Leão XIV: homilia na Epifania e fim do Jubileu

Apresentamos a homilia da Missa de 6 de janeiro. No final da cerimónia, o Papa fechou a porta santa da Basílica de São Pedro, dando por encerrado o ano jubilar. Apresentamos também as homilias de 24, 25, 31 de dezembro e de 1 de janeiro.

24 de dezembro 🔴 25 de dezembro

31 de dezembro 🔴 1 de janeiro 🔴 6 de janeiro


Solenidade da Epifania do Senhor

Terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Queridos irmãos e irmãs,

O Evangelho (cf. Mt 2, 1-12) descreveu-nos a grande alegria dos Magos ao reverem a estrela (cf. v. 10), mas também a perturbação sentida por Herodes e por toda a cidade de Jerusalém diante da sua busca (cf. v. 3). Sempre que se trata das manifestações de Deus, a Sagrada Escritura não esconde este tipo de contrastes: alegria e perturbação, resistência e obediência, medo e desejo. Celebramos hoje a Epifania do Senhor, conscientes de que, na sua presença, nada permanece como antes. Este é o início da esperança. Deus revela-se e nada pode permanecer imóvel. Acaba-se uma certa tranquilidade, aquela que leva os melancólicos a repetir: «Nada há de novo debaixo do Sol» (Ecl 1, 9). Começa algo do qual dependem o presente e o futuro, como anuncia o Profeta: «Levanta-te e resplandece, Jerusalém, que está a chegar a tua luz! A glória do Senhor amanhece sobre ti!» (Is 60, 1).

Surpreende que seja perturbada precisamente Jerusalém, cidade palco de tantos novos começos. Dentro dela, exatamente aqueles que estudam as Escrituras e pensam ter todas as respostas dão a impressão de ter perdido a capacidade de formular perguntas e cultivar desejos. Aliás, a cidade fica assustada com aqueles que vêm de longe, movidos pela esperança, a ponto de pressentir uma ameaça naquilo que, pelo contrário, deveria dar-lhe muita alegria. Esta reação interpela também todos nós, como Igreja.

A Porta Santa desta Basílica que, por último, hoje foi fechada, recebeu o fluxo de inúmeros homens e mulheres, peregrinos de esperança, a caminho da Cidade cujas portas estão sempre abertas, a nova Jerusalém (cf. Ap 21, 25). Quem foram eles e o que os motivava? No final do Ano Jubilar, questiona-nos com particular seriedade a busca espiritual dos nossos contemporâneos, muito mais rica do que talvez possamos compreender. Milhões deles atravessaram a soleira da Igreja. E o que encontraram? Que corações, que atenção, que acolhimento? Sim, os Magos ainda existem. São pessoas que aceitam o desafio de arriscar cada um a própria viagem, que num mundo conturbado como o nosso, sob muitos aspetos repulsivo e perigoso, sentem a necessidade de partir, de procurar.

Homo viator, assim diziam os antigos. Somos vidas a caminho. O Evangelho compromete a Igreja a não ter medo desse dinamismo, mas a apreciá-lo e a orientá-lo para o Deus que o suscita. É um Deus que pode perturbar-nos, porque não está imóvel nas nossas mãos como os ídolos de prata e ouro: pelo contrário, é vivo e vivificante, como aquele Menino que Maria acolheu nos seus braços e que os Magos adoraram. Os lugares santos, como as catedrais, as basílicas, os santuários, que se tornaram destinos de peregrinação jubilar, devem difundir o perfume da vida, a impressão indelével de que um outro mundo começou.

Perguntemo-nos: há vida na nossa Igreja? Há espaço para o que está a nascer? Amamos e anunciamos um Deus que nos põe novamente a caminho?

No relato, Herodes teme pelo seu trono, agita-se com o que sente fugir ao seu controlo. Tenta aproveitar-se do desejo dos Magos e procura desviar em seu benefício a busca deles. Está pronto a mentir, está disposto a tudo; verdadeiramente, o medo cega. Em contrapartida, a alegria do Evangelho liberta: torna-nos prudentes, sim, mas também audazes, atentos e criativos; sugere estradas diferentes daquelas já percorridas.

Os Magos trazem a Jerusalém uma pergunta simples e essencial: «Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer?» (Mt 2, 2). Como é importante que quem atravessa a porta da Igreja sinta que o Messias acaba de nascer ali e que ali se reúne uma comunidade na qual surgiu a esperança e que ali está a acontecer uma história de vida! O Jubileu veio para nos lembrar que é possível recomeçar, ou melhor, que estamos ainda no início, que o Senhor deseja crescer no meio de nós, deseja ser o Deus-connosco. Sim, Deus põe em questão a ordem existente: tem sonhos que ainda hoje inspira nos seus profetas; está determinado a resgatar-nos de antigas e novas escravidões; envolve jovens e idosos, pobres e ricos, homens e mulheres, santos e pecadores nas suas obras de misericórdia, nas maravilhas da sua justiça. Não faz barulho, mas o seu Reino já está a germinar em todo o mundo.

Quantas epifanias nos são concedidas ou estão prestes a ser concedidas! No entanto, elas devem ser desviadas das intenções de Herodes, dos medos sempre prontos a transformar-se em agressão. «Desde o tempo de João Batista até agora, o Reino do Céu tem sido objeto de violência e os violentos apoderam-se dele à força» (Mt 11, 12). Esta misteriosa expressão de Jesus, relatada no Evangelho de Mateus, não pode deixar de nos fazer pensar nos numerosos conflitos com os quais os homens podem resistir e até mesmo atingir o Novo que Deus reserva para todos. Amar a paz e procurá-la significa proteger o que é santo e, por isso mesmo, nascente: pequeno, delicado, frágil como uma criança. À nossa volta, uma economia distorcida tenta tirar proveito de tudo. Vemo-lo: o mercado transforma em negócios até mesmo a sede humana de procurar, viajar e recomeçar. Perguntemo-nos: o Jubileu ensinou-nos a fugir desse tipo de eficiência que reduz tudo a um produto e o ser humano a um consumidor? Depois deste ano, estaremos mais capacitados para reconhecer no visitante um peregrino, no desconhecido um buscador, no distante um vizinho, no diferente um companheiro de viagem?

O modo como Jesus encontrou a todos e deixou que todos se aproximassem d’Ele ensina-nos a valorizar o segredo dos corações que só Ele sabe ler. Com Ele, aprendemos a interpretar os sinais dos tempos (cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. Gaudium et spes, 4). Ninguém nos pode vender isto. O Menino que os Magos adoram é um Bem sem preço, nem medida. É a Epifania da gratuidade. Não nos aguarda em lugares prestigiados, mas nas realidades humildes. «E tu, Belém, terra de Judá, de modo nenhum és a menor entre as principais cidades da Judeia» (Mt 2, 6). Quantas cidades, quantas comunidades precisam de ouvir: “De modo nenhum és a menor”. Sim, o Senhor continua a surpreender-nos! Ele deixa-se encontrar. Os nossos caminhos não são os seus caminhos, que nem os violentos conseguem dominar, nem os poderes do mundo podem obstruir. Daí a grande alegria dos Magos, que deixam para trás o palácio e o templo e partem para Belém: voltam então a ver a estrela!

Por isso, queridos irmãos e irmãs, é bom sermos peregrinos de esperança. E é bom continuar a sê-lo, juntos! A fidelidade de Deus continuará a surpreender-nos. Se não reduzirmos as nossas igrejas a monumentos, se as nossas comunidades forem casas, se resistirmos unidos às seduções dos poderosos, então seremos a geração da aurora. Maria, Estrela da Manhã, caminhará sempre à nossa frente! No seu Filho, contemplaremos e serviremos uma magnífica humanidade, transformada não por delírios de omnipotência, mas pelo Deus que, por amor, se fez carne.


Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus

Quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Queridos irmãos e irmãs,

Hoje, Solenidade de Maria Santíssima, Mãe de Deus, início do novo ano civil, a Liturgia oferece-nos o texto de uma bênção belíssima: «O Senhor te abençoe e te guarde! O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e te favoreça! O Senhor volte para ti a sua face e te dê a paz!» (Nm 6, 24-26).

Esta bênção encontra-se, no livro dos Números, a seguir às indicações sobre a consagração dos nazireus, para sublinhar, na relação entre Deus e o povo de Israel, a dimensão sagrada e fecunda do dom. O homem oferece tudo o que recebeu ao Criador, que responde voltando para ele o seu olhar benigno, tal como nos primórdios do mundo (cf. Gn 1, 31).

Graças à intervenção de Deus e à resposta generosa do seu servo Moisés, o povo de Israel, a quem esta bênção se dirigia, era um povo de libertos, de homens e mulheres renascidos após uma prolongada escravidão. Era um povo que no Egito tinha usufruído de algumas seguranças – não faltava comida, nem teto, nem uma certa estabilidade –, mas à custa de ser escravo, oprimido por uma tirania que exigia cada vez mais, dando cada vez menos (cf. Ex 5, 6-7). Agora, no deserto, muitas das certezas do passado tinham-se perdido, mas em troca havia a liberdade, que se concretizava num caminho aberto para o futuro, no dom de uma lei de sabedoria e na promessa de uma terra na qual fosse possível viver e crescer sem grilhões nem correntes; em suma, num renascimento.

Assim, no início do novo ano, a Liturgia recorda-nos que cada dia pode ser, para cada um de nós, o início de uma nova vida, graças ao amor generoso de Deus, à sua misericórdia e à resposta da nossa liberdade. É bonito pensar deste modo o ano que começa: como um caminho aberto, a descobrir, no qual por graça nos podemos aventurar, livres e portadores de liberdade, perdoados e doadores de perdão, confiantes na proximidade e na bondade do Senhor que sempre nos acompanha.

Tudo isto recordamos ao celebrar o mistério da Divina Maternidade de Maria, que com o seu “sim” contribuiu para dar à Fonte de toda a misericórdia e benevolência um rosto humano: o rosto de Jesus, através de cujos olhos de criança, depois jovem e homem, o amor do Pai nos alcança e transforma.

Por isso, no início do ano, encaminhando-nos para os dias novos e únicos que nos esperam, pedimos ao Senhor que em cada momento sintamos, à nossa volta e sobre nós, o calor do seu abraço paterno e a luz do seu olhar benevolente, para compreendermos sempre mais e termos constantemente presente quem somos e a que fim maravilhoso nos dirigimos (cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. Gaudium et spes, 41). Ao mesmo tempo, porém, também nós lhe damos glória, com a oração e a santidade de vida, tornando-nos, uns para os outros, espelho da sua bondade.

Santo Agostinho ensinava que em Maria «o criador do homem se fez homem, para que, embora Ele fosse o criador das estrelas, se alimentasse do seio de uma mulher; embora Ele fosse o pão (cf. Jo 6, 35), pudesse ter fome (cf. Mt 4,2); [...] para nos libertar, embora nós fossemos indignos» (Sermo 191, 1.1). Deste modo, ele recordava uma das características fundamentais do rosto de Deus: o da total gratuidade do seu amor, pelo qual Ele se nos apresenta – como quis sublinhar na Mensagem deste Dia Mundial da Paz – “desarmado e desarmante”, nu e indefeso, como um recém-nascido no berço. Tudo isto para nos ensinar que o mundo não se salva afiando espadas, julgando, oprimindo ou eliminando os irmãos, mas sim esforçando-se incansavelmente por compreender, perdoar, libertar e acolher todos, sem cálculos nem medos.

É este o rosto de Deus que Maria deixou que se formasse e crescesse no seu ventre, mudando completamente a sua vida. É o rosto que ela anunciou através da luz alegre e delicada dos seus olhos de mãe expectante; o rosto cuja beleza ela contemplou dia após dia, à medida que Jesus ia crescendo – criança, adolescente e jovem – na sua casa; e que depois acompanhou, com o seu coração de discípula humilde, enquanto Ele percorria os caminhos da sua missão, até à cruz e ressurreição. Para o fazer, também ela depôs todas as defesas, renunciando a expectativas, pretensões e garantias, como as mães sabem fazer, consagrando sem reservas a sua vida ao Filho que por graça tinha recebido, para que Ela, por sua vez, o doasse de novo ao mundo.

Na Maternidade Divina de Maria, observamos o encontro de duas realidades imensas e “desarmadas”: a de Deus, que renuncia a todos os privilégios da sua divindade para nascer segundo a carne (cf. Fil 2, 6-11), e a da pessoa que com confiança abraça totalmente a sua vontade, prestando-Lhe, num ato perfeito de amor, a homenagem do seu maior poder: a liberdade.

Meditando sobre este mistério, São João Paulo II convidava a contemplar o que os pastores encontraram em Belém: «a serena ternura do Menino, a surpreendente pobreza em que Ele se encontra, a humilde simplicidade de Maria e de José» transformaram a sua vida, tornando-os «mensageiros de salvação» (Homilia na Missa de Maria Santíssima, Mãe de Deus, XXXIV Dia Mundial da Paz, 1 de janeiro de 2001).

Disse-o no final do Grande Jubileu do ano 2000, com palavras que nos podem fazer refletir também a nós: «Quantos dons – afirmava – e quantas ocasiões extraordinárias o grande Jubileu ofereceu aos fiéis! Na experiência do dom recebido e concedido, na recordação dos mártires, na escuta do brado dos pobres do mundo […] também nós entrevimos a presença salvífica de Deus na história. Quase tocámos com a mão o seu amor que renova a face da terra» (ibid.), e concluía: «Como aos pastores que acorreram para o adorar, Cristo pede aos fiéis, aos quais concedeu a alegria do Seu encontro, uma corajosa disponibilidade a partir de novo para anunciar o seu Evangelho, antigo e sempre novo. Convida-os a vivificar a história e as culturas dos homens com a sua mensagem salvífica» (ibid.).

Queridos irmãos e irmãs, nesta Festa solene, no início do novo ano, prestes a concluir o Jubileu da Esperança, abeiremo-nos com fé do Presépio, qual lugar por excelência da paz “desarmada e desarmante”, lugar de bênção, no qual podemos recordar os prodígios que o Senhor realizou na história da salvação e na nossa existência, para depois partirmos, como os humildes testemunhas da gruta, «glorificando e louvando a Deus» (Lc 2, 20) por tudo o que vimos e ouvimos. Que seja este o nosso compromisso e propósito para os próximos meses e para toda a nossa vida cristã.


Vésperas da Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus

Quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Estimados irmãos e irmãs!

A liturgia das primeiras Vésperas da Mãe de Deus contém uma riqueza singular, que lhe deriva tanto do mistério vertiginoso que celebra, como da sua colocação precisamente no final do ano civil. As antífonas dos salmos e do Magnificat insistem sobre o evento paradoxal de um Deus que nasce de uma virgem ou, vice-versa, da maternidade divina de Maria. E, ao mesmo tempo, esta solenidade, que encerra a Oitava do Natal, cobre a passagem de um ano para outro, estendendo sobre ela a bênção d’Aquele «que era, que é e que vem» (Ap 1, 8). Além disso, hoje celebramo-la no encerramento do Jubileu, no coração de Roma, diante do Túmulo de Pedro, e então o Te Deum que em breve ressoará nesta Basílica desejará dilatar-se para dar voz a todos os corações e rostos que passaram sob estas abóbadas e pelas ruas desta cidade.

Na Leitura bíblica ouvimos uma das sínteses surpreendentes do apóstolo Paulo: «Quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para resgatar quantos estavam sob a lei, a fim de que recebêssemos a adoção de filhos» (Gl 4, 4-5). Esta forma de apresentar o mistério de Cristo faz pensar num desígnio, um grande desígnio sobre a história humana. Um desígnio misterioso, mas com um centro claro, como uma alta montanha iluminada pelo sol no meio de uma densa floresta: este centro é a «plenitude dos tempos»!

E precisamente esta palavra – “desígnio” – ressoa no cântico da Carta aos Efésios: «O desígnio de reunir em Cristo todas as coisas / tanto as do céu como as da terra. / Na sua benevolência, já o havia formado, / para o realizar na plenitude dos tempos» (Ef 1, 9-10).

Irmãs, irmãos, neste nosso tempo sentimos a necessidade de um desígnio sábio, benevolente, misericordioso. Que seja um projeto livre e libertador, pacífico, fiel, como aquele que a Virgem Maria proclamou no seu cântico de louvor: «De geração em geração, a sua misericórdia / estende-se sobre quantos o temem» (Lc 1, 50).

Outros desígnios, porém, tanto hoje como ontem, envolvem o mundo. São sobretudo estratégias, que visam conquistar mercados, territórios, zonas de influência. Estratégias armadas, revestidas de discursos hipócritas, de proclamações ideológicas, de falsos motivos religiosos.

Mas a Santa Mãe de Deus, a mais pequenina e a mais excelsa entre as criaturas, vê a realidade com o olhar de Deus: vê que, com o poder do seu braço, o Altíssimo dispersa as tramas dos soberbos, derruba os poderosos dos tronos e eleva os humildes, enche de bens as mãos dos famintos, esvaziando as dos ricos (cf. Lc 1, 51-53).

A Mãe de Jesus é a mulher com quem Deus, na plenitude dos tempos, escreveu a Palavra que revela o mistério. Ele não a impôs: primeiro propô-la ao seu coração e, tendo recebido o seu “sim”, escreveu-a com amor inefável na sua carne. Assim, a esperança de Deus entrelaçou-se com a esperança de Maria, descendente de Abraão segundo a carne e, sobretudo, segundo a fé.

Deus ama esperar com o coração dos pequeninos, e fá-lo envolvendo-os no seu desígnio de salvação. Quanto mais belo é o desígnio, tanto maior é a esperança. E, com efeito, o mundo vai em frente assim, impelido pela esperança de tantas pessoas simples, desconhecidas, mas não para Deus, que não obstante tudo acreditam num amanhã melhor, pois sabem que o futuro está nas mãos d’Aquele que lhes oferece a maior esperança!

Uma destas pessoas era Simão, um pescador da Galileia, a quem Jesus chamou Pedro. Deus Pai deu-lhe uma fé tão sincera e generosa que o Senhor pôde construir sobre ela a sua comunidade (cf. Mt 16, 18). E ainda hoje rezamos aqui, diante do seu túmulo, onde peregrinos de todas as partes do mundo vêm renovar a sua fé em Jesus Cristo, Filho de Deus. Isto aconteceu de modo especial durante o Ano Santo que está prestes a terminar.

O Jubileu é um grande sinal de um mundo novo, renovado e reconciliado segundo o desígnio de Deus. E neste desígnio, a Providência reservou um lugar especial para esta cidade de Roma. Não pelas suas glórias, não pelo seu poder, mas porque aqui Pedro, Paulo e muitos outros Mártires derramaram o seu sangue por Cristo. Por isso, Roma é a cidade do Jubileu!

O que podemos desejar a Roma? Que esteja à altura dos seus pequeninos. Das crianças, dos idosos sozinhos e frágeis, das famílias que têm mais dificuldade em ir em frente, de homens e mulheres vindos de longe esperando uma vida digna.

Caros irmãos, hoje damos graças a Deus pela dádiva do Jubileu, que foi um grande sinal do seu desígnio de esperança sobre o homem e o mundo. E agradecemos a todos aqueles que, nos meses e dias de 2025, trabalharam ao serviço dos peregrinos e para tornar Roma mais acolhedora. Há um ano foram estes os votos do amado Papa Francisco! Gostaria que continuassem a sê-lo, e diria ainda mais depois deste tempo de graça. Que esta cidade, animada pela esperança cristã, possa estar ao serviço do desígnio de amor de Deus sobre a família humana. Que no-lo conceda a intercessão da Santa Mãe de Deus, Salus Populi Romani!


Solenidade da Natividade do Senhor

Quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Irmãs e irmãos caríssimos!

«Irrompei em cânticos de alegria» (Is 52, 9), brada o mensageiro da paz a todos aqueles que se encontram entre as ruínas de uma cidade inteiramente por reconstruir. Embora empoeirados e feridos, os seus pés são formosos – escreve o profeta (cf. Is 52, 7) –, porque, por estradas longas e irregulares, trouxeram uma alegre notícia, na qual tudo agora renasce. É um novo dia! Também nós participamos nesta mudança, na qual ninguém parece ainda acreditar: a paz existe e já está no meio de nós.

«Deixo-vos a paz; dou-vos a minha paz. Não é como a dá o mundo, que Eu vo-la dou» (Jo 14, 27). Assim disse Jesus aos discípulos, a quem acabara de lavar os pés, mensageiros da paz que, a partir daquele momento, deveriam percorrer o mundo, sem se cansar, para revelar a todos «o poder de se tornarem filhos de Deus» (Jo 1, 12). Hoje, portanto, não só nos surpreendemos com a paz que já está aqui, mas celebramos como este dom nos foi dado. Com efeito, a partir deste como brilha a diferença divina que nos faz irromper em cânticos de alegria. Por isso, em todo o mundo, o Natal é, por excelência, uma festa de músicas e cânticos.

O prólogo do quarto Evangelho também é um hino e tem como protagonista o Verbo de Deus. O “verbo” é uma palavra que age. Esta é uma caraterística da Palavra de Deus: nunca é ineficaz. Olhando bem, muitas das nossas palavras também produzem efeitos, por vezes indesejados. Sim, as palavras agem. Mas eis a surpresa que a liturgia do Natal coloca diante de nós: o Verbo de Deus aparece e não sabe falar, vem até nós como um recém-nascido que apenas chora e dá vagidos. «Fez-se carne» (cf. Jo 1, 14) e, embora crescerá e um dia aprenderá a língua do seu povo, agora fala apenas a sua presença simples e frágil. «Carne» é a nudez radical à qual, em Belém e no Calvário, falta até a palavra; como a não têm muitos irmãos e irmãs despojados da sua dignidade e reduzidos ao silêncio. A carne humana pede cuidados, invoca acolhimento e reconhecimento, procura mãos capazes de ternura e mentes dispostas à atenção, deseja palavras bonitas.

«Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas, a quantos o receberam, aos que nele creem, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus» (Jo 1, 11-12). Eis a forma paradoxal segundo a qual a paz já está entre nós: o dom de Deus envolve-nos, procura acolhimento e mobiliza a dedicação. Surpreende-nos porque se expõe à rejeição, encanta-nos porque nos arranca da indiferença. É um verdadeiro poder o de nos tornarmos filhos de Deus: um poder que permanece enterrado enquanto estivermos distantes do choro das crianças e da fragilidade dos idosos, do silêncio impotente das vítimas e da melancolia resignada de quem faz o mal que não quer.

Como escreveu o amado Papa Francisco, para nos convocar à alegria do Evangelho: «Às vezes sentimos a tentação de ser cristãos, mantendo uma prudente distância das chagas do Senhor. Mas Jesus quer que toquemos a miséria humana, que toquemos a carne sofredora dos outros. Espera que renunciemos a procurar aqueles abrigos pessoais ou comunitários que permitem manter-nos à distância do nó do drama humano, a fim de aceitarmos verdadeiramente entrar em contato com a vida concreta dos outros e conhecermos a força da ternura» (Exort. ap. Evangelii gaudium, 270).

Queridos irmãos e irmãs, uma vez que o Verbo se fez carne, agora a carne fala, brada o desejo divino de nos encontrar. O Verbo ergueu no meio de nós a sua frágil tenda. E como não pensar nas tendas de Gaza, expostas durante semanas à chuva, ao vento e ao frio, e nas tendas de tantos outros deslocados e refugiados em todos os continentes; ou nos refúgios improvisados de milhares de pessoas sem-abrigo dentro das nossas cidades? Fragilizada se encontra a carne das populações indefesas, provadas por tantas guerras em curso ou concluídas, deixando escombros e feridas abertas. Fragilizadas estão as mentes e as vidas dos jovens obrigados a pegar em armas, que precisamente na frente de batalha percebem a insensatez do que lhes é exigido e a mentira de que estão embebidos os discursos inflamados daqueles que os enviam para a morte.

Quando a fraqueza dos outros penetra o nosso coração, quando a dor alheia despedaça as nossas certezas graníticas, então já começa a paz. A paz de Deus nasce de um choro de criança acolhido, de um pranto ouvido: nasce entre ruínas que invocam solidariedades renovadas, nasce de sonhos e visões que, como profecias, invertem o curso da história. Sim, tudo isso existe, porque Jesus é o Logos, o sentido a partir do qual tudo tomou forma. «Por Ele é que tudo começou a existir; e sem Ele nada veio à existência» (Jo 1, 3). Este mistério interpela-nos a partir dos presépios que construímos, abre-nos os olhos para um mundo em que a Palavra ainda ressoa, «muitas vezes e de variados modos» (cf. Heb 1, 1), e continua a chamar-nos à conversão.

Certamente, o Evangelho não esconde a resistência das trevas à luz, descreve o caminho da Palavra de Deus como uma estrada intransitável, repleta de obstáculos. Até hoje, os autênticos mensageiros da paz seguem o Verbo neste caminho, que finalmente alcança os corações: corações inquietos, que muitas vezes desejam justamente aquilo a que resistem. Assim, o Natal motiva novamente uma Igreja missionária, impelindo-a pelos caminhos que a Palavra de Deus traçou para ela. Não estamos ao serviço de uma palavra prepotente – já ressoam por toda parte –, mas uma presença que suscita o bem, conhece a sua eficácia e não reivindica o seu monopólio.

Eis o caminho da missão: um caminho em direção ao outro. Em Deus, cada palavra é uma palavra dirigida, é um convite à conversação, uma palavra que nunca é igual a si mesma. É a renovação que o Concílio Vaticano II promoveu e que veremos florescer apenas caminhando juntos com toda a humanidade, sem nunca nos separarmos dela. O contrário é mundano: ter-se a si mesmo como centro. O movimento da Encarnação é um dinamismo de conversação. Haverá paz quando os nossos monólogos se interromperem e, fecundados pela escuta, cairmos de joelhos diante da carne despojada do outro. Precisamente nisto, a Virgem Maria é a Mãe da Igreja, a Estrela da evangelização, a Rainha da paz. Nela compreendemos que nada nasce da exibição da força e tudo renasce a partir do poder silencioso da vida acolhida.


Santa Missa da Véspera de Natal

Quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Queridos irmãos e irmãs,

Durante milénios, em todas as partes da Terra, os povos perscrutaram o céu, dando nomes e formas às silenciosas estrelas: na sua imaginação, liam os acontecimentos do futuro, procurando lá no alto, entre os astros, a verdade que faltava cá em baixo, entre as casas. Naquela escuridão, como que a tatear, eles permaneciam confusos com os seus próprios oráculos. Todavia, nesta noite, «o povo que andava nas trevas viu uma grande luz; habitavam numa terra de sombras, mas uma luz brilhou sobre eles» (Is 9, 1).

Eis a estrela que surpreende o mundo, uma centelha recém-acesa e flamejante de vida: «Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias Senhor» (Lc 2, 11). No tempo e no espaço, onde quer que estejamos, vem Aquele sem o qual nem mesmo teríamos existido. Vive conosco Aquele que por nós dá a vida, iluminando com a salvação a nossa noite. Não há trevas que esta estrela não ilumine, porque à sua luz toda a humanidade vê a aurora de uma existência nova e eterna.

É o Natal de Jesus, o Emanuel. No Filho feito homem, Deus não nos dá algo, mas a si mesmo, «para nos resgatar de toda a iniquidade e formar para si um povo puro» (Tt 2, 14). Nasce na noite Aquele que da noite nos resgata: o vestígio do dia que amanhece, já não deve procurar-se lá longe, nos espaços siderais, mas inclinando a cabeça, para o estábulo ao lado.

Com efeito, o sinal claro dado a um mundo às escuras é «um menino envolto em panos, deitado numa manjedoura» (Lc 2, 12). Para encontrar o Salvador, não é preciso olhar para cima, mas contemplar o que está em baixo: a onipotência de Deus resplandece na impotência de um recém-nascido; a eloquência do Verbo eterno ressoa no primeiro choro de um bebé; a santidade do Espírito brilha naquele corpinho recém-lavado e envolto em panos. É divina a necessidade de cuidado e calor, que o Filho do Pai partilha na história com todos os seus irmãos. A luz divina que irradia deste Menino ajuda-nos a ver o homem em cada vida nascente.

Para iluminar a nossa cegueira, o Senhor quis revelar-se como homem ao homem, sua verdadeira imagem, segundo um projeto de amor iniciado com a criação do mundo. Enquanto a noite do erro obscurecer esta verdade providencial, então «não há espaço sequer para os outros, para as crianças, para os pobres, para os estrangeiros» (Bento XVI, Homilia na noite de Natal, 24 de dezembro de 2012). Estas palavras do Papa Bento XVI, lembram-nos que na terra não há espaço para Deus se não houver espaço para o homem: não acolher um significa não acolher o outro. Em vez disso, onde há lugar para o homem, há lugar para Deus: então um estábulo pode tornar-se mais sagrado do que um templo e o ventre da Virgem Maria é a arca da nova aliança.

Caríssimos, admiremos a sabedoria do Natal. No Menino Jesus, Deus dá ao mundo uma vida nova: a sua, para todos. Não uma ideia que resolve todos os problemas, mas uma história de amor que nos envolve. Perante as expectativas dos povos, Ele envia um bebé, para que seja palavra de esperança; perante a dor dos miseráveis, Ele envia um indefeso, para que seja força para se levantarem; perante a violência e a opressão, Ele acende uma luz suave que ilumina com a salvação todos os filhos deste mundo. Como observava Santo Agostinho, «a soberba humana esmagou-te tanto que só a humildade divina podia levantar-te» (Sermo in Natale Domini 188, III, 3). Sim, enquanto uma economia distorcida leva a tratar os homens como mercadoria, Deus torna-se semelhante a nós, revelando a infinita dignidade de cada pessoa. Enquanto o homem quer tornar-se Deus para dominar o próximo, Deus quer tornar-se homem para nos libertar de toda a escravidão. Será este amor suficiente para mudar a nossa história?

A resposta surge logo que, como os pastores, despertamos da noite de morte para a luz da vida nascente, contemplando o Menino Jesus. Sobre o estábulo de Belém, onde Maria e José, cheios de admiração, velam o Recém-nascido, o céu estrelado torna-se «uma multidão do exército celeste» (Lc 2, 13). São hostes desarmadas e desarmantes, porque cantam a glória de Deus, cuja manifestação na terra é a paz (cf. v. 14): efetivamente, no coração de Cristo palpita o vínculo que une no amor céu e terra, Criador e criaturas.

Por isso, há exatamente um ano, o Papa Francisco afirmou que o Natal de Jesus reaviva em nós «o dom e o compromisso de levar a esperança onde ela se perdeu», porque «com Ele a alegria floresce, com Ele a vida muda, com Ele a esperança não desilude» (Homilia na noite de Natal, 24 de dezembro de 2024). Com estas palavras, começou o Ano Santo. Agora que o Jubileu se aproxima do seu termo, o Natal é para nós um tempo de gratidão e missão. Gratidão pelo dom recebido, missão para o testemunhar ao mundo. Como canta o Salmista: «Proclamai, dia após dia, a sua salvação. / Anunciai aos pagãos a sua glória / e a todos os povos, as suas maravilhas» (Sl 96 ,2-3).

Irmãs e irmãos, a contemplação do Verbo feito carne suscita em toda a Igreja uma palavra nova e verdadeira: proclamemos, então, a alegria do Natal, que é festa da fé, da caridade e da esperança. É festa da fé, porque Deus se faz homem, nascendo de uma Virgem. É festa da caridade, porque o dom do Filho redentor se realiza na dedicação fraterna. É festa da esperança, porque o Menino Jesus a acende em nós, tornando-nos mensageiros da paz. Com estas virtudes no coração, sem temer a noite, podemos ir ao encontro do amanhecer do novo dia.

Libreria Editrice Vaticana