Uma pergunta inesperada
Em abril de 2025, fizemos no Centro Cultural Navegantes uma convivência para preparar a Semana Santa. Era véspera do Domingo de Ramos. Naquele encontro, dei uma palestra para os rapazes, passando dia a dia da Semana Santa e explicando como viver bem cada momento. Usei como fio condutor muitas fotos que eu tinha tirado quando estive em Roma, vivendo a Semana Santa com um grupo do Brasil. Fui mostrando a beleza das cerimônias, a força da liturgia, o sentido de cada dia, e ao mesmo tempo explicando o que é o UNIV: essa convivência de Páscoa em que jovens do mundo inteiro se reúnem em Roma, convivem, participam do congresso, apresentam trabalhos, discutem ideias e têm a oportunidade de estar com o prelado e com o Papa.
A palestra foi avançando até chegar no ápice, a Vigília Pascal. E foi justamente ali, quando tudo parecia concluído, que aconteceu algo que ninguém tinha planejado. O Guto se levantou e disse, com toda naturalidade: “Por que a gente não vai no ano que vem para Roma?”. Aquilo não foi uma pergunta qualquer. Bateu em todos nós. Na hora, uns cinco ou seis já responderam: “eu vou também”. E assim começou nossa jornada inesperada.
De ideia a compromisso
O que começou como uma pergunta rapidamente virou decisão. Saímos da convivência já com esse assunto na cabeça e, nos dias seguintes, começamos a ver se aquilo era realmente possível. Fizemos orçamentos, buscamos informações, entendemos os custos e começamos a organizar minimamente. Aos poucos, o que poderia ter ficado só no entusiasmo foi ganhando corpo e se tornando um compromisso concreto.
Mas o mais interessante é que não foi apenas uma preparação de viagem. Foi uma preparação de vida interior. Ao longo do ano, cada um dos que confirmou presença foi se envolvendo de verdade. Cada um preparou uma apresentação sobre uma das grandes basílicas de Roma:São Pedro, São Paulo Fora dos Muros, Santa Maria Maior e São João de Latrão. Fizemos convivências ao longo do caminho, aprofundando o sentido da Semana Santa. Todos fizeram retiro. O grupo foi sendo moldado pouco a pouco, com unidade, com propósito e com profundidade.
A chegada: como crianças diante de algo maior
No sábado anterior ao Domingo de Ramos de 2026, finalmente chegamos em Roma. E já começamos, sem transição, com o Domingo de Ramos. Foi ali que caiu a ficha. Depois de tanto tempo de preparação, de tantas conversas, de tanto desejo cultivado, a gente simplesmente estava lá. A sensação era muito clara: parecia que éramos crianças diante de algo muito maior do que nós.
O vídeo que fizemos mostra bem isso. Um olhar de surpresa, de gratidão, de quem ainda está tentando entender o que está vivendo. Porque, no fundo, é isso mesmo. Existe toda a preparação, todo o esforço, toda a organização, mas no fim é graça.
Um contraste que marcou
Para mim, houve um aspecto que marcou de forma especial. Quando fui em 2011, era o responsável pelo grupo do Brasil, e aquele grupo tinha cerca de 10 pessoas, vindas de diferentes cidades de todo o país. Já era algo bonito e significativo. Mas agora, em 2026, o grupo do Brasil tinha 83 pessoas. E, dentro desse grupo, 10 eram de Florianópolis.
Era impossível não perceber esse contraste. Ver algo que cresceu, amadureceu e se expandiu ao longo do tempo.

Os dias em Roma: convivência e formação
Ficamos em um alojamento muito próximo de São Pedro, o que facilitava tudo e ao mesmo tempo criava um ambiente muito especial. Todos os dias eram intensos. Voltávamos das atividades e ainda tínhamos momentos de convivência, tertúlias, conversas profundas que iam muito além de um simples intercâmbio cultural.
Tivemos encontros muito ricos com pessoas que vivem Roma de dentro: alunos do Colégio Romano que estão ali em formação, e também a oportunidade de ouvir Dom Juan Ignacio Arrieta, secretário do Dicastério para os Textos Legislativos. Foram dias muito densos, com muito conteúdo, mas também com muita vida compartilhada.

A palestra principal do Congresso UNIV, na terça-feira, teve um grande destaque: Luke Burgis falou sobre a arquitetura na cultura e o poder do desejo humano. Uma palestra muito impressionante.
Além das principais basílicas, visitamos as catacumbas de São Calisto, os Museus Vaticanos, celebramos Missa na Cripta dos Papas e fizemos a visita impactante dos Scavi Vaticano, as escavações abaixo da Basílica que levam até o túmulo de São Pedro.

As cerimônias: o centro de tudo
Apesar de toda a riqueza cultural e formativa, havia algo que era claramente o centro de tudo: as cerimônias da Semana Santa. Era para isso que tudo apontava. Muitos do grupo tivemos a oportunidade de participar de celebrações mais íntimas, como a que assistimos em Santa Maria da Paz.
A Vigília Pascal: valeu cada minuto
Nosso grupo decidiu chegar muito cedo para a Vigília. Chegamos por volta das 16h, sendo que a cerimônia começaria apenas às 21h. Foram cinco horas de espera. E, olhando agora, valeu cada minuto.

A fila acabou sendo também um espaço de convivência. Conversamos com pessoas de vários lugares do mundo, trocamos histórias, experiências, expectativas. E, como fruto dessa espera, conseguimos um lugar muito bom. Assistimos à Vigília muito de perto, com toda a intensidade que aquele momento carrega. Foi uma experiência realmente forte.
Depois da Vigília
Terminada a celebração, veio um momento muito simples e muito humano. Saímos para comemorar. Sentamos juntos, tomamos uma boa cerveja, rimos, relembramos o que tínhamos acabado de viver. Era uma alegria verdadeira, fruto direto de tudo aquilo que tínhamos experimentado.

Olhando para trás
Quando olho para tudo isso, o que mais me chama atenção é como tudo começou de forma simples. Uma pergunta, feita quase sem pretensão, acabou gerando um movimento inteiro. Mas não ficou só na ideia. Houve decisão, compromisso, preparação e esforço ao longo do tempo.
E, no fim, foi graça. Uma semana vivida como ela deve ser vivida: com profundidade, com sentido, com intensidade. Algo que não passa e que continua ecoando dentro de cada um.
Uma nova oportunidade
Chegamos de volta à nossa ilha na madrugada de terça-feira, com direito a vários atrasos e a um pouso com arremetida, mas tudo deu certo no final.
Já na quinta-feira, convidamos todos que frequentam o Centro Cultural Navegantes para mostrarmos o que vivemos naqueles dias em Roma. Falamos com todo o coração e, ao final, exibimos o vídeo que está aqui neste artigo.
E a história se repetiu. Ao final da apresentação, dez jovens confirmaram que irão em 2027 para a Semana Santa em Roma, e outros nove estão pensando seriamente.
É muita graça.
