A humanidade refratária de Guadalupe

Artigo de Antonio Schlatter, publicado em Almudi, por ocasião do centenário de Guadalupe Ortiz de Landázuri (12 de dezembro de 2016).

Opus Dei - A humanidade refratária de GuadalupeGuadalupe Ortiz de Landázuri

Consideram-se “materiais refratários” aqueles materiais cujas propriedades permitem que possam suportar temperaturas muito elevadas, sem sofrer nenhum tipo de deterioração nas suas condições internas, como por exemplo a corrosão. E “refratar” significa a capacidade de certos corpos mudarem a direção de um raio de luz ou outra radiação; podem-se aplicar os dois significados a Guadalupe Ortiz de Landázuri .

Continuará a ser um mistério grande parte do que envolve a origem, natureza e características do manto de S. João Diego, suporte da imagem da Virgem de Guadalupe.E isto apesar de que, graças à ciência, sabemos cada vez mais das suas propriedades milagrosas. Prova de que a ciência −quando é verdadeira ciência− torna mais forte a fé, pois necessita mais dela. Trata-se de um tecido que se conserva, com a imagem, desde há 500 anos, num ambiente húmido-salino. Resistiu ao ácido nítrico quando se derramou água-forte sobre ele; resistiu à explosão de uma bomba perto dele; é uma tela que resiste ao pó, aos insetos e humidade dessas paragens mexicanas… De que material será feito? Sem dúvida, um mistério. Ou, o que é o mesmo, algo que Deus põe junto a nós sem explicação científica, e que nos ajuda a pensar e a compreender mais e melhor não só esse objeto ou acontecimento, mas sobretudo o mistério da realidade que nos envolve. Os mistérios recordam-nos que, sem viver num mundo encantado, vivemos sim num mundo encantador, num mundo que reflete em tantas manifestações milagrosas a mão de Deus. Os mistérios geram questões que inevitavelmente nos levam a contar com Deus. Como esta tão simples sobre o manto: De que material será feito?

No entanto, a Deus não interessam tanto as roupas das pessoas, como as próprias pessoas que vestem esses trajes. Deus veio buscar João Diego, não o seu manto. E se se serve daquela roupagem fá-lo para atrair esse Seu filho, como a milhões de pessoas que se aproximam constantemente de Deus atraídos pelo milagre da imagem de Guadalupe. E se faz milagres com as telas, quanto mais Se esmera em que sejam as pessoas as que sejam feitas de bom material. Toda a raça humana, criada à imagem e semelhança de Deus, já foi criada com “garantia de fábrica”. Mas, tal como com as telas, também nalguns casos (as pessoas santas, como João Diego) Deus brilha e nos obriga a perguntar-nos: de que material seria feita essa pessoa para chegar onde chegou, e viver como viveu?

Neste dia 12 de dezembro, festa de Nossa Senhora de Guadalupe, cumpre-se o centenário de outra Guadalupe de carne e osso, como a Virgem: Guadalupe Ortiz de Landázuri[1]. Ao olhar para a sua vida santa e para os testemunhos que continuam a surgir no seu processo de canonização, necessitamos de perguntar-nos: de que material era feita Guadalupe? E o surpreendente é que, se olharmos por um lado para as caraterísticas daquele manto milagroso, e por outro para a magistral combinação de “barro e graça” de que era feita a Guadalupe, vemos que coincidem em algo a que ela mesma dedicou grande parte do seu empenho e trabalho profissional: o material refratário. Precisamente a esse tema −que casualidade mais providencial!− dedicou a sua tese de doutoramento e muito tempo de investigação. Talvez, sem querer e sem o saber, ela mesma nos foi desvelando o seu próprio “segredo”[2].

Paixão pela Química

A paixão profissional de Guadalupe foi a Química. Quem a conheceu e viveu com ela comenta que sempre tinha algum livro de Química que ia relendo quando tinha um momento livre. O seu empenho profissional casou perfeitamente com a sua vocação divina até se tornar uma só. Também por esse motivo, desde a primeira conversa que teve com o fundador do Opus Dei, teve claro que tinha chegado ao caminho que Deus tinha pensado para ela desde sempre. A vida de Guadalupe foi um constante dizer “sim” ao que Deus lhe ia pedindo, em encargos de muitas variadas índoles, e que sempre desempenhou com grande sentido sobrenatural e perfeição humana. Mas juntamente com essa variedade de encargos em sítios muito diversos, manteve ao mesmo tempo essa paixão pela Química, primeiro de forma mais geral, e depois em campos de investigação que lhe interessavam mais e que procurava aplicar depois aos âmbitos humanos e profissionais em que se movia.

Concretamente, sendo diretora da Residência Zurbarán, em Madrid, entrou em contacto com Piedad de la Cierva Vindes, doutorada em Química, a quem tinha conhecido antes de ir para o México, e decidiu começar , sendo ela a sua orientadora, uma investigação sobre os materiais refratários isoladores, que começou a concretizar-se no estudo do valor que podiam ter como tais as cinzas da casca de arroz.

Meteu-se a fundo no estudo desses materiais que mal conhecia e fez a investigação de que necessitava, apesar de ter que mexer-se muito para conseguir as instalações oportunas e fazer os pertinentes ensaios técnicos. Durante esse tempo, já muito mal de saúde dentro da situação delicada que manteve toda a sua vida, tinha que interromper o trabalho com certa frequência. Mas mesmo assim dedicava tempo – mesmo que fosse da cama− a estudar e investigar com tenacidade até conseguir terminar a tese. Na memória descritiva desta, diz-se que “para evitar o gasto inútil de energia térmica mantendo constante a temperatura e reduzindo a dispersão do calor estudaram-se os isoladores térmicos, que devem responder às seguintes propriedades: baixo coeficiente de condutividade térmica, peso específico baixo”. Pelo que parece, conclui a tese, as cinzas da casca de arroz são uma excelente matéria-prima para a elaboração de material refratário isolador com essas especificações.

Um episódio fará compreender de modo gráfico o grande interesse que Guadalupe mostrava pelo tema que estava a estudar e o sentido sobrenatural que sabia dar-lhe. Como mulher de grande vida interior, Guadalupe dava sentido divino a tudo o que fazia; e como mulher do Opus Dei sabia além disso que Deus se encontra nas coisas mais materiais que nos rodeiam. Para ela o material refratário (as cinzas da casca de arroz), mais do que um tema de investigação muito interessante, era um modo de cooperar com Deus na Sua Criação; um modo de santificar o trabalho. Assim se entende o acontecimento que agora narramos. No dia seguinte ao da defesa da tese, que teve a máxima classificação, Guadalupe escreveu ao fundador do Opus Dei e, junto a um exemplar da tese, enviou-lhe… um tijolo refratário! O exemplar tinha manuscrita uma afetuosa dedicatória: “Padre, nestas folhas vai o resumo de muitas horas de trabalho. Há momentos acabou de ser qualificada “cum laude” e quero apressadamente pô-la nas suas mãos, com tudo o que sou e tenho, para que sirva”.

Guadalupe sabia −porque conhecia bem o coração e o pensamento de S. Josemaria− que ao Padre lhe encantaria o pormenor, como assim aconteceu. Imediatamente, depois de o mostrar às suas filhas, S. Josemaria colocou o tijolo numa vitrina chamada “dos burros”, pois encerra una variedade de burros de distintas procedências, materiais e formas. Queria exprimir assim, de forma gráfica, a pequenez humana perante a Sabedoria de Deus.

Penso que quando ela mandava no final da sua vida um tijolo refratário a S. Josemaria, “para que servisse”, na realidade era ela mesma que voltava a pôr-se nas suas mãos como fez na primeira conversa que teve com ele; que ela mesma se identificava com esse tijolo (como com esses burritos), e se sabia feita do mesmo material. Entendeu, pela sua humildade reflexo da sua santidade, que Deus lhe daria os meios para resistir a grandes sofrimentos sem que isso a deteriorasse. E soube, com a sua vida simples, desviar a atenção que poderia pôr-se nela, para que tudo refletisse Deus.

A humanidade refratária de Guadalupe

Consideram-se “materiais refratários” aqueles materiais cujas propriedades permitem que possam suportar temperaturas muito elevadas, sem sofrer nenhum tipo de deterioração nas suas condições internas, como por exemplo a corrosão. E“refratar” significa a capacidade de certos corpos mudarem a direção de um raio de luz ou outra radiação; podem-se aplicar os dois significados a Guadalupe Ortiz de Landázuri .

Sobre a sua capacidade resistente, Deus forjou-a desse material tão misterioso já desde a sua primeira juventude, quando teve que enfrentar a morte do seu pai. Naquela duríssima situação, dizia o seu irmão, “externamente não se encolheu, dando forças com a sua serenidade”, tanto à sua mãe como a ele mesmo (p. 40).

Bastaria ler o resumo bem significativo que faz uma pessoa que a conheceu, apoiando-se sobretudo na sua última época, mas que pode aplicar-se em geral a toda a sua vida; permite descobrir como era a resistência de Guadalupe: “Embora fosse uma pessoa com um afã grande de passar inadvertida, tinha virtudes pelas que, inevitavelmente se destacava. Há um rasgo que a mim me chamava poderosamente a atenção: o seu sorriso permanente. Guadalupe ria-se muitíssimo e sempre estava sorridente. Parece-me que isto obedecia a um absoluto esquecimento de si mesma. Nunca a vi com cara séria ou preocupada. Da sua situação física estava completamente desprendida, mas também não observei que outras questões a afetassem tanto que a impedissem de sorrir (…) Mais que a humildade, Guadalupe caraterizava-se, do meu ponto de vista, pela simplicidade. Dizia as coisas com naturalidade, tal e como pensava” (p.236-7). Guadalupe não costumava falar das suas doenças, dissimulava as limitações e nunca perdeu a força de ânimo nem o otimismo. Vendo-a mover-se e trabalhar, era difícil pensar que a sua saúde podia quebrar-se em qualquer momento e falecer.

Resistente, como material refratário, a grandes temperaturas. “Era muito sacrificada. Com frequência, não conseguia dormir à noite, tinha moléstias, também respiratórias, sufocava. Às vezes, comentava-o rindo-se: Tal noite pensei que morria, que já tinha chegado o momento… Não quis chamar ninguém e esperei… Pensava: confessei-me, fiz um ato de contrição e de abandono… Se morro, que mais posso fazer?” (p.252). “Guadalupe era diferente das outras doentes. Pela dificuldade que tinha para respirar, mal dormia nem podia realizar esforços, no entanto, em nenhum momento a vi queixar-se nem fazer o mais mínimo comentário sobre o que, logicamente, lhe tinha que custar aquela situação. Eu não saía do meu assombro, nem sabia que pensar. Distinguia perfeitamente entre uma pessoa forte, que aguenta a doença, e ela, que o que fazia era aceitá-la daquele modo tão extraordinariamente sereno.” (p. 259).

Guadalupe era muito resistente, mas também se caraterizava por refletir (refratar) o que padecia e vivia, dirigindo tudo a Deus. Em primeiro lugar as vidas das almas com quem tinha mais intimidade. Essa vida interior levava-a a não ser uma mulher dura, rígida. A sua fortaleza estava cheia de compreensão, de doçura e de uma disponibilidade total que era prova da sua grande simplicidade. “Respirava liberdade” (p. 214) ao mesmo tempo que era muito trabalhadora. Não perdia a paz nem o bom humor, e sabia dizer e fazer o que devia. São inúmeros os episódios que narram a capacidade que tinha de levar a sua dura enfermidade e o seu trabalho intenso, estando ao mesmo tempo totalmente metida em Deus e voltada para os outros.

Como o material refratário, não perdia as suas condições internas. Pelo contrário, crescia cada vez mais no seu amor a Deus. Assim exprime ela mesma na sua agenda pessoal, por exemplo, pouco antes de falecer, qual era o seu grande desejo: “Aprofundar no silêncio até chegar onde só está Deus. Onde nem os anjos, sem a nossa licença, podem entrar. E, ali, adorar a Deus, e louvá-Lo, e dizer-Lhe coisas ternas” (p. 243).

Refratar todos os momentos e circunstâncias para Deus, começando pela sua paixão por melhorar e aprofundar em tudo o relacionado com a sua profissão. E assim até ao fim. É significativo e surpreendente quando se põe no seu contexto, um dos últimos episódios que se conhecem da sua vida, a muito poucas horas de falecer. “Uma manhã, quando entrei no quarto, vi que estava a lavar algo no lavatório. Perguntei-lhe o que lavava e disse-me: Não, não estou a lavar, estou a fazer umas provas de têxteis; quero experimentar como atuam estas substâncias em certas manchas” (p.272). Com essa simplicidade, Guadalupe sabia conjugar o quotidiano de cada dia, a sua profissão e interesse humano, com a Cruz de Deus que nesses momentos era tão visível e que a outras pessoas lhes teria levado a sentir-se vítimas e incapazes de fazer mais. “Que agonia a de Guadalupe! Tão breve e tão longa! Quarenta horas que viveu, como toda a sua vida, com absoluta entrega!”, comentava o seu irmão Eduardo, que a acompanhou especialmente de perto nesses últimos dias (p. 279). Mas no meio dessa agonia, quem a tratava via-a cheia de paz, cheia de Deus.

Como os nós de um tapete

S. Josemaria costumava referir-se, como exemplo aplicável à vida interior, a essas tapeçarias que decoram às vezes grandes paredes, com façanhas impressionantes de heróis e batalhas, mas que vistos por trás não mostravam senão infinitos nós, às vezes desalinhavados. Do mesmo modo−dizia sobretudo referindo-se à doença− Deus serve-se dos acontecimentos duros da vida para algo muito grande que não podemos nem devemos procurar ver pelo lado dos nós, mas que pelo lado que Deus vê vai deixando uma obra tão maravilhosa como é a santidade. "Meus filhos − dizia numa ocasião−, contar-vos-ei algo da experiência de quem esteve dez anos com uma doença grave, sem cura, e que esteve contente, cada dia mais contente, porque se abandonou nos braços de Deus, persuadiu-se de que Deus não é uma enteléquia, um ser longínquo: é mais que uma boa mãe. Quando tu − recordarei a esse pai, a essa mãe, aos dois− quando tu tiras das mãos de um filho uma faca, uma navalha, uns fósforos, com que está a brincar temes que se magoe, a criança protesta, porque a contrarias, porque lhe tiras um brinquedo. Nós, com a visão deste mundo, estamos a ver um tapete ao contrário, pela parte dos nós, e não compreendemos que a felicidade está depois, que isto passa como se vai a água de entre as mãos. Isto é fugaz. Tempus breve est, afirma o Espírito Santo. Há muito pouco tempo para amar. Diz-lho da minha parte, da parte de quem esteve enfermo, moribundo durante anos; mais: que morreu, mas vive por aí, por aí dando guerra. Insiste-lhes que o Senhor do Céu é seu Pai e que o tempo para amar é curto. Que amem aqui! E que o amor se manifesta na dor”.

Assim, nó após nó, até fazer uma valiosíssima tapeçaria, foi a vida da Guadalupe, sempre girando em torno da profissão e da investigação química. Depois de obter o lugar de Professor Titular, Guadalupe começou a exercer a docência na Escuela de Maestría Industrial, com grande prestígio e profissionalismo.

E além disso, a partir de 1968 participa na criação de uma Escola de Ciências Domésticas, um trabalho inovador. Ali Guadalupe foi nomeada subdiretora e professora de têxteis. Começou então o que depois seria o Centro de Estudos e Investigação de Ciências Domésticas. Durante esse tempo, como sempre, Guadalupe desenvolveu uma atividade profissional incansável, apesar de que, como dissemos, as limitações físicas fossem aumentando. E assim foi, até que teve que despedir-se em abril de 1975, para ingressar na Clínica da Universidade de Navarra no princípio de junho a fim de voltar a ser operada. Faleceu poucas semanas depois, na festa de Nossa Senhora do Carmo.

Continuará a ser um mistério o manto da Virgem de Guadalupe, mas continuará a sersobretudo um motivo para que muitas pessoas vejam o que Deus é capaz de fazer quando encontra uma pessoa simples e boa como João Diego. Também será um mistério a pergunta acerca do “material” de uma pessoa santa como Guadalupe.

S. Josemaria vai à raiz que desvela o mistério: o amor e a graça de Deus em todas as suas manifestações, sobretudo na dor e na doença. Guadalupe chegou à mesma resposta com a sua vida e, curiosamente, através do seu trabalho profissional centrado em materiais refratários, quis-nos dizer que enquanto ela passou a sua vida investigando e conhecendo esse tipo de materiais, Deus alegrava-Se experimentando essa filha que tão bem Lhe correspondia. O seu resultado foi “cum laude”. E quis pô-la nas nossas mãos, com tudo o que ela era e tinha, para que nos servisse como exemplo do que são os materiais refratários mais importantes: aqueles que resistem à dor sem se sentirem vítimas, e que refletem com a sua vida entregue que grande e surpreendente é o Amor de Deus.

Antonio Schlatter Navarro

Saragoça, 12 de dezembro de 2016
Festa da Virgem de Guadalupe

[1] Foi já aprovado um milagre atribuído à sua intercessão e será marcada a data e local em que vai ser beatificada

[2] Para os textos e ideias que aqui recolhemos usámos a biografia que agora há sobre ela: M. Eguibar, Guadalupe Ortiz de Landázuri. Trabalho, amizade e bom humor, ed. Palabra, Madrid 2001. No final dos textos citados pomos a página do livro a que corresponde a citação. Em breve, estará disponível a edição portuguesa dessa obra.