O rei Davi havia pecado gravemente. Apesar de ter “o rio das gerações, desde Abraão até Jesus Cristo, rugindo em seu sangue como Deus”1, ele se deixou enganar pelo mal. Ele tomou a mulher de Urias, um dos homens mais fortes de seu exército, e enviou este último para lutar na linha de frente, para que morresse. Ele, que carregava “os dez mandamentos em seu coração”2, estava cego para reconhecer seu profundo erro. Então, o profeta Natã, enviado pelo Senhor, dirige-se ao palácio de Davi. Curiosamente, o profeta não veio para recitar-lhe a lei mosaica nem para lembrá-lo de suas responsabilidades como guia do povo escolhido. Ao se encontrar cara a cara com Davi, ele diz, sem mais preâmbulos: “Numa cidade havia dois homens” (cf. 2Sm 12,1-7). Natã conta uma história a Davi.
Esse homem és tu
O profeta conta a história de um homem rico que, apesar de ter ovelhas em abundância, não hesita em tomar uma ovelhinha — o único bem de seu vizinho pobre, que a cuidava como se fosse sua própria filha — para servi-la em um banquete a um convidado. Davi ouve atentamente o relato de Natã, e a indignação vai crescendo nele até que se levanta e exclama: “o homem que fez isso merece a morte!” Davi chega até a calcular rapidamente a indenização financeira necessária para reparar a injustiça. Então, o profeta encerra a narrativa e considera sua tarefa cumprida. “Esse homem és tu!”, limita-se a dizer, como única chave de interpretação. Natã não precisa dizer mais nada. Nem Davi: mais claro, impossível. Como testemunho de seu arrependimento, temos o Salmo 51, uma súplica do rei pecador a Deus3.
O que aconteceu durante aqueles minutos no coração e na mente de Davi? Por que uma história fictícia fez com que o rei enxergasse com clareza a mentira em que vivia? Uma história pode esclarecer algo que não compreendíamos bem sobre o mundo ou sobre nós mesmos? Uma história que, na verdade, nunca aconteceu não é, afinal, algo trivial? Perguntas como essas seriam feitas por Aristóteles séculos mais tarde, ao escrever suaPoética. O filósofo grego queria entender por que, ao observar as ações dos personagens em uma peça teatral, ele tinha a sensação de descobrir algo novo em seu interior. Assim nasceu esse tratado, que se tornaria uma referência não apenas para roteiristas e autores, mas também para os espectadores — na época, do teatro; hoje, também do cinema ou das séries de televisão4 — que desejassem aproveitar ao máximo os momentos em que se sentavam para assistir a uma história.
Nosso mundo em uma tela
Na história das artes, a invenção da fotografia marcou um antes e um depois. Pela primeira vez, os artistas puderam ter como material de trabalho não o barro ou os pigmentos, mas uma reprodução automática da própria realidade: um pedaço do mundo, um desenho feito com a própria luz. Daí nossa fascinação por fotografias antigas: mesmo quando não conseguimos distinguir facilmente o que acontece nessas imagens desfocadas ou identificar bem quem é quem, o que nos cativa nesses retratos em preto e branco é, na verdade, sua origem, a própria realidade. A fotografia, a escrita da luz, “nos permite admirar, em sua reprodução, o original que nossos olhos não teriam sabido amar”5, como observou um dos grandes estudiosos do mundo audiovisual.
Com a fotografia, surgiu uma arte intimamente ligada à realidade, a ela ancorada como uma estátua ao seu molde. Era apenas uma questão de tempo para que surgisse o próximo elo: o cinema, essa projeção da realidade em seu dinamismo permanente, uma tela que parecia capaz de conter o mundo e girar com ele. Não é raro perceber um profundo espanto diante daquele movimento misterioso que acontecia na tela nas crônicas das primeiras exibições cinematográficas.
A cada novo avanço nas técnicas de filmagem e edição, um novo debate surgia sobre o que é, propriamente, o cinema. Em linhas gerais, no entanto, podemos dizer que a fascinação por filmes e séries surge quando nos deparamos com a projeção do nosso mundo e, mais especificamente, quando contemplamos as decisões que acontecem ali dentro. Um “dentro” que é, paradoxalmente, ao mesmo tempo, aqui fora, mesmo nos filmes de fantasia ou animação. Quando nossa atenção é conquistada pelo audiovisual, algo semelhante ao que aconteceu com o rei Davi ao ouvir Natã acontece conosco. O que o rei fez sentado no salão de seu palácio e o que o filósofo fez na ágora grega, nós fazemos hoje muitas vezes ao assistir a uma série de televisão em casa, a um filme no cinema ou em qualquer outro lugar por meio das mil telas que nos cercam: concentramos nossos sentidos nas histórias.
A contemplação no mundo do cinema
Um olhar superficial poderia levar a pensar que esses momentos de imersão em uma narrativa audiovisual são um parêntese em nossa relação com Deus. No entanto, para uma alma que busca percorrer caminhos de oração, pode acontecer exatamente o contrário: se a contemplação, mais do que fazer muitas coisas, consiste em ouvir Deus que nos fala por meio do que nos rodeia, as histórias também podem nos levar até Ele. O Senhor está sentado ao nosso lado, desejando que vejamos o que Ele vê — deixando-nos impressionar com o que os outros têm a contar, às vezes doloroso — e afinando nossa sensibilidade para ouvir ou nos maravilharmos com gestos e pequenas coisas. Apreciar o que é belo purifica os nossos sentidos, muitas vezes saturados de sensações fortes, e nos torna mais sensíveis ao que nos cerca, estabelecendo as bases humanas para a contemplação sobrenatural.
“Como é difícil ler!”6, exclamou, surpreso, um filósofo contemporâneo. O mesmo pode ser dito do cinema: assistir a um bom filme nem sempre é fácil. Para apreciar coisas cada vez melhores e descobrir o que se esconde por trás da primeira aparência, é preciso se cultivar e aprender, como as crianças, que aos poucos vão descobrindo sabores mais complexos ou sutis. Davi não teria se emocionado com o relato de Natã nem reconhecido sua própria injustiça se não fosse um espectador ativo, aberto, dotado de uma atenção paciente. Não é por acaso que o verbo latino spectare significa “observar com os olhos” e, ao se acrescentar um prefixo, transforma-se em expectare, que significa “esperar atentamente”. Embora esses processos interiores possam levar certo tempo para se desenvolver, eles nos ajudam a escolher coisas valiosas.
São João Paulo II era apaixonado por teatro tanto como ator e espectador quanto como escritor. Por isso, a explosão popular do cinema também lhe interessava particularmente, embora ele distinguisse imediatamente o cinema que nasce apenas para entreter daquele com expectativas mais profundas. “Juntamente com filmes que possuem um caráter mais acentuado de entretenimento, existe um movimento cinematográfico mais sensível às problemáticas existenciais. Talvez o seu sucesso seja menos evidente, mas nele se reflete o trabalho de grandes mestres que, com a sua obra, contribuíram para enriquecer o patrimônio cultural e artístico da humanidade. Diante destes filmes, o espectador é orientado para a reflexão e para aspectos de uma realidade por vezes desconhecida, e enquanto a sua alma se interroga, refletindo-se nas imagens, confronta-se com perspectivas diversas e não pode ficar insensível à mensagem de que a obra cinematográfica se faz portadora”7.
Identificar nossa maneira de olhar
É possível que os primeiros títulos de filmes ou séries que nos venham à mente não se encaixem nessa descrição ambiciosa. Grande parte dos produtos audiovisuais que consumimos é produzida para servir como opção de lazer, semelhante a dar um passeio, praticar um pouco de esporte ou simplesmente passar o tempo. Muitas vezes, eles são concebidos exclusivamente para estimular os sentidos por um tempo, sem pretender muito mais do que sair da rotina. No entanto, existe também um cinema que permite descansar enquanto se descobrem novos horizontes e se abre a mente para novos desafios intelectuais ou existenciais.
Nem todos estão sentados diante da tela da mesma maneira, assim como nem toda música que chega aos ouvidos — desde ritmos frenéticos de dança até grandes composições clássicas — gera a mesma atividade nas pessoas. No primeiro caso, na maioria das vezes, obtém-se simplesmente um momento de diversão. No segundo, podem ocorrer, além da diversão, grandes momentos de reflexão, observação crítica, introspeção e até mesmo conversão8. O mesmo acontece com o cinema: ele pode ser como subir na bicicleta de outra pessoa para nos aventurarmos em territórios maravilhosos e inexplorados, inclusive dentro de nós mesmos. Nesse caso, precisamos desenvolver capacidades como paciência e perseverança, aprender a apreciar as pausas e os silêncios, pois o árduo também faz parte da narrativa. No entanto, o cinema também pode funcionar como um pequeno motor que colocamos em nossa roda para encerrar a jornada com um pouco de descontração. Em ambos os casos — é importante lembrar disso —, a paisagem observada permanecerá em nosso interior e moldará nossa sensibilidade.
Amaneira como me coloco diante da tela — que pode variar de acordo com a necessidade do momento — é o que dá forma à ação que estou realmente realizando. Ao mesmo tempo, é essa maneira de olhar — o que espero daquele momento — que determinará o tipo de histórias que deixo entrar pelos meus sentidos, mesmo tendo acesso a qualquer opção. “Tudo está ligado à intencionalidade depositada na visão, que não é apenas um exercício ocular, mas algo mais. — dizia o Papa Francisco em um encontro com cineastas — É o olhar colocado na realidade. Com efeito, o olhar revela a orientação mais diversificada da interioridade, pois é capaz de ver as coisas e de ver dentro”9.
Como escolher histórias cada vez melhores? Quais momentos dedicar ao cinema ou à televisão? Como fazer isso de maneira mais enriquecedora? C. S. Lewis dizia que a melhor defesa contra a má literatura são muitas experiências com boa literatura10: muito melhor do que observar tudo com desconfiança é buscar o que há de excelente, mesmo que nem sempre o encontremos imediatamente. O mesmo se aplica a qualquer outra arte, como o cinema. A melhor defesa é aprender a discernir o belo do ideológico, do manipulador ou do supérfluo. A melhor defesa é educar nossos próprios olhos para que saibam reconhecer a beleza, ou seja, a verdade do ponto de vista narrativo. Isso nem sempre nos levará à proposta mais agradável ou confortável, mas à mais fecunda e entusiasmante.
Os anseios compartilhados por todos
Ao observar atentamente experiências análogas às do rei Davi, Aristóteles afirma que a diferença entre os relatos históricos e os bons relatos de ficção — que ele chama de poéticos, depoiesis, criação — consiste no fato de que estes não tratam de um personagem concreto, que existiu em um determinado lugar, com nome e sobrenome, mas mostram o que costuma acontecer a uma pessoa11. Por essa razão, ele os considera mais “filosóficos” e “elevados”. Os relatos costumam explorar algum aspecto do desejo humano de alcançar a felicidade e nos mostram um fragmento dos infinitos caminhos — às vezes confusos e até contraditórios — pelos quais nos aproximamos ou nos afastamos de nosso verdadeiro objetivo. Assistir a um bom filme pode ser como se colocar diante de um espelho potencial, diante daquilo que poderíamos ser.
“Entrar numa sala cinematográfica — dizia o Papa Leão XIV a um grupo de profissionais do setor — é como atravessar um limiar. Na escuridão e no silêncio, o olhar volta a ficar atento, o coração se deixa alcançar, a mente se abre para o que ainda não tinha imaginado. Na realidade, vocês sabem que a sua arte exige concentração (...). O cinema é muito mais do que uma simples tela: é uma encruzilhada de desejos, memórias e interrogações. É uma investigação sensível onde a luz perfura a escuridão e a palavra encontra o silêncio”12.
Outra capacidade das narrativas, sejam elas escritas ou audiovisuais, é funcionar como uma grande sala na qual convergem pessoas das mais diversas origens geográficas, culturais, sociais ou espirituais. Se São Paulo se valeu da poesia do primeiro século para buscar um ponto de encontro com o mundo não cristão que o cercava (cf. At 17,28), e se São Justino se apoiou no desenvolvimento do pensamento pagão do segundo século, não é de se estranhar que encontremos, nas histórias narradas em nossos dias, com as linguagens de nossos dias, os anseios de felicidade compartilhados por todos. O cinema, segundo São João Paulo II, “é um instrumento sensibilíssimo, capaz de ler no tempo aqueles sinais que às vezes podem escapar ao olhar de um observador apressado”13.
Não são poucas as ocasiões em que uma mesma narrativa ressoa de maneira semelhante em pessoas ao redor do mundo. Por isso, hoje é importante para o apostolado que cada um vá descobrindo histórias e formas pelas quais a verdade se revela por meio do belo14.
Descobrir: o verbo é importante. No campo das histórias e da arte em geral, a verdade não se expressa por meio de uma afirmação clara ou de um silogismo irrefutável. Ao contrário, ela interpela, convida ao diálogo e busca formular as perguntas corretas. Se o cristianismo pode ser considerado uma resposta de Deus aos desejos mais profundos do homem, nossa tarefa é formular bem as perguntas. Muitas vezes, poderemos fazê-lo por meio de um relato, como Jesus faz no Evangelho tendo em mente que uma história não é uma espécie de disfarce para introduzir a verdade de forma imperceptível. Nesse sentido, uma escritora norte-americana costumava dizer, quando lhe perguntavam sobre a mensagem de suas histórias, que a única resposta possível era lê-las do início ao fim, já que um relato “é uma experiência, e não uma abstração”15. Se uma grande história pudesse ser resumida em uma breve moral de apenas algumas linhas, talvez não fizesse sentido ter-lhe dedicado muito mais tempo16.
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Quando São Josemaria proferiu a homilia Amar o mundo apaixonadamente no campus da Universidade de Navarra — um lugar onde, com o tempo, se formariam muitos profissionais do mundo audiovisual —, explicou que, na realidade, encontramos o Deus invisível “nas coisas mais visíveis”17. Nós o encontramos nos instrumentos de trabalho, no cansaço daqueles que nos cercam, na mesa em que compartilhamos as refeições em família... E, nos dias de hoje, entre as coisas mais visíveis — emais vistas —, encontram-se também as histórias que aparecem em nossas telas. Passamos tempo com elas e com elas dialogamos. Abrimos espaço para elas em nossos sentidos e em nosso íntimo. Elas fazem parte dos óculos com os quais interpretamos o mundo e a nós mesmos. Por isso, é fundamental integrá-las à nossa vida de relação contínua com Jesus, para que se tornem um lugar de contemplação e de amor ao mundo.
1 J. M. Ibáñez Langlois, El Rey Davi, Universitaria, Santiago do Chile, 1998, p. 39.
2 Ibid.
3 São Josemaria recitava essa oração diariamente ao terminar seu dia de trabalho e desejava que aqueles que o sucederiam à frente do Opus Dei fizessem o mesmo.
4 Sobre a relevância de Aristóteles para o cinema, ver, entre outros, P. L. Cano, De Aristóteles a Woody Allen, Gedisa, Barcelona, 2002.
5 A. Bazin, ¿Qué es el cine?, Rialp, Madrid, 1966, p. 20.
6 A. Llano, Segunda navegación, Encuentro, Madri, 2010, p. 300.
7 São João Paulo II, Discurso, 1º de dezembro de 1997.
8 Cf. Bento XVI, Audiência Geral, 31 de agosto de 2011, sobre o “caminho da beleza” como itinerário para chegar a Deus.
9 Francisco, Discurso, 7 de dezembro de 2019.
10 Cf. C. S. Lewis, Um experimento em crítica literária, Thomas Nelson Brasil, Rio de Janeiro, 2019, p. 85.
11 Cfr. Aristóteles, Poética, 1451b.
12 Leão XIV, Encontro com representantes do mundo do cinema, 15/11/2025.
13 São João Paulo II, Discurso, 1/12/1997.
14 Cfr. J. Ratzinger, Caminos de Jesucristo, Ediciones Cristiandad, Madri, 2005, p. 37.
15 Cf. F. O’Connor, Mistério e Costumes, É Realizações, São Paulo, 2023, p. 81.
16 “Na beleza da arte, a essência é a própria aparência; ou, o que dá no mesmo, em uma obra de arte, a profundidade é a superfície, e a superfície é a profundidade (...)”. Em termos convencionais, o conteúdo é a forma, e a forma, o conteúdo”, observa J. M. Ibáñez Langlois em A beleza e a arte, capítulo 5 (Rialp, Madri, 2023). Ou seja, uma coisa é um relato com pretensão artística, em que o importante está apenas no relato, enquanto outra coisa é um relato a título de exemplo do que de fato se deseja transmitir.
17 São Josemaria, Homilia Amar o mundo apaixonadamente, 8 de outubro de 1967, em Entrevistas, nn. 113-123.

