- A Eucaristia nos enche de esperança.
QUANDO JESUS anunciou na sinagoga de Cafarnaum que Ele era o pão da vida, os presentes, com lógica humana compreensível,perguntavam-se: “Este não é Jesus, o filho de José? Não conhecemos nós o seu pai e sua mãe? Como pode, então, dizer que desceu do céu?” (Jo 6, 42). O Senhor reagiu imediatamente e explicou: “Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o atrai” (Jo 6, 44).
Esta passagem nos introduz “na dinâmica da fé, que é uma relação: a relação entre a pessoa humana e a Pessoa de Jesus, onde um papel decisivo é desempenhado pelo Pai, e naturalmente também pelo Espírito Santo, que aqui fica implícito. Não basta encontrar Jesus para acreditar n’Ele, não basta ler a Bíblia, o Evangelho – isto é importante, mas não basta – nem é suficiente assistir a um milagre, como a multiplicação dos pães. Muitas pessoas estiveram em contato íntimo com Jesus e não acreditaram n’Ele, pelo contrário, desprezaram-no e condenaram-no Por quê? Não foram atraídas pelo Pai? Isso aconteceu porque os seus corações estavam fechados à ação do Espírito de Deus. E se você tiver o coração fechado, a fé não entrará. Deus Pai sempre nos atrai a Jesus: somos nós que abrimos ou fechamos o nosso coração”[1].
O Pai também nos leva ao seu Filho para que aprendamos com Ele e lhe demos toda a glória. Esta missão exige que estejamos sempre perto de Jesus e nos deixemos instruir por ele para sermos seus discípulos. “A fé é como uma semente no profundo do coração, desabrocha quando nos deixamos ‘atrair’ pelo Pai rumo a Jesus, e ‘vamos a Ele’ de coração aberto, sem preconceitos; então reconhecemos no seu rosto a Face de Deus e nas suas palavras a Palavra de Deus”[2].
VER DEUS, contemplá-lo ao longo do dia, não é uma meta impossível. Pelo contrário, trata-se de uma promessa que podemos alcançar, de várias maneiras, graças a Jesus. Deus, que colocou em nossos corações a aspiração pela eternidade, permanece conosco na Eucaristia. É em Cristo presente na Eucaristia que nossos anseios de amor eterno são melhor satisfeitos. Podemos dialogar com Ele na oração, visitá-lo no sacrário, ouvir suas palavras no evangelho. Jesus se converterá pouco a pouco em nosso melhor amigo e poderemos pedir ao Pai qualquer coisa em seu nome: “Se pedirmos em nome de Jesus Cristo, o Pai nos concederá, podem ter certeza disto. A oração foi sempre o segredo, a arma poderosa (...). A oração é o fundamento da nossa paz”[3].
Neste impulso de petição, Jesus nos ensinou a pedir sobretudo esse “pão da vida”, esse alimento de eternidade. “Vossos pais comeram o maná no deserto e, no entanto, morreram” (Jo 6, 49), diz Cristo, comparando-se ao alimento que Deus enviou por intercessão de Moisés. Ele afirma que, enquanto o maná era efêmero, a Eucaristia é o pão da vida eterna. Não se trata de uma simples recordação, mas de um memorial, uma atualização, como rezamos em todas as orações eucarísticas e em alguns hinos: O memoriale mortis Domini! Panis vivus, vitam praestans homini![4]; ó memorial da morte do Senhor, pão vivo que dá vida ao homem! A Eucaristia não se refere somente ao passado, mas também ao presente e ao futuro. Nossa passagem pela terra é uma peregrinação de Eucaristia em Eucaristia até a participação definitiva no banquete celestial. “Cada vez que a Igreja celebra a Eucaristia lembra-se desta promessa, e seu olhar se volta para ‘aquele que vem’ (Ap 1, 4)”[5].
“Nos dias repletos de ocupações e de problemas, mas também nos dias de descanso e de lazer, o Senhor convida-nos a não esquecer que, se é necessário preocupar-nos pelo pão material e recuperar as forças, é mais fundamental ainda fazer que cresça a relação com Ele, fortalecer a nossa fé naquele que é o ‘pão de vida’, que sacia o nosso desejo de verdade e de amor”[6].
JESUS NOS PROMETE um alimento divino que estará sempre à nossa disposição para que não morra “quem dele comer” (Jo 6, 50). Com esse passaporte podemos confiar que, se formos fiéis, a nossa chamada para a vida eterna será uma realidade. Assim, o próprio Deus nos enche de esperança, aquela “virtude teologal pela qual desejamos e esperamos de Deus a vida eterna como nossa felicidade, confiando nas promessas de Cristo e apoiando-nos na ajuda da graça do Espírito Santo para merecê-la e perseverar até o fim da nossa vida terrena”[7].
Jesus conclui a sua pregação na sinagoga reiterando a mensagem central de todo o discurso: “Eu sou o pão vivo descido do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão que eu darei é a minha carne dada para a vida do mundo” (Jo 6, 51). O Senhor nos promete algo impensável: a comunhão em sua própria vida, por toda a eternidade. Esta esperança, embora encontre sua plenitude no céu, ilumina nossos passos aqui na terra. Esta esperança “diz que as nossas atividades diárias têm um sentido que chega além do que vemos diretamente: como afirmava São Josemaria, adquirem vibração de eternidade se as fizermos por amor a Deus e aos outros”[8].
Tudo isto nos enche de otimismo, pois temos a consciência de que Deus está sempre junto de nós. A alegria cristã fundamenta-se naquela promessa divina de que viveremos para sempre com ele. Por essa razão, a tradição chama a Eucaristia “garantia da glória futura”, pois ela nos fortalece durante a peregrinação de nossa vida terrena, fazendo-nos desejar a vida eterna e nos unindo a Cristo, a Nossa Senhora e a todos os santos[9].
[1] Francisco, Ângelus, 9/08/2015.
[2] Ibid.
[3] São Josemaria, Carta, 14-II-1944, n. 18.
[4] Hino Adoro Te devote.
[5] Catecismo da Igreja Católica, n. 1403.
[6] Bento XVI, Ângelus, 5/08/2012.
[7] Compêndio do Catecismo da Igreja, n. 387.
[8] Mons. Fernando Ocáriz, Mensagem, 4-XI-2018.
[9] Cfr. Compêndio do Catecismo da Igreja, n. 294.

