Então seus olhos se abriram (5): Para ver a beleza cotidiana

Terminamos esta série com um convite à beleza do cotidiano: descobrir como os objetos que usamos em nosso dia a dia encontram eco em nossa vida interior, utilizar “indústrias humanas” que despertem o coração de uma distração, e descobrir a importância das formas para configurar nosso mundo de modo mais cristão e, portanto, mais belo.

Um cineasta, uma cantora e uma dançarina de flamenco. Assim, tão variado, foi o trio de artistas que acompanhou o Papa Leão XIV durante seu encontro com o mundo da cultura em sua visita à Espanha. As intervenções dos convidados refletiam, com mais ou menos ênfase, a convicção de que um permanente diálogo entre a fé e a arte atravessa a história. O Papa falou de algumas contribuições do país que estava visitando: as setas da Semana Santa, o caráter místico da poesia de Santa Teresa e de São João da Cruz, a maestria literária de autores como Lope de Vega e Calderón de la Barca, ou a maravilhosa arquitetura da Sagrada Família de Antonio Gaudí.

Poderíamos acrescentar a essas obras extraordinárias muitos outros exemplos de diferentes partes do mundo. O Papa poderia ter seguido nessa direção, mas, em vez disso, abriu outra frente, carregada de sentido: convidou os presentes a pensar “se a eternidade, que irrompeu no tempo e no espaço mediante a encarnação de Jesus Cristo, pode voltar a reconciliar-se com o cotidiano”1.

A arte é, efetivamente, um lugar privilegiado para expressar e compreender realidades que nos ultrapassam. Não seria, porém, uma lástima limitar nossa atenção estética ao extraordinário, e perder-nos no caminho da beleza que as coisas pequenas de cada dia encerram? “Que eu veja com teus olhos, Cristo meu, Jesus de minha alma!”, repetia com frequência São Josemaria2. Os olhos do Filho de Deus, o seu olhar contemplativo, permitem-nos descobrir esse “algo de santo, de divino, escondido nas situações mais comuns”3. Como, porém, fazer essa descoberta? Como reconhecer a beleza em qualquer lugar à nossa volta?

“Seus olhos se abriram e o reconheceram”

Entre os relatos dos encontros com Jesus ressuscitado, há um que pode iluminar este desafio. “E quando estava à mesa – conta São Lucas – ele tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e lhes deu. Então seus olhos se abriram e o reconheceram” (Lc 24, 30-31). Os discípulos caminharam várias horas com Jesus, escutaram-no com atenção durante todo esse tempo e, no entanto, não o reconhecem até o momento em que Ele realiza um gesto com as mãos: Jesus parte o pão. O texto não diz que o aspecto do Senhor tenha mudado, como acontecera na transfiguração, mas que os olhos dos discípulos se abriram. Eles são testemunhas de que o encontro com Jesus ressuscitado, assim como a vida do Espírito Santo em nós, permite-nos reconhecer Deus na realidade da nossa vida, de uma forma completamente diferente.

Vamos reler, à luz da experiência dos discípulos de Emaús, a passagem do Gênesis em que a serpente seduz Adão e Eva com os efeitos do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal: “vossos olhos se abrirão e vós sereis como Deus” (Gn 3,5). Tratava-se de uma artimanha, uma mentira: apropriar-se da visão divina para determinar por si mesmos o bem e o mal, como se fosse possível saciar, fora de Deus, nossa sede infinita. Desde aquele engano, a natureza humana – nossos olhos, nosso olhar, nossa sensibilidade – ficou de tal forma ferida que o próprio Deus quis encarnar-se para que o homem recuperasse a profundidade do olhar para a qual Deus o criara. Desde a ressurreição de Jesus podemos falar de uma “redenção dos sentidos”. Emaús anuncia essa cura, e talvez por isso São Lucas retoma a mesma expressão do Gênesis: “seus olhos se abriram”. Não se trata agora de poder ver novos objetos: o coração a partir do qual olham é que se transformou; tornou-se possível uma percepção reconciliada com a verdade, o bem e a beleza do real.

O reconhecimento de Jesus acontece por meio de um gesto de suas mãos, de modo que os discípulos veem essa imagem apenas por um instante, antes que ela desapareça. No entanto, quando o gesto já passou e termina a “fração do pão”, permanece a transformação interior. Rememorando o que acabam de ver, os discípulos já não têm dúvida alguma: “Não estava ardendo nosso coração quando ele nos falava pelo caminho, e nos explicava as Escrituras” (Lc 24,32-33). A experiência os transformou por completo: são agora capazes de entender o que haviam dito os profetas, o sentido das coisas que tinham acontecido com eles, e inclusive o seu chamado. É esse novo olhar, transformado pela graça, que os leva a levantar-se imediatamente e regressar a Jerusalém para contar tudo aos outros.

Essa transformação cristã do olhar teve um desenvolvimento extraordinário na tradição religiosa do ícone. Quando alguém se coloca diante de um ícone, não se limita a observar algo, mas, de algum modo, descobre-se olhado. Os olhos, grandes e abertos, das figuras ali representadas, não reproduzem um traço físico, mas representam simbolicamente a sensibilidade redimida; uma capacidade desperta, purificada, simples, capaz de perceber no sensível e no material uma profundidade insuspeitada.

Belezas inesperadas

São Josemaria cultivou um olhar que sabia dar valor a tudo o que era comum e não deixava passar nem mesmo a coisa mais trivial sem que ela o levasse a Deus. “Não reparastes – perguntava certa vez – nas famílias, quando conservam uma peça decorativa de valor e frágil – um jarrão, por exemplo – como cuidam dele para que não se quebre? Até que um dia a criança, brincando, o joga ao chão, e aquela recordação maravilhosa se quebra em vários pedaços. O desgosto é grande, mas imediatamente vem o conserto: recompõe-se, cola-se cuidadosamente e, uma vez restaurado, acaba por ficar tão belo quanto antes. Mas, quando o objeto é de louça ou simplesmente de barro cozido, geralmente bastam uns grampos, esses arames de ferro ou de outro metal, que mantêm unidos os pedaços. E a peça, assim reparada, adquire um encanto original”4.

Esta observação estética assemelha-se ao que, na arte japonesa, se chama kintsugi: peças que, em vez de esconder as gretas de uma rachadura, ressaltam-nas com material visível, muitas vezes inclusive misturado com pó de ouro. Mas, enquanto este ensinamento anima-nos a abraçar nossas feridas no plano mais humano, São Josemaria leva a imagem do jarrão reconstruído com grampos à vida interior. E vice-versa: da vida interior ao jarrão reconstruído. Contemplação divina em meio aos objetos cotidianos.

Em outra ocasião, referindo-se concretamente a uma sopeira consertada com grampos que lhe tinham dado de presente em Portugal, dizia também: “Fiz oração com aquela velha peça de louça, porque também me vejo assim: como a sopeira de barro, quebrada e com grampos, e gosto de repetir ao Senhor: com os meus grampos, amo-te tanto! Podemos amar o Senhor também estando quebrados, meus filhos”5. Talvez então nos perguntemos: como pode um objeto aparentemente intranscendente despertar também em nós o amor a Deus? Como viver continuamente em oração, descobrindo a beleza das coisas e das pessoas que nos rodeiam?

Do exterior à profundidade do real

As criações artísticas têm um caráter extraordinárioque não podemos apreciar continuamente. Isso também acontece com pessoas que desenvolveram uma sensibilidade artística especial: nem todas conseguem apreciar cada uma das artes. E, embora seja muito bom aprofundar este tipo de formação, talvez seja inclusive mais importante desenvolver uma sensibilidade capaz de perceber a dimensão estética do cotidiano. Porém, esta é uma disposição para a qual poucas vezes fomos preparados.

Toda realidade possui uma dimensão estética porque tudo nos aparece de um modo sensível: com determinada forma, textura, volume, cor etc. Essas características configuram os espaços, objetos ou gestos... também influem em nossa reação diante deles. Reconhecer esta dimensão estética de tudo o que nos rodeia não significa afirmar que tudo seja belo, mas que a dimensão estética do que está à nossa volta influi, muitas vezes sem que o percebamos, em nossa visão da realidade.

“As pessoas, geralmente, têm uma visão plana, pegada à terra, de duas dimensões. Quando a tua vida for sobrenatural, obterás de Deus a terceira dimensão: a altura. E, com ela, o relevo, o peso e o volume”6. A graça de Deus, a ação do Espírito criador em nós, é o vetor fundamental que dirige este processo para levá-lo à sua plenitude. Porque perceber a dimensão estética – e simbólica, e sacramental – da realidade não nos transforma em estetas: antes desenvolve um espírito contemplativo que nos permite, pouco a pouco, descobrir esse mundo invisível que sustenta o mundo visível e que o ultrapassa em amplitude e em riqueza. Aprendemos a decifrar em tudo a presença de Deus que nos procura; acolhemos a realidade e as pessoas tal como são. Esse espírito contemplativo conduz, finalmente, como indicava Joseph Ratzinger, a “ganhar uma nova, mais profunda capacidade de ver, cumprir a passagem daquilo que é meramente exterior em direção à profundidade da realidade, de modo que o artista veja aquilo que os sentidos, enquanto tais, não veem, e aquilo que, no entanto, aparece no sensível: o esplendor da glória de Deus, a ‘glória de Deus no rosto de Cristo’ (2 Cor 4,6)”7.

Despertadores da alma

Para este desafio de transformação do olhar, podem ser úteis aquelas pequenas ajudas que São Josemaria chamava, trazendo um modo de dizer clássico na tradição espiritual, “indústrias humanas”. Esses simples lembretes cotidianos fazem parte da busca e da descoberta da beleza no que é comum: ajudam-nos a não perder de vista a presença de Deus ou a retomar o diálogo com Aquele que nunca, nem por um instante, deixou de estar em nós e junto de nós, mesmo quando nos deixamos distrair.

As “indústrias humanas” chamam-se assim porque consistem em iniciativas pessoais que facilitam a descoberta da profundidade do que estamos fazendo. São Josemaria chamava-as também “despertadores”, porque nos despertam para o resplendor do real, para sua “vibração de eternidade”8. Ter mais presente alguma frase da Sagrada Escritura durante o dia, fazer com carinho e serenidade gestos cotidianos como abrir uma porta ou subir escadas... “Essas práticas hão de levar-te, quase sem o perceberes, à oração contemplativa. Brotarão da tua alma mais atos de amor, jaculatórias, ações de graças, atos de desagravo, comunhões espirituais. E isso enquanto cuidas das tuas obrigações: quando atendes ao telefone, quando tomas um meio de transporte, quando fechas ou abres uma porta, quando passas diante de uma igreja, quando começas uma nova tarefa, enquanto a realizas e quando a concluis. Tudo referirás ao teu Pai-Deus”9.

Além de indicar o valor divino que o gesto aparentemente mais banal podia ter – o próprio Cristo fala do imenso valor de “dar um copo de água” (Mc 9, 41) – São Josemaria também via nos objetos maisintranscendentes, sem nenhum tipo de conteúdo religioso, despertadores para a alma.

São Josemaria “brincava” neste sentido com os objetos mais variados: um mapa-múndi, um burrinho, uma fotografia... Durante muitos anos, havia em sua escrivaninha, servindo de peso para papéis, um isolador de vidro dos que se usavam nos postes de luz para impedir que a corrente elétrica escapasse e evitar incêndios ou que alguém fosse eletrocutado. Este objeto lhe recordava sua “obrigação de não ser isolador e de transmitir o espírito da Obra”10.

São Josemaria animava cada um a escolher seus próprios objetos, que ajudassem a “ver a Deus em todas as coisas da Terra: nas pessoas, nos acontecimentos, no que é grande e no que parece pequeno, no que nos agrada e no que se considera doloroso”11. José Esparza, supernumerário, contava-lhe, por exemplo, em uma carta, como encontrava a Deus através de seu instrumento musical, o bumbo: “Sou eu que animo as festas, de modo que para cada golpe que dou neste bumbo que está vendo eu rezei milhares de jaculatórias, pois o toco há 17 anos”12.

Então, o mundo inteiro é Emaús

Como dizia São João Paulo II em sua Carta aos artistas, nem todos somos chamados a ser artistas no sentido profissional da palavra. Mas “todo o homem recebeu a tarefa de ser artífice da própria vida: de certa forma, deve fazer dela uma obra de arte, uma obra-prima”13. O horizonte da estética expande-se então muito além do âmbito das artes, até o próprio coração da existência humana. Todos somos chamados a continuar a obra da criação; evidentemente, através de nosso trabalho, mas também através de cada uma de nossas decisões, que dão forma ao mundo. Cada ação humana toma determinada forma e gera modos de habitar a realidade que influem, para o bem ou para o mal, nos outros. A dimensão estética de nossas ações manifesta a importância do modo como fazemos as coisas, segundo recorda Antonio Machado, citado por São Josemaria: “Devagarinho, e boa letra; que fazer as coisas bem, importa mais que fazê-las”14.

A ação cuidadosa, contemplativa, não procura a eficácia, nem se limita a realizar o estritamente necessário ou a cumprir de forma mecânica nossos deveres, mas traz consigo a gratuidade própria do amor. Este cuidado do real adquire uma profundidade imensa, nova, quando é vivido em união com Cristo. São Josemaria costumava expressar isso aludindo a uma velha história: “Quantas vezes não tenho falado do mito do rei Midas, que convertia em ouro tudo o que tocava! Podemos converter tudo o que tocamos em ouro de méritos sobrenaturais, apesar dos nossos erros pessoais”15.

O ouro do cotidiano não surge do esforço por fazer coisas diferentes, mas do carinho com que são feitas, a partir de uma relação que atravessa e ilumina tudo. Assim, podemos compreender em toda a sua profundidade o que São Josemaria vislumbrava ao dizer que “Emaús é o mundo inteiro, porque o Senhor abriu os caminhos divinos da terra”16. Só através do novo olhar, da nova sensibilidade que o Ressuscitado nos oferece, podemos “converter a prosa diária em decassílabos, em verso heroico”17.


1 Leão XIV, Discurso no encontro “Criar redes com o mundo da cultura, da arte, da economia e do esporte”, 7/06/2026.

2 São Josemaria, Anotações de uma meditação, 19/03/1975.

3 São Josemaria, Entrevistas, n. 114.

4 São Josemaria, Amigos de Deus, n. 95.

5 São Josemaria, citado em J. Gil e E. Muñiz, “Que só Jesus brilhe”, p. 181, em opusdei.org.

6 São Josemaria, Caminho, n. 279.

7 J. Ratzinger “O sentimento das coisas, a contemplação da beleza”, Mensagem para o meeting de Rimini, agosto de 2002, em vatican.va.

8 São Josemaria, Forja, n. 917.

9 São Josemaria, Amigos de Deus, n. 149.

10 A. Sastre, Tiempo de caminar, Rialp, 1989, p. 174.

11 São Josemaria, Em diálogo com o Senhor, n. 108.

12 “José Esparza, o supernumerário do Opus Dei que tocou bumbo durante 17 anos nas festas de seu povoado”, em www.alfayomega.es, 6/03/2026.

13 São João Paulo II, Carta aos artistas, 4/04/1999, n. 2.

14 Entrevistas, n. 116.

15 Amigos de Deus, n. 308.

16 Ibid., n. 314.

17 São Josemaria, É Cristo que passa, n. 50.

Raquel Cascales