«Há um crescente interesse pelo cristianismo, no mundo inteiro, que se atribui ao tédio das ideologias, à procura de uma estrutura de sentido, à escolha de experiências cristãs», afirmou Marc Carroggio, professor de Comunicação Institucional na Pontifícia Universidade da Santa Cruz de Roma, durante a palestra “Comunicação e evangelização no contexto contemporâneo”, que deu no dia 2.
O professor Carroggio iniciou a palestra expondo diversos fenómenos culturais, que chamam imenso a atenção pela sua inegável ligação com a religiosidade, ao projetar a escultura Youth (2009), do artista hiper-realista Ron Mueck. «Vemos um rapaz negro, contemporâneo, de calças de ganga, a levantar a t-shirt para mostrar uma ferida, do lado direito».

«Como a arte nos permite fazer justaposições, explicou Marc Carroggio, ao lado, podemos ver Cristo mostrando as Suas chagas, no Museu de Perth, uma obra do pintor Giacomo Galli, seguidor de Caravaggio, que nasceu em Siena, em 1597, e morreu em Roma, em 1649».
A obra de Ron Mueck fez parte da exposição “Sin”, organizada pela National Gallery de Londres, em 2020. Na apresentação da exposição, dizia-se: «Um jovem levanta a t-shirt para examinar uma ferida. Evoca a imagem de Cristo mostrando a sua ferida sacrificial. Será a juventude outro tipo de Cristo? Esta obra desmantela os estereótipos e preconceitos perpetuados pelo ciclo contínuo do pecado da sociedade».
Para o professor Carroggio, em contrapartida, o que a escultura de Ron Mueck e o óleo de Galli nos dizem é «que todos somos um pouco Cristo, todos temos feridas e todos podemos curar-nos», e a exposição da National Gallery «é uma grande catequese sobre a criação e a redenção». Em 2000, este museu organizou outro evento intitulado: The image of Christ, “O rosto de Cristo”, talvez o tema mais repetido na história da pintura. «Todas as grandes coleções de pintura europeia são inevitavelmente grandes coleções de arte cristã e grandes catequeses».

O caso Rosalía e o filme italiano Buen Camino
Carroggio também abordou a cultura pop e o caso Rosalía e respetivo álbum: Lux, «que foi um marco histórico no Spotify, tornando-se o álbum, em espanhol, com o maior lançamento da história, com mais de 42 milhões de reproduções no primeiro dia». Carroggio mostrou ao público um pequeno vídeo da cantora a conversar com uma amiga, onde Rosalía diz estar convencida de que tem um vazio interior «que só Deus pode preencher».
No âmbito dos meios de comunicação, o maior evento de 2025 foi a morte do Papa Francisco e a eleição do seu sucessor. «A eleição do Papa Leão foi o momento televisivo mais forte do ano passado, como demonstra a transmissão ao vivo da BBC britânica que, quando saiu fumo branco da chaminé da Capela Sistina, a comentadora se emocionou e disse: “Temos um novo Papa!”».
Por último, o professor Carroggio disse que Buen Camino, um filme italiano, do comediante Checco Zalone, sobre o Caminho de Santiago, «é número 1 de bilheteira em toda a história de Itália, ultrapassando até Avatar».
Transformação cultural e sede de sentido
Paradoxalmente, estas manifestações artísticas coexistem com uma inegável e profunda transformação cultural e legal. Entre 2000 e 2023, o número de casamentos católicos diminuiu 53%, em todo o mundo. Na Europa, a redução foi de 78%.
Paralelamente, disse Marc Carroggio, «há um interesse crescente pelo cristianismo, que se atribui ao tédio das ideologias, à procura de uma estrutura de sentido, à escolha de experiências cristãs. E, nesse sentido, Barcelona é um laboratório onde vemos um aumento progressivo de jovens que se aproximam das paróquias, da Adoração da Sagrada Eucaristia e de outras manifestações espontâneas dos fiéis cristãos».
«Durante a Vigília Pascal do ano passado, em França, foram batizadas 17 mil pessoas, a grande maioria adultos. O crescimento dos batismos de adultos no país gaulês foi de 31% entre 2024 e 2025. E, há poucos dias, em Madrid, tiveram lugar dois grandes encontros: “Llamados”, que contou com a presença de 6000 jovens, e “El despertar”, com 5000 participantes».
«Vivemos momentos muito interessantes, semelhantes à época do fim do Império Romano no Ocidente, a de Santo Agostinho, que vem do mundo pagão e acaba por ser um farol de luz da fé». É verdade que há “fatores-barreira”, como o imediatismo, a dificuldade em concentrar-se, em contemplar, bem como o individualismo. «Mas também há “carências férteis”, vazios culturais que podem tornar-se terreno fértil para a evangelização».
Chaves para a comunicação da fé
Por fim, o conferencista, citando a mensagem de Leão XIV na Cúria, do passado dia 22 de dezembro, expôs alguns pontos para a comunicação da fé.
A Igreja, disse o Papa, «é, por natureza, orientada para fora». «Primeiro ponto: abertura (orientada para fora, portas abertas); com caráter afirmativo, para levar a boa nova; alegria: o cristianismo não é um conjunto de proibições, mas uma opção positiva (nas palavras de Joseph Ratzinger)». «A Igreja leva-nos a um banquete festivo, que o Senhor nos prepara», disse Carroggio, que recordou o belíssimo filme de 1987: A Festa de Babette, imagem do banquete que o pai oferece ao filho pródigo quando este regressa a casa.
Outros pontos que mencionou são a liberdade e a relação: «Deus convida-nos, ninguém é obrigado a vir ao banquete»; a relação como fim em si mesma (não como meio), é necessário descobrirmo-nos filhos e irmãos; a espontaneidade e a confiança, dom do Espírito Santo. E a relação, que «é cristocêntrica». Também é preciso ter em conta a coerência – ser imagem de Cristo – a caridade: o filho amado. Ou a verdade: testemunhas da verdade, da justiça, da paz. E, por último, a universalidade: de todos, para todos, porque todas as pessoas podem ter um ponto de inflexão, e em tudo.

