O meu nome é Linoy. O meu pai morreu quando eu tinha quinze anos. Enquanto adolescente hindu tive de crescer rapidamente para ser o “homem” da casa, para tomar conta da minha mãe e das minhas irmãs.
Aos dezanove anos, mudei-me para Nova Deli para trabalhar em informática e sustentar a minha família, que ficou em Kerala. A minha irmã mais velha já se tinha mudado para Deli e convertido ao catolicismo. Quando cheguei, deu-me uma Bíblia e disse-me que deveria lê-la.
Sem me dar conta, as cenas de algumas das páginas materializaram-se à minha frente. Ao caminhar pelas ruas da capital da Índia deparei-me com leprosos a pedir nos degraus da Catedral Católica. Em pouco tempo, e com o apoio dos amigos em casa de quem estava, dei comigo a levar comida e a fazer companhia a esses leprosos. Foi nesse momento que começou “uma série de milagres”.
Os amigos com quem partilhava casa marcaram profundamente a minha vida. Eram solteiros, com empregos estáveis em Deli e, no entanto, rezavam, iam à Missa e preparavam uma enorme refeição para pessoas com lepra, todos os fins de semana. O seu exemplo e alegria levaram-me a começar a rezar e a ir à Missa todos os dias. Até frequentei um retiro num centro de retiros espirituais em Deli. Pela graça de Deus, este retiro levou-me a preparar-me para o batismo na Igreja Católica, aos vinte e poucos anos.
Seguiram-se mais mudanças, nomeadamente um trabalho de informática, no Dubai. Ainda que o trabalho e o salário fossem excelentes, achei difícil viver a minha fé com consistência naquele ambiente. Cerca de um ano e meio depois, um amigo chegado que tinha viajado comigo, também católico, sugeriu que nos mudássemos para a Austrália. Foi uma ideia providencial, a minha irmã e o marido tinham acabado de se estabelecer em Sydney, o meu amigo nem sequer sabia. Para me candidatar à residência permanente, tinha de mudar de carreira, por isso decidi fazer uma formação em padaria.

E, tal como em Deli, dei por mim a partilhar casa com católicos. Os milagres continuaram a acompanhar-me noutros continentes: encontrei o amor da minha vida e casámo-nos. Logo depois, outro milagre: o nosso primeiro filho.
Um dia, um amigo que fiz na casa que partilhávamos, pediu-me para ir a uma recoleção ao fim da tarde, e só me lembro de uma frase da palestra dada por um supranumerário casado do Opus Dei: “Ama a tua mulher como um dom de Deus”. Nada podia ser mais verdadeiro. Foi uma viagem de 40 minutos, mas estas palavras, proferidas por aquele bom marido, trouxeram-me de volta, apesar de todas as outras coisas que estavam a acontecer na minha vida. Naquela altura, estávamos a viver no sudoeste de Sydney e o meu trabalho como padeiro começava à uma da manhã, na cidade.
Comecei a falar com alguém para aconselhamento espiritual e adorei a ideia de oferecer pequenas coisas no trabalho por intenções especiais. Estou encarregado de fazer o pão todo da padaria. A parte mais difícil do meu turno é carregar os tabuleiros de pão acabado de cozer, de um forno a 230 graus, e prepará-lo para ser embalado. Faço-o três vezes por dia, rapidamente e com cuidado, ou os pães encolhem. À medida que vou trabalhando, ofereço a preparação de cada pão por uma intenção específica, rezando pela minha mulher, os meus filhos e por outros familiares e amigos.
Ouvir as perguntas nas recoleções foi como ver a minha alma ao espelho. Que se passa cá dentro? Que é preciso mudar?
Além da mudança interior, também precisava de outra mudança. Agora que o meu segundo filho já tem nove anos e a vida cada vez está mais preenchida, decidi que precisávamos de mudar para mais perto de um Centro do Opus Dei. Mudar de Deli para a zona ocidental de Sydney teve os seus desafios, tal como mudarmo-nos para uma zona a 40 minutos de distância, a rebentar pelas costuras de gente, com a consequente escalada de preço das casas.

Comecei a rezar pela intercessão do Beato Álvaro del Portillo, antigo prelado do Opus Dei, pedindo-lhe que nos ajudasse a encontrar uma casa. A série seguinte de milagres estava a caminho. A minha mulher arranjou trabalho na zona, os meus dois filhos foram aceites numa escola da Pared Foundation, ali perto, e encontrámos uma casa em conta ali perto também. Obrigado, Beato Álvaro!
Os milagres também chegaram à minha terra natal. Traduzi, para malaiala, a pagela com a oração a São Josemaria e enviei-a para Kerala. A minha família disse-me que, tanto eles como os amigos já receberam dúzias de favores.
Agora sou supranumerário do Opus Dei e, assim, aprendi a distribuir o meu plano de vida espiritual pelo dia, em vez de o concentrar demasiado. Como agora o meu dia de trabalho começa às três da manhã, tive de ser criativo, dividindo o sono em dois momentos e poder partilhar as tarefas domésticas com a minha mulher. Mas tudo vale a pena; comecei a ter conversas interessantes no trabalho, com colegas e com alguns dos estudantes que contratamos como estagiários na padaria. Estou muito impressionado com as virtudes deles e abertura que têm para falar sobre a fé.
Quando olho para trás, para todas estas bênçãos, apercebo-me de que o meu papel é tão simples e pequeno, mas, de certa forma, muito crucial na mente e no plano de Deus. Só tenho de fazer a minha pequena parte e, de preferência, não perder a esperança.
Ainda penso, com frequência, nas palavras daquela primeira palestra: “ama a tua mulher como um dom” e aquele conselho: “oferece o teu trabalho”. São mensagens muito simples, que tento passar aos meus colegas no trabalho. Esperemos que, em breve, recebam a sua própria série de milagres.

