Jerusalém: O Calvário

A nona estação da Via Dolorosa tinha-nos deixado muito perto do Calvário. Até esse momento, tínhamos acompanhado Jesus com a Cruz às costas por um itinerário que nos foi transmitido pela piedade secular do povo cristão. Agora encontramo-nos perante o lugar central da nossa fé, que poderíamos considerar o mais sagrado da Terra Santa: o sítio onde Jesus Cristo foi crucificado, morto e sepultado, e ao terceiro dia ressuscitou dos mortos.

Opus Dei - Jerusalém: O Calvário

A IX Estação da Via Dolorosa tinha-nos deixado muito perto do Calvário. Até esse momento, tínhamos acompanhado Jesus com a Cruz às costas por um itinerário que nos foi transmitido pela piedade secular do povo cristão. Agora encontramo-nos perante o lugar central da nossa fé, que poderíamos considerar o mais sagrado da Terra Santa: o sítio onde Jesus Cristo foi “crucificado, morto e sepultado”, e “ressuscitou ao terceiro dia”[1].

Poucas dezenas de metros separam o Calvário do túmulo do Senhor. Toda a zona está dentro da basílica do Santo Sepulcro, também chamada da Ressurreição pelos cristãos orientais. Aos olhos dos peregrinos, apresenta-se com uma arquitetura singular, que pode até ser considerada desordenada ou caótica. No exterior, está formada por várias formas sobrepostas e acrescentadas, entre as quais se destaca um campanário truncado; sobre essa aglomeração de edificações e terraços, levantam-se duas cúpulas, uma maior do que a outra, que caracterizam o perfil de Jerusalém. O interior está configurado como um conjunto complexo de altares e capelas, grandes e pequenas, fechadas por paredes ou abertas, dispostas em diferentes níveis com comunicação através de escadas.

Esta aparência surpreendente mais não é do que o resultado da sua atribulada história: talvez nenhum outro lugar do mundo tenha passado por tantas edificações, demolições, reconstruções, incêndios, terremotos, restaurações... A tudo isto há que acrescentar que a propriedade da basílica é partilhada entre a Igreja católica – representada pelos franciscanos, que guardam os Santos Lugares desde 1342 – e as Igrejas ortodoxas grega, armênia, copta, síria e etíope, que gozam de diferentes direitos.

Os franciscanos da Custódia da Terra Santa fazem uma procissão nalguns dias da Quaresma. Foto: Marie-Armelle Beaulieu/CTS.

O lugar da Caveira

Os Evangelhos transmitiram-nos que levaram Jesus e conduziram-no ao lugar chamado Gólgota, que significa “lugar da crânio”[2]. Ali o crucificaram, e com ele outros dois, um de cada lado, e Jesus no meio[3]. Esse local estava perto da cidade[4]; portanto, fora do recinto das muralhas. No lugar em que ele foi crucificado havia um jardim, e no jardim um sepulcro novo, em que ninguém ainda fora depositado[5]. Quando Jesus morreu, Foi ali que depositaram Jesus por causa da Preparação dos judeus e da proximidade do túmulo[6].

Pesquisas arqueológicas encontraram outros túmulos da mesma época nas proximidades do Calvário, pela basílica é possível ter acesso a esta zona. Este dado confirma que então toda aquela zona se encontrava fora de Jerusalém, pois a lei judaica proibia os enterros dentro das suas muralhas. Alguns estudiosos também identificaram a zona como uma antiga pedreira abandonada, da qual o Gólgota seria o ponto mais alto: isto estaria de acordo com vários testemunhos primitivos, que descrevem um terreno rochoso com numerosos fragmentos de pedra. Em resumo, embora hoje o Santo Sepulcro ocupe praticamente o centro da Cidade Antiga, devemos imaginar o lugar da crucifixão nos arredores, tendo em vista as muralhas e, sobre um penhasco que se elevava a vários metros do solo, um caminho transitado entre outros rochedos menores, pomares fechados e sepulturas.

Os cristãos de Jerusalém conservaram a memória do local, de forma que não se perdeu, apesar das dificuldades. No ano 135, após ter sufocado a segunda revolta dos judeus contra Roma, o imperador Adriano ordenou que a cidade fosse arrasada e construiu uma nova em cima: a Aelia Capitolina. A área do Calvário e o Santo Sepulcro, incluída na nova superfície urbana, foi coberta com um aterro e foi edificado ali um templo pagão. São Jerônimo relata, no ano 395, recolhendo uma tradição anterior: “desde os tempos de Adriano até ao império de Constantino, pelo espaço de uns cento e oitenta anos, no lugar da ressurreição prestava-se culto a uma estátua de Júpiter e, na rocha da cruz, a uma imagem de Vênus de mármore, posta ali pelos gentios. Os autores da perseguição pensavam, sem dúvida, que, se contaminassem os lugares sagrados por meio de ídolos, nos iam tirar a fé na ressurreição e na cruz”[7].

A mesma construção que ocultou o Gólgota à veneração cristã contribuiu para a sua preservação até o séc. IV. No ano 325, o bispo de Jerusalém Macário pediu e obteve autorização de Constantino para derrubar os templos pagãos levantados nos Santos Lugares. Sobre o Sepulcro de Jesus e o Calvário, uma vez descobertos, projetou-se uma obra magnífica: “convém, portanto – escreveu o Imperador a Macário – que a tua prudência disponha e preveja tudo o for necessário, de modo que não só se realize uma basílica melhor que qualquer outra, mas que também o resto seja tal que todos os monumentos mais belos de todas as cidades sejam superados por este edifício”[8].

Graças às fontes documentais e às escavações arqueológicas – realizadas sobretudo no séc. XX –, sabemos que o complexo tinha três partes, dispostas de oeste a este: um mausoléu circular com o túmulo no centro, chamado Anástasis (ressurreição); um pátio quadrangular com pórticos em três dos seus quatro lados, a céu aberto, onde estava a rocha do Calvário; e uma basílica para celebrar a Eucaristia, com cinco naves e átrio, conhecida como Martyrion (testemunho). A igreja foi dedicada no ano 336. Desse antigo esplendor constantiniano resta muito pouco: devastado pelos persas em 614 e restaurado pelo monge Modesto, o complexo sofreu terremotos e incêndios até que finalmente foi destruído em 1009 por ordem do sultão El-Hakim; a forma atual deve-se ao restauro do imperador bizantino Constantino Monômaco (séc. XI), à obra dos cruzados (séc. XII) e a outras transformações posteriores.

Terminaremos o caminho da Via Dolorosa que deixamos em suspenso no artigo sobre a Via Sacra. Tínhamos começado, pela mão de São Josemaria, com espirito contemplativo:

Na meditação, a Paixão de Cristo sai do marco frio da história ou da consideração piedosa, para se apresentar diante dos olhos, terrível, opressiva, cruel, sangrante..., cheia de Amor[9].

Perto do Calvário, um mosaico representa a descida de Cristo e a sua sepultura. Foto: Alfonso Puertas.

X estação: despojam Jesus das Suas vestes

Logo ao entrar no Santo Sepulcro, à direita, duas escadas de pedra muito íngremes conduzem às capelas do Gólgota, o lugar do suplício. Encontram-se a uns cinco metros acima do nível da basílica. Quando chegam em cima, os peregrinos costumam contemplar a X Estação.

Quando o Senhor chega ao Calvário, dão-Lhe a beber um pouco de vinho misturado com fel, como um narcótico que diminua em parte a dor da crucifixão. Mas Jesus, tendo-o provado, para agradecer esse piedoso serviço, não quis bebê-lo (cfr. Mt 27, 34). Entrega-se à morte com a plena liberdade do Amor.
Depois, os soldados despojam Cristo de suas vestes (...) e as dividem em quatro partes. Mas a túnica não tem costura, e por isso dizem: Não a dividamos, mas lancemos sortes para ver de quem será (Jo 19, 24).
Deste modo voltou a cumprir-se a Escritura: Repartiram entre si as minhas vestes e lançaram sortes sobre a minha túnica (Sl 21, 19).
É o espólio, o despojamento, é a pobreza mais absoluta. Nada restou ao Senhor, a não ser um madeiro.
Para chegar a Deus, Cristo é o caminho. Mas Cristo está na Cruz; e, para subir à Cruz, é preciso ter o coração livre, desprendido das coisas da terra
[10].

A décima estação da Via Dolorosa costuma contemplar-se quando se começa a subir o Gólgota, uns metros antes da capela da Crucifixão, onde se encontra a décima primeira estação. Foto: Marie-Armelle Beaulieu/CTS

XI estação: Jesus é pregado na Cruz

Alguns passos separam a X da XI Estação, recordada com um altar. A cena da crucifixão está representada em cima, num mosaico. A capela pertence aos franciscanos da Custódia da Terra Santa.

Já pregaram Jesus ao madeiro. Os verdugos executaram impiedosamente a sentença. O Senhor deixou, com mansidão infinita.
Não era necessário tanto tormento (...) Mas quis sofrer tudo isso por ti e por mim. E nós não havemos de saber corresponder?
É muito possível que nalguma ocasião, a sós com um crucifixo, te venham as lágrimas aos olhos. Não te contenhas... Mas procura que esse pranto acabe num propósito
[11].

Por baixo do altar do Calvário, um círculo de prata indica o sítio onde se levantou a Cruz. Foto: Leobard Hinfelaar.

XII estação: Jesus morre na Cruz

À esquerda da capela da Crucifixão, encontramos a capela do Calvário, propriedade da Igreja ortodoxa grega. Ergue-se sobre a rocha venerada, visível aos lados do altar através de um vidro. Debaixo, um disco de prata, aberto no centro, marca o buraco onde foi erguida a Cruz.

Na parte alta da Cruz está escrito o motivo da condenação: Jesus Nazareno, Rei dos judeus (Jo 19, 19). E todos os que passam por ali O injuriam e fazem troça d’Ele.
Se é o rei de Israel, que desça agora da cruz (Mt 27, 42).
Um dos ladrões sai em sua defesa:
Este não fez mal algum... (Lc 23, 41).
Depois dirige a Jesus um pedido humilde, cheio de fé:
Senhor, lembra-te de mim quando estiveres no teu reino (Lc 23, 42).
Em verdade te digo que hoje mesmo estarás comigo no Paraíso (Lc 23, 43).
Junto à Cruz está sua Mãe, Maria, com outras santas mulheres. Jesus olha para Ela, e depois olha para o discípulo a quem ama, e diz à sua Mãe:
Mulher, aí tens o teu filho.
Depois diz ao discípulo:
Aí tens a tua mãe (Jo 19, 26-27).
Apagam-se as luminárias do céu, e a terra fica sumida em trevas. São perto das três, quando Jesus exclama:
Eli, Eli, lamma sabachtani? Isto é: Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste? (Mt 27, 46).
Depois, sabendo que todas as coisas estão prestes a ser consumadas, para que se cumpra a Escritura, diz:
— Tenho sede (Jo 19, 28).
Os soldados embebem em vinagre uma esponja e, pondo-a numa haste de hissopo, aproximam-lha da boca. Jesus sorve o vinagre e exclama:
Tudo está consumado (Jo 19, 30).
Rasga-se o véu do templo e a terra treme, quando o Senhor clama em voz forte:
— Pai, em tuas mãos encomendo o meu espírito (Lc 23, 46).
E expira.
Ama o sacrifício, que é fonte de vida interior. Ama a Cruz, que é altar do sacrifício. Ama a dor, até beberes, como Cristo, o cálice até a última gota
[12].

Na parte da rocha visível à direita, nota-se uma fenda atribuída ao terremoto que se produziu com a morte de Cristo: Jesus de novo lançou um grande brado, e entregou a alma. E eis que o véu do templo se rasgou em duas partes de alto a baixo, a terra tremeu, fenderam-se as rochas[13]. A fenda também se pode ver noutra capela imediatamente abaixo, dedicada a Adão. Segundo uma piedosa tradição, a que Orígenes já faz referência no séc. III, ali se encontraria o túmulo do primeiro homem; ao abrir-se a terra, o sangue do Senhor teria chegado aos seus restos, convertendo-o no primeiro redimido. Na iconografia cristã, esta lenda inspirou o costume de pôr uma caveira aos pés da Cruz.

XIII estação: Jesus é despregado da cruz e entregue à Sua Mãe

Esta cena contempla-se entre a capela da Crucifixão e a do Calvário, num altar dedicado à Nossa Senhora das Dores.

Submersa em dor, Maria está junto à cruz. E João, com Ela. Mas faz-se tarde, e os judeus instam em que tirem o Senhor dali.
Depois de ter obtido de Pilatos a autorização que a lei romana exige para sepultar os condenados, chega ao Calvário um senador chamado José, homem virtuoso e justo, oriundo de Arimateia, que não tinha concordado com a decisão dos outros nem com seus atos, antes era dos que esperavam o reino de Deus (Lc 23, 50-51). Acompanha-o Nicodemos – o mesmo que em outra ocasião fora de noite ter com Jesus —, trazendo cerca de cem libras de uma mistura de mirra e aloés (Jo 19, 39).

Não eram conhecidos publicamente como discípulos do Mestre; não tinham presenciado os grandes milagres nem O tinham acompanhado na sua entrada triunfal em Jerusalém. Agora que o momento é mau e os outros fugiram, não têm medo de expor-se pelo seu Senhor.

Tomam ambos o corpo de Jesus e o deixam nos braços de sua Santíssima Mãe. Renova-se a dor de Maria[14].

Devemos meditar no Senhor, ferido dos pés à cabeça por nosso amor. Com uma frase que se aproxima da realidade, embora não acabe de exprimir tudo, podemos repetir com um escritor de há séculos: O corpo de Jesus é um retábulo de dores. À vista de Cristo transformado num farrapo, convertido num corpo inerte descido da Cruz e confiado a sua Mãe; à vista desse Jesus despedaçado, poderia concluir-se que essa cena é a manifestação mais clara de uma derrota. Onde estão as multidões que o seguiam? E o Reino cujo advento anunciava? (…)

Situados agora perante o momento do Calvário, em que Jesus já morreu e ainda se não manifestou a glória do seu triunfo, temos uma excelente ocasião para examinarmos os nossos desejos de vida cristã, de santidade; para reagirmos com um ato de fé perante as nossas fraquezas e, confiantes no poder de Deus, fazermos o propósito de depositar amor nas coisas do nosso dia-a-dia. A experiência do pecado tem que nos conduzir à dor, a uma decisão mais amadurecida e mais profunda de ser fiéis, de nos identificarmos deveras com Cristo, de perseverar custe o que custar nessa missão sacerdotal que Ele confiou a todos os seus discípulos sem exceção, e que nos impele a ser sal e luz do mundo[15].

Esses desejos de fidelidade converter-se-ão em obras se recorrermos a Nossa Mãe, que desde a embaixada do anjo até à sua agonia ao pé da Cruz – não teve outro coração nem outra vida que não a de Jesus[16].

Diz: – Minha Mãe (tua, porque és seu por muitos títulos), que o teu amor me ate à Cruz de teu Filho; que não me falte a Fé, nem a valentia, nem a audácia para cumprir a vontade do nosso Jesus[17].

Ao entrar no Santo Sepulcro, o que o peregrino encontra em primeiro lugar é a Pedra da Unção. Foto: Alfonso Puertas

XIV estação: Jesus é sepultado

Descendo do Calvário e regressando ao átrio da basílica, encontramos a Pedra da Unção, que é muito venerada pelos cristãos ortodoxos. Trata-se de uma laje de pedra avermelhada com veios brancos, que recorda os cuidados que José de Arimateia e Nicodemos dedicaram ao corpo de Jesus.

Eu subirei com eles até junto da Cruz, apertar-me-ei ao Corpo frio, cadáver de cristo, com o fogo do meu amor..., despregá-lo-ei com os meus desagravos e mortificações..., envolvê-lo-ei com o lençol novo da minha vida limpa, e o enterrarei em meu peito de rocha viva, donde ninguém mo poderá arrancar – e aí, Senhor, descansai!
Quando todo o mundo Vos abandonar e desprezar..., serviam!, eu Vos servirei, Senhor![18].

Continuando para oeste, chega-se à Rotunda ou Anástasis, monumento circular fechado com uma cúpula, em cujo centro se levanta a capela com o túmulo do Senhor.

Muito perto do Calvário, num horto, José de Arimateia tinha mandado talhar para si um sepulcro novo, na rocha. E, por ser véspera da grande Páscoa dos judeus, é lá que põem Jesus. Depois, José rolou uma grande pedra à entrada do sepulcro e retirou-se (Mt 27, 60)”.

“Jesus veio ao mundo sem nada, e sem nada – nem mesmo o lugar onde repousa – foi-se-nos embora.
A Mãe do Senhor – minha Mãe – e as mulheres que tinham seguido o Mestre desde a Galiléia, depois de observarem tudo atentamente, vão-se embora também. Cai a noite.
Agora tudo passou. Concluiu-se a obra da nossa Redenção. Já somos filhos de Deus, porque Jesus morreu por nós e a sua morte nos resgatou.
Empti enim estis pretio magno! (I Cor 6, 20), tu e eu fomos comprados por um grande preço. Temos de converter em vida nossa a vida e a morte de Cristo. Morrer pela mortificação e pela penitência, para que Cristo viva em nós pelo Amor. E seguir então os passos de Cristo, com ânsias de corredimir todas as almas.
Dar a vida pelos outros. Só assim se vive a vida de Jesus Cristo e nos fazemos uma só coisa com Ele
[19].



[1] Símbolo dos Apóstolos.

[2] Mc 15, 22. Cf. Mt 27, 33; Lc 23, 33; e Jo 19, 17.

[3] Jo 19, 18.

[4] Jo 19, 20.

[5] Jo 19, 41.

[6] Jo 19, 42.

[7] S. Jerônimo, Ad Paulinum presbyterum, Ep. 58, 3.

[8] Eusébio de Cesareia, De vita Constantini, 3, 31

[9] São Josemaria, Sulco 993

[10] São Josemaria, Via Sacra, X Estação

[11] São Josemaria, Via Sacra, XI Estação, ponto 1.

[12] São Josemaria, Via Sacra, XII Estação.

[13] Mt 27, 50-51.

[14] São Josemaria, Via Sacra, XIII Estação.

[15] São Josemaria, É Cristo que passa, 95-96.

[16] São Josemaria, Via Sacra, XIII Estação, ponto 4.

[17] São Josemaria, Caminho, 497.

[18] São Josemaria, Via Sacra, XIV Estação, ponto 1

[19] São Josemaria, Via Sacra, XIV Estação