«Para avançar, é preciso saber ceder»

Todo o pai sabe o que é cair. Pedir perdão, recomeçar, voltar a tentar. O Enrique não procurava uma escola para isso, mas encontrou-a num campo de râguebi cheio de lama.

Costumo dizer que o râguebi não começa quando soa o apito. Começa muito antes: quando um miúdo aperta as botas à pressa porque chega atrasado ao treino, quando uma mãe lava camisolas cheias de lama sem fazer má cara – ou quase –, ou quando um pai, depois de um longo dia de trabalho, vai diretamente para o campo treinar os «seus rapazes».

O râguebi é um desporto duro, sim. Mas, acima de tudo, é uma escola de virtudes humanas. E é por isso que gosto tanto dele para crianças e adolescentes. Porque aqui não se aprende apenas a placar: aprende-se a viver.

Para avançar, às vezes é preciso recuar

Quando explico o râguebi a alguém que não o conhece, há sempre uma regra que chama a atenção: a bola só pode ser passada para trás. Se a lançares para a frente, é falta. A equipa perde a posse. A única forma de ganhar terreno é confiar no companheiro do lado. Ceder. Largar a bola. E então a equipa avança em conjunto.

Como pai, como treinador, essa regra diz-me muito: às vezes avançar significa ceder, confiar no outro, não querer chegar sozinho. E perceber que o esforço vale a pena, mesmo quando os resultados demoram a aparecer. São Josemaria descrevia-o assim:

Com o árbitro não se discute

No râguebi respeita-se o árbitro. Não se protesta. E isso, num mundo em que tudo se discute, educa imenso. Aos rapazes custa-lhes no início, claro. Algum olha para mim como quem diz:

— «Mister, mas ele enganou-se…»

E aí está a lição: aceitar, calar e continuar a jogar.

Esse respeito depois passa para casa quase sem darmos conta: para o pai, para a mãe, para o professor. As virtudes humanas são a base das sobrenaturais, e o râguebi fomenta muitas: o respeito, o esforço, o sacrifício.

Há dias em que chove, está frio e o sofá chama mais alto do que o treino. Mesmo assim, vamos. E o miúdo aprende que nem tudo na vida é cómodo. Esse mesmo espírito é o que tento viver como pai: levantar-me a horas, cumprir bem o meu trabalho, ouvir com paciência em casa mesmo quando estou cansado. Santificar o dia a dia, fazendo bem o que é preciso fazer, com carinho e constância.

Cair e levantar-se

Há uma lição que explico sempre aos rapazes que treino: no râguebi cai-se. Muitas vezes; e levanta-se. Às vezes com uma pancada, outras com lama até às sobrancelhas. Mas ninguém fica no chão.

Quantas vezes acontece o mesmo em casa: há erros, zangas, dias difíceis. E quantas vezes é preciso pedir perdão, recomeçar e voltar a sorrir.

O Papa Leão XIV, na sua carta A vida em abundância, explica que o treino da alma e do corpo correm sempre para a mesma meta. Ensinar uma criança a levantar-se do chão é também ensiná-la a não desistir da vida. E muitas vezes, enquanto lhes ensino isso, sou eu quem aprende.

A vitória mais importante

Treinar crianças e adolescentes não é apenas ensinar técnica. É acompanhar, corrigir com carinho, exigir sem humilhar, acreditar neles mesmo quando falham. E isso ajudou-me muito a viver melhor a minha vocação de pai.

No Opus Dei aprendi que Deus nos espera no quotidiano: no trabalho bem feito, no trato amável, no serviço aos outros. Eu descobri-o entre bolas ovais, conversas de balneário e jogos perdidos com dignidade.

No fim de contas, o râguebi ensinou-me o mesmo que a paternidade: que ninguém avança sozinho, que é preciso levantar-se sempre, e que formar boas pessoas é sempre a maior vitória.