Papa Francisco: Moçambique, Madagascar e Maurício

O Papa Francisco realizou do dia 04 ao 10 de setembro mais uma viagem apostólica. Abaixo publicamos a Audiência de hoje, e as palavras do Santo Padre ao longo dos dias da viagem.

Da Igreja e do Papa
Opus Dei - Papa Francisco: Moçambique, Madagascar e Maurício

11 de setembro de 2019 - Audiência Geral após a Viagem Apostólica

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Ontem à noite regressei da minha Viagem apostólica a Moçambique, Madagáscar e Ilhas Maurícias. Agradeço a Deus que me permitiu fazer esta viagem como peregrino de paz e esperança, e renovo a expressão da minha gratidão às respetivas Autoridades destes Estados, assim como aos Episcopados, que me convidaram e acolheram com tanto afeto e cortesia, e aos Núncios Apostólicos, que tanto trabalharam para esta viagem.

A esperança do mundo é Cristo e o seu Evangelho é o fermento mais poderoso de fraternidade, liberdade, justiça e paz para todos os povos. Com a minha visita, seguindo os passos dos santos evangelizadores, procurei levar este fermento, o fermento de Jesus, às populações moçambicanas, malgaxes e mauricianas.

Em Moçambique fui lançar sementes de esperança, paz e reconciliação numa terra que sofreu muito no passado recente por causa de um longo conflito armado, e que na primavera passada foi atingida por dois ciclones que provocaram danos muito graves. A Igreja continua a acompanhar o processo de paz, que deu um passo em frente a 1 de agosto com um novo acordo entre as partes. E aqui gostaria de agradecer à Comunidade de Santo Egídio que trabalhou muitíssimo neste processo de paz.

Encorajei as Autoridades do país neste sentido, exortando-as a trabalhar em conjunto para o bem comum. E encorajei os jovens, que se reuniram em diferentes contextos religiosos, a construir o país, superando a resignação e a ansiedade, difundindo a amizade social e valorizando as tradições dos idosos. Aos bispos, sacerdotes e pessoas consagradas com quem me encontrei na Catedral de Maputo, dedicada à Virgem Imaculada, propus o caminho de Nazaré, o caminho do “sim” generoso a Deus, na memória grata da sua chamada e das suas próprias origens. Um sinal forte desta presença evangélica é o Hospital de Zimpeto, nos arredores da capital, construído com o empenho da Comunidade de Santo Egídio. Naquele hospital vi que o mais importante são os doentes, e todos trabalham para os doentes. Além disso, nem todos têm a mesma pertença religiosa. O diretor desse hospital é uma mulher, uma pesquisadora, uma mulher bondosa, que faz pesquisa sobre a sida. Ela é muçulmana, e diretora de um hospital construído pela Comunidade de Santo Egídio. Todos juntos pelo povo, unidos, como irmãos. A minha visita a Moçambique culminou na Missa, celebrada no Estádio, debaixo de chuva, mas estávamos todos felizes. As canções, as danças religiosas... tanta felicidade. A chuva não incomodava. E ali ressoou o apelo do Senhor Jesus: «Amai os vossos inimigos» (Lc 6, 27), semente da verdadeira revolução, a do amor, que extingue a violência e gera fraternidade.

De Maputo transferi-me para Antananarivo, capital de Madagáscar. Um país rico em beleza e recursos naturais, mas marcado por muita pobreza. Fiz votos por que, animado pelo seu tradicional espírito de solidariedade, o povo malgaxe possa superar as adversidades e construir um futuro de desenvolvimento, conjugando o respeito pelo meio ambiente e a justiça social. Neste sentido, como sinal profético, visitei a “Cidade da Amizade” Akamasoa, fundada por um missionário lazarista, padre Pedro Opeka: ali procura-se unir trabalho, dignidade, cuidado dos mais pobres, educação para as crianças. Tudo animado pelo Evangelho. Em Akamasoa, junto da pedreira de granito, elevei a Deus a Oração pelos trabalhadores.

Depois tive um encontro com as monjas contemplativas de diferentes congregações, no mosteiro das carmelitas: de facto, sem a fé nem a oração não se pode construir uma cidade digna do homem. Com os Bispos do país renovámos o nosso compromisso de sermos “semeadores de paz e esperança”, cuidando do povo de Deus, especialmente dos pobres e dos nossos sacerdotes. Juntos veneramos a Beata Vitória Rasoamanarivo, primeira malgaxe a ser elevada aos altares. Com os jovens, muito numerosos — muitos jovens naquela vigília, muitos, muitos — vivi uma vigília rica em testemunhos, cantos e danças.

Em Antananarivo foi celebrada a Eucaristia dominical no grande “Campo diocesano”: reuniu-se ao redor do Senhor Jesus uma multidão imensa. E por fim, no Instituto Saint-Michel, encontrei-me com os sacerdotes, as consagradas e os consagrados e os seminaristas de Madagáscar. Um encontro no sinal do louvor a Deus.

A segunda-feira foi dedicada à visita à República das Maurícias, famosa meta turística, mas que escolhi como local de integração entre diferentes etnias e culturas. De facto, ao longo dos últimos dois séculos, diferentes populações chegaram a esse arquipélago, especialmente da Índia; e, após a independência, conheceu um grande desenvolvimento económico e social. Há um forte diálogo inter-religioso e também amizade entre os líderes das várias confissões religiosas. Algo que nos parece estranho, mas eles vivem a amizade que é natural. Quando entrei no episcopado, encontrei um lindo ramo de flores enviado pelo Grão-Imã em sinal de fraternidade.

A santa Missa nas Maurícias foi celebrada no Monumento a Maria Rainha da Paz, em memória do Beato Jacques-Désiré Laval, conhecido como o “apóstolo da unidade mauriciana”. O Evangelho das Bem-Aventuranças, bilhete de identidade dos discípulos de Cristo, naquele contexto é um antídoto contra a tentação do bem-estar egoísta e discriminatório. O Evangelho e as Bem-Aventuranças são o antídoto contra este bem-estar egoísta e discriminatório, e são também o fermento da verdadeira felicidade, impregnada de misericórdia, justiça e paz. Fiquei impressionado com o trabalho que os bispos fazem pela evangelização dos pobres. Em seguida, no encontro com as Autoridades das Maurícias, manifestei o meu apreço pelo compromisso a fim de harmonizar as diferenças num projeto comum e encorajei a incrementar a capacidade de acolher as pessoas também hoje, bem como os seus esforços para manter e desenvolver a vida democrática.

Cheguei ontem à noite ao Vaticano. Antes de iniciar uma viagem e ao regressar, vou sempre visitar Nossa Senhora, a Salus Populi Romani, para que ela me acompanhe na viagem, como Mãe, para me dizer o que devo fazer, para apoiar as minhas palavras, os meus gestos. Com Nossa Senhora, sinto-me seguro.

Queridos irmãos e irmãs, demos graças a Deus e peçamos-lhe que as sementes lançadas nesta viagem apostólica produzam frutos abundantes para os povos de Moçambique, Madagáscar e Ilhas Maurícias. Obrigado!



Palavras do Santo Padre ao longo da Viagem Apostólica

Quarta-feira, 4 de setembro de 2019

ROMA - MAPUTO [MOÇAMBIQUE]

8:00 Partida de avião do Aeroporto de Roma/Fiumicino para Maputo
Encontro com os jornalistas durante o voo para Maputo
18:30 Cerimônia de boas-vindas no Aeroporto de Maputo

Quinta-feira, 5 de setembro se 2019

MAPUTO

9:45 Visita de cortesia ao Presidente no Palácio Ponta Vermelha
10:15 Encontro com as Autoridades, a Sociedade civil e o Corpo Diplomático no Palácio Ponta Vermelha
11:00 Encontro Inter-religioso com os Jovens no Pavilhão Maxaquene
Almoço na Nunciatura
16:15 Encontro com os Bispos, Sacerdotes, Religiosos e Religiosas, Consagrados e Seminaristas, Catequistas e Animadores na Catedral da Imaculada Conceição
17:25 Visita privada à “Casa Mateus 25"

Sexta-feira, 6 de setembro de 2019

MAPUTO-ANTANANARIVO [MADAGASCAR]

8:45 Visita ao Hospital de Zimpeto
10:00 Santa Missa no Estádio de Zimpeto
12:25 Cerimônia de despedida no Aeroporto de Maputo
12:40 Partida do avião papal para Antananarivo
16:30 Cerimônia de boas-vindas no Aeroporto de Antananarivo em Madagascar

Sábado, 7 de setembro de 2019

ANTANANARIVO

9:30 Visita de cortesia ao Presidente no Palácio Presidencial “Iavoloha”
10:15 Encontro com as Autoridades, a Sociedade Civil e o Corpo Diplomático no Ceremony Building
11:15 Hora Média no Mosteiro da ordem das Carmelitas Descalças
Almoço na Nunciatura
16:00 Encontro com os Bispos de Madagascar na Catedral de Andohalo
17:10 Visita ao túmulo da Beata Victoire Rasoamanarivo
18:00 Vigília com os Jovens no Campo Diocesano de Soamandrakizay

Domingo, 8 de setembro de 2019

ANTANANARIVO

10:00 Santa Missa no Campo Diocesano de Soamandrakizay
12:00 Angelus
Almoço com a Séquito Papal na Nunciatura
Visita à Cidade de Amizade - Akamasoa
15:10 Oração para os Trabalhadores no Estaleiro de Mahatzana
16:00 Encontro com os Sacerdotes, Religiosos, Religiosas, Consagrados e Seminaristas no Colégio Saint Michel

Segunda-feira, 9 de setembro de 2019

ANTANANARIVO-PORT LOUIS [MAURÍCIO]-ANTANANARIVO

7:30 Partida de avião para Port Louis em Maurício
10:40 Cerimônia de boas-vindas no Aeroporto de Port Louis
12:15 Santa Missa no Monumento de Maria, Rainha da Paz
Almoço com os Bispos da CEDOI no Episcópio
16:25 Visita privada ao Santuário de Pere Laval
16:55 Visita de cortesia ao Presidente no Palácio Presidencial
17:15 Encontro com o Primeiro-Ministro no Palácio Presidencial
17:40 Encontro com as Autoridades, a Sociedade Civil e o Corpo Diplomático no Palácio Presidencial
18:45 Cerimonia de despedida no Aeroporto de Port Louis
19:00 Partida de avião para Antananarivo
20:00 Chegada ao Aeroporto de Antananarivo

Terça-feira, 10 de setembro de 2019

ANTANANARIVO-ROMA

9:00 Cerimônia de despedida no Aeroporto de Antananarivo
9:20 Partida de avião para Roma/Ciampino
19:00 Chegada ao Aeroporto de Roma/Ciampino
Fuso horário
Roma: + 2h UTC
Maputo: + 2h UTC
Antananarivo: + 3h UTC
Port Louis: + 4h UTC

4 de setembro

Cerimônia de boas-vindas no Aeroporto de Maputo


5 de setembro

Encontro com as Autoridades, a Sociedade civil e o Corpo Diplomático

Senhor Presidente,
Membros do Governo e do Corpo Diplomático,
Distintas Autoridades,
Representantes da sociedade civil,
Senhoras e Senhores:

Obrigado, Senhor Presidente, pelas suas palavras de boas-vindas bem como pelo amável convite a visitar a nação. Sinto-me feliz por me encontrar novamente na África e iniciar esta viagem apostólica por este país, tão abençoado pela sua beleza natural como pela sua grande riqueza cultural que traz, à provada alegria de viver do vosso povo, a esperança num futuro melhor.

Saúdo cordialmente os membros do Governo, do Corpo Diplomático e os representantes da sociedade civil aqui presentes. Em vós, quero abeirar-me e saudar afetuosamente todo o povo moçambicano, do Rovuma a Maputo, que nos abre as suas portas para alimentar um renovado futuro de paz e reconciliação.

Quero que as minhas primeiras palavras de proximidade e solidariedade sejam dirigidas a todos aqueles sobre quem se abateram recentemente os ciclones Idai e Kenneth, cujas devastadoras consequências continuam a pesar sobre tantas famílias, principalmente nos lugares onde ainda não foi possível a reconstrução, requerendo esta especial atenção. Infelizmente, não poderei ir pessoalmente até junto de vós, mas quero que saibais que partilho a vossa angústia, sofrimento e também o compromisso da comunidade católica para fazer frente a tão dura situação. No meio da catástrofe e da desolação, peço à Providência que não falte a solicitude de todos os atores civis e sociais que, pondo a pessoa no centro, sejam capazes de promover a necessária reconstrução.

Também quero exprimir o reconhecimento, meu e de grande parte da comunidade internacional, pelo esforço que, há decénios, se vem fazendo para que a paz volte a ser a norma, e a reconciliação o melhor caminho para enfrentar as dificuldades e desafios que tendes como nação. Neste espírito e com este propósito, há cerca de um mês assináveis na Serra da Gorongosa o acordo de cessação definitiva das hostilidades militares entre irmãos moçambicanos. Um marco, que saudamos e esperamos decisivo, plantado pelos corajosos na senda da paz que parte daquele Acordo Geral de 1992 [mil novecentos e noventa e dois] em Roma.

Quantas coisas se passaram desde a assinatura do histórico tratado que selou a paz e deu os seus primeiros rebentos! São estes rebentos que sustentam a esperança e dão confiança para não deixar que a maneira de escrever a história seja a luta fratricida, mas a capacidade de se reconhecerem como irmãos, filhos duma mesma terra, administradores dum destino comum. A coragem da paz! Uma coragem de alta qualidade: não a da força bruta e da violência, mas aquela que se concretiza na busca incansável do bem comum (cf. Paulo VI, Mensagem para o Dia Mundial da Paz, 1973, 1973)

Conhecestes o sofrimento, o luto e a aflição, mas não deixastes que o critério regulador das relações humanas fosse a vingança ou a repressão, nem que o ódio e a violência tivessem a última palavra. Como recordava o meu antecessor São João Paulo II [segundo] durante a sua visita ao vosso país em 1988 [mil novecentos e oitenta e oito], com a guerra «muitos homens, mulheres e crianças sofrem por não terem casa onde habitar, alimentação suficiente, escolas onde se instruir, hospitais para tratar a saúde, igrejas onde se reunir para rezar e campos onde empregar as forças de trabalho. Muitos milhares de pessoas são forçadas a deslocar-se à procura de segurança e de meios para sobreviver; outras refugiam-se nos países vizinhos. (...) Não à violência e sim à paz!» (Discurso de Chegada, 16 de setembro de 1988, n. 3).

Ao longo de todos estes anos, experimentastes que a busca da paz duradoura – uma missão que envolve a todos – exige um trabalho árduo, constante e sem tréguas, pois a paz é «como uma flor frágil, que procura desabrochar por entre as pedras da violência» (Francisco, Mensagem para o Dia Mundial da Paz, 2019, 2019) e, por isso, requer que se continue a afirmar com determinação mas sem fanatismo, com coragem mas sem exaltação, com tenacidade mas de maneira inteligente: não à violência que destrói, sim à paz e à reconciliação.

Como sabemos, a paz não é apenas ausência de guerra, mas o empenho incansável – especialmente daqueles que ocupamos um cargo de maior responsabilidade – de reconhecer, garantir e reconstruir concretamente a dignidade, tantas vezes esquecida ou ignorada, de irmãos nossos, para que possam sentir-se os principais protagonistas do destino da própria nação. Não podemos perder de vista que, «sem igualdade de oportunidades, as várias formas de agressão e de guerra encontrarão um terreno fértil que, mais cedo ou mais tarde, há de provocar a explosão. Quando a sociedade – local, nacional ou mundial – abandona na periferia uma parte de si mesma, não há programas políticos, nem forças da ordem ou serviços secretos que possam garantir indefinidamente a tranquilidade» (Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium, 59).

A paz tornou possível o desenvolvimento de Moçambique em várias áreas. Promissores são os avanços registados no âmbito da educação e da saúde. Encorajo-vos a prosseguir no trabalho de consolidar as estruturas e instituições necessárias para permitir que ninguém se sinta abandonado, especialmente os vossos jovens, que formam grande parte da população. Não são apenas a esperança desta terra, eles são o presente que interpela, busca e precisa de encontrar canais dignos que lhes permitam desenvolver todos os seus talentos; são potencial para semear e desenvolver a tão desejada amizade social.

Uma cultura de paz exige «um processo constante, no qual cada nova geração está envolvida» (Ibid., 220). Por isso, o caminho há de ser aquele que favoreça a cultura do encontro e dela fique todo impregnado: reconhecer o outro, estreitar laços, lançar pontes. Neste sentido, é imprescindível manter viva a memória como caminho que abre futuro; como caminhada, que leve a procurar metas comuns, valores compartilhados, ideias que favoreçam superar interesses setoriais, corporativos ou partidários para que as riquezas da vossa nação sejam colocadas ao serviço de todos, especialmente dos mais pobres. Tendes uma corajosa e histórica missão a cumprir: não cesseis os esforços enquanto houver crianças e adolescentes sem educação, famílias sem teto, trabalhadores sem trabalho, camponeses sem terra... Tais são as bases dum futuro de esperança, porque futuro de dignidade! Tais são as armas da paz.

A paz convida-nos também a olhar pela nossa Casa Comum. Sob esta perspetiva, Moçambique é uma nação abençoada, e vós sois especialmente convidados a cuidar desta bênção. A defesa da terra é também a defesa da vida, que reclama atenção especial quando se constata uma tendência à pilhagem e espoliação, guiada por uma ânsia de acumular que, em geral, não é cultivada sequer por pessoas que habitam estas terras, nem é motivada pelo bem comum do vosso povo. Uma cultura de paz implica um desenvolvimento produtivo, sustentável e inclusivo, onde cada moçambicano possa sentir que este país é seu, e no qual possa estabelecer relações de fraternidade e equidade com o seu vizinho e com tudo o que o rodeia.

Senhor Presidente, distintas Autoridades! Todos vós sois os construtores da obra mais bela a ser realizada: um futuro de paz e reconciliação como garantias do direito ao futuro dos vossos filhos. Peço a Deus que, durante este tempo que transcorrerei convosco, possa – eu também, em comunhão com os meus irmãos bispos e a Igreja Católica que peregrina nesta terra – contribuir para que a paz, a reconciliação e a esperança reinem definitivamente entre vós. Obrigado.

Encontro Inter-religioso com os Jovens

Muito obrigado pelas vossas palavras de boas vindas; muito obrigado também por todas e cada uma das representações artísticas que vós realizastes. Obrigado! Muito obrigado! Sentai-vos, ponde-vos à vontade!

Vós me agradecíeis por ter reservado tempo para estar convosco. Que pode haver de mais importante para um pastor do que estar com os seus? Que há de mais importante para um pastor do que encontrar-se com os seus jovens? Vós sois importantes! Precisais de o saber, precisais de acreditar nisto: vós sois importantes! Mas revestidos de humildade. Porque não sois apenas o futuro de Moçambique, ou da Igreja e da humanidade; vós sois o presente, sois o presente de Moçambique: com tudo o que sois e fazeis, já estais a contribuir para ele com o melhor que hoje podeis dar. Sem o vosso entusiasmo, os vossos cânticos, a vossa alegria de viver, que seria desta terra? Sem os jovens, que seria desta terra? Ver-vos cantar, sorrir, dançar, no meio de todas as dificuldades que viveis – como justamente nos contavas tu – é o melhor sinal de que vós, jovens, sois a alegria desta terra, a alegria de hoje. A alegria de hoje, a esperança de amanhã.

A alegria de viver é uma das vossas caraterísticas principais, a caraterística dos jovens é a alegria de viver, como se pode sentir aqui! Alegria partilhada e celebrada que reconcilia e se torna no melhor antídoto capaz de desmentir todos aqueles que vos querem dividir – atenção àqueles que vos querem dividir! –, que vos querem fragmentar, que vos querem contrapor. Como faz falta, nalgumas regiões do mundo, a vossa alegria de viver! Como faz falta, nalgumas regiões do mundo, a alegria de estar unidos, de viver juntos, de diversas confissões religiosas, mas filhos da mesma terra, unidos.

Obrigado por estarem aqui as diferentes confissões religiosas. Obrigado por vos animardes a viver o desafio da paz e a celebrá-la hoje como família que somos, incluindo aqueles que, não fazendo parte de nenhuma tradição religiosa, também estão a participar... Estais a fazer a experiência de que todos somos necessários: com as nossas diferenças, mas necessários. As nossas diferenças são necessárias. Vós juntos – assim como estais – sois o palpitar deste povo, onde cada qual desempenha um papel fundamental, num único projeto criador, para escrever uma nova página da história, uma página cheia de esperança, cheia de paz, cheia de reconciliação. E eu pergunto-vos: Quereis escrever esta página? [respondem: sim!] Quando entrei, cantastes: «reconciliação. Podeis repeti-lo? [todos: Reconciliação! Reconciliação! Reconciliação!] Obrigado.

Fizestes-me duas perguntas, mas acho que estão ligadas. Uma delas: Como fazer para que os sonhos dos jovens se tornem realidade? A outra: Como fazer para que os jovens se envolvam nos problemas que afligem o país? Vós, hoje, apontastes-nos o caminho e ensinastes-nos como responder a estas perguntas.

Exprimistes com a arte, com a música, com a riqueza cultural que mencionavas com tanta ufania… exprimistes uma parte dos vossos sonhos e realidades; em todas elas, se mostram modos diferentes de assomar-se ao mundo e fixar o horizonte: sempre com olhos cheios de esperança, cheios de futuro e cheios de ilusões. Vós, jovens, caminhais com dois pés como os adultos, de igual modo, mas, ao contrário dos adultos que os mantêm paralelos, vós colocais um atrás do outro, pronto a arrancar, a partir. Vós tendes tanta força, sois capazes de olhar com tanta esperança! Sois uma promessa de vida, que traz em si um certo grau de tenacidade (cf. Francisco, Exort. ap. pós-sinodal Christus vivit, 139), que não deveis perder nem deixar que vo-la roubem.

Como realizar os sonhos, como contribuir para a solução dos problemas do país? Gostaria de vos dizer: não deixeis que vos roubem a alegria. Não deixeis que vos roubem a alegria. Não deixeis de cantar e expressar-vos de acordo com todo o bem que aprendestes das vossas tradições. Que não vos roubem a alegria! Como vos disse, há muitas maneiras de olhar o horizonte, o mundo, de olhar o presente e o futuro. Há muitos modos. Mas é preciso acautelar-se de duas atitudes que matam os sonhos e a esperança. Quais são? A resignação e a ansiedade. Duas atitudes que matam os sonhos e a esperança. São grandes inimigas da vida, porque normalmente nos impelem por um caminho fácil, mas de derrota; e a portagem que pedem para passar é muito cara; é muito cara. Paga-se com a própria felicidade e até com a própria vida. Resignação e ansiedade: duas atitudes que roubam a esperança. Quantas promessas de felicidade vazias, que acabam por mutilar vidas! Certamente conheceis amigos, conhecidos – ou pode mesmo ter acontecido convosco – que, em momentos difíceis, dolorosos, quando parece que tudo lhes cai em cima, ficam prostrados na resignação. É preciso estar muito atento, porque esta atitude «faz com que te encaminhes pela estrada errada. Quando tudo parece estar parado e estagnante, quando os problemas pessoais nos preocupam, as dificuldades sociais não encontram as devidas respostas, não é bom dar-se por vencido» (Ibid., 141). Não é bom dar-se por vencido! Repeti: Não é bom dar-se por vencido [todos: Não é bom dar-se por vencido!].

Sei que a maioria de vós gosta muito de futebol. É verdade? Recordo um grande jogador destas terras que aprendeu a não se resignar: Eusébio da Silva, a pantera negra. Começou a sua vida desportiva no clube desta cidade. As graves dificuldades económicas da sua família e a morte prematura do seu pai não impediram os seus sonhos; a sua paixão pelo futebol fê-lo perseverar, sonhar e continuar para diante... chegando a marcar 77 golos para este clube de Maxaquene! Não faltavam razões para se resignar… e ele não se resignou.

O seu sonho e vontade de jogar lançaram-no para diante, mas igualmente importante foi encontrar com quem jogar. Bem sabeis que, numa equipa, não são todos iguais, nem fazem as mesmas coisas ou pensam da mesma maneira. Não. Cada jogador tem as suas caraterísticas, como podemos descobrir e desfrutar neste encontro: vimos de tradições diferentes e inclusive podemos falar línguas diversas, mas isto não impediu de nos encontrarmos. Muito se sofreu e continua a sofrer, porque alguns se julgam no direito de determinar quem pode «jogar» ou não: quem deve ficar «fora do campo». Um direito injusto. E passam a vida dividindo e contrapondo, e a fazer a guerra. Hoje vós, queridos amigos, sois um exemplo, sois um testemunho de como devemos agir. Testemunho de unidade, de reconciliação, de esperança. Como uma equipa de futebol. Como empenhar-se pelo país? Tal como estais a fazer agora, permanecendo unidos independentemente daquilo que vos possa diferenciar, procurando sempre a oportunidade de realizar os sonhos por um país melhor, mas… juntos. Juntos. Como é importante não esquecer que a inimizade social destrói. Juntos! [todos: a inimizade social destrói]. E uma família destrói-se pela inimizade. Um país destrói-se pela inimizade. Juntos! [todos: a inimizade social destrói]. O mundo destrói-se pela inimizade. E a inimizade maior é a guerra. Porque são incapazes de se sentar e falar. Sede capazes de criar a amizade social (cfr ibid., 169).

Recordo o provérbio que diz: «Se quiseres chegar depressa, caminha sozinho; se quiseres chegar longe, vai acompanhado». [Repetimo-lo: «Se quiseres chegar depressa, caminha sozinho; se quiseres chegar longe, vai acompanhado»] Trata-se sempre de sonhar juntos, como estais a fazer hoje. Sonhai com os outros, nunca contra os outros; sonhai como sonhastes e preparastes este encontro: todos unidos e sem barreiras. Isto faz parte da «nova página da história» de Moçambique.

Futebol, equipes, jogar juntos. Jogar juntos ensina-nos que, inimiga dos sonhos e do compromisso, não é apenas a resignação, mas também a ansiedade. Resignação e ansiedade. A ansiedade: esta «pode tornar-se uma grande inimiga, quando leva a render-nos, porque descobrimos que os resultados não são imediatos. Os sonhos mais belos conquistam-se com esperança, paciência e determinação, renunciando às pressas. Ao mesmo tempo, é preciso não se deixar bloquear pela insegurança: não se deve ter medo de arriscar e cometer erros» (Ibid., 142). É normal! As coisas mais belas formam-se com o tempo e, se algo não te saiu bem à primeira, não tenhas medo de voltar a tentar, uma vez e outra. Não tenhas medo de te equivocar! Podemos equivocar-nos mil vezes, mas não caiamos no erro de parar porque há coisas que não correram bem à primeira. O pior erro seria abandonar, por causa da ansiedade, os sonhos e a vontade de um país melhor.

Por exemplo, tendes diante dos olhos aquele belo testemunho dado por Maria Mutola, que aprendeu a perseverar, a continuar a tentar, apesar de não ver cumprido o seu anseio da medalha de ouro nos três primeiros Jogos Olímpicos que disputou; sucessivamente, na quarta tentativa, esta atleta dos 800 metros alcançou a sua medalha de ouro nas Olimpíadas de Sidney. Tentar, tentar. A ansiedade não a deixou absorta em si mesma; os seus nove títulos mundiais não a fizeram esquecer-se do seu povo, das suas raízes, mas continuou a olhar pelas crianças necessitadas de Moçambique. Como o desporto nos ensina a perseverar nos nossos sonhos!

Gostaria de acrescentar outro elemento importante. Não à ansiedade, não à resignação e agora outro elemento importante: não deixem de fora os vossos idosos.

Também os vossos idosos podem ajudar para que os vossos sonhos e aspirações não estiolem, não sejam arrebatados pelo primeiro vento da dificuldade ou da impotência. Os idosos são as nossas raízes. Podemos dizê-lo todos? Os idosos são as nossas raízes. As gerações anteriores têm muito a dizer-vos, a propor-vos. É verdade que às vezes nós, os idosos, o fazemos de forma impositiva, como advertência, metendo medo. É verdade, às vezes metemos medo ou pretendemos que façais, digais e vivais exatamente como nós. É errado. Vós tereis de fazer a vossa própria síntese, mas escutando, valorizando aqueles que vos precederam. Não foi isto o que fizestes com a vossa música? Ao ritmo tradicional de Moçambique, a marrabenta, incorporastes outros modernos, e nasceu o pandza. O que escutáveis, o que víeis cantar e dançar a vossos pais e avós, assumiste-lo como próprio. Este é o caminho que vos proponho: um caminho «feito de liberdade, entusiasmo, criatividade, horizontes novos, mas cultivando ao mesmo tempo as raízes que nutrem e sustentam» (Ibid., 184). Os idosos são as nossas raízes [todos: Os idosos são as nossas raízes].

Todos estes são pequenos elementos que podem dar-vos o apoio necessário para não vos encolherdes nos momentos de dificuldade, mas abrirdes uma brecha de esperança; brecha que vos ajudará a pôr em jogo a vossa criatividade e encontrar novos caminhos e espaços para responder aos problemas com o gosto da solidariedade.

Muitos de vós nasceram sob o signo da paz, uma paz laboriosa que passou por momentos diversos: uns mais claros e outros de provação. A paz é um processo que também vós sois chamados a fazer avançar, estendendo sempre as vossas mãos especialmente àqueles que estão a passar momentos difíceis. Grande é o poder da mão estendida e da amizade que se joga no concreto! Penso no sofrimento daqueles jovens que chegaram cheios de sonhos à procura de trabalho na cidade, e hoje estão sem teto, sem família e sem encontrar uma mão amiga. Como é importante aprendermos a ser uma mão amiga e estendida! Este gesto, o gesto da mão estendida. Todos juntos! O gesto da mão estendida [todos: o gesto da mão estendida]. Obrigado! Procurai crescer na amizade também com aqueles que pensam de maneira diferente, para que a solidariedade cresça entre vós e se torne na melhor arma para transformar a história. A solidariedade é a melhor arma para transformar a história.

Mão estendida, que nos lembra também a necessidade de nos comprometermos com o cuidado da nossa Casa Comum. Sem dúvida alguma, fostes abençoados com uma beleza natural estupenda: florestas e rios, vales e montanhas e tantas praias lindas.

Infelizmente, há poucos meses sofrestes o embate de dois ciclones, vistes as consequências do descalabro ecológico em que vivemos. Muitos abraçaram já o imperioso desafio de proteger a nossa Casa, contando-se entre eles tantos jovens. Temos um desafio: proteger a nossa Casa Comum.

Permiti que vos comunique uma última reflexão: Deus ama-vos e, com esta afirmação, estamos de acordo todas as tradições religiosas. «Para Ele, és realmente valioso; tu não és insignificante. Importa-Se contigo, porque és obra das suas mãos. (…) Porque te ama. Procura ficar um momento em silêncio, deixando-te amar por Ele. Procura calar todas as vozes e alarido interior, e para um momento nos seus braços amorosos» (Ibid., 115). Façamo-lo juntos agora [permanecem uns momentos em silêncio].

«É o amor do Senhor, que se entende mais de levantamentos que de quedas, mais de reconciliação que de proibições, mais de dar nova oportunidade que de condenar, mais de futuro que de passado» (Ibid., 116).

Eu sei que vós acreditais neste amor que torna possível a reconciliação.

Muito obrigado e, por favor, não vos esqueçais de rezar por mim.

Que Deus vos abençoe.

Encontro com os Bispos, Sacerdotes, Religiosos e Religiosas, Consagrados e Seminaristas, Catequistas e Animadores

Amados irmãos Cardeais,
Irmãos Bispos,
Queridos sacerdotes, religiosas, religiosos e seminaristas,
Prezados catequistas e animadores de comunidades cristãs,
Caros irmãos e irmãs, boa tarde!

Agradeço a saudação de boas-vindas de Dom Hilário em nome de todos vós. Com afeto e grande reconhecimento, vos saúdo a todos. Sei que fizestes um grande esforço para estar aqui. Juntos, queremos renovar a resposta à chamada que uma vez fez arder os nossos corações e que a Santa Mãe Igreja nos ajudou a discernir e confirmar com a missão. Obrigado pelos vossos testemunhos, que falam das horas difíceis e sérios desafios que viveis, reconhecendo limitações e debilidades; mas também admirando a misericórdia de Deus. Fiquei contente ao ouvir dizer, da boca duma catequista: «Somos uma Igreja inserida num povo heroico». Obrigado! Um povo, que se entende de sofrimentos, mas mantém viva a esperança. Com este são orgulho pelo vosso povo, que convida a renovar a fé e a esperança, queremos renovar o nosso sim hoje. Como fica feliz a Santa Mãe Igreja ao ouvir-vos manifestar o amor ao Senhor e à missão que vos deu! Como ela fica contente ao ver o vosso desejo de voltar sempre ao «primitivo amor» (Ap 2, 4)! Peço ao Espírito Santo que vos dê sempre a lucidez de chamar a realidade pelo seu nome, a coragem de pedir perdão e a capacidade de aprender a ouvir o que Ele nos quer dizer.

Queridos irmãos e irmãs, gostemos ou não, somos chamados a encarar a realidade como ela é. Os tempos mudam e devemos reconhecer que muitas vezes não sabemos como inserir-nos nos novos tempos, nos novos cenários; podemos sonhar com as «cebolas do Egito» (Nm 11, 5), esquecendo que a Terra Prometida está à frente, não atrás, e neste lamento pelos tempos passados, vamo-nos petrificando, vamo-nos «mumificando». E não é bom! Um bispo, um sacerdote, uma irmã, um catequista mumificados não está bem! Em vez de professar uma Boa Nova, o que anunciamos é algo cinzento que não atrai nem inflama o coração de ninguém. Esta é a tentação.

Encontramo-nos nesta catedral, dedicada à Imaculada Conceição da Virgem Maria, para compartilhar como família aquilo que nos acontece; como família, que nasceu naquele sim que Maria deu ao anjo. Ela, nem por um momento olhou para trás. Quem narra estes acontecimentos do início do mistério da Encarnação é o evangelista Lucas. No seu modo de o fazer, talvez possamos descobrir resposta para as perguntas que fizestes hoje – bispos, sacerdotes, irmãs, catequistas… Faltaram as dos seminaristas! [riem] – e encontrar também o estímulo necessário para responder com a mesma generosidade e solicitude de Maria.

São Lucas apresenta em paralelo os acontecimentos relacionados com São João Batista e com Jesus Cristo; pretende que, no contraste, descubramos aquilo que se vai apagando do modo de ser de Deus e do nosso relacionar-nos com Ele no Antigo Testamento, e o novo modo que nos traz o Filho de Deus feito homem. Um modo no Antigo Testamento, que se apaga, e outro modo novo que traz Jesus.

É evidente que, nas duas Anunciações – a de João Batista e a de Jesus –, há um anjo. Entretanto, numa, a aparição dá-se na Judeia, na mais importante das cidades – Jerusalém – e não acontece num lugar qualquer, mas no templo e, dentro dele, no Santo dos Santos; dirige-se a um varão e… sacerdote. Ao passo que o anúncio da Encarnação é feito na Galileia, a mais remota e conflituosa das regiões, numa pequena aldeia – Nazaré –, numa casa e não na sinagoga ou lugar religioso, feito a uma leiga e... mulher. Não a um sacerdote, nem a um homem. O contraste é grande. Que mudou? Tudo. Tudo mudou. E, nesta mudança, está a nossa identidade mais profunda.

Perguntáveis que fazer com a crise de identidade sacerdotal, como lutar contra ela? A propósito, o que vou dizer relativamente aos sacerdotes é algo que todos (bispos, catequistas, consagrados, seminaristas) somos chamados a cultivar e fomentar. Di-lo-ei para todos.

Perante a crise de identidade sacerdotal, talvez tenhamos que sair dos lugares importantes e solenes; temos de voltar aos lugares onde fomos chamados, onde era evidente que a iniciativa e o poder eram de Deus. Nenhum de nós foi chamado para um lugar importante, nenhum. Às vezes sem querer, sem culpa moral, habituamo-nos a identificar a nossa atividade quotidiana de sacerdotes, religiosos, consagrados, leigos, catequistas com certos ritos, com reuniões e colóquios, onde o lugar que ocupamos na reunião, na mesa ou na aula é de hierarquia; parecemo-nos mais com Zacarias do que com Maria. «Creio não exagerar se dissermos que o sacerdote é uma pessoa muito pequena: a grandeza incomensurável do dom que nos é dado para o ministério relega-nos entre os menores dos homens. O sacerdote é o mais pobre dos homens – é verdade, o sacerdote é o mais pobre dos homens –, se Jesus não o enriquece com a sua pobreza; é o servo mais inútil, se Jesus não o trata como amigo; é o mais louco dos homens, se Jesus não o instrui pacientemente como fez com Pedro; o mais indefeso dos cristãos, se o Bom Pastor não o fortifica no meio do rebanho. [A fraqueza do sacerdote, do consagrado, do catequista…]. Não há ninguém menor que um sacerdote deixado meramente às suas forças; por isso, a nossa oração de defesa contra toda a cilada do Maligno é a oração da nossa Mãe: sou sacerdote, porque Ele olhou com bondade para a minha pequenez (cf. Lc 1, 48)» (Francisco, Homilia na Missa Crismal, 17 de abril de 2014). Irmãos e irmãs, voltar a Nazaré, voltar à Galileia pode ser o caminho para enfrentar a crise de identidade. Depois da sua ressurreição, Jesus convida-nos a voltar à Galileia, para O encontrar. Voltar a Nazaré, à primeira chamada, voltar à Galileia para solucionar a crise de identidade, para nos renovarmos como pastores-discípulos-missionários. Vós próprios faláveis de certo exagero na preocupação de gerar recursos para o bem-estar pessoal, por «caminhos tortuosos» que muitas vezes acabam por privilegiar atividades com uma retribuição garantida e criam resistências a dedicar a vida ao pastoreio diário. A imagem desta donzela simples na sua casa, em contraste com toda a estrutura do templo e de Jerusalém, pode ser o espelho onde vejamos as nossas complicações, as nossas preocupações que obscurecem e rarefazem a generosidade do nosso sim.

As dúvidas e a necessidade de explicações de Zacarias destoam com o sim de Maria que solicita apenas saber como se há de verificar tudo o que lhe vai acontecer. Zacarias não pode superar a preocupação de controlar tudo, não pode deixar a lógica de ser e sentir-se responsável e autor do que irá acontecer. Maria não duvida, não olha para Si mesma: entrega-Se, confia. É esgotante viver o vínculo com Deus como faz Zacarias, como um doutor da Lei: sempre cumprindo, sempre julgando que o salário é proporcional ao esforço feito, que é mérito meu se Deus me abençoa, que a Igreja tem o dever de reconhecer as minhas virtudes e esforços. É extenuante, é esgotante viver o vínculo com Deus como faz Zacarias. Não podemos correr atrás daquilo que redunda em benefícios pessoais; os nossos cansaços devem estar mais relacionados com a nossa capacidade de compaixão. Tenho capacidade de compaixão? São compromissos nos quais o nosso coração estremece e se comove? Irmãos e irmãs, a Igreja pede capacidade de compaixão. Capacidade de compaixão: «alegramo-nos com os noivos que vão casar – a vida pastoral –; rimos com a criança que trazem para batizar; acompanhamos os jovens que se preparam para o matrimónio e para ser família; entristecemo-nos com quem recebe a extrema-unção no leito do hospital; choramos com os que enterram uma pessoa querida» (Francisco, Homilia na Missa Crismal, 2 de abril de 2015). Consagramos horas e dias a acompanhar aquela mãe com SIDA, aquele menino que ficou órfão, aquela avó encarregada de tantos netos ou aquele jovem que veio para a cidade e está desesperado porque não encontra trabalho... «Tantas emoções! Se tivermos o coração aberto, estas emoções e tanto carinho cansam o coração do pastor. Para nós, sacerdotes, as histórias do nosso povo não são um noticiário: conhecemos a nossa gente, podemos adivinhar o que se passa no seu coração; e o nosso, sofrendo com eles, vai-se desgastando, divide-se em mil pedaços, compadece-se e parece até ser comido pelas pessoas: “tomai, comei”. Esta é a palavra que o sacerdote de Jesus sussurra sem cessar, quando está a cuidar do seu povo fiel: “tomai e comei, tomai e bebei...” E, assim, a nossa vida sacerdotal se vai doando no serviço, na proximidade ao povo fiel de Deus, etc., o que sempre, sempre cansa» (Ibid., 2 de abril de 2015). Irmãos e irmãs, a proximidade cansa. Cansa sempre a proximidade ao santo povo de Deus. A proximidade cansa. É belo encontrar um sacerdote, uma irmã, um catequista…. cansados por causa da proximidade. Renovar a chamada passa, muitas vezes, por verificar se os nossos cansaços e preocupações têm a ver com um certo «mundanismo espiritual» ditado «pelo fascínio de mil e uma propostas de consumo a que não conseguimos renunciar para caminhar, livres, pelas sendas que nos conduzem ao amor dos nossos irmãos, ao rebanho do Senhor, às ovelhas que aguardam pela voz dos seus pastores» (Francisco, Homilia na Missa Crismal, 24 de março de 2016). Renovar a chamada, a nossa chamada, passa por optar, dizer sim e cansar-nos com aquilo que é fecundo aos olhos de Deus, que torna presente, encarna o seu Filho Jesus. Oxalá encontremos, neste saudável cansaço, a fonte da nossa identidade e felicidade! A proximidade cansa, e este cansaço é santidade.

Oxalá os nossos jovens descubram em nós que nos deixamos «tomar e comer», e seja isso mesmo o que os leva a interrogar-se sobre o seguimento de Jesus e que eles, deslumbrados com a alegria duma entrega diária não imposta mas maturada e escolhida no silêncio e na oração, queiram dar o seu sim. Tu que ainda te interrogas ou tu que já estás a caminho duma consagração definitiva dar-te-ás conta de que «a ansiedade e a velocidade de tantos estímulos que nos bombardeiam fazem com que não haja lugar para aquele silêncio interior onde se percebe o olhar de Jesus e se ouve a sua chamada. Entretanto receberás muitas propostas bem confecionadas, que parecem belas e intensas, mas com o passar do tempo, deixar-te-ão simplesmente vazio, cansado e sozinho. Não deixes que isto te aconteça, porque o turbilhão deste mundo arrasta-te numa corrida sem sentido, sem orientação, nem objetivos claros, e deste modo se malograrão muitos dos teus esforços. Procura, antes, aqueles espaços de calma e silêncio que te permitam refletir, rezar, ver melhor o mundo ao teu redor e então sim, juntamente com Jesus, poderás reconhecer qual é a tua vocação nesta terra» (Francisco, Exort. ap. pós-sinodal Christus vivit, 277).

Aquele jogo de contrastes – a encarnação em Nazaré e a anunciação a Zacarias no Templo – que nos apresenta o evangelista Lucas, culmina no encontro das duas mulheres: Isabel e Maria. A Virgem visita a sua prima idosa e tudo é festa, dança e louvor. Há uma parte de Israel que entendeu a mudança profunda e vertiginosa do projeto de Deus: por isso aceita ser visitada, por isso o menino salta no ventre. Por um momento, numa sociedade patriarcal, o mundo dos homens retrai-se, emudece como Zacarias. Hoje também nos falou uma catequista, uma irmã, uma mulher moçambicana que nos recordou que nada vos fará perder o entusiasmo de evangelizar, de cumprir o vosso compromisso batismal. A vossa vocação é evangelizar; a vocação da Igreja é evangelizar; a identidade da Igreja é evangelizar. Não é fazer proselitismo! O proselitismo não é evangelização. O proselitismo não é cristão. A nossa vocação é evangelizar. A identidade da Igreja é evangelizar. E esta nossa irmã representa todos os que saem ao encontro dos seus irmãos: tanto os que visitam como Maria, como os que, deixando-se visitar, aceitam de bom grado que o outro os transforme compartilhando a sua cultura, os seus modos de viver a fé e de a exprimir.

A inquietação por ti expressa mostra-nos que a inculturação será sempre um desafio, como a «viagem» entre estas duas mulheres que ficarão mutuamente transformadas pelo encontro e o serviço. «As Igrejas particulares hão de promover ativamente formas, pelo menos incipientes, de inculturação. Enfim, o que se deve procurar é que a pregação do Evangelho, expressa com categorias próprias da cultura onde é anunciado, provoque uma nova síntese com essa cultura. Embora estes processos sejam sempre lentos, às vezes o medo paralisa-nos demasiado» (Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium, 129). O medo paralisa.

A «distância» entre Nazaré e Jerusalém é encurtada, torna-se inexistente por aquele sim de Maria. Porque as distâncias, os regionalismos e os partidarismos, a construção constante de muros, minam a dinâmica da encarnação, que derrubou o muro que nos separava (cf. Ef 2, 14). Vós – pelo menos os mais velhos –, que fostes testemunhas de divisões e rancores que acabaram em guerras, tendes de estar sempre dispostos a «visitar-vos», a encurtar as distâncias. A Igreja de Moçambique é convidada a ser a Igreja da Visitação; não pode ser parte do problema das competências, menosprezos e divisões de uns contra os outros, mas porta de solução, espaço onde sejam possíveis o respeito, o intercâmbio e o diálogo. A pergunta formulada sobre o modo de comportar-se perante um matrimónio inter-religioso desafia-nos quanto a esta tendência persistente que temos para a fragmentação, para separar em vez de unir. E o mesmo se passa com o vínculo entre nacionalidades, entre raças, entre os do norte e os do sul, entre comunidades, sacerdotes e bispos. É desafio porque, até se desenvolver «uma cultura do encontro numa harmonia pluriforme», requer-se «um processo constante no qual cada nova geração está envolvida. É um trabalho lento, é um trabalho árduo que exige querer integrar-se e aprender a fazê-lo». É o requisito necessário para a «construção de um povo em paz, justiça e fraternidade», para «o desenvolvimento da convivência social e a construção de um povo onde as diferenças se harmonizam dentro de um projeto comum» (Ibid., 220.221). Tal como Maria caminhou para casa de Isabel, assim também nós da Igreja temos que aprender o caminho frente a novas problemáticas, procurando não ficar paralisados por uma lógica que contrapõe, divide, condena. Ponde-vos a caminho e buscai uma resposta para estes desafios pedindo a assistência segura do Espírito Santo. É Ele o Mestre capaz de mostrar os novos caminhos a percorrer.

Reavivemos, pois, a nossa chamada vocacional, façamo-lo sob este magnífico templo dedicado a Maria e que o nosso sim comprometido proclame as grandezas do Senhor e alegre o espírito do nosso povo em Deus nosso Salvador (cf. Lc 1, 46-47). E encha de esperança, paz e reconciliação o vosso país, o nosso querido Moçambique.

Peço-vos, por favor, que rezeis e façais rezar por mim.

Que o Senhor vos abençoe e a Virgem Santíssima vele por vós.

Obrigado!


6 de setembro

Visita ao Hospital de Zimpeto

Queridos irmãos e irmãs!

Muito obrigado pelo acolhimento caloroso e fraterno e também pelas palavras de Cacilda. Obrigado pela tua vida e testemunho, expressão de que este Centro de saúde polivalente – Santo Egídio de Zimpeto – é manifestação do amor de Deus, sempre pronto a insuflar vida e esperança onde abundam a morte e o sofrimento.

Saúdo cordialmente os responsáveis, os operadores sanitários, os enfermos com seus familiares, e todos os presentes. Vendo como tratais e acolheis com competência, profissionalismo e amor tantas pessoas doentes, particularmente pacientes com SIDA/HIV sobretudo mulheres e crianças, acode-me ao pensamento a parábola do Bom Samaritano.

Todos os que passaram por aqui, todos os que vêm com desespero e angústia são como aquele homem abandonado na beira da estrada. E, aqui, vós não passastes ao largo, não continuastes pelo vosso caminho como fizeram outros (o levita e o sacerdote). Este Centro mostra-nos que houve quem parou e sentiu compaixão, quem não cedeu à tentação de dizer «não há nada a fazer», «é impossível combater esta praga» e se animou a buscar soluções. Vós, como disse Cacilda, ouvistes aquele grito silencioso, quase inaudível, de inúmeras mulheres, de tantos que viviam envergonhados, marginalizados, julgados por todos. Por isso alargastes esta casa – onde o Senhor vive com aqueles que estão na berma da estrada – aos doentes de cancro, tuberculose e a centenas de desnutridos, sobretudo crianças e jovens.

Assim todas as pessoas que, de várias formas, fazem parte desta comunidade sanitária tornam-se expressão do Coração de Jesus, para que ninguém pense «que o seu clamor caíra em saco roto. (…) [São] um sinal de solidariedade para quantos passam necessidade a fim de sentirem a presença ativa dum irmão ou duma irmã. Não é de um ato de delegação que os pobres precisam, mas do envolvimento pessoal de quantos escutam o seu brado. A solicitude dos crentes não pode limitar-se a uma forma de assistência – embora necessária e providencial num primeiro momento –, mas requer aquela atenção amiga que aprecia o outro como pessoa e procura o seu bem» (Francisco, Mensagem para o II Dia Mundial dos Pobres, 18 de novembro de 2018, n. 3). Ouvir este clamor levou-vos a perceber que não era suficiente um tratamento médico, embora necessário; por isso, vos debruçastes sobre a problemática em toda a sua integridade para devolver a dignidade às mulheres e crianças, ajudando-as a projetar um futuro melhor.

Neste campo imenso, que se vos foi abrindo graças ao contínuo «escutar», também experimentastes a vossa limitação, a carência de meios de todos os tipos. O programa, que implementastes e vos conectou com outros lugares do mundo, é um exemplo de humildade, por terdes reconhecido os vossos limites, e de criatividade para trabalhar em rede. O empenho gratuito e voluntário de tantas pessoas de diversas profissões, que têm prestado a sua valiosa colaboração para formar operadores locais, encerra em si mesmo um enorme valor humano e evangélico.

Entretanto é maravilhoso constatar como esta escuta dos mais frágeis dos pobres, os enfermos, nos põe em contacto com outra parte do mundo frágil: penso nos «sintomas de doença que notamos no solo, na água, no ar e nos seres vivos. Por isso, entre os pobres mais abandonados e maltratados, conta-se a nossa terra oprimida e devastada, que “geme e sofre as dores do parto” (Rm 8, 22)» (Francisco, Carta enc. Laudato si', 2). Como ensinam as esculturas de arte makonde, as ujamaa com várias figuras agarradas umas às outras onde prevalece a união e a solidariedade sobre o indivíduo, devemos dar-nos conta de que somos, todos, parte dum mesmo tronco. Vós fostes capazes de perceber isso, e esta escuta levou-vos a procurar meios sustentáveis na busca de energia, bem como na recolha e reserva de água; as vossas opções de baixo impacto ambiental são um modelo virtuoso, um exemplo a seguir à vista da urgência imposta pela deterioração do planeta.

O texto do Bom Samaritano conclui deixando o ferido na «estalagem», entregando ao estalajadeiro parte do pagamento e prometendo-lhe o resto quando voltar. Mulheres como Cacilda, as cerca de 100.000 crianças que podem escrever uma nova página da história livres do HIV/SIDA, e muitas outras pessoas anónimas que hoje sorriem, porque foram curadas com dignidade na sua dignidade, são parte do pagamento que o Senhor vos deixou: presenças-brinde que, saindo do pesadelo da doença, sem esconder a sua condição, transmitem esperança a muitas pessoas, com aquele «eu sonho» contagiam a tantos que precisam de ser recolhidos da berma da estrada. A outra parte ser-vos-á retribuída pelo Senhor «quando Ele voltar», e isto deve encher-vos de alegria: quando nós formos embora, quando voltardes às tarefas diárias, quando ninguém vos aplaudir nem exaltar, continuai a receber aqueles que chegam, saí à procura dos feridos e derrotados nas periferias... Não esqueçamos que os seus nomes, escritos no céu, têm junto deles uma inscrição: estes são os benditos de meu Pai. Renovai esforços, permitindo que aqui se continue a «dar à luz» a esperança. Aqui dá-se à luz a esperança.

Que Deus vos abençoe, queridos doentes e familiares, e a quantos vos assistem com tanto carinho e vos encorajam a continuar. Que Deus vos abençoe.

Santa Missa no Estádio de Zimpeto

Amados irmãos e irmãs!

Ouvimos no Evangelho de Lucas uma passagem do Sermão da Planície. Depois de escolher os seus discípulos e ter proclamado as Bem-aventuranças, Jesus acrescenta: «Digo-vos a vós que Me escutais: “Amai os vossos inimigos”» (Lc 6, 27). Uma palavra dirigida hoje também a nós, que O escutamos neste Estádio.

Di-lo com clareza, simplicidade e firmeza traçando uma senda, um caminho estreito que requer algumas virtudes. Porque Jesus não é um idealista, que ignora a realidade; está a falar do inimigo concreto, do inimigo real, que descrevera na Bem-aventurança anterior (6, 22): aquele que nos odeia, expulsa, insulta e rejeita como infame.

Muitos de vós podem ainda contar, em primeira pessoa, histórias de violência, ódio e discórdias; alguns, em sua própria carne; outros, de alguém conhecido que já cá não está; e outros ainda pelo temor de que feridas do passado se repitam e tentem apagar o caminho de paz já percorrido, como em Cabo Delgado.

Jesus não nos convida a um amor abstrato, etéreo ou teórico, redigido em escrivaninhas para discursos. O caminho que nos propõe é o que Ele percorreu primeiro, o caminho que O fez amar aqueles que O traíram, julgaram injustamente, aqueles que O matariam.

É difícil falar de reconciliação, quando ainda estão vivas as feridas causadas durante tantos anos de discórdia, ou convidar a dar um passo de perdão que não signifique ignorar o sofrimento nem pedir que se cancele a memória ou os ideais (cf. Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium, 100). Mesmo assim, Jesus convida a amar e a fazer o bem. E isto é muito mais do que ignorar a pessoa que nos prejudicou ou esforçar-se por que não se cruzem as nossas vidas: é um mandato que visa uma benevolência ativa, desinteressada e extraordinária para com aqueles que nos feriram. Mas Jesus não fica por aí; pede-nos também que os abençoemos e rezemos por eles; isto é, que o nosso falar deles seja um bendizer, gerador de vida e não de morte, que pronunciemos os seus nomes não para insulto ou vingança, mas para inaugurar um novo vínculo que leve à paz. Alta é a medida que o Mestre nos propõe!

Com tal convite, Jesus quer encerrar para sempre a prática tão usual – ontem como hoje – de ser cristão e viver sob a lei de talião. Não se pode pensar o futuro, construir uma nação, uma sociedade sustentada na «equidade» da violência. Não posso seguir Jesus, se a ordem que promovo e vivo é «olho por olho, dente por dente».

Nenhuma família, nenhum grupo de vizinhos ou uma etnia e menos ainda um país tem futuro, se o motor que os une, congrega e cobre as diferenças é a vingança e o ódio. Não podemos pôr-nos de acordo e unir-nos para nos vingarmos, para fazermos àquele que foi violento o mesmo que ele nos fez, para planearmos ocasiões de retaliação sob formatos aparentemente legais. «As armas e a repressão violenta, mais do que dar solução, criam novos e piores conflitos» (Ibid., 60). A «equidade» da violência é sempre uma espiral sem saída; e o seu custo, muito alto. Há outro caminho possível, porque é crucial não esquecer que os nossos povos têm direito à paz. Vós tendes direito à paz.

Para tornar o seu convite mais concreto e aplicável no dia-a-dia, Jesus propõe uma primeira regra de ouro ao alcance de todos – «como quereis que os outros vos façam, fazei-lho vós também» (Lc 6, 31) – e ajuda-nos a descobrir o que é mais importante nesta reciprocidade de trato: amar-nos, ajudar-nos e emprestar sem esperar nada em troca.

«Amar-nos»: diz-nos Jesus. E Paulo traduz isso como «revestir-nos de sentimentos de misericórdia e de bondade» (Col 3, 12). O mundo desconhecia – e continua sem conhecer – a virtude da misericórdia, da compaixão, matando ou abandonando deficientes e idosos, eliminando feridos e enfermos, ou divertindo-se com os sofrimentos dos animais. Também não praticava a bondade, a amabilidade, que nos move a considerar o bem do próximo tão querido como o próprio.

Superar os tempos de divisão e violência supõe não só um ato de reconciliação ou a paz entendida como ausência de conflito, implica também o compromisso diário de cada um de nós ter um olhar atento e ativo que nos leva a tratar os outros com aquela misericórdia e bondade com que queremos ser tratados; misericórdia e bondade sobretudo com aqueles que, pela sua condição, rapidamente acabam rejeitados e excluídos. Trata-se de uma atitude, não de débeis, mas de fortes, uma atitude de homens e mulheres que descobrem que não é necessário maltratar, denegrir ou esmagar para se sentirem importantes; antes pelo contrário... E esta atitude é a força profética que o próprio Jesus Cristo nos ensinou ao querer identificar-Se com eles (cf. Mt 25, 35-45) e ao mostrar-nos que o serviço é o caminho.

Moçambique possui um território cheio de riquezas naturais e culturais, mas paradoxalmente com uma quantidade enorme da sua população abaixo do nível de pobreza. E por vezes parece que aqueles que se aproximam com o suposto desejo de ajudar, têm outros interesses. E é triste quando isto se verifica entre irmãos da mesma terra, que se deixam corromper; é muito perigoso aceitar que a corrupção seja o preço que temos de pagar pela ajuda externa.

«Não seja assim entre vós» (Mt 20, 26; cf. vv. 26-28). Com as suas palavras, Jesus impele-nos a ser protagonistas de outro trato: o do seu Reino. Aqui e agora, sementes de alegria e esperança, paz e reconciliação. O que o Espírito vem impelir não é um ativismo transbordante, mas, antes de tudo, uma atenção prestada ao outro, reconhecendo-o e valorizando-o como irmão até sentir a sua vida e a sua dor como a nossa vida e a nossa dor. Este é o melhor termómetro para descobrir as ideologias de todo e qualquer tipo que tentam manipular os pobres e as situações de injustiça ao serviço de interesses políticos ou pessoais (cf. Evangelii gaudium, 199). Só assim poderemos ser, no lugar onde nos encontrarmos, sementes e instrumentos de paz e reconciliação.

Queremos que reine a paz nos nossos corações e no palpitar do nosso povo. Queremos um futuro de paz. Queremos que «reine em vossos corações a paz de Cristo» (Col 3, 15), como justamente dizia a carta de São Paulo. Ele usa um verbo que vem do mundo do desporto e faz referência ao árbitro que decide as coisas discutíveis: «que a paz de Cristo seja o árbitro em vossos corações». Se a paz de Cristo é o árbitro nos nossos corações, então quando os sentimentos estão em conflito e nos achamos indecisos entre dois sentidos opostos, «façamos o jogo» de Cristo. A decisão de Cristo manter-nos-á no caminho do amor, na senda da misericórdia, na opção pelos mais pobres, na salvaguarda da natureza. No caminho da paz. Se Jesus for o árbitro entre as emoções em conflito do nosso coração, entre as decisões complexas do nosso país, então Moçambique tem garantido um futuro de esperança; então o vosso país cantará «a Deus, com gratidão e de todo o coração, salmos, hinos e cânticos inspirados» (Col 3, 16).

***

Agradecimento do Santo Padre no final da Santa Missa

No termo desta minha visita, quero dizer «obrigado» a todas as pessoas e entidades que colaboraram para a sua realização; a começar por esta arquidiocese de Maputo e seu Pastor, Dom Francisco Chimoio, a quem agradeço a fraterna hospitalidade e também a venturosa saudação que acaba de me dirigir, em nome dos irmãos bispos e de todo o povo de Deus. Uma palavra de particular gratidão vai para o senhor Presidente Filipe Nyusi pelo trato rico de atenções que recebi, tanto a nível pessoal como através das várias instituições governamentais e das forças de segurança da nação. Agradeço o trabalho sacrificado e silencioso dos membros da comissão organizadora e de tantos voluntários. O meu reconhecimento aos jornalistas e a todo este bom povo que saiu de casa para me saudar.

Irmãs e irmãos, sei do sacrifício que tivestes de fazer para participar nas celebrações e encontros e sei também que se molharam todos – espero – com água abençoada. Aprecio-o e agradeço-o de coração. E agradeço também a quantos não o puderam fazer, em consequência dos recentes ciclones: Queridos irmãos, senti de igual modo o vosso apoio! E digo a todos: tendes tantos motivos para esperar! Vi-o, toquei-o com a mão nestes dias. Por favor, guardai a esperança; não deixeis que vo-la roubem. E não há melhor maneira de guardar a esperança do que permanecer unidos, para que todos aqueles motivos que a sustentam se consolidem sempre mais num futuro de reconciliação e de paz em Moçambique. Assim Deus vos abençoe e a Virgem Mãe vos proteja! E, por favor, não vos esqueçais de rezar por mim. Obrigado.


7 de setembro

Encontro com as Autoridades, a Sociedade Civil e o Corpo Diplomático no Ceremony Building

Senhor Presidente,
Senhor Primeiro-Ministro,
Ilustres membros do Governo e do Corpo Diplomático,
Distintas Autoridades,
Representantes das Confissões religiosas e da sociedade civil,
Senhoras e Senhores!

Saúdo cordialmente o Presidente da República de Madagáscar e agradeço-lhe o amável convite para visitar este país, bem como as palavras de boas-vindas que me dirigiu. O Senhor Presidente, falou com paixão, falou com amor pelo Seu povo. Agradeço-Lhe pelo Seu testemunho de patriota. Saúdo também o Primeiro-Ministro, os membros do governo, do corpo diplomático e os representantes da sociedade civil. Dirijo uma saudação fraterna aos bispos, aos membros da Igreja Católica, aos representantes de outras confissões cristãs e de várias religiões. Agradeço a todas as pessoas e instituições que tornaram possível esta viagem e, de modo particular, ao povo malgaxe que nos acolhe com grande hospitalidade.

No preâmbulo da Constituição da vossa República, quisestes consignar um dos valores fundamentais da cultura malgaxe: o fihavanana, termo que evoca o espírito de partilha, ajuda mútua e solidariedade; mas inclui também a importância dos laços familiares, da amizade e da benevolência entre os homens e para com a natureza. Revelam-se, assim, a «alma» do vosso povo e os traços peculiares que o caraterizam, constituem e lhe permitem resistir, corajosa e abnegadamente, às múltiplas contrariedades e dificuldades que tem de enfrentar diariamente. Se devemos reconhecer, valorizar e apreciar esta terra abençoada pela sua beleza e inestimável riqueza natural, não é menos importante fazê-lo também pela «alma» que vos dá a força de permanecer empenhados com a aina (isto é, com a vida), como bem lembrou o padre António de Pádua Rahajarizafy SJ.

Depois que recuperou a independência, a vossa nação aspira à estabilidade e à paz, implementando uma alternância democrática positiva que testemunha respeito pela complementaridade dos estilos e projetos. Isto demonstra que «a política é um meio fundamental para construir a cidadania e as obras do homem» (Francisco, Mensagem para o LII Dia Mundial da Paz, 1 de janeiro de 2019), quando é vivida como serviço à coletividade humana. Por isso, é claro que a função e a responsabilidade política constituem um desafio permanente para quantos têm a missão de servir e proteger os seus compatriotas, especialmente os mais vulneráveis, e de promover as condições para um desenvolvimento digno e justo, envolvendo todos os atores da sociedade civil. Porque, como lembrava São Paulo VI, o desenvolvimento de uma nação «não se reduz a um simples crescimento económico. Para ser autêntico, deve ser integral, quer dizer, promover todos os homens e o homem todo» (Carta enc. Populorum progressio, 14).

Nesta perspetiva, encorajo-vos a lutar, vigorosa e decididamente, contra todas as formas endémicas de corrupção e especulação, que aumentam a disparidade social, e a enfrentar as situações de grande precariedade e exclusão que geram sempre condições de pobreza desumana. Daí a necessidade de estabelecer todas as mediações estruturais que possam garantir uma melhor distribuição do rendimento e a promoção integral de todos os habitantes, especialmente dos mais pobres. Tal promoção não se pode limitar a uma mera assistência, mas requer o seu reconhecimento como sujeitos jurídicos chamados a participar plenamente na construção do seu futuro (cf. Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium, 204-205).

Além disso, sabemos que não se pode falar de desenvolvimento integral sem prestar atenção e cuidar da nossa Casa Comum. Não se trata apenas de encontrar os instrumentos para preservar os recursos naturais, mas de procurar «soluções integrais que considerem as interações dos sistemas naturais entre si e com os sistemas sociais. [Porque] não há duas crises separadas: uma ambiental e outra social; mas uma única e complexa crise socio-ambiental» (Francisco, Carta enc. Laudato si’, 139).

A vossa bela ilha de Madagáscar é rica de biodiversidade vegetal e animal, e esta riqueza está particularmente ameaçada pelo excessivo desflorestamento em proveito de poucos; a sua degradação compromete o futuro do país e da nossa Casa Comum. Como sabeis, as florestas ainda existentes estão ameaçadas pelos incêndios, a caça furtiva, o corte desenfreado de madeiras preciosas. A biodiversidade vegetal e animal corre perigo por causa do contrabando e das exportações ilegais. É verdade que muitas destas atividades que prejudicam o meio ambiente são as que asseguram, provisoriamente, a sobrevivência das populações envolvidas. Por isso, é importante criar ocupações e atividades geradoras de rendimento que respeitem o meio ambiente e ajudem as pessoas a sair da pobreza. Por outras palavras, não pode haver verdadeira abordagem ecológica nem uma ação concreta de salvaguarda do meio ambiente sem uma justiça social que garanta o direito ao destino comum dos bens da terra às gerações atuais, mas também às futuras.

Todos nos devemos comprometer neste caminho, incluindo a comunidade internacional. Muitos dos seus representantes estão hoje aqui presentes. Ocorre reconhecer que a ajuda prestada por estas organizações internacionais ao desenvolvimento do país é grande e atesta a abertura de Madagáscar ao mundo. O risco é que esta abertura se torne uma suposta «cultura universal» que despreza, enterra e suprime o património cultural de cada povo. A globalização económica, cujas limitações são cada vez mais evidentes, não deveria conduzir a uma uniformização cultural. Se tomarmos parte num processo em que se respeita as prioridades e os estilos de vida autóctones e são honradas as expetativas dos cidadãos, havemos de proceder de modo que a ajuda fornecida pela comunidade internacional não seja a única garantia do desenvolvimento do país; há de ser o próprio povo que assumirá progressivamente o seu controle, tornando-se artífice do seu próprio destino.

Por isso mesmo, devemos prestar uma particular atenção e respeito à sociedade civil local, ao povo local. Ao apoiar as suas iniciativas e ações, a voz de quem a não tem tornar-se-á mais audível, bem como as várias harmonias, mesmo contrastantes, duma comunidade nacional que procura a sua unidade. Convido-vos a imaginar este percurso, onde ninguém seja deixado de lado, caminhe sozinho ou se perca.

Como Igreja, queremos imitar a atitude de diálogo da vossa compatriota, a Beata Vitória Rasoamanarivo, beatificada por São João Paulo II na visita que vos fez há trinta anos. O testemunho de amor dela pela sua terra e as suas tradições, o serviço aos mais pobres como sinal da sua fé em Jesus Cristo mostram-nos o caminho que também nós somos chamados a percorrer.

Senhor Presidente, senhoras e senhores! Desejo reafirmar a vontade e disponibilidade da Igreja Católica em Madagáscar para, num diálogo permanente com os cristãos das outras confissões, com os membros das diferentes religiões e com todos os atores da sociedade civil, contribuir para o advento duma verdadeira fraternidade que valorize sem cessar o fihavanana, promovendo o desenvolvimento humano integral de modo que ninguém fique excluído.

Com esta esperança, peço a Deus que abençoe Madagáscar e aqueles que aqui vivem, que mantenha pacífica e acolhedora a vossa linda ilha e a torne próspera e feliz. Obrigado

Encontro com as religiosas contemplativas, Mosteiro das Carmelitas Descalças

Dileta Madre Madalena da Anunciação,
Irmãs muito amadas!

Agradeço-vos a receção calorosa e as palavras da Madre que dão voz a todas as monjas contemplativas dos diferentes mosteiros deste país. Obrigado a todas e cada uma de vós, queridas Irmãs, por terdes deixado brevemente a clausura para manifestar a vossa comunhão comigo e com a vida e a missão de toda a Igreja, especialmente a de Madagáscar.

Agradeço a vossa presença, a vossa fidelidade, o testemunho luminoso de Jesus Cristo que ofereceis à comunidade. Neste país, há pobreza; é verdade, mas existe também tanta riqueza! É rico de belezas naturais, humanas e espirituais. Também vós, Irmãs, fazeis parte desta beleza de Madagáscar, do seu povo e da Igreja, pois é a beleza de Cristo que resplandece nos vossos rostos e nas vossas vidas. Graças a vós, a Igreja em Madagáscar é ainda mais bela aos olhos do Senhor e também aos olhos do mundo inteiro.

Os três salmos da Liturgia de hoje expressam a angústia do salmista num momento de provação e perigo. Permiti que me detenha no primeiro salmo, ou seja, numa secção do Salmo 119, o mais longo do Saltério, composto de oito versículos por cada letra do alfabeto hebraico. O autor é, sem dúvida, um homem de contemplação, alguém que sabe dedicar longos e maravilhosos momentos à oração. Na estrofe de hoje (Sal 119/118, 81-88), a palavra que aparece mais vezes e dá o tom ao conjunto é «suspirar», usada principalmente em dois sentidos.

O orante suspira pelo encontro com Deus. Vós sois o testemunho vivo deste anseio inextinguível que habita no coração de todos os homens. No meio das múltiplas ofertas que pretendem – mas não conseguem – satisfazer o coração, a vida contemplativa é a tocha que conduz ao único braseiro eterno, «a chama viva de amor que docemente fere» (São João da Cruz). Vós representais «visivelmente a meta para onde caminha a comunidade eclesial inteira, que avança pelas estradas do tempo com o olhar fixo na futura recapitulação de tudo em Cristo, preanunciando assim a glória celeste» (Francisco, Const. ap. Vultum Dei quaerere, 2).

Somos sempre tentados a satisfazer o anseio de eternidade com coisas efémeras. Estamos expostos aos mares revoltos que acabam apenas por afogar a vida e o espírito: «Como o marinheiro no mar alto precisa do farol que indique a rota para chegar ao porto, assim o mundo tem necessidade de vós. Sede faróis para os que estão perto e sobretudo para os afastados. Sede tochas que acompanham o caminho dos homens e mulheres na noite escura do tempo. Sede sentinelas da manhã (cf. Is 21, 11-12) que anunciam o nascer do sol (cf. Lc 1, 78). Com a vossa vida transfigurada e com palavras simples ruminadas no silêncio, indicai-nos Aquele que é caminho, verdade e vida (cf. Jo 14, 6), o único Senhor que oferece plenitude à nossa existência e dá vida em abundância (cf. Jo 10, 10). Gritai-nos como André a Simão: “Encontramos o Messias” (cf. Jo 1, 40); anunciai, como Maria de Magdala na manhã da ressurreição: “Vi o Senhor!” (Jo 20, 18)» (Ibid., 6).

Mas o salmo fala de «suspirar» também noutro sentido e tem a ver com a intenção dos ímpios, daqueles que pretendem destruir o justo; perseguem-no, preparam-lhe ciladas e querem deitá-lo ao chão. Um mosteiro é sempre um espaço, onde chegam as dores do mundo, as da vossa gente. Sejam os vossos mosteiros – no respeito do vosso carisma contemplativo e das vossas constituições – lugares de guarida e escuta, especialmente para pessoas muito infelizes. Hoje acompanham-nos duas mães que perderam os seus filhos e representam todas as tribulações dos vossos irmãos insulares. Permanecei atentas ao clamor e às misérias dos homens e mulheres ao vosso redor, que vêm ter convosco consumidos pelo sofrimento, a exploração e o desânimo. Não sejais daquelas que escutam apenas para matar o tédio, satisfazer a curiosidade ou arranjar temas de conversa.

A este respeito, tendes uma missão fundamental a desempenhar. A clausura situa-vos no coração de Deus e, consequentemente, no lugar onde Ele colocou o seu coração. Escutais o coração do Senhor para O ouvir também nos vossos irmãos e irmãs. Com frequência, as pessoas ao vosso redor são muito pobres, frágeis, agredidas e feridas de mil maneiras; mas estão cheias de fé e, instintivamente, reconhecem em vós testemunhas da presença de Deus, preciosas referências para O encontrar e obter a sua ajuda. Para tanta tribulação que as consome interiormente, lhes rouba a alegria e a esperança, fá-las sentir-se estrangeiras, vós podeis ser um caminho para aquele rochedo de que fala outro Salmo: «Ó Deus, ouve o meu clamor, atende a minha oração. Dos confins da terra grito por Ti, com o meu coração desfalecido. Coloca-me sobre o rochedo que me é inacessível» (Sal 61/60, 2-3).

A fé é o maior bem dos pobres! É muito importante que esta fé seja anunciada e fortalecida neles, que os ajude realmente a viver e a esperar. E que a contemplação dos mistérios de Deus, manifestada na vossa Liturgia e nos vossos tempos de oração, vos permita descobrir melhor a sua presença ativa em cada realidade humana, mesmo a mais dolorosa, e dar graças porque, na contemplação, Deus vos oferece o dom da intercessão. Pela vossa oração, como mães carregais às costas os vossos filhos, levando-os para a Terra Prometida. «A oração será mais agradável a Deus e mais santificadora, se nela procurarmos, através da intercessão, viver o duplo mandamento que Jesus nos deixou. A intercessão expressa o compromisso fraterno com os outros, quando somos capazes de incorporar nela a vida deles, as suas angústias mais inquietantes e os seus melhores sonhos. A quem se entrega generosamente à intercessão, podem-se aplicar estas palavras bíblicas: “Eis o amigo dos seus irmãos, aquele que reza muito pelo povo” (2 Mac 15, 14)» (Francisco, Exort. ap. Gaudete et exsultate, 154).

Sem vós, queridas Irmãs contemplativas, que seria da Igreja e de quantos vivem nas periferias humanas de Madagáscar? Que aconteceria a todos aqueles que trabalham na vanguarda da evangelização e, lá de modo particular, em condições muito precárias, difíceis e, por vezes, perigosas? Todos se apoiam na vossa oração e no dom sempre renovado da vossa vida; um dom, muito precioso aos olhos de Deus, que vos faz participar no mistério da redenção desta terra e das queridas pessoas que nela vivem.

«Estou como um odre exposto ao fumo»: diz o Salmo (119/118, 83), referindo-se ao tempo decorrido enquanto vive este duplo modo de ser consumido: suspirando por Deus e suspirando por causa das dificuldades do mundo. Às vezes, quase sem querer, afastamo-nos caindo «na apatia, na rotina, na desmotivação, na acédia paralisadora» (Const. ap. Vultum Dei quaerere, 11). Pouco importa os anos que tendes ou a dificuldade em andar ou de chegar a tempo ao serviço! Não somos odres expostos ao fumo, mas troncos que ardem até se consumir no fogo que é Jesus, Aquele que nunca falha e que cobre todas as dívidas.

Obrigado por este tempo de partilha, confio-me às vossas orações. Confio-vos todas as intenções que trago durante esta viagem a Madagáscar; rezemos juntos para que o Espírito do Evangelho possa germinar nos corações de todo o vosso povo.

Encontro com os Bispos de Madagascar na Catedral de Andohalo

Obrigado, Senhor Cardeal, pelas suas palavras de boas-vindas em nome de todos os irmãos. Agradeço também por ter querido, com as mesmas palavras, mostrar como a missão que abraçamos se desenrola no meio de contradições: uma terra rica e tanta pobreza; uma cultura e uma sabedoria herdadas dos antepassados, que nos fazem valorizar a vida e a dignidade da pessoa humana, mas temos também de constatar a desigualdade e a corrupção. Nestas circunstâncias, é difícil a tarefa do pastor. Nomeadamente pelas desigualdades: o pastor corre o risco de inclinar-se para um lado e deixar os outros. E também pela corrupção. Não digo que o pastor se torne um corrupto, mas o perigo existe: «vou fazer esta obra, e aquela…», e torna-se um homem de negócios; ou então farei este favor, darei este jeito, farei esta troca… e assim aquele bom pastor acaba enlameado de corrupção. Isto acontece; no mundo, acontece. Estai atentos!

«Semeador de paz e de esperança» é o tema escolhido para esta visita, mas nele pode ecoar também a missão que nos foi confiada. De facto, somos semeadores, e aquele que semeia fá-lo na esperança; fá-lo contando com o seu esforço e empenho pessoal, mas sabendo que há muitos fatores que têm de concorrer para que a semente germine, cresça, se torne espiga e, por fim, grão abundante. O semeador cansado e preocupado não desanima. Esta palavra sempre nos deve acompanhar quer na vida ativa quer na contemplativa, como vimos hoje [no encontro com as Irmãs de clausura]: Sede corajosos! Sê um homem corajoso! A coragem. O semeador cansado e preocupado não desanima, não desiste, nem pega fogo ao seu campo quando algo corre mal. Sabe esperar, confia, assume as decepções da sua sementeira. Mas nunca cessa de amar este campo confiado aos seus cuidados. E embora às vezes lhe venha a tentação de o fazer, não o abandona nem confia a outrem.

O semeador conhece a sua terra, «palpa-a», «sente-a» e prepara-a para que possa dar o melhor de si mesma. Como o Semeador, nós, bispos, somos chamados a lançar as sementes da fé e da esperança nesta terra. Para isso, devemos desenvolver este «olfato» que nos permite conhecer melhor e também descobrir o que compromete, dificulta ou arruina a sementeira. O olfato do pastor. O pastor pode ser muito inteligente, ter títulos académicos, ter participado em muitos congressos internacionais; pode saber tudo, estudar tudo; pode até ser bom, uma pessoa boa, mas, se lhe falta o tal olfato, nunca poderá ser um bom pastor. O olfato. Assim, «os pastores, acolhendo as contribuições das diversas ciências, têm o direito de exprimir opiniões sobre tudo aquilo que diz respeito à vida das pessoas, dado que a tarefa da evangelização implica e exige uma promoção integral de cada ser humano. Não se pode afirmar que a religião deve limitar-se ao âmbito privado e serve apenas para preparar as almas para o céu. Esta é a ideia que nos deixou o Iluminismo neoliberal: trabalhavam também para o povo. É verdade: tudo para o povo, mas nada com o povo! Sem o relacionamento com o povo, sem o olfato… Pelo contrário, o verdadeiro pastor está no meio do povo, imerso entre as pessoas, no amor do seu povo, porque o compreende. Sabemos que Deus deseja a felicidade dos seus filhos também nesta terra, embora estejam chamados à plenitude eterna, porque Ele criou todas as coisas “para nosso usufruto” (1 Tm 6, 17), para que todos possam usufruir delas. Por isso, a conversão cristã exige rever especialmente tudo o que diz respeito à ordem social e consecução do bem comum. Por conseguinte, ninguém pode exigir-nos que releguemos a religião para a intimidade secreta das pessoas, sem qualquer influência na vida social e nacional, sem nos preocupar com a saúde das instituições da sociedade civil, sem nos pronunciar sobre os acontecimentos que interessam aos cidadãos» (Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium, 182-183). O pastor no meio do povo. O pastor que sabe escutar a linguagem do povo. O pastor ungido pelo povo, a quem serve, de quem é servidor.

Sei que não faltam motivos de preocupação e que, entre outras coisas, carregais no coração a responsabilidade de velar pela dignidade dos vossos irmãos, que pedem para se construir uma nação cada vez mais solidária e próspera, dotada de instituições sólidas e estáveis. Pode um pastor digno deste nome ficar indiferente aos desafios que enfrentam os seus compatriotas de todas as categorias sociais, independentemente da sua pertença religiosa? Pode um pastor segundo o estilo de Jesus ser indiferente às vidas que lhe estão confiadas?

A dimensão profética ligada à missão da Igreja requer, sempre e em toda parte, um discernimento que em geral não é fácil. Neste sentido, a colaboração madura e independente entre a Igreja e o Estado é um desafio permanente, porque o perigo de conluio nunca está longe, sobretudo se chegamos a perder o ardor evangélico. Escutando sempre aquilo que o Espírito diz sem cessar às Igrejas (cf. Ap 2, 7), seremos capazes de escapar às ciladas, libertar o fermento do Evangelho para uma colaboração frutuosa com a sociedade civil na busca do bem comum. A marca distintiva deste discernimento será a vossa preocupação por que a proclamação do Evangelho inclua todas as formas de pobreza: não apenas «garantir a comida ou um decoroso “sustento” para todos, mas prosperidade e civilização em seus múltiplos aspetos. Isto engloba educação, acesso aos cuidados de saúde e especialmente trabalho, porque, no trabalho livre, criativo, participativo e solidário, o ser humano exprime e engrandece a dignidade da sua vida. O salário justo permite o acesso adequado aos outros bens que estão destinados ao uso comum» (Exort. ap. Evangelii gaudium, 192).

A defesa da pessoa humana é outra dimensão do nosso empenho pastoral. Para ser pastores segundo o coração de Deus, devemos ser os primeiros na opção de anunciar o Evangelho aos pobres. «Não devem subsistir dúvidas nem explicações que debilitem esta mensagem claríssima. Hoje e sempre, os pobres são os destinatários privilegiados do Evangelho, e a evangelização dirigida gratuitamente a eles é sinal do Reino que Jesus veio trazer. Há que afirmar sem rodeios que existe um vínculo indissolúvel entre a nossa fé e os pobres. Não os deixemos jamais sozinhos!» (Ibid., 48). Por outras palavras, temos um dever particular de proximidade e proteção para com os pobres, os marginalizados e os pequeninos, para com as crianças e as pessoas mais vulneráveis, vítimas de exploração e abusos, vítimas, hoje, desta cultura do descarte. Hoje a mundanidade levou-nos a inserir nos programas sociais, nos programas de desenvolvimento, o descarte como uma possibilidade: o descarte de quem está para nascer e o descarte de quem está para morrer, para lhe apressar a partida.

Este vasto campo não é desbravado e arroteado apenas pelo espírito profético, mas espera também a semente lançada à terra com paciência cristã, cientes ainda de que não temos o controle nem a responsabilidade de todo o processo. Um pastor que semeia evita de controlar tudo. Não se pode. O semeador não vai cada dia escavar a terra para ver como cresce a semente. Um pastor evita controlar tudo – os pastores controladores não deixam crescer –, dá azo às iniciativas, deixa crescer segundo etapas diferentes – nem todos têm o mesmo ritmo de crescimento – e não procura a uniformidade: a uniformidade não é vida; a vida é variegada. Cada qual tem o seu modo de ser, o próprio modo de crescer, o próprio modo de ser pessoa. A uniformidade não é um caminho cristão. O verdadeiro pastor não tem pretensões irrazoáveis, não despreza os resultados aparentemente mais mingados: «Esta vez andou assim… paciência, vamos para diante! Na próxima, será melhor». Sabe sempre aceitar os resultados como vêm. Deixai que vos diga qual é a imagem que, às vezes, me vem à cabeça quando penso na vida do pastor. O pastor deve agarrar a vida donde ela vem, com os resultados que tiver. O pastor é como o guarda-redes duma equipa de futebol: agarra a bola donde lha mandam. Sabe mover-se, sabe agarrar a realidade como chega. E corrigir as coisas… depois; mas, na hora, agarra a vida como vem. Isto é amor de pastor. Isto manifesta uma fidelidade ao Evangelho que faz de nós pastores próximos também do povo de Deus, a começar pelos nossos irmãos sacerdotes – são eles os nossos irmãos mais próximos – que devem beneficiar de um cuidado especial da nossa parte.

O pastor deve estar próximo de Deus, dos seus sacerdotes, próximo do povo. Estas são as três proximidades do pastor. Próximo de Deus na oração. Não esqueçamos que, na ocasião em que os Apóstolos «inventaram» os diáconos (já disse isto muitas vezes), Pedro, para justificar a nova invenção, disse: «A nós [os Apóstolos], compete a oração e o anúncio da Palavra». O primeiro dever do pastor, é rezar. Cada um de vós pergunte a si mesmo: Rezo? Quanto? Como? Proximidade de Deus. Proximidade dos sacerdotes: os sacerdotes são o próximo mais próximo do Bispo. «Telefonei ao Bispo, atendeu-me a secretária dizendo que, nos próximos três meses, não havia espaço na agenda do Bispo para uma audiência». Conselho dum irmão! Se te deres conta de que a tua secretária te deixa na lista o telefonema dum sacerdote, naquele mesmo dia ou, o mais tardar, no dia seguinte, chama-o. Talvez não tenhas tempo para o receber, mas chama-o. Aquele sacerdote saberá que tem um pai! E a terceira proximidade: proximidade do povo. O pastor que se afasta do povo, que perde o olfato do povo, termina como um “Monsieur l’Abbé”, um funcionário de corte… corte pontifícia, importante, mas no fim de contas sempre corte é! E isto não serve.

Há pouco tempo, falava aos bispos italianos da solicitude por que os nossos sacerdotes possam encontrar no seu bispo a figura do irmão mais velho e do pai que os encoraja e apoia no caminho (cf. Discurso à Conferência Episcopal Italiana, 20 de maio de 2019). Tal é a paternidade espiritual, que impele o bispo a não deixar órfãos os seus sacerdotes, podendo-se «tocar com a mão» não apenas na capacidade de manter abertas as portas a todos os sacerdotes, mas também na preocupação de sair à sua procura para os acompanhar quando atravessam um momento difícil.

Nas alegrias e dificuldades inerentes ao ministério, os sacerdotes devem encontrar, em vós, queridos bispos, pais sempre disponíveis que saibam como encorajar e apoiar, que saibam apreciar os esforços e acompanhar os progressos possíveis. A propósito, observou o Concílio Vaticano II: os bispos «abracem sempre com especial caridade os sacerdotes, que compartilham das suas funções e solicitude, e tão zelosamente satisfazem esses deveres com o trabalho de cada dia, considerando-os como filhos e amigos, e, portanto, mostrando-se prontos a ouvi-los e tratando-os com confiança, procurem dar nova vida a toda a atividade pastoral da diocese inteira» (Decr. Christus Dominus, 16).

Cuidar da terra implica também aguardar pacientemente o crescimento. O pastor sabe dar tempo aos processos. E, na hora da colheita, o agricultor avalia também a qualidade dos trabalhadores. Isto impõe-vos, como pastores, um urgente dever – estou a falar da qualidade dos trabalhadores – um urgente dever de acompanhamento e discernimento, sobretudo no que se refere às vocações para a vida consagrada e o sacerdócio; isso é fundamental para garantir a autenticidade das mesmas. Quanto a isto, recomendo: Estai atentos. Não vos deixeis enganar pela necessidade e o número: «Temos necessidade de sacerdotes e, porque preciso, acolho sem discernimento as vocações». Não sei! Creio que isto, entre vós, não seja tão frequente porque tendes vocações, o que vos permite uma certa liberdade de proceder com sereno discernimento. Mas, em alguns países da Europa, é lamentável: a falta de vocações impele o bispo a acolhê-las dum lado e doutro, sem verificar que vida tinham; acolhem pessoas «expulsas» doutros Seminários, «expulsas» da vida religiosa, que foram expulsas por imoralidade ou por outras deficiências. Por favor, estai atentos. Não façais entrar o lobo no rebanho. A messe é grande, e o Senhor, cujo único anelo é mandar-lhe autênticos trabalhadores, não conhece limites na maneira de chamar, de incitar ao dom generoso da própria vida. Depois da escolha, a formação dos candidatos ao sacerdócio e à vida consagrada destina-se precisamente a assegurar um amadurecimento e uma purificação das intenções. A este respeito e no espírito da Exortação apostólica Gaudete et exsultate, gostaria de assinalar que a vocação fundamental sem a qual as outras não têm razão de ser é a chamada à santidade e que esta «santidade é o rosto mais belo da Igreja» (n. 9). Aprecio os vossos esforços para garantir a formação de autênticos e santos trabalhadores para a messe abundante no campo do Senhor.

Além disso, gostaria de assinalar um comportamento de que não gosto, porque não vem de Deus: a rigidez. Hoje está na moda – aqui não sei; mas noutras partes, sim – está na moda, encontrar pessoas rígidas. Padres jovens, rígidos, que querem salvar com a rigidez. Adotam uma atitude de rigidez e, às vezes – desculpai – uma rigidez de museu. Têm medo de tudo; são rígidos. Tende cuidado! Sabei que há, sob toda a rigidez, graves problemas.

Este esforço deve estender-se também ao vasto mundo do laicado; também os fiéis-leigos são enviados para a messe, são chamados a participar na pesca, a arriscar redes e tempo no «seu apostolado multiforme tanto na Igreja como no mundo» (Conc. Ecum. Vat. II, Decl. Apostolicam actuositatem, 9). Com toda a sua extensão, os seus problemas e as suas mudanças, o mundo constitui o campo específico de apostolado, onde os fiéis-leigos são chamados a trabalhar, generosa e responsavelmente, levando-lhe o fermento do Evangelho. Por isso mesmo, gostaria de congratular-me com todas as iniciativas que tomais como pastores para formar os leigos – obrigado por isso – e não os deixar sozinhos na missão de serem sal da terra e luz do mundo, tendo em vista contribuir para a transformação da sociedade e da Igreja em Madagáscar. E uma recomendação: Por favor, não clericalizeis os leigos. Os leigos são leigos. Na minha diocese anterior, ouvi propostas como esta: «Senhor bispo, na paróquia tenho um leigo maravilhoso: trabalha, ele é que organiza tudo... Podemos fazê-lo diácono?» Deixa-o assim, não lhe arruínes a vida, deixa-o leigo. E, por falar em diáconos, muitas vezes estes sofrem a tentação do clericalismo, sentem-se presbíteros ou bispos falhados. Mas não é verdade! O diácono é o guardião do serviço na Igreja. Por favor, não mantenhais os diáconos no altar. Façam os trabalhos fora, no serviço. Se tiverem que ir em missão para batizar, que batizem. Está bem! Mas, no serviço, não se comportem como sacerdotes falhados.

Amados irmãos, toda esta responsabilidade no campo de Deus deve desafiar-nos a manter o coração e o espírito abertos, esconjurar o medo que nos fecha e vencer a tentação de nos isolarmos: que o diálogo fraterno entre vós (é importante!), bem como a partilha dos dons e a colaboração entre as Igrejas particulares do Oceano Índico constituam um caminho de esperança. Diálogo e colaboração. A semelhança de desafios pastorais, tais como a proteção do meio ambiente num espírito cristão ou o problema da imigração, requer, para uma abordagem eficaz, reflexões comuns e uma ampla sinergia de ações.

Por fim gostaria, através de vós, de saudar de maneira especial os sacerdotes, os religiosos e religiosas que estão doentes ou limitados pela idade. Deixo esta pergunta para cada um de vós: vou visitá-los? Peço-vos para lhes manifestardes o meu afeto e a minha proximidade na oração e também para cuidardes deles com ternura sustentando-os na bela missão de intercessão.

Duas mulheres protegem esta Catedral: na capela aqui ao lado, repousam os restos da Beata Vitória Rasoamanarivo, que soube fazer o bem, defender e espalhar a fé em tempos difíceis; e temos a imagem da Virgem Maria que parece, com seus braços abertos para o vale e as colinas, abraçar tudo. Pedimos, a ambas, que dilatem sempre o nosso coração, que nos ensinem aquela compaixão oriunda do seio materno que a mulher e Deus sentem face aos esquecidos da terra e que nos ajudem a semear a paz e a esperança.

E, em sinal do meu cordial e fiel apoio, dou-vos a minha bênção: como irmão vos abençoo e estendo esta bênção às vossas dioceses.

Por favor, não vos esqueçais de rezar por mim e de fazer rezar por mim!

Vigília com os Jovens no Campo Diocesano de Soamandrakizay

Agradeço-lhe, senhor Bispo, as palavras de boas vindas. Obrigado a vós, queridos jovens, que viestes de todos os cantos desta ilha encantadora, não obstante os esforços e dificuldades que isso representou para muitos de vós. Em todo o caso, eis-vos aqui! É com grande alegria que posso viver convosco esta Vigília, a que nos convida o Senhor Jesus. Obrigado pelos cânticos e pelas as danças tradicionais que realizastes com tanto entusiasmo (não se enganava quem me disse que tendes uma alegria e um entusiasmo extraordinários).

Obrigado, Rova Sitraka e Vavy Elyssa, por terdes partilhado com todos nós o caminho das vossas buscas por entre aspirações e desafios. Como é bom encontrar dois jovens com uma fé viva, em movimento! Jesus deixa-nos o coração sempre à procura, põe-nos a caminho e em movimento. O discípulo de Jesus, se quiser crescer na sua amizade, não deve permanecer imóvel, a lamentar-se debruçado sobre si mesmo. Deve mover-se, agir, comprometer-se, seguro de que o Senhor o sustenta e acompanha.

Por isso, gosto de ver cada jovem como alguém que anda à procura. Lembrai-vos da primeira pergunta que Jesus dirige aos discípulos na margem do Jordão? A primeira pergunta foi esta: «Que procurais?» (Jo 1, 38). O Senhor sabe que estamos à procura daquela «felicidade para a qual fomos criados» e «que o mundo não poderá tirar-nos» (Francisco, Exort. ap. Gaudete et exsultate, 1; 177). Cada qual manifesta-o de maneira diferente, mas no fundo estais sempre à procura desta felicidade que ninguém vos poderá tirar.

Assim no-lo disseste tu, Rova. No teu coração, há muito que tinhas o desejo de visitar os presos. Começaste por ajudar um sacerdote na sua missão e, pouco a pouco, te foste envolvendo até se tornar a tua missão pessoal. Descobriste que a tua vida era missionária. Esta busca de fé ajuda a tornar melhor, mais evangélico, o mundo onde vivemos. E o que fizeste pelos outros transformou-te, mudou a tua maneira de ver e julgar as pessoas. Isso tornou-te mais justa e mais humana. Compreendeste e descobriste como o Senhor Se comprometeu contigo, dando-te uma felicidade que o mundo não poderá tirar-te (cf. ibid., 177).

Rova, na tua missão, aprendeste a renunciar aos adjetivos e a chamar as pessoas pelo seu nome, como o Senhor faz connosco. Ele não nos chama pelo nosso pecado, os nossos erros, as nossas faltas, os nossos limites, mas fá-lo pelo nosso nome; cada um de nós é precioso a seus olhos. Diversamente o diabo, apesar de conhecer os nossos nomes, prefere chamar-nos e recordar-nos continuamente os nossos pecados e os nossos erros; e, assim, faz-nos sentir que, por mais que façamos, nada pode mudar, tudo permanecerá igual. O Senhor não age assim. O Senhor recorda-nos sempre quão preciosos somos a seus olhos, e confia-nos uma missão.

Rova, tu aprendeste a conhecer não só as qualidades, mas também as histórias que se escondem por trás de cada rosto. Renunciaste à crítica rápida e fácil, que sempre paralisa, para aprender algo que muitas pessoas levam anos a descobrir: notaste que, em muitas pessoas que estão na prisão, não havia o mal, mas escolhas más. Enganaram-se no caminho e sabem-no, mas agora querem recomeçar.

Isto lembra-nos um dos mais belos dons que a amizade com Jesus pode oferecer-nos. Ele «está em ti, está contigo e jamais te deixa. Por mais que te possas afastar, junto de ti está o Ressuscitado, que te chama e espera por ti para recomeçar» (Francisco, Exort. ap. pós-sinodal Christus vivit, 2) e te confiar uma missão. Esta é a prenda que Ele nos convida, a todos, a descobrir e celebrar hoje.

Sabemos todos, mesmo por experiência pessoal, que podemos extraviar-nos correndo atrás de ilusões que prometem e encantam com uma alegria fulgente, uma alegria rápida, fácil e imediata, mas que, no fim de contas, deixam o coração, o olhar e a alma a meio caminho. Estai atentos aos que vos prometem caminhos fáceis e depois vos deixam no meio da estrada! Estas ilusões que nos seduzem, quando somos jovens, com promessas que nos anestesiam, tiram-nos a vitalidade, a alegria, tornam-nos dependentes e fecham-nos num círculo aparentemente sem saída e cheio de amargura.

Uma amargura que vos faz exclamar: «É assim! Nada pode mudar e ninguém pode fazer nada por nós». Não sei se o pensais, mas há o risco de o pensardes, sobretudo quando não se dispõe do mínimo necessário para lutar dia a dia; quando as reais oportunidades de estudar são escassas; ou para aqueles que, vendo o seu futuro comprometido por falta de trabalho, pela precariedade e as injustiças sociais, são tentados a desistir. Estai atentos perante esta amargura! Estai atentos!

O Senhor é o primeiro a dizer: Não! Este não é o caminho. Ele está vivo e quer-te vivo também, partilhando todos os teus dons e carismas, as tuas buscas e as tuas aptidões (cf. ibid., 1). O Senhor chama-nos pelo nosso nome e diz-nos: «segue-Me!» Não para nos fazer correr atrás de ilusões, mas para transformar cada um de nós em discípulo-missionário aqui e agora. Ele é o primeiro a refutar todas as vozes que procuram adormentar-vos, domesticar-vos, anestesiar-vos ou reduzir-vos ao silêncio para não procurardes novos horizontes. Com Jesus, há sempre novos horizontes. Ele quer transformar-nos a todos e fazer da nossa vida uma missão. Mas pede-nos uma coisa: pede-nos para não termos medo de meter as mãos na massa, de não termos medo de sujar as mãos.

Através de vós, entra o futuro em Madagáscar e na Igreja. O Senhor é o primeiro a ter confiança em vós; e convida-vos também a terdes confiança em vós mesmos, e ter confiança nas vossas aptidões e capacidades, que são numerosas. Convida-vos a ter coragem, unidos a Ele, para escrever a mais bela página da vossa vida, para vencer a apatia e oferecer, como Rova, uma resposta cristã aos numerosos problemas que tendes de enfrentar. É o Senhor que vos convida a ser os construtores do futuro (cf. ibid., 174). Vocês, sereis os construtores do futuro! Convido-voscontribuindo para ele como só vós podeis fazer com a alegria e o frescor da vossa fé. A cada um de vós – a ti, a ti, a ti, a ti, … –Pergunto-te, mas convidando a colocares a pergunta a ti mesmo: Pode Ele contar contigo? O teu povo malgascio pode contar contigo? A tua pátria, Madagáscar, pode contar contigo?

O Senhor, porém, não quer aventureiros solitários. É verdade que nos confia uma missão, mas não nos envia em primeira linha, sozinhos.

Como justamente disse Vavy Elyssa, é impossível ser discípulo-missionário sozinho: precisamos dos outros para viver e partilhar o amor e a confiança que o Senhor em nós deposita. O encontro pessoal com Jesus é insubstituível, não de maneira solitária, mas em comunidade. Sozinhos podemos fazer grandes coisas, sim; mas juntos podemos sonhar e comprometer-nos com coisas inimagináveis. Vavy expressou-o claramente. Somos convidados a descobrir o rosto de Jesus no rosto dos outros. Celebrando a fé em família, criando laços de fraternidade, participando na vida dum grupo ou dum movimento e encorajando-nos a traçar um caminho comum vivido na solidariedade, podemos aprender a descobrir e discernir os caminhos que o Senhor nos convida a percorrer, os horizontes que Ele predispôs para vós. Nunca te isoles, nem queiras proceder sozinho! Esta é uma das piores tentações que podemos ter.

Em comunidade, unidos, podemos aprender a reconhecer os pequenos milagres de cada dia, bem como os testemunhos de quão belo é seguir e amar a Jesus. E isto sucede muitas vezes indiretamente, como no caso dos teus pais, Vavy: apesar de pertencerem a duas tribos diferentes, cada qual com os seus usos e costumes, graças ao seu amor recíproco puderam superar todas as provações e diferenças, indicando-te um caminho maravilhoso por onde seguir; caminho confirmado sempre que vos dão os frutos da terra, para serem oferecidos no altar. Como precisamos destes testemunhos! Ou então como a tua tia ou as catequistas e os sacerdotes que os acompanharam e sustentaram no crescimento da fé. Tudo isto ajudou a gerar e encorajar o teu sim. Somos todos importantes, todos, todos somos necessários, e ninguém pode dizer a outro: «eu não preciso de ti». Ninguém pode dizer: “eu não preciso de ti”, ou «tu não fazes parte deste projeto de amor que o Pai sonhou quando nos criou».

Agora lanço-vos um desfio: queria que todos unidos ao mesmo tempo disséssemos: ninguém pode dizer: “eu não preciso de ti”. Três vezes… [repetiram três vezes] estiveram muito bem!

Somos uma grande família – estou para terminar, tranquilos, porque está frio… [sorriam] – e podemos, queridos jovens, descobrir que temos uma Mãe: a protetora de Madagáscar, a Virgem Maria. Sempre me impressionou a força do «sim» de Maria, ainda jovem; – era jovem como vós, a força daquele «faça-se em Mim segundo a tua palavra», que Ela diz ao anjo. É um «sim» diferente de quando se diz: «Bem, provemos a ver o que sucede». Não. Maria não conhecia a frase «provemos a ver o que sucede». Ela disse «sim», sem subterfúgios. É o «sim» das pessoas que querem comprometer-se prontas a assumir os riscos, que querem apostar tudo, sem outra garantia para além da certeza de saber que são portadoras duma promessa. Aquela jovenzinha de Nazaré é, hoje, a Mãe que vela pelos seus filhos, que caminham na vida muitas vezes cansados, carentes, mas desejosos que a luz da esperança não se apague. Isto é o que queremos para Madagáscar, para cada um de vós e vossos amigos: que a luz da esperança não se apague. A nossa Mãe vê este povo de jovens amado por Ela, que A procura inclusive fazendo silêncio no coração, embora haja muito barulho, conversas e distrações ao longo do caminho; suplica-Lhe que a esperança não se apague (cf. ibid., 44.48).

A Ela, quero confiar a vida de todos e cada um de vós, das vossas famílias e dos vossos amigos, para que não vos falte jamais a luz da esperança e Madagáscar possa ser cada vez mais a terra que o Senhor sonhou. Que Ela sempre vos acompanhe e proteja!

E, por favor, não vos esqueçais de rezar por mim.


8 de setembro

Santa Missa no Campo Diocesano de Soamandrakizay

Disse-nos o Evangelho que «seguiam com [Jesus] grandes multidões» (Lc 14, 25). À semelhança daquelas multidões que se aglomeravam no percurso de Jesus, também vós viestes em grande número para acolher a sua mensagem e segui-Lo. Mas, como bem sabeis, não é fácil seguir os passos de Jesus. Vocês não repousaram e tantos de vós, passaram aqui a noite. Realmente o evangelho de Lucas lembra-nos, hoje, as exigências deste compromisso.

É importante notar que estas indicações são dadas no quadro da subida de Jesus para Jerusalém, entre a parábola do banquete – onde o convite é aberto a todos, especialmente às pessoas rejeitadas que vivem nas ruas e nas praças, nas encruzilhadas – e as três parábolas ditas da misericórdia, onde se organiza a festa quando a pessoa perdida é reencontrada, quando aquele que parecia morto é recebido, festejado e devolvido à vida pela possibilidade dum novo recomeço. Qualquer renúncia cristã só tem sentido à luz da alegria e da festa do encontro com Jesus Cristo.

A primeira exigência convida-nos a verificar as nossas relações familiares. A vida nova que o Senhor nos propõe parece incómoda e transforma-se numa injustiça escandalosa para quantos creem que é possível limitar ou reduzir o acesso ao Reino dos Céus apenas aos laços de sangue, à pertença a um grupo determinado, a um clã ou a uma cultura particular. Quando o «parentesco» se torna a chave decisiva e determinante de tudo o que é justo e bom, acaba-se por justificar e até mesmo «consagrar» alguns comportamentos que levam à cultura dos privilégios e da exclusão: favoritismos, clientelismos e, consequentemente, corrupção. A exigência do Mestre faz-nos elevar o olhar, dizendo: quem não for capaz de ver o outro como um irmão, deixar-se comover pela sua vida e situação, independentemente da sua origem familiar, cultural e social, «não pode ser meu discípulo» (Lc 14, 26). O seu amor e dedicação são um dom gratuito, invocado por todos e para todos.

A segunda exigência mostra-nos a dificuldade de seguir o Senhor, quando se pretende identificar o Reino dos Céus com os próprios interesses pessoais ou com o fascínio duma ideologia qualquer que acaba por instrumentalizar o nome de Deus ou a religião para justificar atos de violência, a segregação e até o homicídio, o exílio, o terrorismo e a marginalização. A exigência do Mestre encoraja-nos a não manipular o Evangelho com tristes reducionismos, mas construir a história na fraternidade e solidariedade, no respeito gratuito da terra e dos seus dons contra todas as formas de exploração, encorajando-nos a viver o «diálogo como um caminho, a colaboração comum como conduta, o conhecimento mútuo como método e critério» (Documento sobre a fraternidade humana, Abu Dabhi, 4 de fevereiro de 2019); não cedendo à tentação de certas doutrinas incapazes de ver o bom grão e o joio crescerem juntos enquanto se espera o Senhor da messe (cf. Mt 13, 24-30).

E, quanto à última exigência, como pode ser difícil partilhar a vida nova que o Senhor nos oferece, quando nos sentimos continuamente impelidos a buscar a justificação em nós mesmos, crendo que tudo provenha exclusivamente das nossas forças e daquilo que possuímos! Quando a corrida para acumular riqueza se torna molesta e oprimente – como ouvimos na primeira Leitura –, exacerbando o egoísmo e o uso de meios imorais. A exigência do Mestre é um convite a recuperar a memória agradecida e tomar consciência de que a nossa vida e as nossas capacidades, mais do que conquista pessoal, são fruto de um dom (cf. Francisco, Exort. ap. Gaudete e exsultate, 55) tecido por Deus e pelas mãos silenciosas de muitas pessoas, cujos nomes só conheceremos na manifestação do Reino dos Céus.

Com estas exigências, o Senhor quer preparar os seus discípulos para a festa da irrupção do Reino de Deus, libertando-os deste obstáculo perigoso que é, em última instância, uma das piores escravidões: viver para si mesmo. É a tentação de se fechar no seu pequeno mundo, que acaba por deixar pouco espaço aos outros: os pobres já não entram, deixa-se de ouvir a voz de Deus, não mais se rejubila com doce alegria do seu amor, perde-se o entusiasmo de fazer o bem. Quando se fecham, muitas pessoas podem aparentemente sentir-se em segurança, mas acabam por se transformar em pessoas ressentidas, lamurientas, sem vida. Esta não é a opção duma vida digna e plena, não corresponde ao desígnio de Deus a nosso respeito, não é a vida no Espírito que jorra do coração do Cristo ressuscitado (cf. Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium, 2).

No caminho para Jerusalém o Senhor, com estas exigências, convida-nos a elevar o olhar, ajustar as prioridades e sobretudo criar espaços para que Deus seja o centro e o fulcro da nossa vida.

Se olharmos ao nosso redor, quantos homens e mulheres, jovens, crianças sofrem e estão literalmente privados de tudo! Isto não faz parte do plano de Deus. Como é urgente este convite de Jesus a morrer para os nossos confinamentos, os nossos orgulhosos individualismos, a fim de deixar triunfar o espírito de fraternidade – este dimana do lado aberto de Jesus Cristo, donde nascemos como família de Deus – e cada qual possa sentir-se amado, porque compreendido, aceite e valorizado na sua dignidade. «Perante a dignidade humana espezinhada, muitas vezes fica-se de braços cruzados ou então abanam-se os braços, impotentes diante da força obscura do mal. Mas o cristão não pode ficar de braços cruzados, indiferente, nem de braços a abanar, fatalista! Não... O crente estende a mão, como Jesus faz com ele» (Francisco, Homilia por ocasião do Dia Mundial dos Pobres, 18 de novembro de 2018).

A Palavra de Deus, que ouvimos, convida-nos a retomar o caminho, ousando dar este salto qualitativo e adotar esta sabedoria do desapego pessoal como base para a justiça e a vida de cada um de nós; pois, juntos, podemos lutar contra todas estas idolatrias que nos levam a focalizar a nossa atenção nas seguranças ilusórias do poder, da carreira e do dinheiro e na busca de glórias humanas.

As exigências que Jesus indica deixam de ser gravosas quando começamos a saborear a alegria da vida nova que Ele mesmo nos propõe: a alegria que brota de saber que Ele é o primeiro a sair à nossa procura pelas encruzilhadas dos caminhos, quando estamos perdidos como aquela ovelha ou aquele filho pródigo. Possa este humilde realismo – é um realismo, realismo cristão – incitar-nos a assumir os grandes desafios, e vos conceda o desejo de tornar o vosso lindo país num lugar onde o Evangelho se faz vida, e vida para a maior glória de Deus.

Comprometamo-nos e façamos nossos os planos do Senhor.

Angelus

Queridos irmãos e irmãs, no final desta celebração, desejo dirigir uma saudação cordial a todos vós!

De coração, agradeço a D. Razanakolona pelas palavras que me dirigiu; e, com ele, agradeço aos outros irmãos bispos presentes, aos sacerdotes, às pessoas consagradas, aos esposos com suas famílias, aos catequistas e a todos os fiéis-leigos.

Aproveito a ocasião para expressar a minha viva gratidão ao senhor Presidente da República e a todas as autoridades civis do país pela sua primorosa hospitalidade e estendo o meu reconhecimento a todos e cada um daqueles que contribuíram, de várias formas, para o bom êxito desta minha visita. O Senhor vos recompense, e abençoe a todo o vosso povo, pela intercessão do Beato Rafael Luis Rafiringa, cujas relíquias estão expostas aqui no altar, e da Beata Vitória Rasoamanarivo.

E agora, em oração, dirijamo-nos à Santíssima Virgem, neste dia em que recordamos o seu nascimento, aurora de salvação para a humanidade. Maria Imaculada, a Quem amais e venerais como vossa Mãe e Padroeira, guie sempre na paz e na esperança o caminho de Madagáscar.

Visita à Cidade de Amizade - Akamasoa

Boa tarde a todos vós! Boa tarde!

Para mim, é uma alegria, uma grande alegria encontrar o meu ex-aluno: o padre Pedro. Foi meu aluno na Faculdade de Teologia nos anos 1967-1968; depois, não estudou mais. Encontrou o amor por trabalho, para trabalhar. Muito obrigado, padre!

E uma alegria, igualmente grande para mim, é encontrar-me no vosso meio nesta grande obra. Akamasoa é a expressão da presença de Deus no meio do seu povo pobre; não uma presença esporádica, casual: é a presença de um Deus que decidiu viver e permanecer sempre no meio do seu povo.

Nesta tarde, encontrais-vos em grande número no próprio coração desta «Cidade da Amizade», que construístes e – não tenho dúvida – continuareis a construir com as vossas mãos, para que muitas famílias possam viver com dignidade. Vendo os vossos rostos radiantes, dou graças ao Senhor que ouviu o clamor dos pobres e manifestou o seu amor através de sinais palpáveis como a criação desta aldeia. Os vossos clamores nascidos do facto de não poderdes mais viver sem um teto, de verdes os vossos filhos crescer malnutridos, de não terdes trabalho, nascidos do olhar indiferente – para não dizer desdenhoso – de muitos, transformaram-se em cânticos de esperança para vós e quantos vos contemplam. Cada recanto destes bairros, cada escola ou dispensário é um cântico de esperança que recusa e faz calar toda a fatalidade. Digamo-lo com força: a pobreza não é uma fatalidade.

De facto, esta aldeia encerra uma longa história de coragem e ajuda mútua. Esta cidade é o resultado de muitos anos de trabalho duro. Na base, encontramos uma fé viva que se traduziu em ações concretas, capazes de «mover montanhas» (cf. Mc 11, 23). Uma fé que permitiu ver uma chance onde era visível apenas a precariedade, ver a esperança onde só era visível a fatalidade, ver a vida onde muitos anunciavam morte e destruição. Lembrai-vos daquilo que escrevia o apóstolo São Tiago a propósito da fé: «se ela não tiver obras, está completamente morta» (2, 17). Os alicerces do trabalho feito em comum, do sentido de família e comunidade consentiram restaurar, de forma artesanal e paciente, a confiança não só dentro de vós, mas entre vós, dando-vos a possibilidade de ser os protagonistas e os artífices desta história. Uma educação para os valores, através da qual as primeiras famílias que iniciaram a aventura com o padre Opeka puderam transmitir o enorme tesouro de compromisso, disciplina, honestidade, respeito por si mesmo e pelos outros. E pudestes compreender que faz parte do sonho de Deus não apenas o progresso pessoal, mas sobretudo o progresso comunitário, já que não há escravidão pior – como nos lembrou o padre Pedro – do que viver cada um só para si.

Queridos jovens de Akamasoa, gostaria de vos dirigir uma mensagem particular: Nunca desistais perante os efeitos nefastos da pobreza, nunca sucumbais às tentações da vida fácil ou do retraimento em vós mesmos. Obrigado, Fanny, pelo belo testemunho que nos deste em nome dos jovens desta aldeia. Queridos jovens, cabe a vós continuar o trabalho feito pelos mais velhos. A força para realizar tudo isto, encontrá-la-eis na vossa fé e no testemunho vivo que foi plasmado na vossa vida. Deixai desenvolver-se em vós os dons que o Senhor vos concedeu. Pedi-Lhe para vos ajudar a servir generosamente os vossos irmãos e irmãs. Assim, Akamasoa não será apenas um exemplo para as gerações futuras, mas sobretudo o ponto de partida duma obra inspirada por Deus, que encontrará o seu pleno desenvolvimento continuando a testemunhar o seu amor às gerações presentes e futuras.

Rezemos para que se difunda, por Madagáscar inteiro e noutras partes do mundo, o esplendor desta luz e possamos alcançar modelos de desenvolvimento que privilegiem a luta contra a pobreza e a inclusão social a partir da confiança, da educação, do trabalho e do empenho que são sempre indispensáveis para a dignidade da pessoa humana.

Obrigado, amigos de Akamasoa! Querido padre Pedro e colaboradores, uma vez mais obrigado pelo vosso testemunho profético, pelo vosso testemunho gerador de esperança. Que Deus continue a abençoar-vos.

Peço-vos, por favor, que não vos esqueçais de rezar por mim.

Oração para os Trabalhadores no Estaleiro de Mahatzana

Deus nosso Pai, criador do céu e da terra,
nós Vos damos graças por nos reunirdes aqui como irmãos,
em frente desta pedreira britada pelo trabalho do homem:
nós Vos pedimos por todos os trabalhadores.

Por aqueles que o fazem com as próprias mãos
e enorme esforço físico.
Preservai os seus corpos do desgaste excessivo:
que não lhes falte a ternura e a capacidade de acariciar os seus filhos e jogar com eles.
Concedei-lhes o vigor da alma e a saúde do corpo
para que não fiquem esmagados pelo peso da sua tarefa.

Fazei que o fruto do trabalho lhes permita
Assegurar uma vida digna às suas famílias.
Que encontrem nelas, à noite, calor, conforto e encorajamento,
e que juntos, reunidos sob o vosso olhar,
conheçam as verdadeiras alegrias.

Saibam as nossas famílias que a alegria de ganhar o pão
é perfeita, quando este pão é partilhado.
Que as nossas crianças não sejam forçadas a trabalhar,
possam ir à escola e continuar os seus estudos,
e os seus professores consagrem tempo a esta tarefa,
sem precisarem doutras atividades para a subsistência diária.

Deus da justiça, tocai os corações de empresários e dirigentes: que eles provejam a tudo o que é necessário
para assegurar a quantos trabalham um salário digno
e condições respeitosas da sua dignidade de pessoas humanas.

Com paterna misericórdia, cuidai
daqueles que não têm trabalho,
e fazei que o desemprego, causa de tantas misérias,
desapareça das nossas sociedades.
Possa cada um conhecer a alegria e a dignidade de ganhar o pão
para o trazer para casa e sustentar os seus queridos.

Pai, criai entre os trabalhadores um espírito de verdadeira solidariedade:
saibam velar uns pelos outros,
encorajar-se mutuamente, sustentar quem está extenuado, levantar aquele que caiu.

Perante a injustiça, que o seu coração nunca ceda ao ódio,
ao rancor, à amargura, mas mantenha viva a esperança
de ver um mundo melhor e trabalhar por ele.

Que saibam, juntos e de forma construtiva,
fazer valer os seus direitos
e que as suas vozes e o seu clamor sejam atendidos.

Deus nosso Pai, Vós destes, como protetor
aos trabalhadores do mundo inteiro, São José,
pai adotivo de Jesus, esposo corajoso da Virgem Maria:
a Ele, entrego quantos trabalham aqui, em Akamasoa,
e todos os trabalhadores de Madagáscar, especialmente aqueles
que levam uma vida precária e difícil.

Que Ele os guarde no amor do vosso Filho
e os sustente na sua vida e na sua esperança.

Amen!

Encontro com os Sacerdotes, Religiosos, Religiosas, Consagrados e Seminaristas no Colégio Saint Michel

Queridos irmãos e irmãs, quando me trouxeram esta mesa, pensava que era para comer. Mas não, é para falar!

Agradeço a vossa calorosa receção. As minhas primeiras palavras, gostaria de as dirigir especialmente a todos os sacerdotes, consagradas e consagrados que não puderam vir por problemas de saúde, pelo peso dos anos ou por qualquer outra complicação. Por eles, façamos uma oração todos juntos, em silêncio [rezam em silêncio].

Ao terminar a minha visita a Madagáscar aqui convosco, vendo a vossa alegria e repensando a tudo o que já vivi na vossa Ilha, brotam do meu coração estas palavras de Jesus no evangelho de Lucas quando exclama exultante de alegria: «Bendigo-Te, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos inteligentes e as revelaste aos pequeninos» (10, 21). E esta exultação é confirmada pelos vossos testemunhos, pois até os pontos que expressastes como problemas são sinais duma Igreja viva, uma Igreja comprometida, que procura ser dia-a-dia uma presença do Senhor.Uma Igreja, como disse a irmã Suzanne, que procura cada dia estar mais próxima do povo: não se separar do povo, sempre a caminhar com o povo de Deus!

Esta realidade é convite a recordar com gratidão todos aqueles que não tiveram medo de apostar em Jesus Cristo e no seu Reino; e hoje partilhais da sua herança. Antes de vós, existem as raízes: as raízes da evangelização, aqui. Vós sois a herança. E deixareis, vós também, uma herança aos outros. Penso nos Lazaristas, nos Jesuítas, nas Irmãs de São José de Cluny, nos Irmãos das Escolas Cristãs, nos Missionários de La Salette e em todos os outros pioneiros, bispos, sacerdotes e consagrados. Mas penso também em tantos leigos que em tempos difíceis de perseguição, quando muitos missionários e consagrados foram obrigados a partir, mantiveram viva a chama da fé nesta terra. Isto convida-nos a recordar o nosso Batismo, como o primeiro e grande sacramento pelo qual recebemos o selo de filhos de Deus. Tudo o mais é expressão e manifestação deste amor inicial que sempre somos chamados a renovar.

A frase do Evangelho que citei faz parte da oração de louvor feita pelo Senhor, quando acolheu os setenta e dois discípulos no regresso da sua missão com os sacos cheios para partilhar tudo o que viram e ouviram. Como eles, também vós aceitastes o desafio de ser uma Igreja «em saída»: ousastes sair abraçando o desafio de levar a luz do Evangelho a todos os cantos desta Ilha.

Sei que muitos de vós vivem em condições difíceis, carecendo dos serviços essenciais – água, eletricidade, estradas, meios de comunicação – ou dos recursos económicos para gerir a vida e a atividade pastoral. Muitos de vós sentem sobre os seus ombros, para não dizer sobre a sua saúde, o peso das fadigas apostólicas. Mas escolhestes ficar e estar ao lado do vosso povo, próximo do vosso povo, com o vosso povo. Disso vos agradeço! Muito obrigado pelo vosso testemunho de estar perto das pessoas, obrigado por terdes querido ficar, sem fazer da vocação um «trampolim para uma vida melhor». Obrigado por isso. E ficar – como dizia a Irmã Suzanne – com a consciência de que, «apesar das nossas misérias e fraquezas, comprometemo-nos com todo o nosso ser na grande missão da evangelização». A pessoa consagrada, no sentido amplo da palavra, é a mulher, é o homem que aprendeu e quer permanecer no coração do seu Senhor e no coração do seu povo.Esta é a chave: permanecer no coração do Senhor e no coração do povo!

Quando acolheu os seus discípulos e Se deu conta como voltavam cheios de alegria, a primeira coisa que Jesus faz é louvar e bendizer seu Pai. Isto indica-nos um aspeto fundamental da nossa vocação. Somos homens e mulheres de louvor. A pessoa consagrada é capaz de reconhecer e indicar a presença de Deus onde quer que se encontre. Além disso, quer viver na sua presença, que aprendeu a saborear, gozar e partilhar.

No louvor, descobrimos a nossa mais bela pertença e identidade, porque o louvor liberta o discípulo da ânsia pelo que «deveria ser feito» – aquela ansiedade que é uma traça, uma traça que corrói – e devolve-lhe o gosto da missão e de estar com o seu povo; ajuda-o a ajustar os «critérios» pelos quais se avalia a si mesmo, avalia os outros e toda a atividade missionária, para evitar o pouco sabor evangélico que às vezes tem.

Com frequência, podemos sucumbir à tentação de passar horas a falar dos «sucessos» ou dos «fracassos», da «utilidade» das nossas ações, ou da «influência» que podemos ter na sociedade ou noutro âmbito qualquer. Debates que acabam por ocupar o primeiro lugar e o centro de toda a nossa atenção. Isto leva-nos muitas vezes a sonhar programas apostólicos cada vez maiores, meticulosos e bem elaborados, mas típicos dos generais derrotados, que acabam por negar a nossa história, bem como a história do vosso povo, que é gloriosa por ser uma história de sacrifícios, de esperança, de luta diária, de vida gasta no serviço, de constância no trabalho fadigoso (cf. Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium, 96).

Louvando, aprendemos a sensibilidade de não «perder a bússola», para não fazer dos meios fins, nem do supérfluo o que é importante; aprendemos a liberdade de implementar processos mais do que procurar ocupar espaços (cf. ibid., 223); a gratuidade de promover tudo o que faz o povo de Deus crescer, amadurecer e frutificar, em vez de nos vangloriarmos dum «ganho» pastoral fácil, rápido, mas efémero. Até certo ponto, uma grande parte da nossa vida, da nossa alegria e da nossa fecundidade missionária decide-se neste convite de Jesus ao louvor. Como gostava de assinalar aquele homem sábio e santo que foi Romano Guardini, «aquele que adora a Deus nos seus sentimentos mais profundos e também – quando tem tempo – na realidade dos seus atos concretos, está abrigado na verdade. Pode-se equivocar em muitas coisas; pode estar sobrecarregado e desconcertado pelo peso das suas próprias ações; mas, em última análise, a direção e a ordem da sua existência estão seguras» (Pequena Suma Teológica, Madrid 1963, 29), no louvor, na adoração.

Os setenta e dois discípulos estavam conscientes de que o sucesso da missão dependera do facto de a terem cumprido «em nome do Senhor Jesus». Foi isto que os deixou maravilhados… Não se ficou a dever às suas virtudes, aos seus nomes, nem aos seus títulos; não carregavam panfletos de propaganda com o seu retrato; não foi a sua fama nem o seu projeto que cativou e salvou as pessoas. A alegria dos discípulos nascia da certeza de fazer as coisas em nome do Senhor, de viver o seu projeto, de partilhar a sua vida; e esta apaixonara-os de tal modo que se sentiram impelidos também a partilhá-lo com os outros.

E é interessante notar que Jesus resume a ação dos seus discípulos falando da vitória sobre o poder de Satanás; um poder que, por nós sozinhos, nunca podemos vencer, mas no nome de Jesus, sim! Cada um de nós pode dar testemunho destas batalhas e também de algumas derrotas. Nos inúmeros domínios mencionados onde exerceis a vossa obra evangelizadora, travais batalha em nome de Jesus. Em seu nome, prevaleceis sobre o mal, quando ensinais a louvar o Pai celeste e quando ensinais, com simplicidade, o Evangelho e o catecismo, quando visitais e assistis uma pessoa doente ou quando ofereceis o conforto da reconciliação. Em seu nome, sois vencedores dando de comer a uma criança, salvando uma mãe do desespero de ficar sozinha a cuidar de tudo, dando trabalho a um pai de família. É uma luta, uma luta vitoriosa aquela que se combate contra a ignorância, garantindo uma educação; é-o também quando se leva a presença de Deus ao contribuir para o respeito de todas as criaturas, na ordem e perfeição que lhes pertence, evitando o seu abuso ou exploração; e são sinais da vossa vitória também, quando plantais uma árvore ou ajudais a fornecer água potável a uma família. Grande sinal de vitória sobre o mal é quando vos aplicais a fazer recobrar a saúde a milhares de pessoas.

Continuai com estas batalhas, mas sempre na oração e no louvor, no louvor de Deus!

A luta, vivemo-la também em nós mesmos. Deus frustra a influência do espírito do mal, aquele espírito que muitas vezes nos transmite «uma preocupação exacerbada pelos espaços pessoais de autonomia e relaxamento, que leva a viver os próprios deveres como mero apêndice da vida, como se não fizessem parte da própria identidade. Ao mesmo tempo, a vida espiritual confunde-se com alguns momentos religiosos que proporcionam algum alívio, mas não alimentam o encontro com os outros, o compromisso no mundo, a paixão pela evangelização» (Evangelii gaudium, 78). Então, em vez de ser homens e mulheres de louvor, podemo-nos tornar «profissionais do sagrado». Ao contrário, derrotemos o espírito do mal no seu próprio terreno, ou seja, onde ele nos convida a apegar-nos a garantias económicas, a espaços de poder e glória humana, respondamos com a disponibilidade e a pobreza evangélica que nos levam a dar a nossa vida pela missão (cf. ibid., 76). Por favor, não deixemos que nos roubem a alegria missionária!

Queridos irmãos e irmãs, Jesus louva o Pai, porque revelou estas coisas aos «pequeninos». Estes pequeninos somos nós, porque a nossa alegria, a nossa felicidade está precisamente nesta revelação que Ele nos fez: a pessoa simples «vê e escuta» aquilo que nem os sábios, nem os profetas, nem os reis podem ver e escutar: a presença de Deus nos doentes e atribulados, naqueles que têm fome e sede de justiça, nos misericordiosos (cf. Mt 5, 3-12; Lc 6, 20-23). Felizes sois vós, feliz Igreja dos pobres e para os pobres, porque vive impregnada do perfume do seu Senhor, vive jubilosa, anunciando a Boa Nova aos descartados da terra, àqueles que são os preferidos de Deus.

Transmiti às vossas comunidades a certeza do meu afeto e proximidade, da minha oração e a minha bênção. Nesta bênção que vos darei em nome do Senhor, convido-vos a pensar nas vossas comunidades, nos vossos lugares de missão, para que o Senhor continue a abençoar todas as pessoas onde quer que se encontrem. Possais vós continuar a ser sinal da sua presença viva no meio de nós!

E, por favor, não vos esqueçais de rezar e fazer rezar por mim!

* * *

E, antes de terminar, gostaria de cumprir um dever de justiça e gratidão. Este é o último discurso dos nove que foram traduzidos pelo padre Marcel. Vou fazê-lo corar um pouco, porque terá de traduzir também isto. Mas quero agradecer ao tradutor. Padre Marcel [vira-se para ele], obrigado por este trabalho que fizeste, quero agradecer-te pelo modo preciso e também pela liberdade de dar sentido às palavras da tradução. Agradeço-te imenso e que o Senhor te abençoe.


9 de setembro

Santa Missa no Monumento de Maria, Rainha da Paz - Homilia

Aqui, diante deste altar dedicado a Maria, Rainha da Paz, nesta montanha donde vemos a cidade e, mais além, o mar, fazemos parte desta multidão de rostos que vieram das Maurícias e doutras ilhas desta região do Oceano Índico para escutar Jesus que anuncia as Bem-aventuranças, para ouvir a própria Palavra de Vida, com a mesma força que tinha há dois mil anos, o mesmo fogo que inflama até os corações mais frios. Juntos, podemos dizer ao Senhor: cremos em Vós e sabemos, pela luz da fé e o palpitar do coração, que é verdadeira a profecia de Isaías quando manda anunciar a paz e a salvação, levar a boa nova de que já reina o nosso Deus.

As Bem-aventuranças «são como que o bilhete de identidade do cristão. Assim, se um de nós se questionar sobre “como fazer para chegar a ser um bom cristão”, a resposta é simples: é necessário fazer – cada qual a seu modo – aquilo que Jesus disse no sermão das Bem-aventuranças. Nelas está delineado o rosto do Mestre, que somos chamados a deixar transparecer no dia-a-dia da nossa vida» (Francisco, Exort. ap. Gaudete et exsultate, 63), como fez o Beato Jacques-Désiré Laval, chamado o «apóstolo da unidade mauriciana», tão venerado nestas terras. O amor de Cristo e dos pobres marcou de tal maneira a sua vida que o protegeu da ilusão de realizar uma evangelização «abstrata e asséptica». Sabia que evangelizar implica fazer-se tudo para todos (cf. 1 Cor 9, 19-22): aprendeu a língua dos escravos recém-libertados e anunciou-lhes de maneira simples a Boa Nova da salvação. Soube reunir os fiéis, formá-los para empreender a missão e criar pequenas comunidades cristãs em bairros, cidades e aldeias vizinhas; muitas daquelas pequenas comunidades estão na origem das paróquias atuais. A sua solicitude levou-o a confiar nos mais pobres e descartados, para que fossem eles mesmos os primeiros a organizar-se e a encontrar respostas para as suas tribulações.

Através do seu dinamismo missionário e do seu amor, o padre Laval deu à Igreja mauriciana uma nova juventude, um novo respiro, que hoje somos convidados a continuar no contexto atual.

E devemos ter a peito este impulso missionário, pois pode acontecer que percamos o entusiasmo evangelizador, como Igreja de Cristo, caindo na tentação de nos refugiarmos em seguranças mundanas que acabam, pouco a pouco, por condicionar a missão tornando-a gravosa e incapaz de fascinar as pessoas (cf. Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium, 26). O impulso missionário tem um rosto jovem e capaz de fazer rejuvenescer. São precisamente os jovens que, pela sua vitalidade e dedicação, lhe podem dar a beleza e o frescor próprios da juventude, quando desafiam a comunidade cristã a renovar-se e nos convidam a partir para novos horizontes (cf. Francisco, Exort. ap. pós-sinodal Christus vivit, 37).

Isto, porém, nem sempre é fácil, pois exige que aprendamos a considerá-los e a dar-lhes lugar no seio da nossa comunidade e da nossa sociedade.

Nesta linha, custa constatar como, apesar do crescimento económico que registou o vosso país nas últimas décadas, sejam os jovens quem mais sofre: são eles os mais afetados pelo desemprego, o que lhes causa um futuro incerto e tira-lhes também a possibilidade de se sentirem protagonistas da sua própria história comum. Um futuro incerto, que os descarta e obriga muitas vezes a conceber a sua vida à margem da sociedade, deixando-os vulneráveis e quase sem pontos de referência perante as novas formas de escravidão deste século XXI. Eles, os nossos jovens, são a primeira missão! Devemos convidá-los a encontrar a sua felicidade em Jesus; não de maneira asséptica ou abstrata, mas aprendendo a dar-lhes um lugar, conhecendo a sua linguagem, ouvindo as suas histórias, vivendo ao seu lado, fazendo-lhes sentir que são abençoados por Deus. Não deixemos que nos roubem o rosto jovem da Igreja e da sociedade! Não permitamos aos mercadores de morte roubar as primícias desta terra!

Aos nossos jovens e a quantos como eles se sentem sem voz porque estão mergulhados na precariedade, o padre Laval dirigir-lhes-ia o convite a fazer ressoar o anúncio de Isaías: «Ruínas de Jerusalém, irrompei em cânticos de alegria, porque o Senhor consola o seu povo, com a libertação de Jerusalém» (52, 9). Mesmo quando parecer sem solução aquilo que nos rodeia, a esperança em Jesus convida-nos a reencontrar a certeza do triunfo de Deus não apenas para além da história, mas também na trama escondida das pequenas histórias que se cruzam e fazem de nós protagonistas da vitória d’Aquele que nos deu o Reino.

Para viver o Evangelho, não podemos esperar que tudo seja favorável ao nosso redor, porque muitas vezes as ambições do poder e os interesses mundanos jogam contra nós. São João Paulo II declarava «alienada a sociedade que, nas suas formas de organização social, de produção e de consumo, torna mais difícil a realização [do] dom [de si mesmo] e a constituição [da] solidariedade inter-humana» (Carta enc. Centesimus annus, 41c). Numa tal sociedade, torna-se difícil viver as Bem-aventuranças; a sua vivência pode até ser malvista, suspeita, ridicularizada (cf. Gaudete et exsultate, 91). É verdade, mas não podemos deixar-nos vencer pelo desânimo.

Ao pé desta montanha – gostaria que ela fosse hoje o Monte das Bem-Aventuranças –, devemos também nós recuperar este convite a ser felizes. Só os cristãos alegres suscitam o desejo de seguir este caminho; «a palavra “feliz” ou “bem-aventurado” torna-se sinónimo de “santo”, porque expressa que a pessoa fiel a Deus e que vive a sua Palavra alcança, na doação de si mesma, a verdadeira felicidade» (Ibid., 64).

Quando ouvimos o prognóstico ameaçador «somos cada vez menos», deveríamos preocupar-nos em primeiro lugar, não com o declínio desta ou daquela forma de consagração na Igreja, mas com a carência de homens e mulheres que queiram viver a felicidade pelos caminhos da santidade, homens e mulheres que deixem o coração inflamar-se com o anúncio mais belo e libertador. «Se alguma coisa nos deve santamente inquietar e preocupar a nossa consciência é que haja tantos irmãos nossos que vivem sem a força, [sem] a luz e a consolação da amizade com Jesus Cristo, [vivem] sem uma comunidade de fé que os acolha, sem um horizonte de sentido e de vida» (Evangelii gaudium, 49).

Quando um jovem vê um projeto de vida cristã abraçado com alegria, isto entusiasma-o e encoraja-o, sentindo um desejo que se pode expressar assim: «Quero subir a esta montanha das Bem-aventuranças, quero encontrar o olhar de Jesus e que Ele me diga qual é o meu caminho de felicidade».

Rezemos, queridos irmãos e irmãs, pelas nossas comunidades para que, dando testemunho da alegria da vida cristã, vejam florescer a vocação à santidade nas diferentes formas de vida que o Espírito nos propõe. Imploremo-lo para esta diocese e também para todas as outras que fizeram o esforço de vir até aqui. Padre Laval, o Beato cujas relíquias veneramos, também experimentou momentos de decepção e dificuldade com a comunidade cristã, mas por fim triunfou o Senhor no seu coração. Teve confiança na força do Senhor. Deixemos que esta força toque o coração de muitos homens e mulheres desta terra; deixemos que toque também os nossos corações de modo que a sua novidade possa renovar a nossa vida e a vida da nossa comunidade (cf. ibid., 11). Não esqueçamos que Aquele que tem a força de chamar, Aquele que constrói a Igreja, é o Espírito Santo, com a sua força. Ele é o protagonista da missão, Ele é o protagonista da Igreja.

A imagem de Maria, a Mãe que nos protege e acompanha, lembra-nos que Ela foi chamada a «bem-aventurada» (Lc 1, 48); a Ela que experimentou a dor como uma espada trespassando o seu coração, a Ela que passou pelo limiar pior da dor que é ver morrer o seu Filho, peçamos o dom da abertura ao Espírito Santo, da alegria perseverante, a alegria que não se deixa abater nem retrocede, a alegria que sempre nos faz experimentar e afirmar que o Todo Poderoso faz maravilhas, santo é o seu nome (cf. Lc 1, 49).


Agradecimento do Santo Padre no final da Celebração Eucarística

Antes de concluir esta Celebração, desejo dirigir a todos vós uma cordial saudação com os meus agradecimentos. Obrigado, em primeiro lugar, ao Cardeal Piat pelas suas palavras e por todo o trabalho de preparação desta visita! Agradeço a D. Aubry, ao coordenador, ao tradutor, aos restantes colaboradores e a todo o povo de Deus desta Igreja.

Expresso a minha viva gratidão ao Presidente da República, ao Primeiro-Ministro e às outras autoridades do país – encontrar-nos-emos ainda na parte de tarde – pela receção calorosa e o empenho generosamente demonstrado.

Com afeto, estendo o meu agradecimento aos sacerdotes, diáconos, homens e mulheres consagrados, aos numerosos voluntários. Saúdo os reclusos que seguiram o percurso «Alpha» na prisão e me escreveram; envio-lhes as minhas cordiais saudações e a minha bênção.

Por fim, uma saudação cheia de gratidão a todo o povo de Deus aqui presente, de modo especial aos fiéis de Seychelles, Reunião, Comores, Chagos, Agalega, Rodrigues e Maurícias. Asseguro-vos a minha oração e a minha proximidade. O Senhor continue a dar sabedoria e força a todos, para realizarem as suas legítimas aspirações. E vós, por favor, continuai a rezar por mim. Obrigado a todos!

Encontro com as Autoridades, a Sociedade Civil e o Corpo Diplomático no Palácio Presidencial

Senhor Presidente,
Senhor Primeiro-Ministro,
Distintos membros do Governo e do Corpo Diplomático,
Representantes da sociedade civil e de várias Confissões religiosas,
Senhoras e senhores!

Saúdo cordialmente as autoridades do Estado de Maurícia e agradeço-lhes o convite para visitar a vossa República. Agradeço ao senhor Presidente e ao senhor Primeiro-Ministro as amáveis palavras que acabaram de me dirigir, bem como a sua receção. Saúdo os membros do Governo, da sociedade civil e do Corpo Diplomático. Desejo também saudar e agradecer fraternamente a presença, aqui hoje, dos representantes de outras confissões cristãs e das várias religiões presentes nas Ilhas Maurícias.

Estou feliz pela possibilidade que esta breve visita me dá de encontrar o vosso povo, caraterizado não só por um rosto multiforme no plano cultural, étnico e religioso, mas também e sobretudo pela beleza que provém da vossa capacidade de reconhecer, respeitar e harmonizar as diferenças em função de um projeto comum. Assim é toda a história do vosso povo, que nasceu com a chegada de migrantes vindos de diferentes horizontes e continentes, que trouxeram as suas tradições, a sua cultura e a sua religião, e aprenderam, pouco a pouco, a enriquecer-se com as diferenças dos outros e a encontrar a forma de viver juntos, procurando construir uma fraternidade solícita do bem comum.

Neste sentido, possuís uma voz com autoridade – porque se fez vida – capaz de lembrar que é possível alcançar uma paz estável partindo da convicção de que «a diversidade é bela, quando aceita entrar constantemente num processo de reconciliação até selar uma espécie de pacto cultural que faça surgir uma diversidade reconciliada» (Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium, 230). Esta é base e oportunidade para a construção duma verdadeira comunhão no seio da grande família humana sem haver necessidade de marginalizar, excluir ou rejeitar.

O DNA do vosso povo guarda a memória destes movimentos migratórios que trouxeram os vossos antepassados até esta ilha e que os levaram também a abrir-se às diferenças para as integrar e promover tendo em vista o bem de todos. Por isso mesmo, na fidelidade às vossas raízes, vos animo a assumir o desafio de acolher e proteger os migrantes que hoje chegam aqui à procura de trabalho e, para muitos deles, à procura de melhores condições de vida para as suas famílias. Tende a peito acolhê-los como os vossos antepassados souberam acolher-se uns aos outros, como protagonistas e defensores duma verdadeira cultura do encontro, que permita aos migrantes e a todos ver reconhecida a sua dignidade e os seus direitos.

Na história recente do vosso povo, merece o nosso apreço a tradição democrática estabelecida desde a independência, que contribui para fazer das Ilhas Maurícias um oásis de paz. Faço votos de que este estilo de vida democrática possa ser cultivado e desenvolvido, contrastando nomeadamente todas as formas de discriminação. Pois «a vida política autêntica, que se funda no direito e num diálogo leal entre os sujeitos, renova-se com a convicção de que cada mulher, cada homem e cada geração encerram em si uma promessa que pode irradiar novas energias relacionais, intelectuais, culturais e espirituais» (Francisco, Mensagem para o LII Dia Mundial da Paz , 1 de janeiro de 2019). Possais vós, que estais empenhados na vida política da República de Maurícia, ser um exemplo para aqueles que contam convosco, especialmente os jovens. Possais, com o vosso comportamento e vontade de combater todas as formas de corrupção, manifestar o valor do vosso compromisso ao serviço do bem comum e sede sempre dignos da confiança dos vossos compatriotas.

Depois da independência, o vosso país registou um intenso desenvolvimento económico, de que devemos certamente rejubilar, mas sem deixar de permanecer vigilantes. No contexto atual, muitas vezes parece que o crescimento económico nem sempre beneficia a todos e até deixa de lado – devido a certas estratégias da sua dinâmica – um número considerável de pessoas, especialmente jovens. Por isso mesmo, gostaria de vos animar no desenvolvimento duma política económica orientada para as pessoas, que seja capaz de favorecer uma melhor distribuição das entradas, a criação de oportunidades de trabalho e a promoção integral dos mais pobres (cf. Evangelii gaudium, 204). E animar-vos a não ceder à tentação dum modelo económico idolátrico que precisa de sacrificar vidas humanas no altar da especulação e da mera rentabilidade, que tem em conta apenas o benefício imediato em detrimento da proteção dos mais pobres, do meio ambiente e seus recursos. Trata-se de prosseguir com aquela atitude construtiva que impele – como escreveu o cardeal Piat por ocasião do cinquentenário da independência das Ilhas Maurícias – a incentivar uma conversão ecológica integral. Tal conversão visa não só evitar fenómenos climáticos tremendos ou grandes desastres naturais, mas procura também promover uma mudança nos estilos de vida para que o crescimento económico possa verdadeiramente beneficiar a todos, sem o risco de causar catástrofes ecológicas nem graves crises sociais.

Senhoras e Senhores, gostaria de manifestar apreço pelo modo como trabalham juntas, nas Ilhas Maurícias, as várias religiões com as suas respetivas identidades, contribuindo para a paz social e recordando o valor transcendente da vida contra todo o tipo de reducionismo. Confirmo a disponibilidade dos católicos das Ilhas Maurícias para continuar a participar neste frutuoso diálogo que marcou tão fortemente a história do vosso povo. Obrigado pelo vosso testemunho.

Mais uma vez, obrigado pela vossa calorosa receção. Almejo de coração que Deus abençoe o vosso povo e todos os esforços que fazeis para favorecer o encontro entre diferentes culturas, civilizações e tradições religiosas na promoção duma sociedade justa, que não esqueça os seus filhos, especialmente os mais necessitados. Que o seu amor e a sua misericórdia continuem a acompanhar-vos e a proteger-vos. Muito obrigado pela vossa atenção.