Monte Tabor: Basílica da Transfiguração

No dia 6 de agosto a Igreja celebra o Dia da Transfiguração do Senhor. Oferecemos neste artigo pontos de São Josemaria para meditar sobre esta festa, dados históricos, informações sobre o Monte Tabor e a Basília da Transfiguração.

Opus Dei - Monte Tabor: Basílica da TransfiguraçãoCena principal da abside do presbitério. Foto: Leobard Hinfelaar.

Monte Tabor: Basílica da Transfiguração

Desde os tempos mais remotos, caminhos e pistas de caravanas sulcaram a planície fértil de Esdrelon, na Galileia. Os viajantes que desciam da Mesopotâmia e da Síria, depois de contornar o mar de Genesaré, atravessavam-na até ao oeste, para chegar ao Mediterrâneo e continuar rumo ao Egito. Os que partiam do sul, de Hebron, seguindo a estrada que passa por Belém, Jerusalém e Samaria, cruzavam-na em direção ao norte perto de Nazaré. Testemunha das suas caminhadas, solitário no meio da planície, erguia-se o monte Tabor.

Gráfico: J. Gil

Se formasse parte de uma cordilheira, com os seus 558 metros acima do nível do mar, mal chamaria a atenção. Mas devido ao seu isolamento e forma cônica – que faz lembrar a de um vulcão, embora seja de origem calcária –, e por se elevar mais de 300 metros acima do terreno circundante, parece ter uma altura imponente. Destaca-se a notável vegetação das suas encostas, coberta de carvalhos, aroeiras e plantas silvestres, e na primavera, de lírios e açucenas. Do seu cume, um amplo planalto onde também abundam os ciprestes, avista-se um panorama muito belo. Estas características converteram o Tabor em local de culto dos povos cananeus, que adoravam os ídolos nos lugares altos, e também em fortificação militar, como vigia sobre a região: houve de ambos nesse lugar, onde as marcas da presença humana remontam a setenta mil anos.

Vista panorâmica sobre o vale de Esdrelon e, ao fundo, a depressão do rio Jordão. O complexo da esquerda engloba o mosteiro e a igreja greco-ortodoxa: foi construído no séc. XIX sobre ruinas da época dos cruzados. Na parte mais alta do monte, destacam-se a basílica da Transfiguração – orientada para o leste – e o convento franciscano. A porta do Vento fica fora desta perspectiva. Foto: Israel Tourism (Flickr).

Segundo os relatos do Antigo Testamento, foi nas imediações do Tabor que Débora reuniu secretamente dez mil israelitas, sob o comando de Barac, que puseram em fuga o exército de Sisara[1]; ali os madianitas e amalecitas mataram os irmãos de Gedeão[2]; e, uma vez conquistada a terra prometida, o monte delimitou as fronteiras entre as tribos de Zabulão, Issacar e Neftali[3], que o consideravam sagrado e ofereciam sacrifícios no seu cume[4]. O profeta Oseias combateu esse culto porque, no seu tempo, sem dúvida que não só era cismático, mas também idolátrico[5]. Finalmente, encontramos uma prova da fama do Tabor no seu uso como imagem literária: o salmista junta-o ao Hermon para simbolizar nos dois todos os montes da terra[6]; e Jeremias compara-o com a supremacia de Nabucodonosor sobre os seus inimigos[7].

Do cimo do monte Tabor, a vista perde-se no horizonte dos campos cultivados na planície de Esdrelon. Foto: Benjamín E. Wood (Flickr).

Embora no Novo Testamento não apareça citado pelo seu nome, a tradição rapidamente identificou o Tabor como o lugar da transfiguração do Senhor: Jesus levou consigo Pedro, João e Tiago, e subiu à montanha para orar. Enquanto orava, seu rosto mudou de aparência e sua roupa ficou branca e brilhante. Dois homens conversavam com ele: eram Moisés e Elias. Apareceram revestidos de glória e conversavam sobre a saída deste mundo que Jesus iria consumar em Jerusalém. Pedro e os companheiros estavam com muito sono. Quando acordaram, viram a glória de Jesus e os dois homens que estavam com ele. E enquanto esses homens iam se afastando, Pedro disse a Jesus: “Mestre, é bom ficarmos aqui. Vamos fazer três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias”. Nem sabia o que estava dizendo[8].

A exploração arqueológica no Tabor revelou a existência de um santuário no séc. IV ou V – que alguns testemunhos antigos atribuem a Santa Helena—, construído sobre os vestígios de um lugar de culto cananeu. Mais tarde, as narrativas de alguns peregrinos dos séc. VI e VII referem três basílicas, em memória das três tendas mencionadas por São Pedro, e a presença de um grande número de monges. De fato, encontrou-se um pavimento em mosaico dessa época, e consta que o Concilio V de Constantinopla, em 553, erigiu um bispado no Tabor. Durante a dominação muçulmana, aquela vida eremítica foi decaindo, e no ano 808, dezoito religiosos com o bispo Teófanes encarregavam-se das igrejas.

A partir do ano 1101, e enquanto durou o reino latino de Jerusalém, estabeleceu-se uma comunidade de beneditinos no Tabor. Restauraram o santuário e ergueram um grande mosteiro, protegido por uma muralha fortificada. Esta não foi suficiente para resistir aos ataques sarracenos, que conquistaram a abadia e, entre 1211 e 1212, a converteram num baluarte de defesa. Embora se tivesse permitido aos cristãos voltar a tomar posse do lugar algum tempo depois, a basílica foi novamente destruída em 1263 pelas tropas do sultão Bibars.

A basílica ficou terminada em 1924. A sua arquitetura inspira-se nas igrejas da Alta Síria, tanto na fachada como no interior. Foto: Derek Winterburn (Flickr).

O monte ficou abandonado até à chegada dos franciscanos, em 1631. Desde então, conseguiram manter a propriedade, não sem dificuldades; estudaram e consolidaram as ruínas existentes, mas tiveram de passar três séculos até ser construída uma nova basílica: a atual, terminada em 1924.

A Basílica atual

Hoje em dia, os peregrinos sobem o Tabor por uma estrada sinuosa, traçada no princípio do séc. XX para facilitar o abastecimento de materiais durante a construção do santuário. A chegada ao cimo está marcada pela porta do Vento – em árabe, Bab el-Hawa, resto da fortaleza muçulmana do séc. XIII, cujos muros rodeavam toda a planície do cume. No lado norte, encontra-se a zona greco-ortodoxa; e no lado sul, a católica, a cargo da Custódia da Terra Santa.

Partindo da porta do Vento, uma longa avenida flanqueada de ciprestes conduz até à basílica da Transfiguração e ao convento franciscano. Diante da igreja, podem ver-se as ruínas do mosteiro beneditino do séc. XII, embora também haja vestígios da fortaleza sarracena. De fato, foi edificada aproveitando as fundações da basílica dos cruzados, os mesmos sobre os quais se apoia o atual santuário, de três naves, que ocupa o plano do precedente.

Na abside do presbitério está representada a cena da transfiguração do Senhor. Foto: Leobard Hinfelaar.

A fachada, com o grande arco entre as duas torres e os frontões triangulares das coberturas, transmite ao mesmo tempo as boas-vindas e um convite para elevar a alma. Ao atravessar as portas de bronze, esta sensação aumenta: a nave central, separada das laterais por grandes arcos de volta inteira, converte-se numa escada talhada na rocha que desce até à cripta; e em cima, destaca-se muito elevado, o presbitério, que tem por detrás uma abside em que está representada a cena da Transfiguração sobre um fundo totalmente dourado. A evocação do mistério é destacada através de uma luminosidade especial, conseguida graças às janelas abertas na fachada, às paredes da nave central e à abside da cripta.

O projeto da basílica respeitou, incluindo-os, alguns vestígios das igrejas anteriores: junto à porta, as duas torres foram construídas em cima de capelas com absides medievais, hoje dedicadas à memória de Moisés e de Elias; e na cripta, embora a abóbada cruzada primitiva fosse coberta por um mosaico, o altar é o mesmo e também estão à vista restos de alvenaria nas paredes. Além disso, recentemente foi escavada uma pequena gruta ao norte do santuário, debaixo do lugar identificado como refeitório do mosteiro medieval: as paredes continham inscrições em grego e alguns monogramas com cruzes, talvez vestígios do cemitério dos monges bizantinos que habitaram na montanha.

Jesus mostra a Sua glória

Na transfiguração, Jesus mostra a sua glória divina, confirmando assim a recente confissão de Pedro – tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo[9], e, deste modo, também fortalece a fé dos Apóstolos perante a proximidade da Paixão[10], que já lhes tinha começado a anunciar[11]. A presença de Moisés e Elias é bastante eloquente: eles “Moisés e Elias haviam visto a glória de Deus sobre a Montanha; a Lei e os profetas tinham anunciado os sofrimentos do Messias”[12]. Os evangelistas narram também que, quando Pedro ainda estava propondo que se fizessem três tendas, uma nuvem de luz cobriu-os e uma voz disse da nuvem: Este é o meu filho amado, nele está meu pleno agrado: escutai-o[13].

Glosando esta passagem, alguns Padres da Igreja sublinham a diferença entre os representantes do Antigo Testamento, Moisés e Elias, e Cristo: “eles são servos, Este é o meu Filho (...). A eles quero-lhes bem, mas Este é o meu Amado: portanto, ouvi-O (...). Moisés e Elias falam de Cristo, mas são servos como vós: Este é o Senhor, ouvi-O”[14].

Para Bento XVI, o sentido mais profundo da transfiguração “está resumido nesta palavra. Os discípulos devem descer outra vez com Jesus e aprender sempre: é a Ele que deveis escutar”[15].

Levados por São Josemaria, podemos comprovar que esta exortação destinada aos discípulos se aplica a cada fiel cristão: Meditai uma a uma as cenas da vida do Senhor, os seus ensinamentos. Considerai especialmente os conselhos e as advertências com que Ele preparava aquele punhado de homens para serem seus Apóstolos, seus mensageiros, de um ao outro extremo da terra[16]. Para ouvir Cristo, para conhecer os seus ensinamentos, o que disse e o que fez, contamos com os Evangelhos[17]. Ao transmitir a pregação dos Apóstolos depois da ascensão, comunicam-nos a verdade sobre Jesus e tornam-no presente: Queres aprender de Cristo e tomar exemplo da sua vida? - Abre o Santo Evangelho e escuta o diálogo de Deus com os homens..., contigo[18].

Este diálogo implica primeiro uma escuta atenta, meditada: Não basta ter uma ideia geral do espírito de Jesus, mas é preciso aprender d’Ele pormenores e atitudes (...). Quando amamos uma pessoa, desejamos conhecer até os menores detalhes da sua existência, do seu caráter, para assim nos identificarmos com ela. É por isso que temos que meditar na história de Cristo, desde o seu nascimento num presépio até à sua morte e sua ressurreição. Nos meus primeiros anos de atividade sacerdotal, costumava oferecer exemplares do Evangelho ou livros em que se narrasse a vida de Jesus. Porque é preciso que a conheçamos bem, que a tenhamos toda inteira na cabeça e no coração, de modo que, em qualquer momento, sem necessidade de livro algum, fechando os olhos, possamos contemplá-la como num filme, de forma que, nas mais diversas situações da nossa existência, acudam à memória as palavras e os atos do Senhor[19].

Mas o diálogo, depois da escuta, exige uma resposta, porque não se trata apenas de pensar em Jesus, de imaginar as cenas que lemos. Temos que intervir plenamente nelas, ser protagonistas. Seguir Cristo tão de perto quanto Santa Maria, sua Mãe; quanto os primeiros Doze, as santas mulheres e aquelas multidões que se comprimiam ao seu redor. Se agirmos assim, se não criarmos obstáculos, as palavras de Cristo penetrarão até o fundo da alma e transformar-nos-ão[20].

E com o seguimento de Cristo e a identificação com Ele, sentiremos a necessidade de unir a nossa vontade ao seu desejo de salvar todas as almas, e inflamar-se-ão os nossos anseios apostólicos: Esses minutos diários de leitura do Novo Testamento que te aconselhei - metendo-te e participando no conteúdo de cada cena, como um protagonista mais -, são para que encarnes, para que “cumpras” o Evangelho na tua vida... e para que o “faças cumprir”[21].

Dom Álvaro no Tabor

No dia 17 de março de 1994, durante a sua peregrinação à Terra Santa, o Bem-aventurado Álvaro esteve na Basílica da Transfiguração e celebrou a Santa Missa na capela dedicada a Moisés. Pouco tempo depois, D. Javier Echevarría disse que, considerando a altura do Monte Tabor, o Bem-aventurado Álvaro tinha feito uma pergunta a si mesmo:

“Por que nosso Senhor, em seus desígnios, quis se transfigurar naquele lugar distante de onde Ele vivia, e que exigia um esforço físico, uma longa caminhada, para chegar lá? Comentou que provavelmente era para que nos ficasse gravado que, para chegar a Deus, tínhamos também que colocar no esforço humano, o esforço dos sentidos e das potências”[22].

Ao ler o Evangelho, ao meditá-lo na oração, ser-nos-á proveitoso pedir luzes ao Espírito Santo, para que venha em auxílio dos nossos desejos, e poderemos repetir, com palavras de São Josemaria: Senhor nosso, aqui nos tens, dispostos a escutar tudo o que queiras dizer-nos. Fala-nos; estamos atentos à Tua voz. Que as Tuas palavras, caindo na nossa alma, abrasem a nossa vontade, para que se lance fervorosamente a obedecer-Te![23]

Link:

Página da Custódia da Terra Santa



[1] Cfr. Js 4, 4-24.

[2] Cfr. Js 8, 18-19.

[3] Cfr. Js 19, 10-34.

[4] Cfr. Dt 33, 19.

[5] Cfr. Os 5, 1.

[6] Cfr. Sal 89, 13.

[7] Cfr. Jr 46, 18.

[8] Lc 9, 28-33; Mt 17, 1-4; Mc 9, 2-5

[9] Mt 16, 16. Cfr. Mc 8, 29; e Lc 9, 20.

[10] Cfr. Catecismo da Igreja Católica, nºs 555 e 568.

[11] Cfr. Mt 16, 21; Mc 8, 31; e Lc 9, 22.

[12] Catecismo da Igreja Católica nº. 555.

[13] Mt 17, 5. Cfr. Mc 9, 7; e Lc 9, 34-35.

[14] São Jerônimo, Comentário ao Evangelho de São Marcos, 6.

[15] Joseph Ratzinger/Bento XVI, Jesus de Nazaré. Do Batismo no Jordão à Transfiguração, pág. 269.

[16] Amigos de Deus, nº. 172.

[17] Cfr. Conc. Vaticano II, Const. dogm. Dei Verbum, nº. 18-19.

[18] Forja, 322.

[19] É Cristo que passa, 107.

[20] É Cristo que passa, 107.

[21] Sulco, 672.

[22] Javier Echevarría, Palavras publicadas en Crónica, 1994, pp. 117 y 120 (AGP, biblioteca, P01).

[23] Santo Rosário, 4º Mistério Luminoso.