SÃO JOÃO MARIA Vianney, conhecido como Santo Cura d'Ars, foi um padre francês que exerceu o seu ministério por quase 42 anos em uma pequena aldeia francesa chamada Ars. Ao chegar à aldeia, que tinha pouco mais de 200 habitantes, o vigário geral da diocese lhe disse: “Não há muito amor de Deus nesta paróquia; tente introduzi-lo”[1]. O novo pároco tentou inflamar os corações dos seus fiéis por meio dos sacramentos, da pregação e da penitência. Não possuía uma ciência especial, mas a sua união com Deus transformou não apenas Ars, mas também o resto da França. Hoje é um modelo sacerdotal para o mundo inteiro.
Nos anos seguintes à sua chegada, um grande número de pessoas começou a ir a Ars, atraídas pela santidade deste sacerdote “surpreendente pela sua penitência, tão familiar com Deus na oração, notável pela sua paz e humildade no meio dos êxitos populares”[2]. Em 1855, o número de peregrinos chegava a vinte mil. “A igreja estava repleta o dia todo, a partir das primeiras horas da manhã. As pessoas faziam fila para receber os sacramentos. (...) As pessoas ajoelhavam-se nas capelas laterais, atrás do altar-mor, no santuário, ou ficavam de pé na escadaria da igreja”[3]. O Cura d'Ars foi canonizado e declarado padroeiro dos sacerdotes por Pio XI em 1925. São Josemaria o nomeou intercessor nas relações do Opus Dei com os bispos diocesanos. No dia da sua festa, animava os seus filhos a recorrerem a ele para rezar pelos sacerdotes e, sobretudo, animava-os a procurar acompanhá-los com afeto, sabendo todo o bem que um sacerdote santo pode fazer, e também tendo conhecido situações de solidão, em que às vezes encontrava alguns. “Tudo o que seja para ajudar os sacerdotes – disse numa ocasião – é salvá-los. E salvar um sacerdote é salvar milhares de almas”[4]. A vida de São João Maria Vianney nos mostra o alcance que pode ter um sacerdote santo, cujo maior desejo é conduzir as pessoas a Deus por meio dos sacramentos.
A VIDA do Cura d'Ars não foi isenta de dificuldades. Quando estava no seminário, alguns professores não o consideravam apto para os estudos de preparação para o sacerdócio, pois os resultados dos seus exames não eram brilhantes. Pouco depois de chegar à aldeia de Ars, também teve que suportar calúnias de vários paroquianos e de outros padres de cidades próximas. Além disso, em muitas ocasiões sentiu fisicamente a ação do demônio. No entanto, estava ciente de que o Senhor triunfava em sua fraqueza: se o tinha chamado ao sacerdócio sabia então que Deus sempre o apoiaria.
Em todo o caminho vocacional há momentos de prova. São situações em que notamos cansaço ou em que perdemos os pontos de referência que antes guiavam nossa caminhada. É então o momento de recordar o primeiro chamado, de voltar “àquele ponto incandescente onde a Graça de Deus me tocou no início do caminho. É desta fagulha que posso acender o fogo para o dia de hoje, para cada dia, e levar calor e luz aos meus irmãos e às minhas irmãs. A partir daquela fagulha, acende-se uma alegria humilde, uma alegria que não ofende o sofrimento e o desespero, uma alegria mansa e bondosa”[5].
Além da memória do primeiro chamado, a lembrança de todas as pessoas que ajudamos também pode nos fortalecer. “Como é belo ver um padre idoso rodeado e visitado por aqueles pequeninos – hoje adultos – que ele batizou nos seus inícios e que vêm, com gratidão, apresentar-lhe a família!”[6]. O nosso sim a Deus tem uma transcendência que não compreenderemos plenamente, mas às vezes podemos testemunhar alguns dos frutos da nossa fidelidade que nos fazem dizer com São Paulo: “Não cesso de dar graças a Deus por vós” (Ef 1, 16). Agradecer a vocação que o Senhor nos deu, e que repercutiu no bem dos outros, nos levará a reconhecer os gestos de amor que Deus nos dirige todos os dias e que nos confirmam no nosso caminho.
O AMOR pelo Sacramento da Reconciliação foi uma das características marcantes na vida de São João Maria Vianney. “Impressionava-me profundamente, em particular o seu heroico serviço de confessionário”, recordava São João Paulo II. “Este humilde sacerdote, que confessava mais de dez horas por dia, comendo pouco e descansando apenas algumas horas, conseguiu, num período histórico difícil, provocar uma espécie de revolução espiritual em França e fora dela. Milhares de pessoas passaram por Ars e se ajoelharam no seu confessionário”[7].
O Cura d'Ars considerava que, ao nos aproximarmos do sacramento da Penitência, estamos desprendendo Jesus da cruz. Neste sacramento deixamo-nos curar por Cristo. Ao nos aproximarmos do confessionário, respondemos ao chamado à conversão que Ele, pensando somente no nosso bem, nos dirige. “Este esforço de conversão não é somente obra humana. É o movimento do 'coração contrito' (Sl 51, 19), atraído e movido pela graça (cf. Jo 6, 44; 12, 32) para responder ao amor misericordioso de Deus, que nos amou primeiro (cf. 1Jo 4, 10)”[8]. E nesta resposta encontramos alegria, paz, desejo renovado de empreender o caminho da santidade. Por isso São Josemaria pôde escrever: “Deus seja louvado!, dizias de ti para ti depois de terminares a tua Confissão sacramental. E pensavas: é como se tivesse voltado a nascer. Depois, prosseguiste com serenidade: "Domine, quid me vis facere?" — Senhor, que queres que eu faça?”[9].
“O importante, na vida de todo o homem e de toda a mulher, não é nunca mais cair no caminho. O importante é levantar-se sempre, não ficar no chão lambendo as feridas”[10]. São João Maria Vianney fez com que a misericórdia de Deus chegasse a milhares de almas. Ajudou a levantar muitas pessoas que, devido ao peso dos seus pecados, tinham perdido a esperança. Ele e a Virgem Maria podem ajudar-nos sempre a recomeçar, sabendo que Cristo não se cansa de nos perdoar.
[1] cf. F. Trochu, El Cura de Ars, Palabra, 5.ª ed., Madrid 1988, p. 141.
[2] São João Paulo II, Carta aos sacerdotes, 16/03/1986.
[3] B. Marshall, El cura de Ars, em Boothe Luce, Clare, ed. Santos para el presente, p. 293-316.
[4] São Josemaria, Apontamentos tomados durante uma tertúlia, 28/03/1969.
[5] Francisco, Homilia, 19/04/2014
[6] Francisco, Carta aos sacerdotes, 05/08/2019.
[7] São João Paulo II, Dom e Mistério, cap. V.
[8] Catecismo da Igreja Católica, n. 1428.
[9] São Josemaria, Forja, n. 238.
[10] Francisco, O nome de Deus é misericórdia, cap. VI.

