A transformar corações, um byte de cada vez

A inteligência artificial já não é um conceito distante, limitado à ficção científica. Está a moldar ativamente a nossa cultura, influenciando a forma como executamos tarefas, e afetando até o modo como processamos a informação – como chegamos a aprender e a acreditar.

“A inteligência artificial é um instrumento extremamente poderoso, utilizado em muitos domínios da atividade humana: da medicina ao mundo do trabalho, da cultura à comunicação, da educação à política. E é já legítimo supor que o seu uso influenciará cada vez mais a nossa forma de viver, as nossas relações sociais e, no futuro, até mesmo a maneira como concebemos a nossa identidade enquanto seres humanos”. O Papa Francisco proferiu estas palavras aos líderes da Cimeira do G7 em Puglia, Itália, no passado dia 14 de junho.

Chamou-me a atenção o facto de ele ter centrado a mensagem deste discurso histórico na Inteligência Artificial, descrevendo-a como simultaneamente entusiasmante e temível.

Anteriormente à cimeira, durante os Minerva Dialogues, o Pontífice desafiou num encontro de cientistas, especialistas do digital, pensadores de ética e teólogos a usar a IA de forma responsável, para promover a dignidade humana e o bem comum. Além disso, na sua mensagem para o 58.o Dia Mundial das Comunicações Sociais, apelou mais uma vez à sua utilização ética para melhorar a comunicação e as relações humanas.

Confissão e Compromisso

Como criativa da GenX Catholic (geração católica X), eu tinha, inicialmente, algumas reservas quanto à utilização da IA. Surgiam questões: “Pode uma máquina pretender realmente ser inteligente?” “Poderá a IA substituir os humanos?” “Poderá transcender a inteligência superior atribuída a um Ser Divino?”. Estas dúvidas são bastante razoáveis no início de qualquer nova tecnologia, explicou alguém. Reações semelhantes ocorreram com o advento da internet, da transmissão televisiva e até da imprensa escrita.

As minhas preocupações acalmaram quando encontrei estas palavras, paradoxalmente com a ajuda do ChatGPT: “A inteligência artificial emerge precisamente do uso deste potencial criativo que Deus nos deu”, disse o Papa Francisco aos líderes mundiais.

“Nesta perspetiva, acredito firmemente que o avanço da inteligência artificial e da máquina de aprendizagem automática podem moldar o nosso futuro de forma positiva. Uma vez que a intenção originária de Deus para toda a Criação é inerentemente boa, podemos olhar para as tecnologias como ferramentas que nos são confiadas”.

Em vez de resistir, apercebi-me que seria melhor gastar o meu tempo a envolver-me ativamente com estas ferramentas, explorando os seus aspetos positivos, enquanto articulava as suas limitações e questões éticas. Temos o poder de moldar a IA, e não apenas de sermos moldados por ela.

À medida que me aventuro no domínio da inteligência artificial e exploro a sua relevância na minha missão como cristão, surgem questões essenciais:

  • O que é que precisamos de saber sobre a IA: a sua utilização, benefícios e desafios?
  • Como é que a podemos unir aos nossos fins?
  • Como educamos os outros para a utilizarem de forma ética?
  • Como podemos continuar a ser totalmente humanos e orientá-la para servir um bom objetivo?

Encontrei respostas durante a Convenção Nacional das Comunicações Sociais Católicas, realizada no Aquamarine Recreation Center em Lipa, Batangas City. A reunião digital, que decorreu entre 5 e 8 de agosto de 2024, foi uma assembleia de mais de 300 mentes católicas: influencers, comunicadores sociais, profissionais dos media, líderes e espíritos curiosos como eu. O seu tema: “IA: Influenciadores autênticos para uma Igreja empoderada”.

Não éramos apenas participantes. Éramos peregrinos em busca. O nosso objetivo? Descodificar o enigma da IA e como é que ela se cruza com a evangelização. A Igreja, sempre consciente da sua missão, animava-nos a compreender plenamente a situação, lembrando-nos que a nossa missão vai para além da mera observação.

De conflito a conversão

A geração IA representa uma nova era – uma época em que os sistemas IA possuem capacidades cognitivas semelhantes às humanas. Estes sistemas compreendem o contexto, a razão e interagem sem problemas com os utilizadores. Um exemplo familiar de IA generativa é o ChatGPT (Generative Pre-trained Transformer), um chatbot que utiliza uma vastidão de dados e algoritmos de aprendizagem automática para gerar respostas semelhantes às humanas.

À medida que exploro a Gen AI, descubro o seu potencial para melhorar significativamente a comunicação social da Igreja. Imaginemos uma ferramenta que ajuda a redigir homilias, aulas de doutrina e estudos bíblicos; trata eficazmente das tarefas administrativas de rotina, libertando tempo ao pessoal para trabalhos mais impactantes. Até cria conteúdos apelativos – citações inspiradoras, atualizações de eventos e imagens criativas – para uma consistente presença e envolvimento online.

Como recém-chegada à IA, acho que aprender sobre ela é semelhante a abrir a minha mente à abundância ilimitada de Deus – um convite a explorar oportunidades sem fim e formas criativas de aprender, viver e partilhar a minha fé católica com outros.

Colagem de fotos dos participantes e painéis de discussão na Convenção Nacional de Comunicações Sociais Católicas, de 5 a 8 de agosto de 2024.

Sabedoria do Coração e Conectividade Humana

A partir das palestras inspiradoras, descobri dois conceitos essenciais que me podem guiar enquanto navego no mundo digital: a sabedoria do coração e a importância das relações humanas.

O Papa Francisco, na sua mensagem da 58.ª Mensagem do Dia Mundial das Comunicações, animou-nos a procurar uma espiritualidade e interioridade mais profundas, ao navegarmos na paisagem transformadora da IA. Sublinhou que, embora as máquinas possuam uma capacidade ilimitada de dados, só os humanos podem realmente dar sentido a esses dados.

A sabedoria do coração – a capacidade de integrar as nossas decisões, a vulnerabilidade e a nobreza – é exclusivamente humana.

O Bispo D. Joey Rapadas fez eco desta sensibilidade durante uma homilia, sublinhando que a IA não tem a profundidade nem a compaixão da compreensão humana. Ela não pode substituir o pulso da compaixão – o coração que escuta, experimenta e partilha –, o coração que traz a mensagem de Cristo para a vida.

Num painel de debate intitulado “Píxeis do Progresso”, Martin Gomez, fundador de uma startup tecnológica, transmitiu uma mensagem surpreendente: “Só o coração humano pode comunicar com um coração humano. É por isso que Jesus tem um coração humano. É isso que faz uma pessoa ser um Autêntico Influencer formado à Sua imagem”.

E Edwin Lopez da EWTN Asia Pacific acrescentou: “Ser autêntico é ser vulnerável. Não se consegue transmitir empatia sem se conectar à própria vulnerabilidade. O caminho de coração a coração é crucial na nossa procura de autenticidade”.

Na Missa de encerramento da convenção anual para comunicadores sociais, o bispo D. Marcelino Maralit, presidente da Comissão Episcopal da Comunicação Social, deixou-nos com estas palavras: “Será Deus a dar-nos os estímulos, a inspiração para conhecê-l’O. E quando O conhecermos, veremos quem somos destinados a ser e o que somos destinados a fazer – a nossa missão e o chamamento à santidade”.

Com essas palavras, ressaltou que, embora a IA possa ser uma nova ferramenta promissora na evangelização, a conexão humana genuína com Deus e com os outros crentes continua insubstituível. O coração da nossa fé está nos encontros pessoais – com Deus e uns com os outros.

A autora (à esquerda) com o Bispo D. Marcelino Maralit (Comissão de Comunicação Social da Conferência Episcopal das Filipinas).

Seguir em frente

Embora a convenção possa ter terminado, a nossa missão – abordar a IA com profundidade e propósito como influencers católicos – está apenas no começo. Dar testemunho autêntico no mundo digital, produzir conteúdos que eduquem, inspirem e desafiem, e falar a verdade com caridade, tudo isso requer formação humana e espiritual. Afinal, ninguém pode dar o que não tem.

A formação também garante que entendamos as implicações éticas da IA: transparência, inclusão, imparcialidade, responsabilidade, precisão e segurança, entre outras. A formação contínua equipa-nos para navegar continuamente neste campo transformador, enquanto defendemos princípios enraizados na fé e na doutrina social católica. Permite-nos envolver-nos criticamente com o impacto da IA nos meios de comunicação e na evangelização. Além disso, capacita-nos para reconhecer e combater a desinformação, garantindo que o conteúdo dos meios de comunicação permanece verdadeiro.

Por fim, à medida que continuamos a aprender sobre a IA, os criadores de conteúdos podem explorar maneiras inovadoras de usar a plataforma exaustivamente, criando conteúdo atraente. Mas esse desafio não é apenas sobre dominar as novas tecnologias; é sobre viver a nossa missão como apóstolos dos meios de comunicação – mostrando a riqueza da fé, especialmente na vida quotidiana, para promover conexões genuínas. Com isso, podemos iniciar uma revolução digital, transformando os corações um byte de cada vez.

Autora: Cocoy Caparas – criadora de conteúdos para as plataformas online do Opus Dei nas Filipinas.

Créditos: Ilustrações e fotografias do National Catholic Social Communications Convention