O governo no Opus Dei baseia-se na colegialidade

Entrevista da agência Zenit a Marlies Kücking, da Assessoria Central do Opus Dei

A senhora é seguramente a mulher que ocupa o cargo mais importante do Opus Dei, mas é pouco conhecida fora da organização. É uma estratégia como a de São Josemaria de ocultar-se e desaparecer para não criar personalismos?

O governo no Opus Dei, em todos os seus graus e, portanto, também na Assessoria Central da qual formo parte, baseia-se na colegialidade. Cada um dos seus componentes tem a seu cargo algumas tarefas específicas - que não qualificaria como mais ou menos importantes - que se desempenham de modo coordenado, através de um estudo sério e responsável das questões nas quais, segundo a importância, intervêm várias pessoas, nunca menos de três.

Este modo de proceder – estou convencida de que foi uma especial graça de Deus que São Josemaria recebeu nos inícios do Opus Dei –, evita tanto a tirania de um governo personalista como esconder-se comodamente no anonimato.

Talvez convém recordar que quando no Opus Dei se fala de cargos ou de governo, está-se a fazer referência a uma tarefa que tem uma finalidade eminentemente espiritual: dar formação cristã. O Opus Dei, dizia o seu fundador, é «uma grande catequese».

Do que se trata é de fazer possível que os fiéis da Prelatura, os cooperadores e milhares de pessoas mais que se aproximam do Opus Dei tenham acesso aos meios para viver coerentemente a sua fé no meio do mundo, facilitar o seu encontro com Cristo nas atividades profissionais, familiares e sociais. Isto exige, como se pode imaginar, um mínimo de coordenação e organização. É ali onde entra em jogo a tarefa de governo de que falei.

Como funciona o governo da Obra? Qual é o papel dos diretores centrais?

Minha tarefa, junto com a de outras diretoras centrais, consiste em informar o prelado das questões relativas ao trabalho apostólico do Opus Dei entre mulheres em todo o mundo, apresentar o estudo de novas iniciativas, assim como a resolução de múltiplos assuntos que chegam desde os diferentes países nos quais a prelatura trabalha, e de outros lugares onde há alguns poucos fiéis do Opus Dei.

Antes falei da colegialidade no governo. Quero acrescentar outra faceta muito relacionada com isto: a descentralização e o respeito à liberdade e autonomia do Opus Dei no nível regional e local. Dentro de um mesmo espírito, comum a todos os fiéis da prelatura e válido agora e sempre, é preciso ter em conta a diversidade de mentalidades, o grau de desenvolvimento de uma sociedade, ou do trabalho apostólico da prelatura.

Não é o mesmo trabalhar em lugares como Japão ou Suécia que em Portugal; nem sequer é o mesmo o trabalho na Catalunha que na Andaluzia.

Sente-se como uma diretora de uma multinacional, a mãe de uma família numerosa, a colaboradora de um bispo ou uma companheira, ou irmã das 45.000 mulheres que pertencem à prelatura?

Nunca me perguntei, na verdade. Como uma diretora não. «O Opus Dei é uma pequena parte da Igreja», costumava dizer São Josemaria. E na Igreja é fundamental a caridade, a preocupação de uns pelos outros, por amor de Deus.

Na Prelatura, queremo-nos muito bem: compartilhamos alegrias e penas, procuramos estar perto das pessoas que por enfermidade, cansaço, etc. possam requerer mais ajuda.

Esta obrigação – que chamaria gozosa – corresponde logicamente em primeiro lugar ao prelado, e com ele, aos diretores e diretoras, estejam onde estiverem.

Cumprem-se 30 anos da morte do fundador do Opus Dei. A Senhora disse em alguma ocasião que lhe causou impacto a «solicitude materna» deste santo. A que se refere?

São Josemaria era para suas filhas e filhos, e para todas as pessoas que se aproximavam dele, pai e mãe. Como às mães, bastava ver para dar-se conta se alguém não se encontrava bem, que havia emagrecido ou que podia ter uma preocupação, compartilhava alegrias e penas, conhecia os gostos de cada um.

Mas o seu não era um querer sentimental: como uma boa mãe, também sabia ser forte e corrigir quando fazia falta. Fazia-o com toda a clareza e, por sua vez, com infinito carinho.

Posso afirmar – e não só por experiência própria – que depois deste tipo de conversação se ficava muito agradecido. Também não era difícil que horas depois ou ao dia seguinte houvesse um detalhe de carinho que deixava claro que «ali não tinha acontecido nada».

22 de Junho de 2005//ZENIT.org