Betânia: Santuário da Ressurreição de Lázaro

"Os Evangelhos contam-nos que Jesus não tinha onde reclinar a cabeça, mas contam-nos também que tinha amigos queridos e de confiança, desejosos de recebê-lo em sua casa."

Opus Dei - Betânia: Santuário da Ressurreição de LázaroSantuário da Ressurreição de Lázaro, construído em 1954.

“Os Evangelhos contam-nos que Jesus não tinha onde reclinar a cabeça, mas contam-nos também que tinha amigos queridos e de confiança, desejosos de recebê-lo em sua casa”[1]. Entre esses amigos, destacam-se Marta, Maria e Lázaro, os três irmãos que viviam em Betânia. Embora desconheçamos a origem do seu relacionamento com o Senhor, sabemos que se tratavam com grande carinho e proximidade, manifestados em muitos pormenores encantadores. Como não recordar com simpatia o diálogo de Marta com Jesus, quando ela reclama da sua irmã?

Uma mulher, de nome Marta, o recebeu em sua casa. Ela tinha uma irmã, Maria, a qual se sentou aos pés do Senhor e escutava a sua palavra. Marta, porém, estava ocupada com os muitos afazeres da casa. Ela aproximou-se e disse:

“Senhor, não te importas que minha irmã me deixe sozinha com todo o serviço? Manda pois que ela venha me ajudar!”

O Senhor, porém, lhe respondeu:

“Marta, Marta! Tu te preocupas e andas agitada com muitas coisas. No entanto, uma só é necessária. Maria escolheu a melhor parte e esta não lhe será tirada”[2].

Betânia, na encosta oriental do Monte das Oliveiras, a três quilômetros de Jerusalém, era juntamente com a vizinha Betfagé, o último ponto de descanso para quem subia à cidade vindo de Jericó. Nos tempos antigos, não passava de uma aldeia, embora não fosse completamente desconhecida: na Sagrada Escritura, é mencionada com o nome de Anania entre os lugares repovoados pelos benjaminitas, após o retorno da Babilônia[3]; o prefixo “bet”, que significa casa, teria sido adicionado depois, derivando até à forma Betânia.

Marta, Maria e Lázaro teriam hospedado várias vezes o Senhor em sua casa. Em especial, durante os dias que antecederam a Paixão, do domingo de Ramos até à prisão de Jesus. Nessa semana, dada a curta distância que separava Betânia de Jerusalém, todos os dias ia e vinha pelo caminho - atualmente interrompido - que vai pelo Monte das Oliveiras. À noite, reporia as forças, rodeado pelos seus amigos e discípulos. Num desses momentos, deu-se o episódio, protagonizado por Maria, da qual o Senhor afirmou: onde for anunciado o Evangelho, no mundo inteiro, será mencionado também, em sua memória, o que ela fez[4]. O cenário não é a sua casa, mas a de um vizinho, Simão, conhecido pelo apelido “o leproso”:

Lá, ofereceram-lhe um jantar. Marta servia, e Lázaro era um dos que estavam à mesa com ele. Maria, então, tomando meio litro de perfume de nardo puro e muito caro, ungiu os pés de Jesus e os enxugou com os cabelos. A casa inteira encheu-se do aroma do perfume. Judas Iscariotes, um dos discípulos, aquele que entregaria Jesus, falou assim:

“Por que este perfume não foi vendido por trezentos denários para se dar aos pobres?”

Falou assim, não porque se preocupasse com os pobres, mas, porque era ladrão: ele guardava a bolsa e roubava o que nela se depositava. Jesus, porém, disse: “Deixa-a! Que ela o guarde em vista do meu sepultamento. Os pobres, sempre os tendes convosco. A mim, no entanto, nem sempre tereis”[5].

A celebridade de Betânia não se deve apenas às diversas estadias do Senhor, mas provém especialmente do impressionante milagre que ali se realizou: a ressurreição de Lázaro. Desde os primeiros tempos do cristianismo, o túmulo deste amigo de Jesus atraiu a devoção dos fiéis, que, já no século IV, levantaram um santuário ao seu redor. A designação bizantina do lugar – to lazarion – inspirou sem dúvida o nome árabe de Betânia: Al-Azariye. Da casa, no entanto, perdeu-se o rasto.

Esquerda: o Santuário construído em 1954 tem forma de mausoléu. Direita: imagens de Betânia no início do século XX e atualmente.

A investigação arqueológica forneceu alguns elementos para conhecer a construção bizantina. Inspirando-se no cânone de outras igrejas da época, como o Santo Sepulcro, era formada por uma basílica no lado oriental, o monumento que abrigava o local venerado no ocidental e, no meio, servindo de união, um átrio. A basílica, com três naves divididas por colunas com capitéis coríntios e pavimentadas com ricos mosaicos, deve ter sido arrasada por um terremoto. No final do século V ou início do VI, foi construída outra igreja aproveitando em parte a estrutura da antiga, mas deslocando a planta ainda mais para leste. Manteve-se até ao tempo dos cruzados, em que foi restaurada e embelezada. Também no século XII, foi erguida uma nova basílica sobre o túmulo de Lázaro; tratando-se de uma câmara escavada na rocha, ficou convertida em uma cripta. E, além disso, por iniciativa da rainha Melisenda, foi instituída em Betânia uma abadia de freiras beneditinas.

Este complexo de edifícios foi alterado entre os séculos XV e XVI, uma vez que na zona do átrio e do túmulo se construiu uma mesquita e se dificultou a entrada de peregrinos cristãos. Entre 1566 e 1575, os franciscanos da Custódia da Terra Santa conseguiram que se lhes permitissem a entrada na gruta de Lázaro, mas tiveram que abrir um novo acesso, escavando uma passagem escalonada do exterior do recinto. É o túnel que é usado ainda hoje, embora a propriedade continue a ser muçulmana.

O acesso à sepultura de Lázaro é por uma escadaria que passa em frente à mesquita.

No lado oriental, sobre os restos das basílicas bizantinas, a Custódia construiu em 1954 o santuário atual. Tem forma de mausoléu, com planta de cruz grega e uma cúpula que surge de um octógono. Cada um dos braços é decorado com uma luneta de mosaico, onde se representam as cenas evangélicas mais importantes relacionadas com Betânia: o diálogo de Marta e Jesus; a recepção das duas irmãs após a morte de Lázaro; a ressurreição deste; e o jantar em casa de Simão. O arquiteto conseguiu um sugestivo contraste entre a penumbra da igreja e a luz que inunda a cúpula, simbolizando a morte e a esperança da ressurreição.

O Bem-Aventurado Álvaro esteve em Betânia no domingo, 20 de março de 1994. Fez a oração da manhã no santuário da ressurreição de Lázaro e também viu o túmulo de fora.

“Eu sou a Ressurreição e a vida”

“Jesus é o Filho que, desde toda a eternidade, recebe a vida do Pai (cf. Jo 5, 26) e veio estar com os homens, para os tornar participantes deste dom: “Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10, 10)”[6].

Deus deseja que tenhamos parte na Sua vida bem-aventurada, está perto de nós, ajuda-nos a procurá-Lo, a conhecê-Lo e amá-Lo, mas, ao mesmo tempo, espera uma resposta livre, que acolhamos o Seu chamamento[7]. O relato da ressurreição de Lázaro contém muitos elementos que podem avivar a nossa fé e levar-nos a pedir ao Senhor a coisa mais valiosa que pode conceder-nos: a graça de uma nova conversão para nós e para os nossos familiares e amigos.

Viste com que carinho, com que confiança os amigos de Cristo O tratavam? Com toda a naturalidade, as irmãs de Lázaro lançam-Lhe em rosto a sua ausência: - Nós te avisamos! Se tivesses estado aqui!...

- Confia-Lhe devagar: - Ensina-me a tratar-te com aquele amor de amizade de Marta, de Maria e de Lázaro; como te tratavam também os primeiros Doze, ainda que a princípio te seguissem talvez por motivos não muito sobrenaturais[8].

Em Betânia, contemplamos os sentimentos de afeto de Cristo, que revelam o amor infinito do Pai por cada um, e também a fé de Marta e Maria no seu poder para restaurar a saúde:

Lázaro estava doente. As irmãs mandaram avisar Jesus: “Senhor, aquele que amas está doente”.

Ouvindo isso, disse Jesus: “Esta doença não leva à morte, mas é para a glória de Deus, para que o Filho de Deus seja glorificado por ela”.

Jesus tinha muito amor a Marta, a sua irmã Maria e a Lázaro. Depois que ele soube que este estava doente, permaneceu ainda dois dias no lugar onde estava[9].

O Senhor sabia o que ia acontecer, mas quer provar a fé dessas mulheres, mostrar o seu poder sobre a morte e preparar os discípulos para a Sua própria ressurreição com a de Lázaro. Desta forma, permite que morra antes de empreender a viagem para sua casa:

Quando Jesus chegou, encontrou Lázaro já sepultado, havia quatro dias. Betânia ficava a uns três quilômetros de Jerusalém. Muitos judeus tinham ido consolar Marta e Maria pela morte do irmão.

Logo que Marta soube que Jesus tinha chegado, foi ao encontro dele. Maria ficou sentada, em casa. Marta, então, disse a Jesus:

“Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido. Mesmo assim, eu sei que o que pedires a Deus, ele te concederá”.

Jesus respondeu: “Teu irmão ressuscitará”.

Marta disse: “Eu sei que ele vai ressuscitar, na ressurreição do último dia”.

Jesus disse então: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que tenha morrido, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim, não morrerá jamais. Crês nisto?”

Ela respondeu: “Sim, Senhor, eu creio firmemente que tu és o Cristo, o Filho de Deus, aquele que deve vir ao mundo”.

Tendo dito isso, ela foi chamar Maria, sua irmã, dizendo baixinho: “O Mestre está aí e te chama”. Quando Maria ouviu isso, levantou-se depressa e foi ao encontro de Jesus. Jesus ainda estava fora do povoado, no mesmo lugar onde Marta o tinha encontrado[10].

Um mosaico mostra o encontro de Jesus com Marta e Maria, antes da ressurreição de Lázaro.

Com a mesma confiança que Marta usou para censurar o Senhor pela sua ausência, Maria dirige-Lhe uma queixa semelhante, porém expressa a sua fé não com palavras, mas com um gesto de adoração:

Maria foi para o lugar onde estava Jesus. Quando o viu, caiu de joelhos diante dele e disse-lhe: “Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido”.

Quando Jesus a viu chorar, e os que estavam com ela, comoveu-se interiormente e perturbou-se. Ele perguntou: “Onde o pusestes? Responderam: “Vem ver, Senhor!”

Jesus teve lágrimas. Os judeus então disseram: “Vede como ele o amava!”

Alguns deles, porém, diziam: “Este, que abriu os olhos ao cego, não podia também ter feito com que Lázaro não morresse?”

De novo, Jesus ficou interiormente comovido. Chegou ao túmulo. Era uma gruta fechada com uma pedra. Jesus disse: “Tirai a pedra!”

Marta, a irmã do morto, disse-lhe: “Senhor, já cheira mal, é o quarto dia”.

Jesus respondeu: “Não te disse que, se creres, verás a glória de Deus?”

Tiraram então a pedra. E Jesus, levantando os olhos para o alto, disse: “Pai, eu te dou graças porque me ouviste! Eu sei que sempre me ouves, mas digo isto por causa da multidão em torno de mim, para que creia que tu me enviaste”.

Dito isso, exclamou com voz forte: “Lázaro, vem para fora!”

O que estivera morto saiu, com as mãos e os pés amarrados com faixas e um pano em volta do rosto. Jesus, então, disse-lhes: “Desamarrai- o e deixai-o ir!”[11].

São Josemaria aproveitava esta narração – e outras curas que aparecem nos Evangelhos – para nos fazer considerar que, no nosso relacionamento de confiança e amizade com Jesus, teremos de pedir-Lhe ajuda com perseverança: Quando tiveres caído, ou te encontrares oprimido pelo fardo das tuas misérias, repete com segura esperança: - Senhor, olha que estou doente; Senhor, Tu, que por amor morreste na Cruz por mim, vem curar-me. Confia, insisto: persevera chamando pelo seu Coração amantíssimo. Como aos leprosos do Evangelho, Ele te dará a saúde[12].

Nessa batalha diária por sermos fiéis - ensinava São Josemaria -, as derrotas não contam se procuramos Jesus. Mas Ele precisa da nossa cooperação, da nossa vontade de O deixar agir em nós:

“Não nos devem entristecer as nossas quedas, nem mesmo as quedas graves, se recorremos a Deus com dor e bom propósito, mediante o sacramento da Penitência. O cristão não é nenhum colecionador maníaco de uma folha de serviços imaculada. Jesus Cristo Nosso Senhor não só se comove com a inocência e a fidelidade de João, como se enternece com o arrependimento de Pedro depois da queda. Jesus compreende a nossa debilidade e atrai-nos a Si como que por um plano inclinado, desejando que saibamos insistir no esforço de subir um pouco, dia após dia. Procura-nos como procurou os discípulos de Emaús, indo ao seu encontro; como procurou Tomé e lhe mostrou as chagas abertas nas mãos e no lado, fazendo com que as tocasse com seus dedos. Jesus Cristo está sempre à espera de que voltemos para Ele, precisamente porque conhece a nossa fraqueza”[13].



[1] É Cristo que passa, 108

[2] Lc 10, 38-42.

[3] cf. Ne 11, 32.

[4] Mc 14, 9; cf. Mt 26, 13.

[5] Jo 12, 2-8; cf. Mt 26, 6-13 e Mc 14, 3-9.

[6] São João Paulo II, Carta Encíclica Evangelium vitae, 25/03/1995, n. 29

[7] cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 1-3.

[8] Forja, 495

[9] Jo 11, 2-6.

[10] Jo 11, 17-30

[11] Jo 11, 32-44

[12] Forja, 213.

[13] É Cristo que passa,75