Entre Deus e eu? Liturgia e sacramentos

A centralidade de Jesus Cristo na nossa vida adquire o seu sentido pleno e real na celebração litúrgica, quando Deus se deixa ‘tocar’ por nós e nos traz o hoje da sua salvação.

Opus Dei - Entre Deus e eu? Liturgia e sacramentos

Nós, cristãos, cremos e proclamamos Jesus Cristo, o Filho de Deus, que morreu e ressuscitou por todos e cada um de nós, inserindo-se nos acontecimentos da linhagem humana para fazer deles uma história de salvação. Não podemos chegar a Deus, o Pai, se não nos tornarmos irmãos de Cristo pela água e o Espírito, se não seguirmos – de coração – os seus gestos e palavras.

Sentindo profundamente essa realidade, Paulo VI, na mais longa viagem do seu Pontificado, pronunciava, diante de uma multidão reunida em Manila, palavras que comovem porque são um elogio vibrante a Cristo que brotava do seu coração: “Eu nunca me cansaria de falar sobre Ele. Ele é o pão e a fonte de água viva, que satisfaz nossa fome e nossa sede. Ele é nosso pastor, nosso exemplo, nosso conforto, nosso irmão. Por nós falou, operou milagres, instituiu o novo reino em que os pobres são bem-aventurados, em que a paz é o princípio da convivência, em que os limpos de coração e aqueles que choram são exaltados e consolados, em que aqueles que têm fome de justiça serão saciados, em que os pecadores podem alcançar o perdão, em que todos são irmãos. Jesus Cristo! Lembrem-se disso: Ele é o objeto perene da nossa pregação. Nosso desejo é que o nome d’Ele ressoe até nos confins da terra e para todo o sempre”[1].

O fato de que o núcleo do cristianismo seja a pessoa viva de Jesus, o Crucificado - Ressuscitado, convida-nos a colocar a lógica da nossa identidade e da nossa vida em conexão com Cristo que morre e ressuscita, e perceber que toda a nossa existência carrega, dia após dia, uma marca Pascal. Para entender essa profunda afirmação é necessário prestar uma especial atenção à pessoa de Cristo em sua relação íntima com o mistério litúrgico.

‘Roçar’ Cristo na liturgia

Em uma ocasião, São Josemaria recordava que “um bispo muito santo, meu amigo, numa das suas incessantes visitas às catequeses da sua diocese, perguntava aos meninos por que, para amar Jesus, é preciso recebe-Lo amiúde na Comunhão. Ninguém acertava na resposta. Por fim, um ciganinho tisnado e muito sujo respondeu: ‘Porque pra amá-Lo é preciso roçá-Lo’”[2]. Aquele menino destacou, sem querer, uma questão central: o ‘roçar’ Cristo, ou seja, onde, quando e como o cristão pode ter a sua experiência pessoal do Ressuscitado. Porque para viver como filhos no Filho, além de saber conceitualmente quem é Jesus, é necessário ‘roçá-Lo’, ou seja, que exista a possibilidade de relacionar-se com Ele de uma maneira real. Mas, isso é viável? Com quanto realismo?

a liturgia é o local privilegiado para viver " a experiência de Cristo", para conhecê-lo e tratá-lo

Experiência aqui significa conhecer e sentir Cristo vivo. Pois bem, na Igreja, tratar desta experiência equivale a falar principalmente da santa liturgia, como local privilegiado para viver a paixão pelo divino, algo que para os cristãos não é opcional ou irrelevante, porque ser contemplativos no meio do mundo requer crescer sob o calor da Palavra de Deus e da liturgia.

Experimentar o ‘hoje’ da salvação

Então, é possível ‘roçar’ Cristo hoje, após a sua ascensão ao céu? Para responder a essa pergunta, é útil contemplar uma passagem do livro de Êxodo onde se descreve o desejo de Moisés de ter uma experiência mais íntima de Deus: “Moisés disse: ‘Mostra-me a tua glória!’ E o Senhor respondeu: ‘Farei passar diante de ti toda a minha bondade (...) Não poderás ver minha face, porque ninguém me pode ver e permanecer vivo’”. Sendo Deus infinito, é impossível para o homem abarcar a sua magnitude. No entanto, o Senhor acrescenta: “quando a minha glória passar, eu te porei na fenda da rocha e te cobrirei com a mão enquanto passo. Quando eu retirar a mão, tu me verás pelas costas” (Ex 33,18-23). Participar nas ações sagradas da Igreja poderia se comparar com aquela fenda da qual podemos contemplar as espécies sagradas, que – sem serem as costas de Deus – são o sacramento do seu verdadeiro Corpo e do seu verdadeiro Sangue.

Outro texto do Evangelho que reúne uma experiência significativa é a passagem da hemorroíssa. Aquela mulher toca com fé a borda do manto de Cristo e a força do Senhor a cura da sua prolongada doença. A imagem que o Catecismo da Igreja Católica escolhe para iniciar a exposição sobre a liturgia e os sacramentos, surpreendentemente, é a representação mais antiga da passagem da hemorroíssa nas catacumbas de São Marcelino e São Pedro. Por que escolher esta imagem? A razão se fundamenta em que os sacramentos da Igreja continuam agora a obra de salvação que Cristo realizou durante a sua vida terrena. Os sacramentos são como forças que saem do Corpo de Cristo para nos dar a nova vida de Cristo[3]. Santo Ambrósio explicava-o de maneira muito viva e realista: “ó Cristo, a quem encontro vivo em teus sacramentos”[4].

Os termos-chave desta frase são ‘vivo’ e ‘sacramentos’. O primeiro se refere ao aparecimento do Ressuscitado, à sua presença real. O segundo se refere às celebrações litúrgicas. E Ambrósio une as duas realidades ao verbo encontrar. Nas celebrações ocorre o encontro entre Cristo e a Igreja. Por isso, é possível experimentar, aqui e agora, o mesmo poder divino do Filho de Deus que, transcendendo a distância geográfica e temporal, salva o homem por inteiro, quando a Igreja celebra a liturgia de cada um dos sacramentos.

na liturgia ocorre o encontro entre Cristo e a Igreja, sua esposa

E nos sacramentos, o que vemos materialmente é água, pão, vinho, óleo, luz, a cruz... Observamos alguns gestos e ouvimos algumas palavras. São gestos e palavras que Jesus, ao tomar a nossa natureza – ao encarnar – assumiu para fazer-se presente por meio deles a fim de continuar curando, perdoando ou ensinando[5]. É uma lógica difícil de entender, como foi difícil para Filipe e, por isso, o Senhor tem que ajudá-lo a entender com uma carinhosa repreensão: “Filipe! Aquele que me viu, viu também o Pai” (Jo 14,9). E isso não é algo que Cristo decide, mas algo que Cristo é. Que Ele seja o grande Sacramento, não provém da sua vontade, mas do seu ser, da sua ontologia. Consequentemente, a Igreja é o sacramento de Cristo e os sacramentos são os sacramentos da Igreja. Já foi dito pedagogicamente – com as limitações de um exemplo – que, quando se trata de alcançar um objeto, a cabeça (Cristo) envia uma ordem ao braço (a Igreja) para que os dedos (os sacramentos) o peguem. Os sacramentos são o organismo sacramental da Igreja.

Um contato sacramental

A segunda pergunta questionava que tipo de contato é estabelecido entre Cristo e nós. Na fé da Igreja, esse contato é chamado de mistérico ou sacramental, quer dizer, acontece através de um sistema de sinais e símbolos.

A comunicação do mistério de Cristo conosco é realizada através de mediações simbólicas, que são os ritos do culto cristão: a celebração do batismo, da Eucaristia, do matrimônio... Tudo tem um significado no universo simbólico da liturgia, tudo isso manifesta fé. Os sacramentos se chamam sacramentos da fé.

A liturgia é uma membrana sutil que relaciona o mistério de Deus e o mistério do homem. Essa membrana é uma membrana de símbolos. O espaço de uma catedral, ermida ou oratório; a hora do amanhecer ou do pôr do sol, do Natal ou da Quaresma, os textos da Bíblia e as orações do Missal. Os gestos de adorar de joelhos ou de receber as cinzas.A comunidade reunida ao redor do altar, as músicas e aclamações, luzes e cores, aromas e sabores..., todos esses – e ainda outros – são os símbolos cristãos em cuja celebração reverbera a insondável transcendência de Deus, o poder do seu amor salvador. Estes símbolos são como fendas pelas quais o Eterno ilumina a nossa cotidianidade até nos tornarmos homens e mulheres dignos de “servi-Lo em Sua presença”[6]. Por meio deles, Deus nos permite pregustar a liturgia da Jerusalém do céu. Participar definitivamente nela será um dia a consumação definitiva da nossa vocação batismal.

Essa conaturalidade com os símbolos da liturgia é patrimônio dos cristãos. Assim como uma mãe não mima o seu filho somente por meio das palavras, mas também utilizando uma rica variedade de códigos maternos de comunicação, assim a celebração litúrgica convida o cristão a participar da ação sagrada com todas as possibilidades da sua sensibilidade, com a alma e com o corpo, com todos os seus sentidos: aclama a Palavra de Deus, venera o Santíssimo Sacramento, canta os hinos com que os Anjos louvam a Deus, oferece incenso, prova o pão e vinho consagrados, conserva silêncio... Dessa maneira, os sinais do mistério de Cristo nos conduzem pela mão ao próprio mistério de Cristo e então, todo o peso da verdade que esse mistério tem é percebido por nós na atmosfera envolvente do ritos que o celebram.

E, além da conaturalidade, o apreço. Gostamos desses humildes véus por trás dos quais o Ressuscitado manifesta e oculta a sua presença. Nesse sentido, Santo Agostinho confessava: “ainda não tratava meu Deus, Jesus, de humilde para humilde, nem sabia que lição ministrava sua fraqueza”[7].

O realismo sacramental

No começo, também nos perguntávamos: com quanto realismo? Temos que mencionar também o realismo sacramental, se quisermos responder à pergunta sobre até que ponto esse ‘roçar’, esse contato com Cristo é verdadeiro. O realismo sacramental significa que, ao participar na liturgia, recebemos a própria realidade divina através dos sinais da Igreja. Os sinais e os símbolos litúrgicos estão repletos dessa realidade, especialmente na Eucaristia. Dizer que o contato entre Cristo e a Igreja é sacramental em nada diminui a pura realidade desse contato.

o contato é sacramental; isto é, acontece através de um sistema de sinais e símbolos

O substantivo ‘contato’ é um termo que encontramos nas antigas fontes litúrgicas: “ó Deus, que na participação do teu sacramento chegas até nós (contingis)”, isto é, entra em contato conosco, se aproxima até nos atingir[8]. Deus contata conosco e nós contatamos com Deus por meio da participação no mistério celebrado. Contatos físicos com o Senhor tiveram são Tomé, a hemorroíssa ou os leprosos. Em nós, esses contatos são agora sacramentais. Não se trata de imaginar o passado como algo que agora está presente apenas para a fé dos que acreditam. A liturgia não diz: isto simboliza, imagine... mas afirma: isto é. Não é uma mera afirmação, é uma notícia! É um acontecimento real.

Os Padres da Igreja enfatizaram esse realismo do mistério sacramental e o demonstraram através de expressões, como no caso do Papa São Leão Magno, que, comentando os efeitos do batismo sobre quem o recebe, afirma: “o corpo do batizado é a carne do Crucificado”[9]. Fruto do profundo realismo sacramental, que palpita nesta expressão, é a abertura imediata de um grande horizonte para compreender quem é um cristão: uma identidade que abraça dimensões que vão do valor sagrado do seu corpo até a esperança da glória com a qual será revestido. Da condição de uma pessoa que tem o mesmo corpo de Cristo, até a santidade dos relacionamentos esponsais (cf. Ef 3,6). São valores surpreendentes que, quando brotam da fonte inesgotável que a Igreja oferece em seus sacramentos, exalta ao extremo a condição humana do batizado.

Por outro lado, na tensão de narrar o mistério, as linguagens não se excluem, mas se complementam mutuamente, e por isso a liturgia sabe intuir quando é o momento da palavra, quando é o momento da música ou do silêncio, quando é o momento do gesto ou da adoração. Mas sempre é hora da arte, pois, sendo Deus a eterna Beleza, o seu acontecer sacramental – a liturgia – constitui-se a arte das artes. Nela, verdade e bem são mostrados revestidos de beleza e, por isso, o decoro e o bom gosto estão sempre presentes, por serem elementos estruturantes da ação sagrada. A experiência de Deus passa por essa via pulchritudinis [caminho da beleza], que é a celebração, cada celebração é um acontecimento de alto nível estético.

Para que os ritos tragam significado de maneira notória, são necessárias celebrações que irradiem verdade e simplicidade, autenticidade e dignidade. A celebração ocorre na solenidade do simples. Nada do que intervém nela pode ser prosaico, nem suntuoso, mas tudo deve ser límpido, nobre e de bom gosto. São as qualidades do decoro com que a Esposa dedica a sua humilde homenagem ao Esposo, seu apreço ao que celebra: o amor salvífico transbordante da Santíssima Trindade.

Felix Maria Arocena

Tradução: Mônica Diez


[1] São Paulo VI, Homilia durante uma viagem pastoral a Manila, Filipinas 29-XI-1970.

[2] São Josemaria, Anotações de uma meditação, 12-IV-1937, em “Crescer para dentro”, p. 50. Este bispo era dom Manuel González, que ocupou a sede de Málaga, na Espanha e foi canonizado em 2016.

[3] Catecismo da Igreja Católica, n. 1066.

[4] Santo Ambrósio, Apologia prophetæ David 1, 2.

[5] São Josemaria lembrava o ensinamento dos Padres quando diziam que os sacramentos são “pegadas da encarnação do Verbo” (cfr. São Josemaria Escrivá. Amar o mundo apaixonadamente).

[6] Missal Romano, Oração Eucarística II.

[7] Santo Agostinho, Confissões, 7, 18.

[8] Cfr. Sacramentário Veronense 1256. O verbo latino contingo é um composto de tango (cum-tango), que significa tocar. Contingire remete a ‘contatar’.

[9] São Leão Magno 70, 4: “corpus regenerati fit caro Crucifixi”.