Tabgha, Igreja das Bem-Aventuranças

O Senhor tinha deixado Nazaré e vivia em Cafarnaum (cf Mt 4, 13), no lado noroeste do lago de Genesaré, onde alguns dos Doze ou seus parentes moravam. As multidões de que fala o Evangelho aproximavam-se daquela pequena cidade de pescadores para encontrar Jesus, mas também iam procurá-lo noutros lugares dos arredores. Entre estes últimos, destaca-se Tabgha.

Poucos lugares da Terra Santa nos aproximam tão imediatamente do Novo Testamento como o Lago de Genesaré, na Galileia. Em outros lugares, depois de dois mil anos de história, a topografia transformou-se radicalmente: edificaram-se igrejas, santuários e basílicas; alguns foram destruídos, reconstruídos, ampliados ou restaurados; muitas aldeias e povoações converteram-se em cidades populosas, enquanto outras desapareceram; foram abertas ruas, estradas, rodovias... Pelo contrário, o lago, embora os seus arredores não sejam alheios a estas modificações, mantém a paisagem quase inalterada. A sua contemplação, que descansa a vista e sossega o espírito, enche a alma de uma sensação inexplicável: a lembrança de Jesus e o eco das suas palavras, que ainda parecem repercutir nestas paragens, fazem transcender o tempo presente.

Contudo, no passado talvez não se respirasse tanta calma nesta zona. Quando Jesus percorreu estas terras, nada menos do que dez povoações eram banhadas pelo lago ou se refletiam nas suas águas a partir as colinas circundantes. Existia um comércio próspero de uma margem a outra, sustentado por inúmeras embarcações. Nenhuma dessas barulhentas cidades chegou até nós. Só a moderna Tibéria recorda de algum modo a Tibéria romana, a mais jovem das antigas, fundada no princípio da nossa era e então situada mais a sul. Somente podemos ter uma ideia das povoações que Jesus conheceu através das suas ruínas.

A riqueza da região provinha em primeiro lugar aos recursos da pesca no lago, que tem vinte e um quilômetros de comprimento de norte a sul, uma largura máxima de doze quilômetros, e uma profundidade média de quarenta e cinco metros. O seu caudal procede principalmente do rio Jordão e de algumas nascentes em suas margens ou sob a superfície da água. A pesca mais abundante é a “tilápia”, também conhecido como “peixe de São Pedro” (Saint Peter).

A agricultura constituía o outro meio principal de subsistência. Uma vez que se encontra a 210 metros abaixo do nível do mar Mediterrâneo, a região goza de um clima temperado no inverno e primavera, enquanto sofre de um calor sufocante em muitos dias de verão. Estas condições são favoráveis a uma vegetação de tipo subtropical. O historiador Flávio Josefo foi testemunha da fertilidade que havia ali no primeiro século: “Esta terra não rejeita nenhuma planta, e os agricultores cultivam nela de tudo, pois a temperatura suave do ar é apropriada para diversas espécies. As nogueiras, que são, em princípio, árvores de climas frios, florescem aqui em abundância. E junto a elas também germinam as palmeiras, que crescem em zonas quentes, e as figueiras e as oliveiras, que pedem uma temperatura mais temperada. Poderíamos falar de um regozijo da natureza, que se esforçou por unir num só lugar espécies tão contrárias, e de uma formosa competição das estações, onde cada uma delas parece aspirar a impor-se nesta terra. Pois esta região não só produz os mais diversos frutos, contrariamente ao que se esperaria, mas também os conserva. Durante dez meses sem interrupção produz os que são considerados os reis de todos os frutos, quer dizer, as uvas e os figos, enquanto os outros produtos amadurecem ao longo de todo o ano. Além da boa temperatura do ar, a zona é regada por uma fonte muito caudalosa, que os povos locais chamam Cafarnaum. Alguns acreditavam que era um braço do Nilo, pois nele se cria um peixe parecido com a corvina do lago de Alexandria” (Flávio Josefo, A guerra dos judeus, III, 516-520).

Os vestígios mais importantes da passagem do Senhor por estas terras conservam-se na parte noroeste do lago de Genesaré, perto de Cafarnaum. No princípio da sua vida pública, “Jesus percorria toda a Galileia, ensinando nas sinagogas deles, anunciando a Boa-Nova do Reino e curando toda espécie de doença e enfermidade do povo. Sua fama também se espalhou por toda a Síria. Levaram-lhe todos os doentes, sofrendo de diversas enfermidades e tormentos: possessos, epiléticos e paralíticos. E ele os curava. Grandes multidões o acompanhavam, vindas da Galileia, da Decápole, de Jerusalém, da Judeia e da região do outro lado do Jordão (Mt 4, 23-25). O Senhor tinha deixado Nazaré e morava em Cafarnaum (cf. Mt 4, 13), no lado noroeste do lago de Genesaré, onde alguns dos Doze ou seus parentes tinham casas. As multidões de que fala o Evangelho aproximavam-se daquela pequena cidade de pescadores para encontrar Jesus, mas também iam procurá-lo noutros lugares dos arredores (cf. Mt 5, 1 y 14, 14; Mc 6, 32-34; Lc 6, 17-19; Jo 6, 2-5). Entre estes últimos, destaca-se Tabgha.

Tabgha é um lugar situado a uns três quilômetros a oeste de Cafarnaum, que se estende por alguns hectares da margem do lago para o interior, em diração às colinas que o rodeiam. O nome parece ser uma derivação árabe do original bizantino Heptapegon, que em grego significa “sete fontes”: deve-se às nascentes que então existiam, e que continuam ativas até hoje. De acordo com a tradição dos cristãos que habitaram ininterruptamente aquela zona desde o tempo de Jesus, ali teria multiplicado os cinco pães e os dois peixes para dar de comer a uma multidão (Cfr. Mt 14, 13-21; Mc 6, 32-44; Lc 9, 12-17; Jo 6, 1-15); ali teria pronunciado o Sermão da Montanha que começa com as Bem-Aventuranças (Cf. Mt 5, 1-11; Lc 6, 17-26); e teria aparecido aos Apóstolos depois da Ressurreição, quando realizou a segunda pesca milagrosa e confirmou São Pedro como primaz da Igreja (Cf. Jo 21, 1-23). Menos de cem de metros separam os três lugares onde se situam estes episódios da vida do Senhor.

Um texto atribuído à peregrina Egéria, que visitou a Palestina no séc. IV, oferece-nos um testemunho eloquente quanto à memória cristã sobre Tabgha: “não longe de Cafarnaum veem-se os degraus de pedra onde o Senhor se sentou. Ali, junto ao lago, encontra-se um terreno coberto de abundante erva e muitas palmeiras e, perto do mesmo lugar, sete fontes jorrando água abundante de cada uma delas. Neste lugar o Senhor saciou uma multidão com cinco pães e dois peixes. A pedra sobre a qual Jesus pousou o pão foi transformada num altar. Junto às paredes daquela igreja passa a rua, onde Mateus tinha o seu telônio. No monte vizinho há um lugar onde o Senhor subiu para pronunciar as Bem-Aventuranças” (O texto aparece no Líber de Locis Sanctis, escrito pelo monge de Monte Cassino S. Pedro Diácono, em 1137).

Neste artigo, concentramos a nossa atenção no último lugar indicado por Egéria: o Monte das Bem-Aventuranças. Pelas características do lugar, não parece estranho que o Senhor, às vezes, o escolhesse para se retirar, só ou com os seus discípulos, nem que realizassem aí reuniões de milhares de pessoas: estava desabitado, talvez pela dificuldade de cultivar o terreno, onde existia um estrato rochoso a pouca profundidade. Por outro lado, graças aos sete mananciais de água que surgiam na zona, a erva cobria o chão e não faltava a sombra de muitas palmeiras; essa parte do lago era especialmente rica em pesca, pois algumas correntes de água quente atraíam os bancos de peixes; as ladeiras dos montes circundantes começavam a sua inclinação quase na própria margem, formando um anfiteatro natural...

Vendo as multidões, Jesus subiu à montanha e sentou-se. Os discípulos aproximaram-se, e ele começou a ensinar:

“Felizes os pobres no espírito, porque deles é o Reino dos Céus.

Felizes os que choram, porque serão consolados.

Felizes os mansos, porque receberão a terra em herança.

Felizes os que têm fome e sede da justiça, porque serão saciados.

Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.

Felizes os puros no coração, porque verão a Deus.

Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus.

Felizes os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus.

Felizes sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo mal contra vós por causa de mim.

Alegrai-vos e exultai, porque é grande a vossa recompensa nos céus. Pois foi deste modo que perseguiram os profetas que vieram antes de vós” (Mt 5, 1-12. cf. Lc 6, 20-23).

De acordo com a tradição dos cristãos que habitaram nesta zona desde a época de Jesus, o Sermão da Montanha (o conjunto de ensinamentos do Senhor que começa com as Bem-Aventuranças) foi pronunciado perto da igreja da Multiplicação dos pães e dos peixes, na ladeira de um monte próximo, onde havia uma gruta. Com efeito, a uns cem metros desse santuário, em 1935, foram escavados os restos de alguns edifícios. Pertenceriam a uma igreja e um mosteiro do séc. IV ou V. A capela, de sete metros de comprimento por quatro de largura, construída escavando por cima de uma pequena gruta, abarcava outra gruta natural, transformada em forma quadrada por meio de alvenaria. Numerosos grafitos cobriam o reboco das paredes, e o chão estava pavimentado com mosaicos.

De acordo com esta tradição, entre 1937 e 1938 foi edificado o atual santuário das Bem-Aventuranças, porém, para dispor de uma panorâmica mais ampla do lago de Genesaré, foi escolhido um local mais elevado, a uns duzentos metros acima da superfície do lago e a dois quilômetros da antiga localização.

Trata-se de uma igreja de forma octogonal, coberta por uma cúpula de elegante abóbada e rodeada por um amplo pórtico que torna mais tênue a luz e o calor do sol. O uso de basalto negro local, pedra branca de Nazaré e travertino romano forma um conjunto harmonioso e permite que o edifício sobressaia entre a densa vegetação da área. No interior, os elementos estão dispostos com simplicidade de linhas: ao centro, o altar, coroado por uma arquivolta de alabastro; por detrás, elevado sobre um pedestal de pórfiro, o tabernáculo, decorado com cenas da Paixão em bronze dourado sobre fundos de lápis-lazúli; na abóbada, oito janelas com vitrais onde se leem as palavras das Bem-Aventuranças; e, fechando o espaço, a cúpula, com um revestimento em tons dourados.

O programa das Bem-Aventuranças

Com as Bem-Aventuranças, Jesus “retoma as promessas feitas ao povo eleito desde Abraão. Jesus as completa, ordenando-as não mais simples bem-estar gozoso na terra, mas ao Reino dos Céus” (Catecismo da Igreja Católica, n. 1716). Considerando este fato, Bento XVI sublinha a diferença entre Moisés e o Senhor, entre o Sinai, um maciço rochoso no deserto, e o monte das Bem-Aventuranças: “quem já esteve lá alguma vez, quem desfrutou a larga vista sobre as águas do lago, quem sentiu com a alma o céu e o sol, as árvores e os prados, as flores e o cântico dos pássaros, não pode esquecer a admirável atmosfera de paz, de beleza da criação” (Joseph Ratzinger/Bento XVI, Jesus de Nazaré. Do Batismo no Jordão à Transfiguração).

As Bem-Aventuranças respondem ao desejo natural de felicidade que Deus colocou no coração do homem, anunciam bênçãos e recompensas, mas, ao mesmo tempo, são promessas paradoxais, especialmente as que se referem à pobreza, às penas, à injustiça e às perseguições (cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 1717-1718): “os critérios mundanos são subvertidos, desde que as coisas sejam vistas na perspectiva correta, nomeadamente a partir do valor de Deus, que é diferente dos valores do mundo. Justamente os que são considerados pelo mundo como pobres e como perdidos são verdadeiramente os que são felizes, os que são abençoados e podem, em todos os seus sofrimentos, alegrar-se e rejubilar-se” (Joseph Ratzinger/Bento XVI, Jesus de Nazaré. Do Batismo no Jordão à Transfiguração).

As Bem-Aventuranças não devem ser entendidas como se a alegria que anunciam só possa ser alcançada no além. São Josemaria assim o ensinava, ao mesmo tempo em que prevenia contra o perigo do vitimismo: “Sacrifício, sacrifício! - É verdade que seguir a Jesus Cristo - disse-o Ele - é levar a Cruz. Mas não gosto de ouvir as almas que amam o Senhor falarem tanto de cruzes e de renúncias: porque, quando há Amor, o sacrifício é prazeroso - ainda que custe - e a cruz é a Santa Cruz. - A alma que sabe amar é entregar-se assim, enche-se de alegria e de paz. Então, por que insistir em “sacrifício”, como que procurando consolo, se a Cruz de Cristo - que é a tua vida - te faz feliz?” (Sulco. 249).

As Bem-Aventuranças iluminam as ações e atitudes que caracterizam a vida cristã, exprimem o que significa ser discípulo de Cristo, ter sido chamado a associar-se à sua Paixão e Ressurreição (Cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 1717). “Mas elas valem para o discípulo, porque primeiro se realizaram como modelo original em Cristo mesmo (...). As bem-aventuranças são, no fundo, uma anterior biografia escondida de Jesus, um retrato da sua figura. Ele, que não tem onde reclinar a sua cabeça (Mt 8,20), é o verdadeiro pobre; Ele, que de si pode dizer: vinde a mim, porque Eu sou manso e humilde de coração (cf. Mt 11,29), é o verdadeiro manso; Ele é quem é puro de coração e, por isso, vê permanentemente Deus. Ele é o construtor da paz, aquele que sofre por causa de Deus: nas bem-aventuranças aparece o mistério de Cristo, e elas nos chamam para a comunhão com Cristo” (Joseph Ratzinger/Bento XVI, Jesus de Nazaré. Do Batismo no Jordão à Transfiguração).

Para responder a esse chamamento de Deus a participar da sua própria bem-aventurança, Jesus é o caminho: “Temos que aprender d’Ele, de Jesus, o nosso único modelo. Se queres ir em frente, prevenindo tropeços e extravios, basta-te andar por onde Ele andou, pousar as plantas dos pés na marca das suas pegadas, adentrar-te em seu Coração humilde e paciente, beber do manancial dos seus preceitos e afetos; numa palavra, hás de identificar-te com Jesus Cristo, hás de procurar converter-te de verdade em outro Cristo entre os teus irmãos, os homens (...).
Repassa o exemplo de Cristo, desde o berço de Belém até o trono do Calvário. Considera a sua abnegação, as suas privações: fome, sede, fadiga, calor, sono, maus tratos, incompreensões, lágrimas...; e a sua alegria em salvar a humanidade inteira. Gostaria de gravar agora profundamente na tua cabeça e no teu coração - para que o medites muitas vezes e o traduzas em consequências práticas - as palavras com que São Paulo convidava os de Éfeso a seguir sem hesitações os passos do Senhor: Sede imitadores de Deus, como filhos muito amados, e andai no amor, como também Cristo nos amou e se entregou a si mesmo por nós a Deus, em oferenda e hóstia de suavíssimo odor.

Jesus entregou-se a si mesmo, feito holocausto por amor. E tu, discípulo de Cristo; tu, filho predileto de Deus; tu, que foste comprado a preço de Cruz; tu também deves estar disposto a negar-te a ti mesmo” (Amigos de Deus, nn. 128-129).

No Sermão da Montanha, depois das Bem-Aventuranças, Jesus compara os que creem com o sal da terra e a luz do mundo. Comentando estas palavras, São João Crisóstomo sublinhava a relação entre as duas passagens: “quem é manso, modesto, misericordioso e justo, não guarda para si só estas virtudes, antes faz com que estas belas fontes também se derramem copiosamente para proveito dos outros. De idêntico modo, o que é limpo de coração e o pacificador, e aquele que é perseguido por causa da verdade, também dispõe da sua vida, em benefício dos outros” (São João Crisóstomo, In Matthaeum homiliae, 15, 7).

Quem segue Cristo, encontra a felicidade; e de um modo natural, procura difundi-la: O Mestre passa, uma vez e outra vez, muito perto de nós. Olha-nos... E se O olhas, se O escutas, se não O repeles, Ele te ensinará o modo de dares sentido sobrenatural a todas as tuas ações... E então também tu semearás, onde quer que te encontres, consolo, paz e alegria (Via Sacra, VIII Estação, ponto 4).

Dom Álvaro em Tabgha

O Bem-Aventurado Álvaro esteve na Igreja das Bem-aventuranças no dia 16 de março de 1994. Ali celebrou a Santa Missa pela segunda vez na Terra Santa. As franciscanas que cuidam do santuário pararam o fluxo de pessoas ao redor do altar principal, e Dom Álvaro pôde celebrar com grande tranquilidade.

No final da Missa – recordava depois D. Javier Echevarría – disse-nos que tinha pedido que todos os cristãos, e especialmente às suas filhas e filhos no Opus Dei, transformássemos a nossa vida em uma adaptação total ao programa que Cristo tinha proposto nas Bem-aventuranças” (Javier Echevarría, Palavras recolhidas em Crónica, 1994, pp. 103 e 106, AGP, biblioteca, P01).