Jesus Cristo no cume do trabalho e das atividades humanas

Este artigo explora a perspectiva fascinante da cristianização da sociedade, através da santificação do trabalho, tema tão abordado nos escritos de São Josemaria.

Opus Dei - Jesus Cristo no cume do trabalho e das atividades humanas

“Esta tem sido a minha pregação constante desde 1928: urge cristianizar a sociedade”[1], afirma São Josemaria numa homilia; e pouco depois aponta o modo que propõe para alcançá-lo: “elevar à ordem da graça os afazeres diários, a profissão ou ofício”[2]. Trata-se, com outras palavras, de santificar o trabalho. “Pelo trabalho” – escreve –, “o cristão submete o mundo criado (cf. Gen 1, 28) e o ordena a Cristo Jesus, centro em que estão destinadas a recapitular-se todas as coisas”[3]. Abre-se aqui uma perspectiva fascinante, cuja origem se encontra num fato histórico que é preciso recordar para compreender o alcance da mensagem.

“Quando eu tiver sido levantado sobre a terra...”

O dia 7 de agosto de 1931 foi uma data memorável para São Josemaria. Muitas vezes ao longo da vida recordará que nesse dia o Senhor o fez ver com uma inusitada clareza uma característica do espírito que transmitia desde 1928. Compreendeu que Jesus Cristo reinará no mundo porque, de alguma maneira, alguns cristãos o colocarão no fundo e no cume da sua atividade profissional, santificando o trabalho. Assim, Ele atrairá todos os homens e todas as coisas a si, e o seu Reino será uma realidade, porque a sociedade inteira – as pessoas, as instituições e os costumes – tecida pelos fios das diversas profissões, estará configurada cristãmente.

Essa mensagem ficou impressa na sua alma quando ele compreendeu, num sentido novo, as palavras do Senhor recolhidas em Jo 12, 32 (segundo a Vulgata, usada então na liturgia): Et ego, si exaltatus fuero a terra, omnia traham ad meipsumE eu, quando tiver sido levantado da terra, atrairei a mim todas as coisas. Eis aqui uma das passagens em que se refere a esse momento:

Quando um dia, na quietude de uma igreja madrilena, eu me sentia... nada! – não digo pouco; pouco, ainda teria sido alguma coisa – pensava: Tu queres, Senhor, que faça toda esta maravilha? [...] E, lá no fundo da alma, entendi com um sentido novo, pleno, aquelas palavras da Escritura: Et ego, si exaltatus fuero a terra, omnia traham ad meipsum. Entendi-o perfeitamente. O Senhor dizia-nos: se vós me puserdes nas entranhas de todas as atividades da terra, cumprindo o dever de cada momento, sendo meu testemunho naquilo que parece grande e naquilo que parece pequeno... então, omnia traham ad meipsum! Meu reino entre vós será uma realidade![4]

As biografias de São Josemaria narram a profunda comoção que experimentou na alma ao receber essa luz[5]. As palavras de Jo 12, 32 – esculpidas ao pé da sua imagem nos muros da Basílica de São Pedro, abençoada por Bento XVI em 14 de setembro de 2005 – recordam a importância deste acontecimento para a vida da Igreja.

Noutro lugar – escrevendo em terceira pessoa – o Fundador do Opus Dei explica o sentido que descobriu nesta passagem do Evangelho:

[Aquele sacerdote] entendeu claramente que, com o trabalho ordinário em todas as tarefas do mundo, era necessário reconciliar a terra com Deus, de modo que o profano – ainda sendo profano – se convertesse em sagrado, em consagrado a Deus, fim último de todas as coisas[6].

Converter o profano em sagrado “ainda sendo profano” significa que uma atividade profissional – a medicina, a construção, a hotelaria, etc. – sem alterar a sua natureza e a sua função na sociedade, com sua autonomia e suas leis próprias, pode se converter em oração, em diálogo com Deus, e assim ser santificada: purifica-se e eleva-se. Por isso afirma São Josemaria que:

A rigor, não se pode dizer que haja realidades profanas, uma vez que o Verbo se dignou assumir uma natureza humana íntegra e consagrar a terra com a sua presença e com o trabalho de suas mãos, porque foi desígnio do Pai reconciliar consigo, pacificando-as pelo sangue da Cruz, todas as coisas, tanto as da terra como as do céu (Col 1, 20)[7].

Quando fala de pôr o Senhor “nas entranhas” das atividades humanas, o Fundador do Opus Dei indica que essa transformação do profano em santo ou sagrado ocorre no mais íntimo da atividade. Com efeito, a essência dessa transformação é a caridade, o amor sobrenatural, que informa e vivifica inteiramente aquilo que se faz:

Se nós, os homens, nos decidíssemos a albergar o amor de Deus em nossos corações! Cristo, Senhor Nosso, foi crucificado e, do alto da Cruz, redimiu o mundo, restabelecendo a paz entre Deus e os homens. Jesus Cristo recorda a todos: et ego, si exaltatus fuero a terra, omnia traham ad meipsum (Jo 12, 32)[8].

Várias vezes, em vez de dizer “nas entranhas”, São Josemaria escreve “no cume” ou “no cimo” das atividades humanas:

Se vós me colocardes no cume de todas as ati­vidades da terra, cumprindo o dever de cada instante, dando testemunho de mim no que parece grande e no que parece pequeno, omnia traham ad meipsum, tudo atrairei a mim. O meu reino entre vós será uma realidade![9]

“No cume” equivale a “nas entranhas”, pois dizer que o amor de Cristo vivifica uma atividade a partir das entranhas é como dizer que a preside do seu cume. Mas a expressão “no cume” ou “no cimo” acrescenta algo mais: indica que nessa atividade se deve ver a Cristo, pois:

Não se pode esconder uma cidade situada sobre uma montanha nem se acende uma luz para colocá-la debaixo do alqueire, mas sim para colocá-la sobre o candeeiro, a fim de que brilhe a todos os que estão em casa. Assim, brilhe vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos céus (Mt 5, 14-16).

Portanto, afirmar que o cristão tem de pôr Cristo no cume do seu trabalho significa que o amor com o qual o realiza tem de se manifestar na relação com os outros, em atitude de entrega e de serviço. Com naturalidade, deve-se notar a caridade de Cristo na conduta dos seus discípulos, ao lado da competência profissional.

Cada cristão deve tornar Cristo presente entre os homens; deve viver de tal modo que à sua volta se perceba o bonus odor Christi (cf. 2 Cor 2, 15), o bom odor de Cristo; deve agir de tal modo que, através das ações do discípulo, se possa descobrir o rosto do Mestre[10].

Há também outro sentido para a expressão “pôr Cristo no cume das atividades humanas”, que é consequência do que se disse antes. Quem faz seu trabalho por amor a Cristo e para que os homens, ao vê-lo, glorifiquem a Deus deve procurar realizá-lo o melhor possível também humanamente, com a maior perfeição de que seja capaz: assim, põe Cristo no cume do seu trabalho. Isso não significa que tenha de ser o melhor nessa tarefa, mas sim que tem de se esforçar por levá-la a cabo com a maior perfeição humana que possa adquirir e pondo em prática as virtudes cristãs empapadas pelo amor a Deus. Pôr o Senhor no cume do próprio trabalho não quer dizer êxito terreno; é algo que está ao alcance de todos, não só de alguns particularmente dotados; é uma exigência pessoal: cada um tem de pôr Jesus Cristo no cume da sua atividade, ainda que humanamente não se destaque nela.

Almas de Eucaristia

No entanto, o sentido mais profundo deste “pôr Cristo no cume das atividades humanas” é o de unir o trabalho e todas as atividades retas à Santa Missa, cume da vida da Igreja e do cristão[11]. Aí se encerram os sentidos anteriores, porque unir o trabalho ao sacrifício de Cristo implica realizá-lo por amor e com a maior perfeição humana possível. Então o trabalho se converte em um ato de culto a Deus: se santifica por sua união com o Sacrifício do Altar, renovação ou atualização sacramental do sacrifício do Calvário, “converte-se em obra de Deus, operatio Dei, Opus Dei”[12]. O sentido tradicional da expressão Opus Dei – que designa o ofício litúrgico – abre-se, nas palavras de São Josemaria, ao trabalho e a todas as atividades humanas. Essa expansão pede que o cristão seja “alma de Eucaristia” ao longo da sua jornada, porque só assim Cristo estará no cume da sua atividade.

Peçamos, pois, ao Senhor que nos conceda a graça de sermos almas de Eucaristia, que a nossa relação pessoal com Ele se traduza em alegria, em serenidade, em propósitos de justiça. E assim facilitaremos aos outros a tarefa de reconhecerem Cristo, contribuiremos para colocá-lo no cume de todas as atividades humanas. Cumprir-se-á a promessa de Jesus: Eu, quando for levantado sobre a terra, tudo atrairei a mim[13].

A Eucaristia edifica a Igreja porque reúne num só Corpo aqueles que participam dela: Uma vez que há um único pão, nós, embora sendo muitos, formamos um só corpo, porque todos nós comungamos do mesmo pão (1 Cor 10, 17). A Eucaristia “é o cumprimento da promessa do primeiro dia da grande semana de Jesus: Quando eu for levantado sobre a terra, atrairei todos a mim (Jo 12, 32)”[14]. Chega-se a entrever então o profundo significado que encerra o fato de que a luz recebida por São Josemaria sobre este texto lhe fosse dada precisamente “enquanto levantava a hóstia”[15]: no momento da consagração, na Santa Missa. Quando o cristão une seu trabalho ao sacrifício do Altar, esse trabalho santificado edifica a Igreja, porque torna presente a força unificadora da Eucaristia: a ação de Cristo que, pelo Espírito Santo, atrai todos os homens e todas as coisas a si.

O caminho que Deus quis mostrar a São Josemaria para que Cristo reinasse neste mundo é: que cada um pessoalmente procure santificar seu trabalho, pondo nele a Cruz de Cristo – ou seja, unindo-o ao Sacrifício do Calvário que se atualiza na Eucaristia – a fim de torná-lo fermento de vida cristã no meio do mundo. Um modo pouco vistoso de contribuir para o reinado de Cristo, mas portador da eficácia da promessa divina:

Se vós me puserdes nas entranhas de todas as atividades da terra, cumprindo o dever de cada momento, sendo meu testemunho naquilo que parece grande e naquilo que parece pequeno... então, omnia traham ad meipsum! Meu reino entre vós será uma realidade![16]

Pôr Cristo no cume “de todas as atividades humanas” para que Ele reine não significa que o seu reinado será o resultado da influência humana de um grande número de cristãos agindo em todas as profissões. É o Senhor que atrairá a si todas as coisas, se um punhado de cristãos fiéis, homens e mulheres, procurarem ser autenticamente santos, cada um no seu lugar no meio do mundo. Não é uma questão de proporções humanas. O que São Josemaria entendeu é que a nós, cristãos, cabe colocar Cristo nas entranhas da nossa atividade – talvez de muito pouco relevo social – e que, se assim fizermos, Ele atrairá todas as coisas a si: não só aquelas que são efeito do nosso limitado trabalho, mas todas e em todo o mundo.

Estava claro que aquelas palavras relatadas por São João – et ego si exaltatus fuero a terra, omnia traham a meipsum (Jo 12, 32) –, deviam ser entendidas no sentido de que O levantássemos, como Senhor, ao cume de todas as atividades humanas: que Ele atrairia tudo a si, em seu reinado espiritual de amor[17].

Reinado de Cristo e progresso temporal

Assim como querer que Cristo reine na própria vida inclui buscar a perfeição humana – mediante a prática das virtudes informadas pela caridade – querer também que Cristo reine na sociedade exige buscar o aperfeiçoamento desta: o bem comum temporal, do qual o progresso faz parte. Na realidade, o bem da pessoa e o da sociedade não são meramente paralelos, como se a busca de um pudesse ser independente do outro. O que chamamos bem comum da sociedade é o bem das pessoas que a constituem. E, por sua vez, o bem das pessoas contribui para o bem comum da sociedade, sempre que este último seja entendido de modo integral. As condições da vida social que procuramos melhorar não se reduzem ao desenvolvimento econômico e ao bem-estar material, ainda que certamente o incluam. Também são, e antes – em sentido qualitativo, não no de urgência temporal, em que às vezes a preferência pode ser dos aspectos materiais –, a liberdade, a justiça, a moralidade, a paz, a cultura: tudo o que corresponde em primeiro lugar à dignidade da pessoa humana.

A sensibilidade de São Josemaria com relação a esse tema é muito aguda:

Compreende-se muito bem a impaciência, a angústia, os anseios inquietos daqueles que, com alma naturalmente cristã (cf. Tertuliano, Apologeticum, 17), não se resignam perante as situações de injustiça pessoal e social que o coração humano é capaz de criar. Tantos séculos de convivência entre os homens, e ainda tanto ódio, tanta destruição, tanto fanatismo acumulado em olhos que não querem ver e em corações que não querem amar.

Os bens da terra, repartidos entre poucos; os bens da cultura, encerrados em cenáculos. E, lá fora, fome de pão e de sabedoria; vidas humanas – que são santas, porque vêm de Deus – tratadas como simples coisas, como números de uma estatística. Compreendo e partilho dessa impaciência, levantando os olhos para Cristo, que continua a convidar-nos a pôr em prática o mandamento novo do amor[18].

“O progresso retamente ordenado é bom e Deus o quer”[19]. A busca do progresso temporal ordenado ao reinado de Cristo é parte integrante da santificação do trabalho profissional. Porque a santificação do trabalho implica a elevação da própria realidade humana do trabalho à ordem da santidade. “Humanamente o trabalho é fonte de progresso, de civilização e de bem-estar”[20]. Por sua natureza, o trabalho humano é “meio imprescindível para o progresso da sociedade e o ordenamento cada vez mais justo das relações entre os homens”[21]. Quem quiser santificar o trabalho não pode abrir mão dessa realidade. Necessariamente terá de aspirar ao progresso temporal, para ordená-lo a Deus. “Não é admissível pensar que, para sermos cristãos, seja preciso voltarmos as costas ao mundo, sermos uns derrotistas da natureza humana”[22].

Este progresso não é, no entanto, o fim último sobrenatural, nem a antecipação deste, porque nenhum bem terreno pode ser em si mesmo princípio de bens sobrenaturais. Isso não é tirar importância do progresso humano. É somente não o idolatrar. A sua busca é um fim subordinado à busca da santidade, ao fim último sobrenatural.

Quis o Senhor que, com a nossa vocação, manifestemos aquela visão otimista da criação, aquele amor ao mundo que pulsa no cristianismo. O entusiasmo não deve faltar nunca, nem em vosso trabalho, nem em vosso empenho por construir a cidade temporal. Ainda que, ao mesmo tempo, como discípulos de Cristo que crucificaram a carne com suas paixões e concupiscências (cf. Gal 5, 24), procurareis manter vivo o sentido do pecado e da reparação generosa, frente aos falsos otimismos daqueles que, inimigos da cruz de Cristo (Fil 3, 18), calculam tudo em termos de progresso e energias humanas[23].


[1] Josemaria Escrivá, Amigos de Deus, n. 210.

[2] Ibidem.

[3] São Josemaria Escrivá, Carta, 6.5.1945.

[4] São Josemaria Escrivá, Notas de uma meditação, 27.10.1963.

[5] Cf. A. Vázquez de Prada, O Fundador do Opus Dei, volume I, pág. 348 e segs.

[6] São Josemaria Escrivá, Carta, 9.1.1932, n. 2.

[7] São Josemaria Escrivá, Carta, 6.5.1945, n. 14.

[8] Josemaria Escrivá, É Cristo que passa, n. 183.

[9] Ibidem.

[10] Idem, n. 105.

[11] Cf. Concílio Vaticano II, Constituição dogmática Lumen gentium, n. 11; Constituição Sacrosanctum Concilium, 4.12.1963, n. 10.

[12] Josemaria Escrivá, Entrevistas com Mons. Josemaria Escrivá, n. 10.

[13] Josemaria Escrivá, É Cristo que passa, n. 156.

[14] Joseph Ratzinger, La Iglesia, una comunidad siempre en camino, Madri, 1991, pág. 125.

[15] São Josemaria Escrivá, Carta, 29.12.1947/14.2.1966, n. 89.

[16] São Josemaria Escrivá, Notas de uma meditação, 27.10.1963.

[17] São Josemaria Escrivá, Carta, 14.2.1944, n. 19.

[18] Josemaria Escrivá, É Cristo que passa, n. 111.

[19] Idem, n. 123.

[20] São Josemaria Escrivá, Carta, 31.5.1954, n. 17.

[21] Josemaria Escrivá, Entrevistas com Mons. Josemaria Escrivá, n. 10.

[22] Josemaria Escrivá, É Cristo que passa, n. 125.

[23] São Josemaria Escrivá, Carta, 9.1.1959, n. 19.