JESUS sabe que precisamos descansar. Por isso, numa ocasião disse aos Apóstolos: “Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso” (Mt 11, 28). O próprio Deus experimentou o cansaço e, portanto, a necessidade de recuperar as forças. São Josemaria gostava de contemplar este aspecto da humanidade do Senhor: “Sempre que nos cansemos, no trabalho, no estudo, na tarefa apostólica, sempre que haja cerração no horizonte, então, os olhos em Cristo: em Jesus bom, em Jesus cansado, em Jesus faminto e sedento. Como te fazes compreender, Senhor! Como te fazes amar”[1]. Durante as temporadas de intensa atividade, Jesus encoraja os seus discípulos a não se deixarem levar pelo ativismo, a não julgarem tudo em termos de utilidade, a não pensarem que tudo dependia do que faziam: correr de um lado para o outro, estar sempre atarefados... Daí o convite a repousarem, não de qualquer maneira, mas recorrendo a Ele. “Não se trata apenas de descanso físico, mas também de descanso do coração. Porque não basta "desligar", é necessário descansar a sério. E como é que isso se faz? Para fazer isso, é necessário regressar ao coração das coisas: parar, estar em silêncio, rezar”[2].
A pressão por sermos produtivos apenas do ponto de vista humano pode chegar a contagiar também os períodos de descanso. Às vezes, queremos realizar tantas coisas durante esse tempo que, no final, podemos acabar ainda mais exaustos do que antes. Outras pessoas, pelo contrário, tendem a planejar o descanso em sentido oposto, procurando organizar apenas o imprescindível. Em qualquer caso, Jesus propõe um repouso que leva a olhar, com recolhimento, para o nosso coração, na sua presença, a fim de dar brilho aos ideais que movem o nosso dia a dia. Esse silêncio “é capaz de abrir um espaço interior no mais íntimo de nós mesmos, para fazer que aí habite Deus, para que a sua Palavra permaneça em nós, para que o amor por Ele se enraíze na nossa mente e no nosso coração e anime a nossa vida”[3]. E esse descanso está ao nosso alcance em qualquer momento do ano.
HÁ MOMENTOS na vida que podem tornar-se particularmente desgastantes. Geralmente ocorrem quando, às exigências normais do dia a dia, se acrescentam outras extraordinárias que também requerem tempo e dedicação: a doença de um ente querido, o nascimento de um novo filho, projetos complexos que é preciso terminar, um contratempo econômico... Tudo isto, se se prolonga no tempo, torna necessário defender intervalos de descanso, ainda que sejam pequenos, para evitar que o desgaste se transforme num problema maior: fazer esporte, ler, ouvir música, dedicar-se a um passatempo, desfrutar da companhia dos outros, etc.
Uma boa maneira de descansar é aprender a não se esgotar. Para isso, às vezes será necessário deixar momentaneamente nas mãos de outros a principal linha da frente de alguma tarefa, mesmo que nos custe. Isto não implica falta de esforço: significa simplesmente reconhecer os próprios limites, e também, algumas vezes, desprendermo-nos um pouco dos resultados do nosso trabalho. Deus quer que nos gastemos por amor, mas que não nos desgastemos a ponto de o amor poder extinguir-se, como acontece no desmoronamento da casa construída sobre a areia (cf. Mt 7, 24-27). Escrevia São Josemaria: “Abatimento físico. Estás... arrasado. - Descansa. Para com essa atividade exterior. - Consulta o médico. Obedece e despreocupa-te. Em breve regressarás à tua vida e melhorarás, se fores fiel, os teus trabalhos de apostolado”[4].
“Não deixe para amanhã o que você pode fazer hoje”, aconselha a sabedoria popular. Embora esta frase tenha a sua parte de verdade, pois nos convida a ser diligentes e a não protelar os nossos trabalhos, também é bom lê-la ao contrário: “Deixe para amanhã o que você não pode fazer hoje”. Em outras palavras: assuma hoje apenas o que você pode fazer. O livro da Sabedoria também exprime esta máxima: “Filho, não te ocupes com muitas coisas; ainda que te apresses, não estarás isento de culpa; mesmo se perseguires, não atingirás e fugindo, não conseguirás sobreviver” (Sir 11, 10). Neste sentido, São Josemaria também comentava: “Para mim, sempre ficam coisas para o dia seguinte. Temos de chegar à noite, depois de um dia cheio de trabalho, com tarefas de sobra para o dia seguinte. Temos de chegar à noite carregados, como burrinhos de Deus”[5].
UM DOS SINAIS de cansaço mais frequentes é que as limitações do nosso carácter se tornam mais evidentes. De certa forma, é como se as defesas da nossa personalidade se debilitassem, levando-nos a agir de uma forma que pode parecer estranha aos outros. Por exemplo, uma pessoa que costuma ser otimista, de repente reage com uma certa apatia, ou alguém que habitualmente é afável reage com uma brusquidão que não é habitual.
Nesses momentos, em que a nossa visão se torna um pouco turva, uma mão amiga pode ajudar a nos conhecermos e a ler os sinais do nosso cansaço, levando-nos a descansar antes de nos esgotarmos. São Josemaria aconselhava assim uma pessoa que estava passando por momentos desse tipo: “Dizes que para ti tudo é indiferente? - Não queiras iludir-te. Agora mesmo, se eu te perguntasse por pessoas e por atividades em que por Deus empenhaste a tua alma, sei que me responderias - briosamente! - com o interesse de quem fala de coisa própria. Não, para ti não é tudo indiferente. É que não és incansável..., e necessitas de mais tempo para ti; tempo que será também para as tuas obras, porque, no fim das contas, tu és o instrumento”[6].
Uma demonstração de amizade é ajudar os outros, ensinando-os, com simpatia e sem condescendência, estando ao seu lado, a dizer não a certos pedidos, sem ter remorsos por isso; a descartar ideias de projetos que vêm à cabeça, se não é realista empreendê-los; a aplicar a proporcionalidade e talvez deixar algumas coisas menos acabadas do que gostariam; a ver que, além do que têm em mãos nesse momento, ou das novas frentes que aparecem, também têm o dever de repor as forças. Podemos pedir à Virgem Maria que saibamos descansar e ajudar os outros a descansar, para assim podermos viver com a alegria de servir o seu Filho.
[1] São Josemaria, Amigos de Deus, n. 201.
[2] Francisco, Ângelus, 18/07/2021.
[3] Bento XVI, 07/03/2012.
[4] São Josemaria, Caminho, n. 706.
[5] São Josemaria, Carta 14, n. 10.
[6] São Josemaria, Caminho, n. 723.

