaram para cumprimentá-lo e parou alguns minutos para conversar com elas. Rezou diante do túmulo do bem-aventurado Jacinto Vera, primeiro bispo de Montevidéu. Em seguida, almoçou com o arcebispo de Montevidéu, o cardeal Dom Daniel Sturla. O Padre o presenteou com uma coroa para a Virgem Maria, que o Cardeal recebeu com muita gratidão. Por sua vez, Dom Sturla lhe entregou uma relíquia do Bem-aventurado Jacinto Vera.

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O Padre em Los Ceibos: “Nunca desistam”

Na tarde do dia 24, o Padre se reuniu com jovens no complexo esportivo Los Ceibos. Com histórias pessoais, perguntas e música, a conversa abordou temas muito variados e próximos da vida daqueles que estavam ali: a amizade com Deus, a vocação, o estudo, o namoro, a dor, a solidariedade e o desejo de viver a fé com naturalidade no meio do mundo.

No início, o Padre os encorajou a lutar para serem cristãos de verdade, sabendo que isso não significa não ter defeitos ou limitações, mas estar dispostos a recomeçar sempre. Ele os animou a colocar o encontro pessoal com Jesus Cristo no centro da vida cristã, procurando ser cada vez mais parecidos com Ele. “A vida cristã é seguir Jesus Cristo. Essa é a chave”, disse-lhes. E sugeriu um caminho simples: “Conhecer o Senhor, conviver com o Senhor, amar o Senhor”.

O Padre os incentivou a manter o esforço, sem desanimar diante das dificuldades, dos defeitos e dos erros. “Sempre contamos com a ajuda da graça de Deus para seguir em frente, para não desanimarmos, para lutar”. E explicou que a segurança deve estar no amor de Deus por cada um.

Santiago, que trabalha em Los Pinos há pouco mais de um ano, contou como essa iniciativa ajudou muitas famílias do bairro a recuperar a esperança. Embora hoje possa parecer que lá “tudo já está feito”, garantiu que quem trabalha em Los Pinos sabe que “tudo ainda está por fazer”. Por isso, perguntou ao Padre como contagiar mais pessoas com o desejo de se unir e colocar seu tempo e seus talentos a serviço dos outros. Mons. Ocáriz o encorajou a compartilhar não apenas o que se faz ali, mas também a própria experiência. Falou sobre transmitir, por meio da amizade, o que se tem dentro de si, porque “quando há amizade autêntica, o que interessa a um também interessa ao outro”.

Leandro, de 24 anos, contou que sua aproximação com o Opus Dei começou inesperadamente, enquanto esperava na fila para entrar em uma discoteca. Lá, conheceu um jovem que acabou se tornando um grande amigo e o convidou para um centro da Obra. Ele voltou a se aproximar de Deus e se preparou para receber a Crisma. Perguntou ao Padre sobre a importância da formação para crescer na própria fé e poder transmiti-la aos outros. “A formação é necessária para que a liberdade possa ser bem exercida”, explicou Mons. Ocáriz, convidando-o a formar a inteligência para poder reconhecer o bem e escolhê-lo livremente.

Rafa, um jovem de Paysandú, contou que, no ano passado, perdeu o pai, que estava trabalhando na Venezuela. Descreveu-o como um homem muito piedoso e especialmente generoso com quem precisava de ajuda. “Hoje, minha vida é uma mistura de alegria pelas lembranças que tenho dele, pela certeza de que ele está no céu, mas também de momentos de tristeza, por ele já não estar mais aqui”, contou. Em seguida, perguntou ao Padre como manter a alegria e a esperança em meio à dor. “Todos nós já rezamos pelo seu pai”, disse o Padre, e o convidou a pensar na felicidade de seu pai ao lado de Deus: “uma felicidade tão grande que nem conseguimos imaginar, a felicidade do céu”. E acrescentou: “O céu está conosco, o céu é Deus. Deus também está no seu coração e seu pai está bem perto de você”.

Entre outros temas, os jovens conversaram sobre o namoro, as decisões do passado, a Eucaristia, a pureza, a ação social e como compartilhar com a própria família um caminho vocacional. Ao falar das dificuldades e da necessidade de recomeçar, o Padre aconselhou-os: “Nunca desistam; se for preciso recomeçar todos os dias, recomecem todos os dias, porque Deus nunca vai nos abandonar”.

Antes de se despedir, o Padre concedeu sua bênção e os encorajou a permanecerem alegres mesmo quando surgirem dificuldades: “Deus está sempre conosco”.

Domingo, 23: o Padre encontra algumas famílias

No domingo, o Padre passou parte da tarde em La Cantera, uma casa de retiros e convivências. Ele visitou a ermida, onde permaneceu alguns minutos em oração e deixou aos pés de Nossa Senhora quatro rosas, uma por cada país da Região do Prata: Uruguai, Argentina, Bolívia e Paraguai.

Durante a visita, o Padre também plantou uma árvore que continuará crescendo e dando sombra a tantas pessoas que passarão por ali em busca de alguns dias de formação, recolhimento e oração. Ao terminar de plantar o cedro azul, aproximou-se de Wilson, que conhece bem cada recanto do jardim, e disse-lhe com carinho: “Deixo essa árvore para você cuidar, para que cresça bem”.

Mais tarde, o Padre participou de um encontro com algumas famílias que se aproximaram para cumprimentá-lo e conversar alguns minutos, uma a uma. Muitos aproveitaram esses momentos para pedir uma oração, contar alguma história da família ou compartilhar alguma lembrança. Lucas, uma das crianças, também quis dar um presente ao Padre. Ele contou com simplicidade que suas irmãs haviam feito desenhos para ele, mas que ele não sabia desenhar muito bem; por isso, escolheu dar a ele um de seus carrinhos, “o carrinho azul”. No final, o Padre surpreendeu cada criança com um saquinho cheio de guloseimas.

O Padre quis deixar sua bênção, incentivando as famílias a viver com alegria e lembrando que, mesmo em meio às dificuldades e adversidades, Deus está sempre perto.

Sábado 22: Com grande alegria, o Uruguai recebe o Padre

Já havia anoitecido em Montevidéu no sábado, 22 de agosto, quando o avião em que viajava o Padre pousou no Uruguai, após vários dias de visita pastoral à Guatemala, Honduras e El Salvador.

No aeroporto, foi recebido por Fernando e Guadalupe, acompanhados de seus filhos, e por Daniel e Isabel, também com sua família, em representação de tantos uruguaios que aguardavam com alegria sua visita.

Entre balões e cartazes de boas-vindas, estava também a Virgem dos Trinta e Três, padroeira do país. Uma das crianças havia preparado algo especial: pegou seu violino e tocou uma música para o Padre, que parou, sorrindo, para ouvi-la tocar e cumprimentar cada um.

A Virgem dos Trinta e Três, padroeira do Uruguai, também aguardava o Padre em sua chegada.

Esta é a primeira visita do Padre ao Uruguai desde que foi eleito prelado do Opus Dei, uma viagem especialmente aguardada porque completa as visitas pastorais que, nos últimos anos, ele realizou aos outros países da região do Prata. Sua chegada coincide, além disso, com um ano particularmente significativo: em outubro, completam-se 70 anos desde a chegada dos primeiros membros do Opus Dei ao Uruguai.

Nos próximos dias, o Padre manterá encontros com famílias, jovens, sacerdotes e pessoas que participam de diversas iniciativas educacionais e sociais inspiradas na mensagem de São Josemaria no país.

Fernando e Guadalupe, com seus filhos, e Daniel e Isabel receberam o Padre no aeroporto
Fernando e Guadalupe, com seus filhos, e Daniel e Isabel receberam o Padre no aeroporto