Para além de “bayanihan”: sTREATfood

STREATfood é um projeto de solidariedade da Residência e Centro de Estudos Tahilan que consiste em distribuir refeições e água engarrafada a estafetas, acompanhantes de doentes em hospitais e famílias pobres na área de Malate (Manila).

A sensação geral é de calor e humidade e muitas vezes de falta de espaço.

Bancas de comida alinham-se nos passeios, vendendo espetadas de carne assim como outro tipo de comida e bebida, proporcionando uma refeição rápida aos transeuntes que se apressam para o trabalho, para a escola ou qualquer outro destino.

Galos a anunciar o início de um novo dia, crianças aos gritos em brincadeiras despreocupadas no passeio, a tagarelice de pessoas tentando pôr-se a par do último mexerico e pretendentes a estrelas pop cantando sem qualquer tipo de inibição em bares de karaoke até às primeiras horas da manhã seguinte oferecem um pano de fundo musical muito familiar.

Apresento-vos as Filipinas.

No meio de toda esta agitação, não é, no entanto, evidente o espírito de empatia tão natural na maioria dos Filipinos, especialmente em momentos críticos de calamidades que frequentemente assolam o país.

Tal como foi demonstrado por pessoas anónimas à nossa volta que partilharam o pouco que tinham em “despensas comunitárias” que surgiram espontaneamente por todo o país na altura do confinamento pandémico, os pinoys (como nós, filipinos, às vezes chamamos a nós próprios) não permitem que a falta de recursos impeçam essa demonstração de solidariedade para com setores vulneráveis.

É com este espírito de compaixão cristã que a residência e Centro de Estudos Tahilan, situada em Manila se envolve em iniciativas como a “sTREATfood”.

Esta atividade mensal é levada a cabo por voluntárias (a maioria das quais pertence à Residência Tahilan e estuda na De La Salle University, De La Salle College of Saint Benilde Taft Campus e na University of the Phillippines em Manila) que distribuem refeições quentes e água engarrafada a destinatários ao seu alcance – incluindo estafetas de comida, acompanhantes de doentes em hospitais, e famílias indigentes – juntando-lhes bilhetes personalizados exprimindo afeto, encorajamento ou orações.

Simples, mas profundo

Perante a extrema pobreza que aflige uma parte da população do país, estes pequenos atos de caridade e serviço podem não fazer grande diferença, mas iluminam de facto as vidas do próximo, mesmo que só por um instante. E, espera-se que a alegria momentânea trazida por estes atos aproxime os destinatários de Cristo.

O processo de sTREATfood é simples. Algumas voluntárias juntam-se uma vez por mês para preparar uma refeição farta, enquanto outras elaboram cartazes para colocar nas bancas. As participantes entregam as refeições logo que estejam prontas.

Lembro-me de uma manhã em especial em que chovia torrencialmente, com a Taft Avenue e as ruas adjacentes inundadas até à altura dos joelhos.

Por momentos, parecia impossível continuar com a atividade.

Panelas e tachos enchiam a banca da cozinha, e os cartazes arriscavam-se a ficar ensopados. Eu e algumas voluntárias esforçávamo-nos por manter as refeições quentes, enquanto outras chamavam estafetas, homens de recolha do lixo e sem-abrigo.

De vez em quando irrompiam gargalhadas, aqui e ali, enquanto nos esforçávamos por manter vivo o espírito de serviço e a chuva caía ruidosamente sobre os telhados.

Nesse dia apercebi-me de que o amor não precisa de condições perfeitas para crescer. Com resiliência e oração consegue vencer tempestades, sejam elas climáticas ou de outra natureza.

Estudantes voluntárias de Tahilan partilham comida com estafetas num dia de tempestade.

Tesouro escondido

A essência de sTREATfood exemplifica, em vários aspetos, o espírito do Opus Dei: a santificação da vida diária.

As ruas movimentadas de Manila (onde se situa Tahilan) fazem com que seja fácil perdermo-nos no ruído à nossa volta. No entanto, cada corte de legumes, cada palavra escrita, cada bilhete cuidadosamente dobrado e contendo um pouco do nosso coração, quando é oferecido com amor, transforma-se numa oração silenciosa na rotina da vida diária.

Cada ação feita a pensar nos outros e oferecida a Deus revela algo de belo escondido na mais pequena das coisas.

O espírito de serviço incorporado no projeto sTREATfood reflete o costume filipino de “bayanihan*, segundo o qual o suor é doce quando é partilhado e a alegria é dez vezes maior.

Cada voluntário, independentemente da sua contribuição, torna-se parte de um conjunto maior. É nesta interação que se encontra a beleza de ser filipino – nós nunca enfrentamos a vida sozinhos.

Vivemos a vida juntos e formamos comunidades unidas pela empatia. Portanto, não é a nossa prontidão em servir os necessitados que confirma que somos filipinos de corpo e alma?

Mas sTREATfood é mais do que um simples programa alimentar. É um modo de convidar Cristo para as nossas vidas e de O encontrar no rosto daqueles que recebem o pouco que temos para partilhar.

Cada momento que passamos e cada bem que partilhamos com os menos afortunados faz lembrar o encontro de São Martinho de Tours, o soldado romano que cortou a sua capa para a partilhar com um mendigo que tremia de frio numa estrada no meio do inverno. Nessa noite, num sonho, ele viu e ouviu Jesus dizer aos anjos: “Martinho, que ainda é apenas catecúmeno, cobriu-me com o seu manto”. De facto, foi o próprio Senhor que disse: “Sempre que fizestes isto a um destes Meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes”.

Indispensável

Foi por isso que o fundador do Opus Dei, São Josemaria Escrivá, fez com que o serviço aos mais desfavorecidos fosse parte integrante da formação na Obra (nome pelo qual o Opus Dei – “Obra de Deus” – é conhecido informalmente) desde o início da sua história: ele próprio foi capelão do Patronato de Enfermos em Madrid de 1927 a 1931, enquanto os jovens que entretanto se tinham juntado a ele faziam regularmente “visitas aos pobres de Nossa Senhora” – os sem-abrigo, os doentes e os abandonados em hospitais – em Madrid.

Como é especial vê-l'O nos outros, com passados, circunstâncias e histórias pessoais variadas, mas sentindo o mesmo amor e afeto que só a Sua presença pode proporcionar.

Oferecer uma refeição quente a um condutor cansado ou a uma mãe exausta é reconhecer a presença de Jesus no mais pequeno dos nossos irmãos e irmãs. Cada pequena, breve, mas profunda troca lembra-nos que servir os outros é servir a Deus.

O espírito “bayanihan” tem a capacidade de se transformar em atos de amor e em oração. Cada filipino transporta dentro de si uma fonte inesgotável de alegria, empatia e resiliência – e ser cristão é oferecer tudo isso a Deus.

Que cada refeição que partilhamos e cada ato de bondade que realizamos acendam uma luz tanto no que dá como no que recebe, revelando a Sua presença entre nós.


*- N.T.: palavra filipina que descreve o espírito de unidade comunitária e esforço coletivo para atingir um objetivo.

Chynna Añover