São Josemaria, sempre sacerdote

Para comemorar o centenário da ordenação de São Josemaria, foi projetado em Saragoça e em Roma um vídeo sobre a sua vocação sacerdotal. Inclui fragmentos de encontros em que partilhava conselhos com sacerdotes, inspirando-os a viver um ministério santo e fecundo.

«Pressenti o amor»

Nos Atos dos Apóstolos, diz-se que Jesus se reunia com os seus discípulos e que falava – se entretinha com eles, argumentava – e fazia uma tertúlia, como nós agora. Uma tertúlia, porque ides falar e eu vou perguntar, e perguntareis também. Eu não quero continuar a dar uma palestra; tem que ser uma tertúlia.

Era um adolescente. Eu não pensava em ser sacerdote; mais ainda, incomodava-me a ideia de ser sacerdote. O Senhor fez uma das Suas, não vou dizer como, e pressenti o amor, vislumbrei a chamada de Deus que queria qualquer coisa. O meu pai disse-me: “Meu filho, dás conta de que não vais ter um afeto na terra, um carinho humano? Eu não me vou opor”. Saltaram-lhe duas lágrimas; foi a única vez que vi chorar o meu pai. “Não me vou opor e além disso vou apresentar-te a uma pessoa que te possa orientar”. E apresentou-me a um amigo dele que era abade da colegiada (de Logronho].

Comecei a estudar em casa com um professor particular e, com autorização do Ordinário, fui-me examinando de Filosofia um ano de cada vez. Depois, na altura de estudar Teologia, já entrei no seminário e mais tarde numa universidade pontifícia, na de Saragoça.

Conselhos para a formação de futuros sacerdotes

Sabe que trabalhamos no seminário, e graças a Deus, as vocações vão aumentando. Temos 69 alunos de toda a República.

Achamos que é muito importante insistir na oração pessoal na direção espiritual. Padre, acha que temos que insistir em mais algum aspeto?

São Josemaria: Primeiro, estás a pôr um fundamento colossal, que é dar-se direta e imediatamente com Deus Nosso Senhor. A sinceridade com o diretor, vendo nele Cristo Jesus. A sinceridade que devem ter com o médico se se tratar das coisas do corpo, essa mesma sinceridade devem tê-la com o diretor espiritual se se tratar das coisas da alma.

Estás a fundamentar tudo muito bem: o amor à sagrada Eucaristia, o amor ao Amo, como O chamais aqui. Que bonito, o Amo, não é? E a devoção a Santa Maria.

Quer-lhes bem. Têm desejos de afeto humano, nobre, limpo e santo. Eu também fui diretor num seminário e lembro-me de tantas virtudes daqueles rapazes, muitos deles, mártires depois. Fizeram-me muito bem. Tantas coisas maravilhosas que recordo. Ia anotando com alegria... “Estão a melhorar, vê-se que crescem”. “Deus está aqui, nesta alma”.

Aproxima-te deles com afeto. Quando estão doentes, quando têm um desgosto, quando se sentirem postos de parte, quando tiverem um desgosto de família. E também, São José, a quem também amais muito, também lhe quereis bem. E eu chamo-lhe meu pai e meu senhor. E digo oralmente e por escrito: “A quem tanto amo”.

Lembranças dos seus primeiros anos em Madrid

Naquela primeira época, realizava o meu trabalho em Madrid, justamente nos hospitais e nos bairros periféricos da cidade. A minha pobre alma formava-se na vida de infância ao lidar com crianças, crianças pobres, desvalidas, ignorantes, criancinhas com quem ninguém se ocupava.

Muitas horas por semana eram dedicadas a confessar crianças das escolas públicas, dos bairros mais extremos de Madrid. Tirava proveito de os ter por mestres e, de vez em quando, recebia uma pedrada ou outra, que era também uma maneira de tirar proveito.

Amor pela Missa e pela Eucaristia

In persona Christi” renovo o divino sacrifício do Calvário, e comovo-me. Talvez de coração frio, mas com fé segura e, pela misericórdia do Senhor, quando pelas palavras da consagração, o Corpo e o Sangue do Senhor vêm às minhas mãos.

Eu queria purificar o meu coração, as minhas mãos, a minha vida inteira. Senhor, creio que és Tu que estás aí, com o Teu corpo, com o Teu sangue, com a Tua alma, com a Tua divindade.

Espero tudo de Ti. Amo-te, amo-te com loucura. Faz-me um bom servo Teu e depois contas-lhe as coisas, hás de ver que bem, que fortaleza! Mas além disso, está nas tuas mãos. Nós temos Cristo Jesus nas mãos. Deixamo-Lo escondido e vivo no sacrário. Aqui fica com o Seu corpo e o Seu sangue, a Sua alma e a Sua divindade, real, verdadeira e substancialmente, por amor.

Eu gostaria de que, só pelo facto de vos verem fazer uma genuflexão, os fiéis dissessem: “Aí está um sacerdote que ama Jesus Cristo”.

Não tenhais pressa a fazer oração, não tenhais pressa a preparar a Missa, não tenhais pressa a dizer Missa, não tenhais pressa para dar graças depois da Missa.Bem sei que não conseguis parar por muito tempo, mas os dez minutos pelo menos, depois de terminar.

Nas paróquias

Que podemos fazer os sacerdotes que estamos em paróquias muito populosas, que estamos sozinhos e por vezes as pessoas não têm muita cultura e não nos entendem quando lhes falamos e lhes pregamos? Que é importante para renovar a paróquia? Que é o mais importante?

São Josemaria: A tua oração. As tuas mãos consagradas, a tua luz que não é tua, que é a luz de Cristo, o sal da tua vida. Mas convence-te, tens tudo nas mãos, tudo.

Fraternidade sacerdotal com o coração de Cristo e de Maria

Agradeçamos a Deus todo o nosso sacerdócio. Aceitemos com amor os pequenos sacrifícios que há e as grandes alegrias que no fundo do coração sentimos tantas vezes. Outras vezes, sem nenhum tipo de sentimentos, sabemos que as possuímos.

Queria-vos valentes, justamente porque amais. Recordais aquelas palavras de São João? “Qui autem timet non est perfectus in caritate!”. Quem tem medo não sabe amar.E vós tendes que saber querer bem a todas as almas, e especialmente às almas dos nossos irmãos sacerdotes. Interessam-nos loucamente. Senhor, que nos escutas, porque estás aqui no meio de nós.

Irmãos, vamos rezar uns pelos outros, a querer-nos bem, sobretudo a querer-nos bem. A querer-vos bem entre vós. Não tenhais medo. Metei o coração no relacionamento mútuo. Que esse afeto passe pelo Coração Dulcíssimo de Maria, pelo Coração Misericordioso de Jesus.

Vai correr muito bem, seremos muito humanos e muito divinos. Acompanhai aquele que estiver doente, que estiver triste, que estiver caluniado, que puder sentir solidão no cantinho de uma diocese. Que veja que lhe quereis bem.

A vocação do sacerdote ao Opus Dei

A um sacerdote diocesano que ama a sua condição secular e que, pelo próprio sacramento da Ordem se dedica plenamente às coisas que dizem respeito a Deus, que poderia acrescentar à sua dedicação a Deus já total e às almas, a vocação ao Opus Dei?

São Josemaria: O trabalho profissional do sacerdote é o ministério sacerdotal. É a vocação do sacerdote secular com todas as suas características. Inflamam-se em amor à sua vocação, que não muda. Vão santificar o seu trabalho profissional.

Que exige o Opus Dei? Exige mais vida interior. Há uma série de deveres de carácter espiritual, fortes: há muito desprendimento das coisas terrenas e há muito mais amor a tudo o que o sacerdote tem entre mãos da diocese, naturalmente.

Este sacerdote está mais unido à sua diocese, com mais amor ao seu seminário, com mais amor à sua vocação, com mais devoção, respeito e afeto ao seu prelado.

Amai os vossos bispos e, sobretudo, amai a Igreja universal e a parte do rebanho dessa Igreja que o Senhor vos confiou, e amemos o Papa.

Amo com loucura todos os religiosos. Tenho um fraquinho no meu coração por todas as religiosas, especialmente pelas de clausura. Dar-me-á muita alegria se as puderdes ajudar. Que elas compreendam que sois contemplativos, que entendeis a sua vida, e que a sua vida é necessária na Igreja como o ar para os pulmões.

Devoção à Virgem

Padre, fale-nos da nossa Mãe, a Virgem.

São Josemaria: Eu, a ti, da Virgem? Sim, estamos todo o dia com Ela. De manhã à noite, estamos pendentes do amor a Nossa Senhora. Da sua proteção, do seu afeto, da sua devoção. A meter este afeto, esta devoção, e a falar dos seus privilégios com todas as almas que pudermos.

Ama-A, é essa a posição do sacerdote, mas com amor terno.

A importância da família do sacerdote

São Josemaria: E eu, na altura, dava muitos retiros espirituais a sacerdotes de toda a Espanha, porque o Senhor queria e os bispos chamavam-me. A minha mãe estava doente, com uma doença grave. E fui para Lérida.

Costumava dar cinco palestras. Antes do almoço, nessa prática falei das mães dos sacerdotes. E referi-me também às boas irmãs do sacerdote, que por vezes se sacrificam e não querem formar uma família para não deixarem o irmão sozinho.

E veio-me à cabeça dizer: “as mães dos sacerdotes, – eu estava a sofrer pela minha mãe [doente] –, deviam morrer só no dia a seguir a morrer o filho”. Naquele momento vieram chamar o Bispo, ele saiu e eu acabei. Alterado disse-me: “Álvaro está a ligar-lhe de Madrid”. Fui ao telefone e disse-me que a minha mãe tinha acabado de morrer. Aproximei-me do sacrário sem uma lágrima e no fim desatei a chorar. Já não me queixei. Disse-Lhe: “enquanto eu falava assim, era porque Tu me punhas na boca, no coração e na cabeça esses pensamentos e são pensamentos bons e santos. Se Tu a levaste, foi porque estava madura para o Céu”.

Quero muito às vossas mães e às vossas irmãs. Quero-lhes muito.

A confissão

Não acha que nós somos os encarregados de levar as pessoas à paz, ao encontro com o Pai, em vez de as carregar com penitências enfadonhas como três Vias-Sacras...?

São Josemaria: Vou-te dizer uma coisa. Este é mais vivo que… Tens razão, muita razão. A penitência, temos que ser nós a fazê-la. Ganhai o costume muitas vezes, e se vedes que anda preocupado porque teve uma má vida e tal, dizei-lhe: “Vamos cumprir a penitência os dois juntos: Ave Maria puríssima, sem pecado original”. Vai com Deus, tranquilo. Sabeis que a mim me entusiasma que passeis horas no confessionário. Embora a primeira temporada seja passada a rezar o breviário ou a fazer a leitura espiritual, ou a fazer um tempo de meditação, porque não vem gente. As pessoas irão ter convosco, irão, e fareis um trabalho de teologia pastoral maravilhoso.

Uma mensagem de São Josemaria para todos

1974, São Paulo: Sabemos que o Padre está nos 50 anos do seu sacerdócio. Podia, Padre, falar-nos resumidamente da sua vida de sacerdote?

São Josemaria: Não me chamaste velho, mas disseste que estou nos meus 50 anos de sacerdócio. Foste prudentíssimo. E é verdade.

Em primeiro lugar, tenho que agradecer a Deus Nosso Senhor, estes 50 anos de labor. Trabalhei, – queres que to diga como costumo dizer? – porque me vais entender muito bem: “Ut iumentum factus sum apud te!”, como um burrinho estou diante de Deus a puxar pela carroça.

Foi esse o ofício a que me dediquei. O meu ofício é servir o Senhor e, pelo serviço do Senhor, servir a todas as almas sem distinção.

Só quero recordar que sou Cristo e Cristo fala de paz e de guerra. Cristo fala de dar e de dar-se, e Cristo fala sempre de amor. E julgo que é esta a missão do sacerdote: falar de Deus, repetir uma vez e outra as palavras de Cristo Nosso Senhor, a doutrina salvadora do Redentor e administrar os santos sacramentos sem distinção, com amor, de modo igual para todos.