35 anos depois

Fez mais de 530 viagens de avião e trabalhou por todo o mundo para cumprir um sonho de criança. Teve dificuldades na vida. Perdeu pessoas muito próximas. Manuel, 52 anos, conta-nos a sua viagem de regresso a Deus, 35 anos depois.

Opus Dei - 35 anos depois

Chamo-me Manuel, tenho 52 anos. Sou engenheiro mecânico e a minha vida foi muito pouco exemplar até hoje. Queria dar o meu testemunho, esperando não escandalizar ninguém. A minha vida deu muitas voltas, teve momentos difíceis, mas Deus nunca me abandonou.

Nasci em Lisboa em abril de 1968. Sou filho único de um Gerente Comercial e de uma Professora de Desenho e talvez isso tenha feito de mim uma pessoa mais reservada. Tenho recordações vagas da minha infância: as memórias mais antigas são de uma viagem a Angola de visita a familiares, aos 3 anos. Recordo episódios da minha vida de estudante da primária na Escola João de Deus Ramos, das férias na praia da Ericeira ou perto de Arganil numa casa de família. Já em criança alimentava o sonho de um dia ter uma moto e de viajar muito por todo o mundo.

E as viagens começaram. Quando tinha onze anos, o meu pai conseguiu um emprego melhor em Coimbra e mudei-me com toda a família para a nova cidade. Novos amigos, nova escola, um pouco estranho ao início, mas fui-me adaptando. Foi precisamente no Colégio de São Teotónio onde um colega de turma me falou pela primeira vez do Opus Dei. Convidou-me para umas aulas de radiomodelismo no Clube Prisma, uma iniciativa do Opus Dei em Coimbra. Por comodismo, disse-lhe que não queria ir, que preferia as atividades de eletrônica que tinha como “hobby”.

Com a minha mãe e o meu primo numa viagem a Angola, quando tinha 3 anos Os meus pais procuravam transmitir-me a fé. Fui batizado em Lisboa e ia à Missa aos domingos. Quando cheguei ao 8.º ano, tive uma crise de fé típica da adolescência. A minha mãe, com espírito de liberdade perguntou-me se desejava ser crismado e eu respondi-lhe que não. A coisa ficou por ali durante as quatro décadas que se seguiram. No entanto, não fui um rebelde: eram frequentes as boas conversas com os meus pais, que me ensinaram muito e sempre me trataram com todo o carinho e respeito.

O meu pai gostava de futebol e convidava-me para ir ver os jogos da Académica nos domingos à tarde. Não sou nem nunca fui um grande adepto de futebol, mas fiquei sempre simpatizante da Académica.

Aproximou-se o momento de ir para a universidade. Eu queria estudar Engenharia Aeronáutica, no Instituto Superior Técnico em Lisboa. Mas, como estava com os meus pais em Coimbra, para não os abandonar inscrevi-me em Engenharia Mecânica na Universidade de Coimbra em setembro de 1986. Sempre tive facilidade para estudar matérias técnicas. Gostei do curso e tive boas notas. O ambiente estudantil em Coimbra era especial: havia muita vida fora da universidade. Fiz grandes amigos nas aulas, nos laboratórios, nos cafés e na Queima das Fitas. Amigos para a vida que vou reencontrando em jantares de curso para lembrar aqueles tempos.

Fiz grandes amigos durante a Universidade em Coimbra, nas aulas, nos laboratórios, nos cafés e na Queima das Fitas. (Manuel é o 2.º a contar da esq. na fila de cima).Acabei o curso com boas notas e com horizontes elevados. Mas como tinha o sonho de viajar e gosto pelo mundo marítimo, a minha primeira experiência profissional foi diferente. Fui trabalhar na manutenção de um navio de cruzeiros no Caribe durante seis meses. Tinha de orientar e executar trabalhos muito simples de manutenção técnica: desde aspetos técnicos do navio até arranjar as panelas das cozinhas ou reparar as rodas das cadeiras dos deficientes.

Nesse navio conheci a primeira pessoa que me falou da indústria “offshore” de extração e produção de petróleo e gás. Isso interessava-me mais do que estar naquele navio. E, ingenuamente, decidi fazer um mestrado em Glasgow nessa área. Quando acabei o mestrado não tinha trabalho porque o mercado estava a passar anos difíceis e eu não tinha experiência profissional.

Só pensava no trabalho e em mim

Voltei a Portugal para ganhar essa experiência que me faltava. Trabalhei no sector das montagens industriais e num estaleiro naval na zona de Lisboa e Setúbal. Sabia que era por um tempo limitado, porque o meu interesse era voltar ao estrangeiro assim que surgisse essa oportunidade. Não pensava em namoro ou constituir uma família: era só eu e a minha carreira profissional.

Manuel com um amigo com quem fez todo-o-terreno. “Não pensava em namoro ou constituir uma família: era só eu e a minha carreira profissional”.E essa oportunidade chegou. Em abril de 1996 fui contratado por uma empresa para trabalhar em Leiden, uma cidade no sul da Holanda. Integrava uma equipe de projeto de uma unidade flutuante de armazenamento e transferência de petróleo. Apesar de estar num país novo, gostei muito do trabalho e da equipe. Passados seis meses em outubro recebo um telefonema: “Manuel, o teu pai tem um câncer em fase terminal”. Foi um acordar violento. Agora que tudo se parecia encaminhar, tomei a difícil decisão de voltar para Portugal para acompanhar o meu pai. Ainda hoje estou certo que fiz o que devia. E pensava: “Deus, e tu onde andas no meio disto tudo?”. Foi uma altura onde me senti muito perdido. O meu pai acabou por falecer seis meses depois e hoje acho que esse tempo foi muito rico e mais valioso que qualquer linha do meu curriculum.

A morte do meu pai fez-me relativizar algumas questões na minha vida. Depois de algumas pequenas experiências no estrangeiro, quis voltar a estudar e a viver em Coimbra, onde namorava. Fiz um mestrado na Bélgica em Aerodinâmica Industrial, de que gostei muito, inserido num doutoramento na Universidade de Coimbra em Engenharia Mecânica. Lá reencontrei um professor, cristão, que, conhecendo um pouco o ziguezague da minha vida me falou de Deus, e dos escritos de São Josemaria. Na altura, a hipótese de voltar a Deus estava descartada, mas recordo que li com gosto alguns textos do fundador do Opus Dei.

"A hipótese de voltar a Deus estava descartada, mas recordo que li com gosto alguns textos do fundador do Opus Dei". O meu doutoramento e o namoro não correram muito bem. Tinha novamente vontade de voltar ao estrangeiro. Em 2001 fui para os Estados Unidos (Dallas) para trabalhar na construção de plataformas de perfuração. Lembro-me de passar lá o 11 de setembro de 2001 (atentado das Torres Gêmeas), metido num gabinete a acabar um projeto importante. Só me dei conta do que tinha acontecido no dia seguinte. Estive, pela mesma empresa, em Singapura.

Embora estivesse fora do país, voltava a Portugal com frequência. Na altura retomei o contacto com uma amiga do liceu, começamos a namorar à distância, ela visitou-me em Singapura e decidimo-nos casar em 2003. Casamo-nos em Penacova. Pensava que seria o momento em que me estabilizaria com a minha família em Portugal até porque voltei a trabalhar no nosso país num terminal de gás na zona de Sines.

Mas Deus tem os seus caminhos, torcidos e difíceis de compreender. A minha mulher morreu seis meses depois do nosso casamento. Naquele momento, toquei o fundo da revolta interior, que se prolongou por anos e cheguei a perguntar-me: “Deus, se existes, onde estás?”. Voltei a agarrar-me ao trabalho, mesmo desmoralizado.

A minha mulher morreu seis meses depois do nosso casamento. Naquele momento, toquei o fundo da revolta interior, voltei a perguntar-me: “Deus, se existes, onde estás?” “Ninguém gosta tanto de ti como os teus pais”

Decidido a isolar-me num trabalho a bordo, decidi aceitar uma proposta de uma empresa dinamarquesa na área do offshore. Tive projetos na Noruega e Tailândia.Mais tarde consegui por fim trabalhar nas plataformas offshore em alto mar. Estive na Escócia, Angola, Canadá e Brasil. O trabalho é muito intenso e tive grandes desafios técnicos para arrancar e manter em funcionamento as plataformas: incêndios a bordo, tempestades, inundações, fugas de gás; embora as pessoas pensem que é “andar de helicóptero todo o dia”.

Agradava-me a ideia de trabalhar intensa, mas intermitentemente, por períodos típicos de quatro semanas e dispor do tempo restante para “mim”, num espírito muito egoísta tentando convencer-me da minha auto-suficiência. Nos meus tempos livres aproveitava, sempre que podia, para viajar a Portugal para estar com a minha mãe e andar de moto, gosto que fomentei com alguns amigos portugueses. Também sempre li muito, mas nem sempre essas leituras foram as que mais me convinham.

Numa unidade offshore vive-se uma grande multiculturalidade. Tinha colegas de todos os pontos do mundo com quem tinha grandes conversas nas pausas ou nos fins dos turnos. Um dia a bordo do “Cidade de Saquarema” (na Bacia de Santos, Brasil) o tema “Deus” veio à conversa com um colega indiano que era hindu, uma pessoa de grande fé. Mesmo antes de saber dos desaires da minha vida, disse-me: “Ninguém gosta tanto de ti como os teus pais. Se eles te formaram na fé católica, isso foi porque querem o teu bem”. Naquele momento pensei: “Quem sou eu para duvidar de tudo isto? Não será que vivo numa grande arrogância?”. Aquela conversa, em alto mar foi crucial. Foi o começo da segunda parte da parábola do filho pródigo.

Numa offshore vive-se uma grande multiculturalidade. Tinha colegas de todos os pontos do mundo com quem tinha agradáveis conversas. Até porque algo me faria voltar a Portugal em 2019. Depois de mais de 530 viagens de avião na minha carreira (eu guardo todos os boarding passes dos voos), foi-me diagnosticado um problema de saúde vascular congênito que se tornou manifesto em virtude do excesso de viagens de avião e helicóptero. Foi-me recomendado pelos médicos que não viajasse com tanta intensidade e, por isso, desde então voltei a Portugal definitivamente.

Pela mesma altura, veio a falecer um familiar de quem muito gostava e com quem privava bastante. Queria-lhe quase como a um pai. Vindo do mar, cheguei a Portugal a tempo do funeral na Igreja do Campo Grande. As palavras daquele sacerdote foram tão justas, tão apropriadas e inspiradas, que me tocaram de modo muito profundo.

Aprouve ainda entretanto a Deus converter a minha antiga namorada do tempo de investigador em Coimbra. Ela soube perdoar-me e continuamos amigos. O seu testemunho e as suas orações foram mais um bom exemplo que viria a frutificar.

Dias depois do referido funeral, fui submetido a uma intervenção cirúrgica programada. Tratava-se de um procedimento simples mas que teve algumas complicações e uma recuperação demorada. Nova ocasião para meditar e colocar toda a minha vida em equação. As peças do puzzle pareciam começar a esboçar uma imagem.

Finalmente, a viagem do filho pródigo

Quando recuperei da operação, resolvi acompanhar minha mãe à Missa aos domingos. Foi como se lhe perguntasse se lhe poderia fazer companhia num passeio. Senti-me em casa, ali na Paróquia das Mercês, com toda a naturalidade, como se não tivessem passado décadas desde que abandonara a prática religiosa. Mas o Senhor, na sua bondade, quis enviar-me outro sinal, já que a leitura do Evangelho desse domingo era nada menos do que a parábola do filho pródigo.

A partir daí retomei a minha prática sem interrupção e recomecei um período de catequese. Tive a alegria de receber em outubro passado a minha confirmação, numa cerimônia que se atrasou uns meses devido à pandemia. A minha madrinha foi a amiga de quem falei. Talvez por isso me tenha parecido ainda mais valiosa essa vinda do Espírito Santo, embora quatro meses de atraso não pareçam ter grande significado face às quatro décadas decorridas desde a pergunta inicial de minha mãe.

“Tive a alegria de receber em outubro de 2020 a minha Confirmação, numa cerimônia que se atrasou uns meses devido à pandemia. A minha madrinha foi a amiga de quem falei.” Mas foi também um pouco devido à pandemia que voltei ao contato com o Opus Dei. Contatei com o mesmo docente e amigo que me acompanhou durante o doutoramento em Coimbra. Recebeu a notícia da minha conversão com entusiasmo. Como as recolecções e círculos do centro de Coimbra se faziam de modo virtual, comecei a participar “de longe”. Finda a “1ª onda” da pandemia, comecei a frequentar outro centro da Obra, mais próximo, na região de Lisboa. Aceitei o desafio de procurar um diretor espiritual.

Estou agora em Portugal, onde penso estabelecer-me como consultor na área energética. Vivo com a minha mãe em Lisboa. Não posso terminar sem falar de Nossa Senhora. Fui batizado, fiz a minha 1ª comunhão e agora fui crismado na Paróquia de Nossa Senhora de Fátima em Lisboa. Depois da conversão, pude também voltar ao Santuário de Fátima com os olhos novos de um crente e pensei: “Como é bom estar aqui!”. Sei que Ela não desistiu para que, como na parábola dos trabalhadores da vinha, eu fosse um dos contratados das “cinco da tarde”. Espero vir a merecer ainda o meu denário. E neste percurso sinuoso, com não poucas dificuldades, estou muito agradecido aos meus pais, aos meus amigos, à Igreja em Portugal e ao Opus Dei.