O termo “opinião pública” admite diversos enfoques e definições. Trata-se da mentalidade coletiva criada pelos meios de comunicação por meio de seu trabalho de difusão de informações e opiniões. Atualmente, seria necessário acrescentar aos meios tradicionais, as formas de comunicação que surgiram graças à extensão das novas tecnologias, que estão dando lugar a uma nova cultura. Com modalidades diferentes segundo as épocas e países, é possível falar da existência de uma dinâmica de formação da opinião pública, e sobre como nascem, crescem e se estendem as ideias que configuram as formas dominantes de pensar e agir.
1. O interesse de São Josemaria
Entre 1902 e 1975, período que abrange a vida de São Josemaria, os principais criadores de opinião eram as agências de notícias, os jornais, a rádio, a televisão, as produtoras e distribuidoras de filmes e as editoras, bem como os intelectuais que colaboravam com essas empresas. Também havia líderes de opinião a nível local, ou até doméstico, aos quais o fundador do Opus Dei atribuía grande importância: pessoas que trabalhavam em locais como salões de cabeleireiro ou cafés, onde se fala, se debate e se formam opiniões coletivas em pequena escala.
A Igreja prestou atenção a estes fenômenos, sobretudo a partir da segunda metade do século XX, à medida que crescia seu impacto social. São João Paulo II indicava que “os meios de comunicação social alcançaram tamanha importância que são para muitos o principal instrumento de informação e formação, de guia e inspiração dos comportamentos individuais, familiares e sociais”1. Às vezes, os criadores de opinião pública influenciam de modo mais amplo e até mais profundo do que os pais e educadores. Compreende-se que o Concílio Vaticano II indicasse a necessidade de levar a cabo um apostolado eficaz nos meios de comunicação, que permitisse que a doutrina de Cristo chegasse a amplos setores da sociedade2. Desde então, o Magistério da Igreja lembrou em diversas ocasiões que, na tarefa de evangelização, não basta “usar” os meios para difundir a mensagem cristã, mas “é necessário integrar a mensagem nesta ‘nova cultura’ criada pela comunicação moderna”3.
São Josemaria tinha essa preocupação desde os anos 1930. Com o tempo, vai transmitindo o seu interesse às pessoas com quem se relaciona. Ele recordava a todos a importância do apostolado da opinião pública e a necessidade de se buscar novos modos de ser testemunhas de Cristo nesse âmbito. Além de possuir extraordinárias qualidades de comunicação4, São Josemaria tinha consciência da necessidade de ir além das relações pessoais imediatas e alcançar círculos mais amplos, de modo a corresponder à universalidade da mensagem cristã.
Para São Josemaria, o apostolado da opinião pública era a soma de esforços que os católicos são chamados a realizar para impregnar de dignidade humana e de sentido cristão as atividades e profissões relacionadas com a comunicação. Tal consciência nasce da secularidade presente em sua forma de pensar, que se resume em amar o mundo apaixonadamente, participar de seu dinamismo, sentir-se responsável por sua evolução. É inegável também sua sensibilidade para com a comunicação, em particular para com o jornalismo, qualidade bem apropriada para alguém que dedicou a vida à transmissão do Evangelho.
Em 1964, São Josemaria quis que o apostolado da opinião pública desenvolvido pelos fiéis do Opus Dei e por aqueles que participam de suas atividades ficasse sob a intercessão de Santa Catarina de Sena que, como comentou diversas vezes, “amou – com obras e de verdade – a Igreja e o Papa”5.
Neste terreno, é importante destacar dois campos aos quais São Josemaria dedicou atenção: o apostolado da opinião pública em si e a informação sobre o Opus Dei.
2. A difusão da mensagem cristã
Como parte de uma mensagem sobre a santificação da realidade temporal, São Josemaria lembrou que o apostolado da opinião pública é uma responsabilidade dos cristãos da qual não podem se desinteressar. Cada um em seu ambiente participa, como cidadão livre e responsável, da criação da opinião pública. Esta preocupação pode ser considerada um eco do convite que está na base da vocação cristã:euntes ergo docete omnes gentes (Mt. 28, 19: “Ide e fazei discípulos meus todos os povos”). São Josemaria deu o exemplo dessa atitude, e interveio – sempre em coerência com sua condição sacerdotal – nos canais de difusão de ideias, mas sobretudo mobilizou outras pessoas. Os frutos de sua pregação concretizam-se na participação ativa de um grande número de cristãos nessas tarefas.
Ele também animou muitas pessoas a embarcarem em projetos profissionais relacionados à comunicação. Muitos cidadãos, em diversos países, motivados por seus ensinamentos, decidiram criar empresas no campo do jornalismo, da publicidade, da literatura ou do cinema, para citar apenas alguns exemplos. Cada um, de acordo com suas próprias inclinações e princípios, sentiu-se estimulado por São Josemaria a exercer seus direitos e a pôr em andamento múltiplas iniciativas6. Destaca-se, por outro lado, seu papel decisivo na criação dos cursos universitários de jornalismo na Espanha, e em particular no início desse curso na Universidade de Navarra7.
3. Princípios inspiradores
Vale a pena enunciar, de modo sintético, alguns critérios fundamentais sugeridos por São Josemaria para a realização do apostolado da opinião pública:
-Apaixonados pelo mundo: São Josemaria transmitia uma visão positiva do mundo, das realidades criadas, das tarefas humanas nobres. Essa visão positiva se estende também às profissões da comunicação, valorizadas por ele pelo que podem contribuir para a vida social. Pedia que todo o trabalho de apostolado da opinião pública fosse realizado de um modo profissional e positivo: épreciso, dizia, “afogar o mal em abundância de bem”8.
-Defensores da liberdade: como parte essencial da mentalidade laical, São Josemaria propõe a participação na opinião pública sempre em um contexto de liberdade e de pluralismo. A liberdade de expressão das próprias ideias e de desenvolvimento dos próprios projetos são premissas da comunicação pública, que São Josemaria acolhe como suas. Não postula soluções corporativas nos debates públicos. Sobre a liberdade dizia que “cada dia que passa amo-a mais, amo-a sobre todas as coisas da terra: é um tesouro que nunca saberemos apreciar suficientemente”9.
-Testemunhas da verdade: os cristãos são e atuam como testemunhas de uma verdade que receberam, e entendem sua missão evangelizadora como um serviço ao anúncio desta verdade, tanto nas relações pessoais de amizade quanto em outros âmbitos da vida social, entre os quais destacam-se a educação e a comunicação, atividades nas quais as convicções são transmitidas de uma geração para outra. O testemunho da verdade traz consigo a firmeza para ir contracorrente quando for necessário.
- Orientados para o diálogo: São Josemaria reiterou de diferentes modos que o diálogo é o canal adequado para a transmissão da verdade cristã. Um diálogo que precisa de boas “entendedeiras” e boas “explicadeiras” e também “dom de línguas”10, ou seja, capacidade de expor de forma clara e amena as verdades da fé, respeitando as crenças e as opiniões dos outros, amando-os e aprendendo com eles.
-Cultivadores da amizade: para São Josemaria, o diálogo pressupõe o amor à verdade, mas também implica uma “leal amizade com os homens”11. A amizade possui uma dimensão racional e envolve empatia, generosidade e todas as virtudes que a adornam. A difusão da doutrina cristã e a informação sobre o Opus Dei não se realizam de forma anônima, mas no contexto de uma relação pessoal, que é a base de todo apostolado, inclusive no que se refere à opinião pública: são as pessoas que orientam as instituições.
-Semeadores de alegria: a comunicação mais eficaz é a que se realiza sem palavras. É mais fácil acreditar na mensagem cristã quando se nota que quem a transmite é feliz: “por seus frutos os conhecereis” (Mt. 7, 16). O apostolado da opinião pública não se limita a técnicas, desenvolve-se sobretudo por meio da coerência de vida e da alegria que a experiência cristã proporciona. Por isso, promove um clima de caridade e convivência que afoga os ódios e rancores12.
4. A informação sobre o Opus Dei
Passemos à segunda vertente do apostolado da opinião pública a que nos referimos anteriormente: a informação sobre o Opus Dei e suas atividades.
Desde o início da sua atividade como fundador, São Josemaria deixou muito claro que todo trabalho apostólico deve orientar-se para a glória de Deus; princípio que, obviamente, se aplica também ao Opus Dei. Por isso, ao falar de si mesmo, dizia que o melhor era “ocultar-se e desaparecer: que só Jesus brilhe”; e, ao falar da Obra, destacava também que esta não deveria procurar a glória humana, mas sim orientar tudo para a glória de Deus. A humildade deveria ser uma virtude praticada tanto pelos indivíduos como pelas instituições13.
Ao mesmo tempo, declarou com firmeza que abominava toda a clandestinidade e todo o mexerico14. Desde a sua fundação em 1928 o Opus Dei foi conhecido e aprovado pelas autoridades civis e eclesiásticas; e o mesmo aconteceu com a opinião pública em geral, embora com maior amplitude à medida que o apostolado crescia e, por conseguinte, atraía mais intensamente a atenção da sociedade.
Já no final dos anos 1950, foram criados, por sua indicação, departamentos de comunicação em Roma, Madri e outras localidades onde o Opus Dei estava presente. Desde o início, além de desenvolver outras tarefas de comunicação, os profissionais que trabalhavam nesses departamentos dedicaram grande atenção à relação com jornalistas e veículos de comunicação. Pode-se dizer que São Josemaria foi pioneiro ao promover entidades acadêmicas destinadas a formar profissionais na comunicação institucional na Igreja. Muitas de suas ideias sobre como informar sobre o Opus Dei têm aplicação em âmbitos mais amplos. Essas ideias estão de alguma forma na origem da Faculdade de Comunicação Social Institucional da Universidade Pontifícia da Santa Cruz, onde se formam profissionais que atuam na área de comunicação em diferentes realidades eclesiais.
Quanto à informação sobre o Opus Dei para a opinião pública, ele não se limitou a incentivar o trabalho de outros: interveio pessoalmente, concedendo entrevistas a jornalistas de diferentes países. Algumas dessas entrevistas estão compiladas no livro Entrevistas com Mons. Escrivá, publicado em 1968.
5. Projeção evangelizadora
Desde 1975, ano do falecimento de São Josemaria, a importância da comunicação só tem aumentado. Da mesma forma, pode-se dizer que a transcendência do apostolado da opinião pública se torna mais clara a cada dia. O mundo é hoje uma “conversa global”, na qual os cristãos devem participar ativamente, encontrar sua voz e propor sua mensagem, que pode chegar a todos os cantos do planeta, com toda a sua fascinante novidade, por meio dos canais oferecidos pelo âmbito profissional da comunicação.
Juan Manuel MORA
Este texto é um verbete do “Diccionario de San Josemaría Escrivá de Balaguer”, publicado por Monte Carmelo, sobre o “Apostolado da Opinião Pública” promovido pelo fundador do Opus Dei.
1 João Paulo II, Redemptoris Missio, 37.
2 Cf. Inter Mirifica, 1-4.
3 João Paulo II, Redemptoris Missio, 37.
4 Cf. Pilar Urbano, O homem de Villa Tevere.
5 Recuerdos de nuestro Padre, pp. 399-400: AGP, Biblioteca, P21.
6 Carlos Soria, “Un santo en la sociedad de la información”, Nuestro Tiempo, 468 (1993), pp. 114-124
7 Cf. Carlos Barrera, “Josemaría Escrivá de Balaguer y el Instituto de Periodismo de la Universidad de Navarra”, SetD, 2 (2008), pp. 231-257.
8 Sulco, 864.
9 É Cristo que Passa, 184.
10 Forja, 895.
11 Forja, 943.
12 cf. Forja, 564.
13 cf. Entrevistas, 40.
14 cf. Entrevistas, 30, 34, 41.

