Ver as desigualdades e escolher agir

Um encontro casual com a pobreza, durante a visita do Beato Álvaro del Portillo a Cebu, nas Filipinas, a 28 e 29 de janeiro de 1987, desencadeou a fundação do CITE Technical Institute.

«Num mundo onde os pobres são cada vez mais numerosos, vemos paradoxalmente crescer algumas elites ricas, que vivem numa bolha de condições demasiado confortáveis e luxuosas, quase num mundo à parte em relação às pessoas comuns. Isto significa que persiste – por vezes bem disfarçada – uma cultura que descarta os outros sem sequer se aperceber» (Leão XIV, Dilexi Te, n. 11)

Ao ler estas palavras do Papa Leão XIV, na Exortação Apostólica Dilexi Te (4 de outubro de 2025), relembro o legado discreto, mas perseverante do Beato Álvaro del Portillo, durante a visita às Filipinas, em 1987.

Ao viajar por uma estrada de Mactan, Cebu, deparando-se com as barracas de famílias pobres, tapadas por casas apalaçadas nas colinas envolventes, o Beato Álvaro ficou de boca aberta com o contraste acentuado. Virando-se para os seus acompanhantes, disse, simplesmente, que alguma coisa tinha de ser feita pelos pobres.

“Dê ao homem um peixe e ele se alimentará por um dia. Ensine um homem a pescar e ele se alimentará por toda a vida”. Inspirado pela sabedoria do provérbio, propôs que se criasse uma escola técnica para jovens de mérito, provenientes de famílias desfavorecidas, que pudesse dar-lhes capacitação para garantir um trabalho seguro e digno em Cebu e não só.

Beato Alvaro del Portillo numa tertúlia geral, a 29 de janeiro de 1987, no então Hotel Plaza, de Cebu.

Fiel à sua palavra, ao voltar para Roma, o Beato Álvaro mobilizou pessoalmente o apoio. Enviou consultores do Centro ELIS, um centro de formação técnica bem conhecido, nos arredores de Roma, para ajudar a lançar as bases para o que viria a ser um projeto transformador.

Em 1991, abriu o Center for Industrial Technology and Enterprise (CITE), em Talamban, Cebu. Com a assistência do Centro ELIS, o CITE desenvolveu um sólido currículo de formação e construiu laboratórios que combinam instrução teórica e prática, preparando os estudantes para o mundo do trabalho.

O CITE não foi construído apenas com boas intenções. Foram necessários recursos substanciais para a construção de edifícios, aquisição de máquinas e criação de bolsas de estudo. Este desafio foi cumprido graças à generosidade de empresários locais, governo e famílias que acreditaram na missão da escola.

Para garantir a sustentabilidade, foram criadas parcerias com indústrias locais que ofereceram estágios e emprego aos que terminaram o curso. Estas colaborações continuam, de forma discreta, criando pontes entre os que têm oportunidades e os que mais delas precisam.

Edifício principal do CITE Technical Institute.

Desde o início, o CITE abriu as suas portas a estudantes com deficiências físicas. Um dos primeiros inscritos foi um jovem com os dedos da mão esquerda deformados. Durante a avaliação de admissão, demonstrou a sua capacidade para trabalhar ao usar um simples elástico para amarrar ferramentas. Foi um excelente aluno e tornou-se parte da primeira leva de formados pelo CITE.

Ao longo dos anos, foram surgindo muitas histórias semelhantes, ex-alunos que garantiram sustento estável para as suas famílias e outros que encontraram oportunidades para trabalhar no estrangeiro.

No CITE, a formação vai além das capacidades técnicas. Os estudantes, e até mesmo os seus pais, recebem orientação em relação à vida familiar, virtudes e doutrina católica. No coração do campus fica uma bonita capela onde os estudantes podem fazer um intervalo, rezar e refletir. Durante uma visita em 1992, a ex-presidente Corazón Aquino passou alguns meses em oração silenciosa nesta capela, nela encontrando consolo.

O impacto do CITE vai, frequentemente, para além da formação profissional. Para alguns, tornou-se um espaço de discernimento vocacional: oito dos formados pelo CITE partiram para a cidade de Cebu para se tornarem padres diocesanos, tendo o mais recente sido ordenado em 2025. Outros, movidos pela gratidão, voltaram para ensinar, escolhendo passar aos seguintes o que eles mesmos haviam recebido.

Mons. Fernando Ocariz, Prelado do Opus Dei, visitou o CITE, em julho de 2023, e viu o busto do Beato Álvaro, no átrio principal da escola.

Passaram trinta e nove anos desde que o Beato Álvaro viajou por aquela estrada de Mactan e se sentiu na obrigação de «fazer alguma coisa» pelos pobres de Cebu. A sua resposta relembra-nos as palavras de São Josemaria Escrivá: «És, entre os teus, alma de apóstolo, a pedra caída no lago. – Produz, com o teu exemplo e a tua palavra, um primeiro círculo…; e este, outro… e outro, e outro… Cada vez mais largo. Compreendes agora a grandeza da tua missão?» (Caminho, n. 831)

No CITE, esse círculo de solidariedade continha a expandir-se. Inspirados pelo Papa Leão XIV e o Beato Álvaro, que encontremos também nós a coragem não só para ver as necessidades, mas para fazer alguma coisa pelos que mais precisam.

Dominador P. Leonida