100 anos de gratidão (10) - Que amaste hoje?

As grandes mudanças e as pequenas rotinas podem ser igualmente desafiantes. Aqui está o testemunho de Mariajosé, que em dois anos mudou de cidade, casou e teve um filho. “100 anos de gratidão” é uma compilação de testemunhos que acompanha as Assembleias Regionais do Opus Dei para 2024.

Nos últimos dois anos, a minha vida mudou radicalmente. Em setembro de 2022, casei com Alessandro e mudei-me de Nápoles para Milão – toda a bagagem da minha vida atravessou definitivamente a fronteira da Lombardia – e, em novembro de 2023, fui mãe do Nicolò Maria.

Casamento, mudança de residência e maternidade, três desafios, três mudanças muito importantes que me puseram em causa profundamente. São acontecimentos significativos e belos, mas também muito cansativos: não se deve ter medo de o dizer! Mudança de hábitos, mudança de ares, mudança de vida. Entrar numa rotina muito mais regular: passei de viajar 1600 quilómetros de comboio todas as semanas para o trabalho (costumava viajar de Milão para Nápoles todas as semanas), para ficar quieta, numa casa nova, todos os dias com a mesma pessoa, numa cidade diferente, com um filho recém-nascido. Por um lado, a perceção de que tudo mudou e, por outro, a sensação de ter caído numa armadilha, num carrossel que gira sempre na mesma direção.

Mas será que é mesmo assim? Será que a minha vida mudou mesmo radicalmente? Ouvimos falar de mudança a toda a hora, há uma obsessão particular no mundo em querer mudar a toda a hora. Desde o cabelo ao marido, é um mundo que nos empurra para mudar frequentemente e a toda a hora. A procurar sempre o novo ou a novidade. A sermos sempre provisórios. Mas porquê? Porque precisamos de mudar? Esta sede de mudança, esta coleção de “descobertas”, a bulimia da novidade, prendeu-me num padrão em que, para onde quer que olhasse, me sentia apertada e/ou pequena.

Fazer florescer o bem

Nesta circunstância, cultivar uma relação com o Senhor foi fundamental. O reencontro com Jesus nesta vida “mudada” deu-me a oportunidade de perceber que a minha vida não estava a mudar, mas que se está (já) a realizar na plenitude da minha vocação. Estava tão concentrada em dar importância e valor à mudança que perdi de vista o facto de que este novo espaço, que estou a criar juntamente com Alessandro, é o lugar onde posso desabrochar e construir todo o bem que Deus sempre colocou no meu coração.

«Deus faz novas todas as coisas», está escrito no livro do Apocalipse. Junto com Ele, descobri que nada mudava, embora tudo mudasse, e é o meu “sim” ao seu chamamento quotidiano que faz nova aquela vida que parece sempre igual. Nas mesmas coisas, Deus encontra sempre algo de novo. A vocação é o apelo a responder à tarefa, ao desejo de ocupar o seu lugar no mundo. Essa tarefa está dentro de nós, está lá, existe, mesmo se tudo está por descobrir e construir, sempre em evolução e a caminho. «Fomos escolhidos pelo amor de Deus, filhas e filhos muito amados, para viver o caminho da Obra, sempre jovem e sempre nova, essa aventura humana e sobrenatural que consiste em corredimir com Cristo, na participação íntima e próxima na ânsia de Jesus de espalhar o fogo que veio lançar sobre a terra»[1].

Mudar ou escolher?

A etimologia da palavra “mudança”, “mudar”, [em italiano: cambiamento] vem do verbo grego “kamptein”: curvar, dobrar, dar a volta, uma imagem que se dobra sobre si mesma (curvatura/dobra) ou dá a volta sem chegar ao ponto. Em vez disso, “diligere”, “amar”, do latim diligĕre, composto de 'dis-' e legĕre, “escolher”, é aquilo a que Deus nos chama, a escolher e amar a nossa vida todos os dias. Uma aventura, um caminho a ser vivido, citando São Josemaria, para construir com Ele, e com Ele florescer para sempre. «Cada um de nós é irrepetível e a liberdade – dizia Hannah Arendt – é dispor-se a um novo começo»[2]. Eis que Deus me pega pela mão todos os dias e me chama a acolher “cada novo começo” da minha vida, sempre o mesmo, e a descobrir que Ele nunca deixa de me chamar pelo nome. «Dito isto, voltou a casa e foi chamar sua irmã, Maria, dizendo-lhe em voz baixa: “Está cá o Mestre e chama por ti”» (Jo, 11, 28).

Gostaria de deixar, a todos e a mim, uma pergunta, com que me “cruzei” ao ler um artigo, e que ficou comigo: “Que fizeste hoje que ficará para sempre?”. Ou melhor ainda: “Que amaste hoje que ficará para sempre?”; estou convencida de que com o Senhor encontrarei todos os dias uma resposta diferente.


“100 anos de gratidão” é uma recolha de testemunhos italianos que acompanham as Assembleias regionais do Opus Dei em 2024.

Clique aqui para ler outros testemunhos publicados.


[1] São Josemaria, Carta n. 29.

[2] Alessandro D'Avenia, Capirsi con il cuore, em “La Stampa”, 04/12/2011.