O lugar da Ascensão

Jesus Cristo realizou a obra da redenção humana principalmente pelo mistério da sua paixão, da sua ressurreição dos mortos e da sua gloriosa ascensão. São Lucas refere alguns detalhes da cena: 'depois, levou-os até junto de Betânia e, erguendo as Suas mãos, abençoou-os. E enquanto os abençoava, separou-Se deles e começou a elevar-se ao céu. E eles adoraram-no'.


Gráfico: J. Gil

Jesus Cristo realizou a obra da redenção humana principalmente pelo mistério da sua paixão, da sua ressurreição dos mortos e da sua gloriosa ascensão[1]. Consideraremos agora o último destes episódios, que marca o fim da sua vida terrena.

Desde o seu Nascimento em Belém, muitas coisas aconteceram: encontramo-lo no berço, adorado por pastores e por reis; contemplamo-lo nos longos anos de trabalho silencioso, em Nazaré; acompanhamo-lo pelas terras da Palestina, pregando aos homens o reino de Deus e fazendo o bem a todos. E, mais tarde, nos dias da sua Paixão, sofremos ao presenciar como o acusavam, com que fúria o maltratavam, com quanto ódio o crucificavam.
À dor seguiu-se a alegria luminosa da Ressurreição. Que fundamento tão claro e tão firme para a nossa fé! Não deveríamos continuar duvidando. Mas talvez ainda sejamos fracos, como os Apóstolos, e perguntemos a Cristo neste dia da Ascensão: É agora que vais restaurar o reino de Israel?; é agora que vão desaparecer definitivamente todas as nossas perplexidades e todas as nossas misérias?
O Senhor responde-nos subindo aos céus
[2].

Os relatos bíblicos são muito sucintos sobre este acontecimento que afirmamos no Credo. São Marcos, depois de narrar algumas aparições de Cristo ressuscitado aos seus discípulos, acrescenta: Depois de falar com os discípulos, o Senhor Jesus foi elevado ao céu e sentou-se à direita de Deus[3]. São Lucas, tanto no Evangelho como nos Atos dos Apóstolos, acrescenta alguns detalhes da cena: Então Jesus levou-os para fora da cidade, até perto de Betânia. Ali ergueu as mãos e abençoou-os. E enquanto os abençoava, afastou-se deles e foi elevado ao céu. Eles o adoraram[4]. Continuavam olhando para o céu, enquanto Jesus subia. Apresentaram-se a eles então dois homens vestidos de branco, que lhes disseram: “Homens da Galiléia, por que ficais aqui, parados, olhando para o céu? Esse Jesus que, do meio de vós, foi elevado ao céu, virá assim, do mesmo modo como o vistes partir para o céu”. Então os apóstolos deixaram o monte das Oliveiras e voltaram para Jerusalém, à distância que se pode andar num dia de sábado[5].

Um recinto octogonal delimita o local da Ascensão, que é recordado no centro, dentro de uma capela. Foto: Mattes (Wikimedia Commons).

De acordo com estes dados, a tradição situa a Ascensão no cimo da colina central do monte das Oliveiras, a pouco mais de um quilômetro da cidade, em direção a Betfagé e Betânia. Nessa elevação, de uns 800 metros de altitude, foi construída uma igreja durante a segunda metade do século IV. Segundo várias fontes, a iniciativa partiu da nobre patrícia Poemenia, que tinha ido de Constantinopla, em peregrinação, à Terra Santa. Esse santuário era conhecido com o nome de Imbomon. Graças à peregrina Egéria, sabemos que os fiéis de Jerusalém se reuniam nesse lugar para algumas cerimônias na Semana Santa e no dia de Pentecostes.

Da mesma maneira que o Santo Sepulcro e outros edifícios de culto da Palestina, o Imbomon sofreu danos quando da invasão dos persas, no ano 614, e foi posteriormente restaurado pelo monge Modesto. Contamos com uma valiosa descrição transmitida pelo bispo Arculfo, que o visitou pelo ano 670: trata-se de uma igreja redonda com três pórticos no interior, e uma capela também redonda no centro, não fechada com abóbada ou telhado, mas sim a céu aberto para lembrar aos peregrinos a cena da Ascensão; na parte oriental desse espaço havia um altar protegido por uma pequena cobertura, e no meio uma rocha muito venerada, pois os fiéis consideravam-na o último lugar onde o Senhor tinha pousado os pés, e reconheciam as suas pegadas impressas na pedra[6].

O santuário foi reformado durante a época dos cruzados, quando uma parte se converteu em mosteiro dos Cônegos Regulares de Santo Agostinho. No século XIII, os muçulmanos derrubaram todos os edifícios exceto a capela central – é a que chegou até nós – e posteriormente levantaram ao lado uma mesquita. Se bem que o lugar faça parte ainda hoje das propriedades do waqf – instituição religiosa islâmica –, na solenidade da Ascensão é permitido celebrar ali a Santa Missa: é um direito que os franciscanos da Custódia da Terra Santa obtiveram das autoridades otomanas.

Na capela não há culto, mas a Custódia da Terra Santa tem o direito de celebrar a Santa Missa em cada ano, por ocasião da festa da Ascensão. Foto: Alfred Driessen.

A capela ergue-se no centro de um recinto octogonal, circundado por um muro onde ainda são visíveis algumas bases das colunas do período dos cruzados. Segundo os estudos arqueológicos, a pequena igreja, também octogonal, apresenta a planta um pouco deslocada em relação à construção bizantina; mesmo assim, cumpre a mesma função: preservar a memória das pegadas de Jesus e da sua Ascensão. No exterior, têm particular interesse artístico os arcos e as colunas, rematadas com capitéis finamente esculpidos, pois são originais do século XII; o ‘tambor’, a cúpula e o fecho dos vãos com muros de pedra foram acrescentados mais tarde. No interior, uma abertura no pavimento, emoldurada por quatro peças de mármore, deixa ver a rocha venerada.

Fato histórico e acontecimento de salvação

O mistério da Ascensão abrange um fato histórico e um acontecimento de salvação. Como fato histórico, “assinala a entrada definitiva da humanidade de Jesus no domínio celeste de Deus, donde voltará, mas que até láo esconde aos olhos dos homens”[7].

Ao considerar esta cena, São Josemaria chamava a atenção, muitas vezes, para a despedida do Senhor: Tal como os Apóstolos, ficamos meio admirados, meio tristes ao ver que nos deixa. Na realidade, não é fácil acostumarmo-nos à ausência física de Jesus. Comove-me recordar que Jesus, num gesto magnífico de amor, foi-se embora e ficou; foi para o céu e entrega-se a nós como alimento na Hóstia Santa. Sentimos, no entanto, a falta da sua palavra humana, da sua forma de atuar, de olhar, de sorrir, de fazer o bem. (...)

Sempre me pareceu lógico - e me cumulou de alegria - que a Santíssima Humanidade de Jesus Cristo subisse à glória do Pai. Mas penso também que esta tristeza, própria do dia da Ascensão, é uma manifestação do amor que sentimos por Jesus, Senhor Nosso. Sendo perfeito Deus, Ele se fez homem, perfeito homem, carne da nossa carne e sangue do nosso sangue. E separa-se de nós, indo para o céu. Como não havíamos de notar a sua falta?[8]

Como acontecimento de salvação, a entrada de Cristo ressuscitado no Céu manifesta o nosso destino definitivo: “Jesus Cristo, Cabeça da Igreja, nos precede no Reino glorioso do Pai para que nós, membros de seu Corpo, vivamos na esperança de estarmos um dia eternamente com Ele”[9]. O Papa Francisco a poucas semanas de ter sido eleito, fazia-nos refletir sobre este significado da Ascensão e sobre as suas consequências na vida de cada cristão. O seu ponto de partida era a última peregrinação de Jesus a Jerusalém, quando compreende que se aproxima a Paixão: “enquanto sobe à Cidade santa, de onde terá lugar o êxodo desta vida. Jesus vê já a meta, o Céu, mas sabe bem que o caminho que o leva a chegar à glória do Pai passa pela Cruz, através da obediência ao desígnio divino de amor pela humanidade. O Catecismo da Igreja Católica afirma que ‘a elevação na cruz significa e anuncia a elevação da Ascensão ao céu’ (n. 662). Também nós devemos ter claro, na nossa vida cristã, que entrar na glória de Deus exige a fidelidade quotidiana à sua vontade, também quando requer sacrifício, requer às vezes mudar os nossos programas”[10].

Um buraco no pavimento permite ver a rocha de onde, segundo a tradição, Jesus subiu ao céu. Foto: (Seetheholyland.net).

Comentando estas palavras, o Padre recordava: “Não esqueçamos, filhas e filhos meus, que não há cristianismo sem Cruz, não há verdadeiro amor sem sacrifício, e procuremos conformar a nossa vida diária com esta realidade gozosa. Porque significa darmos os mesmos passos que o Mestre seguiu”[11].

Na mesma audiência, o Papa também tirava um ensinamento do lugar escolhido pelo Senhor para a sua partida: “A Ascensão de Jesus tem lugar concretamente no Monte das Oliveiras, perto do lugar onde se tinha retirado em oração antes da Paixão para permanecer em profunda união com o Pai: uma vez mais vemos que a oração nos dá a graça de viver fiéis ao projeto de Deus[12].

Jesus subiu aos céus, dizíamos. Mas, pela oração e pela Eucaristia, o cristão pode ter com Ele a mesma intimidade que tinham os primeiros Doze, inflamar-se no seu zelo apostólico, para com Ele realizar um serviço de co-redenção, que é semear a paz e a alegria[13].

São Lucas destaca que os Apóstolos, depois de se despedirem voltaram para Jerusalém, com grande alegria[14]. Essa reação só se explica pela fé, pela confiança; os discípulos compreenderam que, ainda que não vejam mais a Jesus, “permanece para sempre com eles, não os abandona e, na glória do Pai, os sustenta, os guia e intercede por eles”[15].

“O encargo que um punhado de homens recebeu no Monte das Oliveiras, perto de Jerusalém, em uma manhã primaveril nos anos 30 da nossa era, tinha todas as características de uma “missão impossível”.

Recebereis a virtude do Espírito Santo que descerá sobre vós e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia, na Samaria e até aos confins do mundo (At 1, 8). As últimas palavras pronunciadas por Cristo antes da Ascensão pareciam uma loucura. Em um pequeno recanto esquecido do Império Romano, uns homens simples – nem ricos, nem sábios, nem influentes – tinham de levar a todo o mundo a mensagem de um justiçado.

Menos de trezentos anos depois, uma grande parte do mundo romano tinha se convertido ao Cristianismo. A doutrina do Crucificado vencera as perseguições dos poderosos, o desprezo dos sábios, a resistência à exigências morais que contrariavam as paixões. E, apesar dos vaivéns da História, ainda hoje o Cristianismo continua sendo a maior força espiritual da humanidade. Só a graça de Deus o pode explicar. Porque a graça atuou através de alguns homens que se sabiam investidos de uma missão, e a cumpriram”[16].

A graça agiu através dos Apóstolos porque todos eles perseveravam na oração em comum, junto com algumas mulheres – entre elas, Maria, mãe de Jesus[17].



[1] Cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 1067

[2] São Josemaria, É Cristo que passa, 117

[3] Mc 16, 19

[4] Lc 24, 50-52

[5] At 1, 10-12

[6] Cf. Adamnano, De locis sanctis, 1, 23 (CCL 175, 199-200).

[7] Catecismo da Igreja Católica, n. 665.

[8] São Josemaria, É Cristo que passa, 117

[9] Catecismo da Igreja Católica, n. 666

[10] Francisco, Audiência geral, 17-IV-2013

[11] Javier Echevarría, Carta 1/05/2013

[12] Francisco, Audiência geral, 17-IV-2013

[13] São Josemaria, É Cristo que passa, n. 120

[14] Lc 24, 52

[15] Francisco, Audiência geral, 17-IV-2013.

[16] Álvaro del Portillo, , «Catholic Familyland», Issue XXVII, 1998 (Meditación 1989) https://opusdei.org/pt-br/article/sal-luz-e-fermento-a-tarefa-dos-leigos-na-missao-da-igreja/

[17] Atos, 1,14.