Santa Catarina de Sena, Intercessora do Opus Dei

29 de abril é a festa de Santa Catarina de Sena. A história de como São Josemaria decidiu nomeá-la uma intercessora do Opus Dei. Adaptado de um artigo publicado em “Studia et Documenta” Vol. 8 (2014).

Link para o pdf do artigo original em “Studia et Documenta” (em italiano)

Desde que era um jovem sacerdote, São Josemaria tinha uma profunda devoção a Santa Catarina de Sena. Ele chamava os “Apontamentos íntimos” que começou a escrever em 1928, sobre sua vida espiritual, “Catarinas”, porque queria gravar com absoluta sinceridade a verdade a respeito de si mesmo. “São notas ingênuas – chamava-lhes catarinas, por devoção à Santa de Sena –, que escrevi durante muito tempo de joelhos e que me serviam de recordação e de despertador. Penso que, geralmente, enquanto escrevia com simplicidade pueril, fazia oração” (Andrés Vásquez de Prada, O Fundador do Opus Dei, Vol.1, p. 310).

Em uma carta dirigida aos membros do Opus Dei em 1932, ele disse: “Os santos são pessoas sempre desconfortáveis, homens e mulheres (minha Santa Catarina de Sena!), que por seus exemplos e palavras são uma fonte contínua de incômodo para as consciências daqueles imersos no pecado”.

Imagem de Santa Catarina de Sena que o fundador colocou no canto inferior direito do retábulo em Torreciudad.

São Josemaria admirava a força e a clareza com a qual Catarina de Sena defendia a verdade: “Tenho certeza”, escreveu em outra carta, “que haverá quem não me perdoará tão facilmente por falar tão claramente, mas eu tenho que ser verdadeiro com minha consciência e com Deus, por amor à Igreja, por lealdade à Sagrada Igreja e por minha afeição à vocês. Tenho especial devoção a Santa Catarina – a grande “reclamona”! – porque ela se recusou a ficar em silêncio e falou grandes verdades por amor a Cristo, pela Igreja de Deus e pelo Romano Pontífice” (Carta, 29 de setembro de 1957, no. 49).

Em uma carta de 15 de agosto de 1964, em meio à confusão gerada pelos que estavam usando o Concílio Vaticano Segundo como pretexto para espalhar as suas próprias crenças equivocadas, ele novamente precisou defender a verdade destemidamente: “Controvérsias, erros, excessos e atitudes frívolas estão presentes em todas as épocas. E a voz que supera esses obstáculos é sempre a voz da verdade ungida de caridade. A voz do verdadeiramente sábio, a voz do Magistério, a voz, meus filhos, dos santos que encontraram a linguagem correta e o tom de voz necessário para esclarecer, exortar, chamar a uma autêntica renovação.... Meus filhos, vocês conhecem muito bem a história da Igreja e vocês sabem que nosso Senhor faz uso das almas simples e fortes para cumprir os seus desígnios em momentos de confusão ou torpor na vida Cristã. Eu amo a fortaleza de Santa Catarina, que diz a verdade aos mais altos personagens com amor ardente e límpida clareza, sou cheio de fervor pelos ensinamentos de São Bernardo... Tantas vozes proféticas, unidas ao iluminado Magistério da Igreja, inundam todo Povo de Deus com luzes”.

São Josemaria ficava comovido pelo amor incondicional de Santa Catarina à Igreja, que a impulsionava a falar tão francamente. Vemos isso em sua homilia “Lealdade à Igreja”, pronunciada em 4 de junho de 1972: “Esta Igreja Católica é romana. Eu saboreio essa palavra, romana! Sinto-me romano, porque romano quer dizer universal, católico; porque me leva a amar carinhosamente o Papa, il Dolce Cristo in terra [o doce Cristo na terra], como gostava de repetir Santa Catarina de Sena, a quem tenho por amiga amadíssima”.

Embora ela usasse frequentemente uma linguagem forte em seu Diálogo e cartas, para criticar o mau comportamento de sacerdotes que falhavam em viver sua alta vocação, Santa Catarina nunca perdeu sua grande estima pelo sacerdócio. Na homilia “Sacerdote para a eternidade”, pronunciada em 13 de abril de 1973, o fundador do Opus Dei pontuou o exemplo de Santa Catarina: “O sacerdócio leva a servir a Deus em um estado que, em si mesmo, não é nem melhor nem pior do que os outros: é diferente. Mas a vocação sacerdotal aparece revestida de uma dignidade e de uma grandeza que nada na terra supera. Santa Catarina de Sena põe na boca de Jesus Cristo estas palavras: ‘Não quero que diminua a reverência que se deve professar pelos sacerdotes, porque a reverência e respeito que se lhes manifesta, não se dirige a eles, mas a Mim, em virtude do Sangue que lhes dei para que o administrem. Se não fosse isso, deveríeis dedicar-lhes a mesma reverência que aos leigos, e não mais... Não devem ser ofendidos: ofendendo-os, ofende-se a Mim, e não a eles. Por isso o proibi e dispus que não admito que toqueis nos meus Cristos’.

Alguns afadigam-se à procura, como dizem, da identidade do sacerdote. Que claras são estas palavras da Santa de Sena! Qual é a identidade do sacerdote? A de Cristo. Todos nós, cristãos podemos e devemos ser, não alter Cristus, mas ipse Christus: outros Cristos, o próprio Cristo! Mas. no sacerdote, isto se dá imediatamente, de forma sacramental” (Amar a Igreja).

Santa Catarina, intercessora do apostolado da opinião pública.

Enquanto os outros intercessores da Obra, como São Pio X, São Nicolau de Bari, São João Maria Vianney e São Thomas More, foram escolhidos em anos anteriores, parece que a ideia de invocar a intercessão de Santa Catarina de Sena para o apostolado da opinião pública ocorreu ao fundador em 1964, como pode-se ver em uma carta endereçada ao padre Florencio Sanchez Bella, então conselheiro do Opus Dei na Espanha, em 10 de maio daquele ano: “Quero que saibam que minha devoção a Santa Catarina de Sena, que tenho há muito tempo, recentemente tornou-se ainda mais forte: porque ela soube como falar heroicamente. Estou pensando em declará-la nossa padroeira, (intercessora) no Céu, pelo nosso apostolado de opinião pública. Vamos ver!”

Poucos dias depois de esta carta ser escrita, em 30 de abril, durante uma conversa em família entre os membros do Opus Dei, o fundador disse: “Quero que a festa desta Santa seja comemorada na vida espiritual de cada um, e também na vida de nossos centros. Sempre fui devoto de Santa Catarina: por seu amor à Igreja e ao Papa, e pela coragem que mostrou em falar claramente, sempre que necessário, movida precisamente pelo mesmo amor. Nos últimos anos o heroísmo foi ficar calado, e isso foi o que fizeram os seus irmãos. Mas agora, o heroísmo é falar, de modo a não ofender Deus nosso Senhor. Falar claramente, mas tentando não ferir ninguém, com caridade, mas também com clareza” (en Crónica, Maio de 1964).

Em 13 de maio, São Josemaria decidiu colocar em prática o desejo que havia expressado a Florencio Sanchez Bella. Durante uma reunião de família naquele dia, retornando ao mesmo tópico, ele disse sorrindo: “Por que esperar ainda mais?” Compete a mim, enquanto fundador, nomeá-la, e uma vez que na Obra fazemos as coisas de maneira simples, sem formalidades, a declaro Intercessora neste momento”. Então, ele pediu a alguém para lhe trazer uma caneta e papel, e ditou uma comunicação para ser enviada a todas as regiões: “Em 13 de maio, considerando a grande clareza e retidão de coração com que Santa Catarina de Sena deu a conhecer, com coragem e sem excluir ninguém, os caminhos da verdade às pessoas do seu tempo, eu decretei que o apostolado que os membros do Opus Dei realizam por todo o mundo, com verdade e caridade para informar a opinião pública corretamente, seja confiado à especial intercessão desta Santa” (testemunho escrito por José Luis Illanes).

Relíquias da santa

São Josemaria tinha um relicário da santa, junto com as relíquias de outros intercessores, colocados no oratório da Santíssima Trindade em Villa Tevere, em Roma. Este relicário continha duas relíquias da santa. A primeira, (ex ossibus S. Catharinae Senensis V.O.P.) tem a autenticação do postulador geral da ordem Dominicana, Frei Tarcisio M Piccari OP, datada de 25 de junho de 1964. A outra relíquia, (ex velo quo coopertum fuit sacrum caput Sanctae Catherinae Virginis Senensis), tirada do véu monástico da santa, foi dada ao fundador pelo Arcebispo de Siena, Monsenhor Mario Ismaele Catellado OP, que assinou a autenticação. O relicário de prata tem a seguinte inscrição: “Dilexit opere et veritate Ecclesiam Dei ac Romanum Pontificem” [Amou com obras e de verdade a Igreja de Deus e o Romano Pontífice].

Sarcófago de Santa Catarina de Sena sob o Altar Maior de Santa Maria sopra Minerva, Roma.

Com o tempo, soube-se que apenas a segunda relíquia (do véu da santa, que era do Arcebispo de Sena), pode ser aceita como autêntica, enquanto a relíquia de ossos, (ex ossibus), provavelmente não seria autêntica.

Durante uma conversa de família em 1972 com os alunos do Colégio Romano da Santa Cruz, São Josemaria recebeu uma pergunta sobre Santa Catarina. Ele respondeu: “Tenho extraordinária devoção a ela. Vocês sabem que ela é uma das nossas intercessoras, e que tenho uma relíquia dela no altar onde celebro Missa. Uma vez escrevi ao Papa atual (Paulo VI), dizendo a ele: Mantenho essa relíquia com devoção, porque ela tinha tanto amor pela Igreja e pelo Papa quanto eu tenho. Eu não queria dizer que ela tinha mais, porque não é verdade. Nós todos temos o mesmo amor que Santa Catarina teve”. E continuou a comentar a inscrição Dilexit opere et veritate... : “ Ela amou a Igreja e o Romano Pontífice com verdadeiro amor e com feitos, como você e eu fazemos.”

Em 1970 o Papa Paulo VI nomeou Catarina de Sena Doutora da Igreja.

Em 1999, o Papa João Paulo II a nomeou co-Padroeira da Europa.