“Estas paredes parecem de pedra e são de amor”1, costumava dizer São Josemaria, falando de Villa Tevere. Ao caminhar pelos corredores desta casa, temos a sensação de estar percorrendo sua alma, até nos encontrarmos com ele, junto a Santa Maria da Paz. Só isso já diz muito para quem segue Jesus por meio do espírito do Opus Dei. Peregrinar ao lugar onde repousa o corpo de nosso fundador nos leva a ajoelhar-nos diante da Rainha da Paz. De cada lado do presbitério, um anjo segura um livro aberto. Em um deles, lê-seGaudium cum Pace; no outro, Pax – In aeternum, como rezamos todos os dias2. Essas mesmas palavras também estão na parede do fundo do oratório de Pentecostes, onde São Josemaria rezava todas as manhãs com os olhos postos naquele sacrário que chamava de “o coração da Obra”.
Trata-se de petições que contrastam com “a inquietante falta de paz do nosso tempo. Falta paz nas grandes manchetes e entre as grandes potências, mas também nas pequenas mensagens do cotidiano: entre familiares, vizinhos, amigos, colegas. Falta paz também nas consciências, onde muitas vezes reinam o medo, a dúvida, a ansiedade, a preocupação”3.
Graças a Deus, há muitas pessoas, também não cristãs, que promovem os valores humanos da paz, da convivência e da concórdia entre os povos. Apaz, como escreveu São João Paulo II, é também “obra da solidariedade”4, e nesse sentido homens e mulheres de todos os credos devem trabalhar unidos. A consciência cristã, no entanto, implica uma missão mais profunda: trata-se de “propagar o evangelho da paz”, pois “Jesus Cristo é nossa paz” e foi Ele quem restabeleceu a paz por meio da cruz (cf. Ef 2,14-16)5.
Ao pensar nas pessoas que se aproximariam do Opus Dei ao longo dos séculos, São Josemaria via-as “defendendo a paz de Cristo (...). Contribuiremos para que, na sociedade, se reconheçam os direitos da pessoa humana, da família, da Igreja. Nosso trabalho reduzirá o ódio fratricida e a desconfiança entre os povos, e minhas filhas e meus filhos —fortes in fide, firmes na fé —saberão ungir todas as feridas com a Caridade de Cristo, que é um bálsamo suavíssimo”6. Então, quando São Josemaria fala de ser “semeadores de paz” não se refere apenas a uma cordialidade humanitária, mas nos convida a ser testemunhas de Cristo. A paz é um dom, mas também uma tarefa7, que exige dar testemunho da cruz de Jesus no mundo, embora pregar Cristo crucificado possa ser “escândalo” e “loucura” para muitos (cf. 1Cor 1, 23).
Duas lógicas
O céu de Jerusalém cobriu-se de trevas. A libertação é iminente. Jesus está há quase três horas cravado na cruz e nesse momento começa a revelar-se o sentido das palavras que o Senhor havia pronunciado tempos atrás: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga” (Mt 16, 24). Naquele momento crucial, centro da história, no qual a lógica de Deus vai vencer a lógica do mundo, Jesus enfrenta uma última tentação: “Desça agora da cruz! E acreditaremos nele” (Mt 27, 42). Se mostrar o seu poder, acreditaremos em você. Muitas vezes, a nossa lógica é a do poder: você triunfará se dominar com o seu poder. É a lógica que emana constantemente do diabo, a mesma com a qual havia tentado seduzir Jesus no deserto: “Eu te darei todo este poder e toda a sua glória, porque tudo isso foi entregue a mim” (Lc 4, 6). Os discípulos de Jesus não eram alheios a esta mentalidade. Várias vezes tinham disputado os postos de poder no reino humano que imaginavam (Lc 22, 24-26).
Jesus, porém, apresenta um novo modo de ver e pensar, uma lógica que vem transtornar tudo: “Amai os vossos inimigos e fazei o bem aos que vos odeiam, bendizei os que vos amaldiçoam, e rezai por aqueles que vos caluniam” (Lc 6, 27-28). Por força do hábito talvez leiamos essas passagens com a consciência adormecida e a lógica desconcertante que atravessa toda a vida e, sobretudo, a paixão do Senhor já não nos assombre. Quando São Pedro tenta defendê-lo com a espada, Jesus fala de “mais de doze legiões de anjos” que poderiam vir em sua defesa se ele recorresse a seu Pai (cf. Mt 26, 53). Quando Pilatos o interroga sobre seu poder, Jesus explica: “O meu reino não é deste mundo” (Jo 18, 36): se o fosse, seus “guardas” teriam vindo e impedido que ele fosse entregue.
Diante dessas referências às potências angelicais, nossa imaginação pode facilmente divagar e pensar que os exércitos celestiais poderiam trazer um pouco de ordem e justiça ao nosso mundo. Ainda hoje, a via do poder aparece como um atalho atraente para alcançar o bem, promover a justiça, e mesmo a paz no mundo. Jesus, porém, não veio trazer a paz do mundo e sim sua paz (Jo 14, 27). E a paz de Jesus é fruto da cruz, que é, “por obra de amor” o misterioso “trono de sua realeza”8.
Certa vez, Bento XVI refletia sobre o poder de Cristo. Ele é, afinal de contas, o Rei do Universo. No entanto, seu domínio não é o “dos reis e dos grandes deste mundo; é o poder divino de dar a vida eterna, de libertar do mal, de derrotar o domínio da morte. É o poder do Amor, que do mal sabe obter o bem, enternecer um coração endurecido, levar paz ao conflito mais áspero, acender a esperança na escuridão mais cerrada. Este Reino da Graça nunca se impõe, e respeita sempre a nossa liberdade (...). Escolher Cristo não garante o sucesso segundo os critérios do mundo, mas assegura aquela paz e alegria que só Ele pode dar”9.
Jesus carrega nossas culpas sobre seus ombros inocentes. Detém o olhar misericordioso naqueles que o prejudicam. Implora ao Pai a absolvição para seus verdugos. Não há maior crime do que torturar e matar um homem justo, e este homem é Deus. Jesus reafirma sua inocência, mas responde a essa grande injustiça intercedendo pelos violentos, os desapiedados, por aqueles que o ridicularizam: “Pai, perdoa-lhes” (Lc 23, 34).
São João Paulo II disse uma vez, com profundo sentido profético, que “não há paz sem perdão”10. E esse perdão que traz a paz deixou de ser um sonho inalcançável. Com sua entrega e misericórdia, Jesus destruiu, de dentro para fora, a lógica do fratricídio invejoso de Caim, a cadeia infinita de violência e vingança que se havia apoderado da humanidade. O ódio e a violência não terão a última palavra. No momento mais obscuro da história, a partir do perdão do que era imperdoável, começou a surgir, já de modo irreversível, um mundo novo, uma paz que não terá fim (Is 9, 6-7).
Para ser reconhecidos como filhos de Deus
O primeiro fruto da morte de Cristo na cruz será a fé de um pagão, o centurião Longinos: “Verdadeiramente este era o filho de Deus” (Mt 27, 54). A Basílica de São Pedro lhe rende homenagem: sua estátua, esculpida por Bernini, encontra-se junto ao túmulo do príncipe dos apóstolos, e em um dos pilares da cúpula, segundo a tradição, conserva-se uma relíquia de sua lança. A declaração do soldado romano faz eco àquela pela qual Simão se tornou Pedro, pedra fundamental da Igreja: “Tu és Cristo, o Filho de Deus vivo” (Mt, 16, 16). Estas duas confissões de fé fazem, juntas, ressoar a promessa de Jesus: “Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5, 9). Se queres ser reconhecido como filho de Deus, semeia a paz à tua volta.
Em uma de suas últimas cartas, Dom Javier recordava “uma ocasião na qual perguntaram a São Josemaria sobre o sentido da saudação que os primeiros cristãos usavam entre si e que nós também seguimos na Obra. Eis sua resposta: “Pax! Não falamos em voz alta, mas procuramos levar conosco a paz, onde quer que estivermos. Por isso, quando as ondas se levantam, salpicamos nossas paixões e as dos outros com um pouquinho de compreensão, um pouquinho de convivência; um pouco de amor, numa palavra. Levamos a paz e deixamos a paz”11.
Os primeiros cristãos seguiam o exemplo de Cristo ressuscitado. “A paz esteja convosco”, diz Jesus em três ocasiões, segundo relata João (Jo 20, 19-26). Essa é a paz que pedimos todos os dias na Missa, depois do Pai Nosso: “Livrai-nos Senhor de todos os males, ó Pai, e dai-nos hoje a nossa paz”. A paz de Cristo é fruto da cruz e da oração. Por isso, ao contemplar o crucifixo, aprendemos a olhar o mundo com misericórdia.
Aqueles que haviam presenciado a crucifixão voltaram para casa batendo no peito (cf. Lc 23, 48). Deixam de acusar (“crucifica-o!”) e começam a se acusar: a graça da cruz leva à humildade e à conversão12.
Juan Pablo Cannata - Carlos Ayxelà
1 São Josemaria, Em diálogo com o Senhor, n.3
2 Cf. “As Preces do Opus Dei” em opusdei.org.
3 F. Ocáriz, “Semeadores de paz e de alegria”, El Mundo, 26/06/2025.
4 Cf. São João Paulo II, Sollicitudo Rei Socialis nn. 39-40: “O lema do Pontificado do meu venerável predecessor Pio XII era Opus iustitiae pax: a paz é o fruto da justiça. Hoje seria possível dizer, com a mesma justeza e com a mesma força de inspiração bíblica (cf. Is 32, 17; Tg 3, 18), Opus solidarietatis pax: a paz é o fruto da solidariedade. A meta da paz, tão desejada por todos, será certamente alcançada com a realização da justiça social e internacional; mas também contará com a prática das virtudes que favorecem a convivência e nos ensinam a viver unidos, a fim de, unidos, construirmos dando e recebendo, uma sociedade nova e um mundo melhor.A solidariedade é indubitavelmente uma virtude cristã. Na exposição que precede já foi possível entrever numerosos pontos de contato entre ela e a caridade, sinal distintivo dos discípulos de Cristo (cf. Jo 13, 35)”.
5 Cf. São João Paulo II, “Um compromisso sempre atual: educar para a paz”, Mensagem para a XXXVII Jornada Mundial da Paz, de 2004 (8-12-2003): Nós, cristãos, sentimos o esforço de educar a nós mesmos e aos outros para a paz como parte da índole de nossa religião. De fato, para o cristão, proclamar a paz é anunciar Cristo, que é "a nossa paz" (Ef 2, 14), e o seu Evangelho, que é "Evangelho da paz" (Ef 6, 15). É também chamar todos à bem-aventurança de ser construtores da paz (cf. Mt 5, 9)”.
6 São Josemaria, Carta 4, n. 26
7 Bento XVI, “A pessoa humana, coração da paz”, Mensagem para a XL Jornada Mundial da Paz de 2007 (8/12/2006)
8 São Josemaria, Via Sacra, 2ª estação.
9 Bento XVI, Ângelus, 22/11/2009.
10 São João Paulo II, “Um compromisso sempre atual: educar para a paz”, Mensagem para a XXXVII Jornada Mundial da Paz de 2004 (8/12/2003): “Sinto o dever de recordar que, para a instauração da verdadeira paz no mundo, a justiça deve ser completada pela caridade (...). Justiça e amor aparecem às vezes como forças antagonistas, quando, na verdade, não passam de duas faces de uma mesma realidade, duas dimensões da existência humana que devem completar-se reciprocamente. É a experiência histórica que o confirma, mostrando como frequentemente a justiça não consegue libertar-se do rancor, do ódio e até da crueldade. A justiça, sozinha, não basta; e pode mesmo chegar a negar-se a si própria, se não se abrir àquela força mais profunda que é o amor. É por isso que, várias vezes, recordei aos cristãos e a todas as pessoas de boa vontade a necessidade do perdão para resolver os problemas quer dos indivíduos quer dos povos. Não há paz sem perdão! (...) O cristão sabe que o amor é o motivo pelo qual Deus entra em relação com o homem; e é o amor também que Ele espera do homem como resposta. Por isso, o amor é a forma mais alta e mais nobre de relação dos seres humanos inclusive entre si. Consequentemente o amor deverá animar todos os sectores da vida humana, estendendo-se também à ordem internacional”.
11 J. Echevarría, Carta pastoral, 1/03/2016.
12 “Se cada um de nós, em todos os níveis, em vez de acusar os outros, reconhecesse em primeiro lugar as próprias falhas, pedisse perdão a Deus e, ao mesmo tempo, se colocasse no lugar dos que sofrem, mostrando-se solidário com os mais fracos e oprimidos, então o mundo mudaria” (Leão XIV, Mensagem Urbi et orbi, 25/12/2025).

