Uma vocação para encher o mundo de luz

Trajetórias pessoais de supernumerários, depois do retiro pregado por São Josemaria em 1949. Artigo de Luis Cano.

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Tradução do artigo de Luis Cano, publicado no número 18 da revista “Studia et Documenta”.

Resumo: Na Semana Santa de 1949, Josemaria Escrivá pregou em Molinoviejo um retiro para um grupo de profissionais. Vários deles foram os primeiros supernumerários do Opus Dei. O artigo conta como São Josemaria desenvolveu a pregação a este grupo, reconstruída em parte graças às anotações de alguns participantes e a trajetória pessoal de vários destes pioneiros.


Índice

A situação dos supernumerários em 1949

O retiro na Semana Santa de 1949

O retiro de Molinoviejo visto por José Ferrer-Bonsoms

O desenvolvimento do retiro e da pregação de Escrivá

José María Poveda Ariño

Mario Azara e os primeiros supernumerários de Valência e Gandía

Um exilado croata chega tarde ao encontro: Luka Brajnovic

Um antigo conhecido dos tempos de DYA: Miguel Deán Guelbenzu

Um pouco mais sobre a pregação de Escrivá no retiro

Um engenheiro de San Sebastián (Guipúscoa): Francisco Javier Urquía

Um estudante com “vocação matrimonial”: José María (Chemari) Hernández-Sampelayo López.

Um especialista em Direito Romano: Álvaro d’Ors

Conclusões


Este artigo dá continuidade a vários trabalhos anteriores sobre os primeiros supernumerários homens do Opus Dei[1]. Procuramos entender o que representava esta proposta vocacional para um grupo de católicos na década de 1940 na Espanha: que trajetórias seguiram aqueles que amadureceram sua a entrega a Deus como supernumerários nesses primeiros momentos e como o fundador do Opus Dei transmitiu-lhes o carisma que havia recebido.

Uma primeira fase dessa história vai desde o pedido de admissão dos três primeiros supernumerários, em 1947, até a semana de retiro-convivência de setembro de 1948, na qual São Josemaria explicou a quinze pessoas em que consistia essa chamada particular para seguir Jesus Cristo no mundo, no estado matrimonial ou, pelo menos, sem um compromisso formal de celibato. Um marco seguinte foi o retiro de Molinoviejo durante a Semana Santa de 1949, pregado inteiramente por Escrivá.

Nestas páginas trataremos desse retiro e de seus participantes. Inicialmente é preciso recordar brevemente o contexto em que tudo isto acontecia.

A situação dos supernumerários em 1949

A partir de 1947, depois da aprovação como instituto de direito pontifício, o Fundador aceitou algumas poucas pessoas como supernumerários. Ao mesmo tempo, ia delineando esta vocação: a vida de oração que teriam, o modo de atendê-los espiritualmente, os apostolados que desenvolveriam etc. Em janeiro de 1948 entendeu claramente que esta chamada não era diferente daquela que os membros celibatários haviam recebido, pois era um mesmo fenômeno vocacional. Mudava apenas a disponibilidade de tempo e de dedicação que cada um podia oferecer para as atividades internas do Opus Dei, em função das circunstâncias pessoais, em particular as familiares, dos diversos membros[2]. Uma outra diferença era que a vocação de supernumerário não incluía o celibato. A Santa Sé aprovou esta vocação, aceitando que os membros sem compromisso de celibato poderiam vincular-se juridicamente ao Opus Dei. Isto acontecia em março de 1948 e se confirmou após um ulterior esclarecimento pedido ao Fundador, em junho de 1950[3]. Com essa base jurídica e a disponibilidade de alguns leigos bem formados – entre os quais destaca-se Amadeo de Fuenmayor – e de um grupo de sacerdotes numerários que já se tinham ido ordenando desde 1944, já havia condições de propor esse caminho vocacional a um número maior de pessoas, garantindo seu atendimento espiritual. Os membros da Obra foram incentivados a procurar possíveis candidatos[4]. Chegaram alguns nomes: antigos residentes de DYA, pessoas que já conheciam em anos passados em diversas cidades, outros que conheciam pessoalmente o fundador do Opus Dei etc. Um grupo foi convidado à já mencionada convivência na casa de retiros de Molinoviejo em setembro de 1948. Dos quinze que assistiram, seis já haviam pedido admissão como supernumerários. Os outros nove terminaram a convivência sensibilizados, praticamente decididos a dizer sim a essa chamada, como realmente aconteceu nos meses seguintes.

Logo se organizaram outras atividades como recolhimentos mensais em Madri[5], e um retiro em Alacuás (Valência), pregado pelo padre Jesus Urteaga - um dos sacerdotes numerários – nos primeiros dias de dezembro de 1948[6]. Procuraram outras pessoas que pudessem entender a chamada como supernumerários. A situação das mulheres era mais incipiente. Em 1949, somente duas delas tinham pedido a admissão como supernumerárias e novos pedidos demorariam a chegar, embora, depois, o crescimento tenha sido constante, até superar a lacuna inicial em relação aos homens, como estudou Maria Merino[7].

O retiro na Semana Santa de 1949

O retiro teve lugar, em Molinoviejo, perto do povoado segoviano de Ortigosa del Monte, de 10 a 14 de abril de 1949, isto é, do Domingo de Ramos até a Quinta Feira Santa. Os que tinham sido convidados não sabiam quem pregaria, até descobrir, com grata surpresa que seria o próprio fundador do Opus Dei que os atenderia naqueles dias. Eram, no total, cerca de vinte participantes[8]. Não há uma lista, mas pode-se reconstrui-la quase completamente (há apenas uma dúvida[9]). A vários deles dedicaremos um espaço biográfico mais amplo pois transmitiram suas recordações desses dias. São eles: José Ferrer-Bonsoms, de Barcelona, que trabalhava com seguros; José Maria Poveda Ariño, médico psiquiatra, de Valência; León Mario Azara Pena, veterinário, de Gandía: Miguel Deán Guelbenzu, farmacêutico, que morava em Madri, embora fosse originário de Navarra; Francisco Javier Urquía Zaldúa, engenheiro; José Maria (Chemari) Hernández-Sampelayo López, professor universitário de Madri e o romancista de Barcelona, Álvaro d’Ors. Além disso, mencionaremos o jornalista croata Luka Brajnovic, que esteve presente só uns momentos e afirma que lá estava seu amigo Anton Wurster,[10] embora tal dado não conste no diário. Todos acabariam pedindo admissão como supernumerários tempos depois.

Outros que estavam ainda eram: Rafael Fontán Sáenz[11], arquiteto de Bilbao; Antonio Pons Pérez,[12] notário de Gandía; Rafael de Balbín Lucas[13], catedrático de Gramática e Crítica literária, na Universidade Central de Madri e que foi residente de DYA entre 1934 e 1936; José Lucas Gallego[14], farmacêutico e bioquímico; José Salgado Torres[15], funcionário público. Todos eles pediriam admissão na Obra.

Por outro lado, estavam José Maria Ruiz[16]; Jaime Aguilar Otermín, que estava preparando uma tese, e Luis Aldama: estes dois últimos eram amigos de José Maria Hernández-Sampelayo. Além desses, participou ainda um odontólogo de Reinosa, Eloy González Obeso, um dos primeiros rapazes a frequentar as aulas de São Rafael, no Asilo de Porta Coeli, em 1934[17].Estava também Silvério Palafox Boix, pai de Emilio e Silvério, membros do Opus Dei.

Junto aos participantes estavam na casa, organizando tudo, Amadeo de Fuenmayor, Juan Antonio Paniagua e Fernando Valenciano. Também estava lá Alberto Ullastres, que dirigia o carro para São Josemaria e Florentino Pérez Embid, que esteve nos últimos dias[18].

Entre os assistentes havia pessoas de várias localidades espanholas: Madri, Barcelona, Bilbao, Valência, Gandía, Reinosa... Suas idades oscilavam entre sessenta e cinco e vinte e cinco anos. Havia dois catedráticos de universidade e vários profissionais já conceituados; a maioria era, porém, formada por jovens profissionais ou que estavam preparando tese: cinco na casa dos vinte e sete na dos trinta anos. Vários haveriam de obter altos postos na vida política ou econômica do país, embora naquela época esse futuro não se pudesse prever por sua juventude: a mesma coisa se poderia dizer dos que, a longo prazo, se destacariam no campo científico e acadêmico.

O que se pode supor, isso sim, sem prever conclusões, é que alguns deles encontraram nas palavras de Escrivá o alento para comprometer-se a levar os valores cristãos à própria vida profissional e social – assim o declararam em algumas recordações –, com espírito de serviço à coletividade e sem abstencionismos. Não é possível, evidentemente, medir o grau de influência que as ideias de Escrivá tiveram neste plano, mas, como se verá, sua pregação e seus conselhos impulsionaram um grupo de homens a dedicar a própria vida a cultivar uma profunda amizade com Deus conjugando inseparavelmente esse ideal com o desejo de iluminar a sociedade, a ciência, a cultura em que viviam com a luz do Evangelho, cada um segundo suas possibilidades. Bem se poderia dizer que o que ele escreveria nos anos sessenta, referindo-se à obra de São Gabriel, já pairava neste retiro de 1949. “Todo nosso labor apostólico visa diretamente dar sentido cristão à sociedade humana, mas com a obra de São Gabriel preenchemos todas as atividades do mundo com um conteúdo sobrenatural que – à medida que for se estendendo – contribuirá eficazmente para solucionar os grandes problemas dos homens”[19].

A história pessoal de vários assistentes, em alguns casos relembradas por eles mesmos, permite reconstruir uma parte do apostolado do Opus Dei, e mais particularmente da obra de São Gabriel, em seus primeiros decênios.

O retiro de Molinoviejo visto por José Ferrer-Bonsoms

“No dia 10 de abril de 1949 – escreve José Ferrer-Bonsoms – Domingo de Ramos, estava anoitecendo quando eu cheguei à estação de Ortigosa del Monte, província de Segóvia e desci ao mesmo tempo do trem suburbano que tomei na estação madrilena do Norte junto com alguns homens que eu não conhecia, Amadeo de Fuenmayor esperava-nos na estação e guiou-nos por um pequeno caminho que ia iluminando com uma lanterna. Pela primeira vez cheguei a Molinoviejo[20].

José Ferrer-Bonsoms[21] era um jovem economista, procedente de Barcelona, onde morava com sua mulher, Carmen Millet, desde o seu casamento em 1946. Em fevereiro de 1949 havia recebido uma carta de seu amigo Ramón Guardans, convidando-o para o retiro. “Embora faltasse mais de um mês – recordava – respondi por telegrama aceitando, seguindo um impulso que eu nunca soube explicar”[22]. O que era inexplicável naquela resposta positiva por telegrama entende-se melhor conhecendo as disposições interiores de Ferrer-Bonsoms. Na primavera de 1943 já tinha conhecido o Opus Dei[23], mas, como ele mesmo escrevia, naqueles anos,

Eu tinha escassa formação e, pelo que me lembro, nenhuma visão sobrenatural – na verdade, nem sabia o que era isso. Quando eu estava no curso secundário, primeiro no Colégio dos Padres Escolápios em Villanueva y Geltrú e depois no dos Irmãos da Doutrina Cristã em Tarragona, eu tinha feito dois retiros. Minha recordação é que os dois sacerdotes que os pregaram eram muito bons, porém minhas defesas egoístas e inclusive ateias, impediram que sua palavra me penetrasse[24].

A situação familiar não era, além disso, muito boa para ausentar-se do lar por alguns dias. “Tínhamos – escreve – naqueles primeiros meses de 1949 um filho de um ano e meio e estávamos esperando o segundo para fins de junho. Era a primeira vez, desde que nos casáramos, que Carmen e eu íamos ficar separados por mais de um dia. Por um lado, meu pai havia tido outro enfarto fazia pouco e, embora estivesse recuperado, seu estado era relativamente grave (morreu em novembro do mesmo ano de 1949)” [25].

Apesar de tudo, foi para a capital, mas, estando lá, as dúvidas começaram a assaltá-lo. “Fui de trem de Barcelona a Madri, durante a noite de sábado para domingo. Estava sozinho em Madri, no Domingo de Ramos e pensei várias vezes em tomar outro trem e voltar para Barcelona, mas não fiz isso. À tarde fui ver um jogo de futebol e antes do final fui pegar o trem seguindo as indicações que eu havia recebido de Ramón para chegar a Molinoviejo”[26].

Já na casa, cumprimentou os outros participantes, que vinham de diferentes regiões da Espanha, e São Josemaria. No dia seguinte, Segunda-feira Santa, o fundador do Opus Dei pregou-lhes pela primeira vez. “O Padre (São Josemaria) pregou uma meditação, celebrou a Santa Missa, distribuiu-nos a Comunhão... não havia outro sacerdote e o Padre pregava todas as meditações – cinco ou seis por dia – conversava com quem desejasse fazê-lo, estava totalmente disponível para nós. Recordo ter-lhe dito que o meu pai estava com a saúde delicada e ele fez com que eu tivesse todas as facilidades para que eu pudesse ir Segovia telefonar a meus pais. Mas, até o último dia, não conversei com o Padre com calma”[27]. O retiro não visava explicar ou promover a vocação ao Opus Dei entre os assistentes e sim conseguir a sua conversão profunda, fazendo-os experimentar um encontro pessoal com Jesus Cristo:

Nas mais de vinte meditações que o Padre pregou, não falou da Obra. Falou muito de Jesus e de Maria, de São José e dos Anjos da Guarda, do Papa e da Santa Madre Igreja Católica, Apostólica e Romana. Com um tom coloquial, de conversa íntima de amigo, as palavras do Padre operaram em mim imediatamente uma mudança total de atitude, uma conversão. Fizeram-me descobrir, como uma realidade viva, como a única realidade, o imenso, o infinito amor de Deus por mim, por cima de meus pecados e de meus fracassos, que eu não me aceitava nem me perdoava. As palavras do Padre levaram-me imediatamente ao Amor de Jesus Cristo – de quem procediam –, ao Caminho. Recordo que passei muitos momentos no oratório, pedindo perdão, agradecendo e ... chorando: começando a procurar Jesus[28].

Um momento esperado pelos participantes foi a conversa com o pregador. O jovem economista sentiu-se acolhido por Escrivá:

Atendeu-me com grande carinho e delicadeza. Lembro que disse para me sentar, mas eu lhe disse que queria, em primeiro lugar, confessar. O ‘clima’ era de grande liberdade, o Padre queria fazer só o que eu desejasse, queria ajudar-me. Havia me levado ao Caminho, a Jesus e ele desaparecia, ficava no último plano. Pedi-lhe ajuda para corresponder ao Amor de Jesus. Disse-me – já estávamos sentados depois da minha confissão –, que tivesse um pequeno plano de vida, deu-me uma folha de um bloco, um lápis e me disse que escrevesse: Meditação. Santa Missa. Comunhão. Angelus. Visita ao Santíssimo. Santo Rosário. Ler o Evangelho... Pegou o papel e o lápis de minhas mãos e escreveu, com sua caligrafia firme, segura: “Exame: 1) O que fiz bem? Agradecer. 2) Que coisas poderia ter feito melhor? 3) Que coisas fiz mal? Perdão. Propósitos”[29].

A mudança que José Ferrer-Bonsoms experimentou foi radical. Com o passar dos anos, aquele retiro aparecia para ele “como o acontecimento mais decisivo de minha vida. Não com relação, evidentemente, à minha atividade profissional, à minha vida familiar, social que foram e continuam sendo as normais de um pai de família que luta para cumprir suas responsabilidades. Mas, sim, quanto à dimensão destas responsabilidades, no empenho em servir na vida cotidiana, como Jesus Cristo, tal como o Padre – ipse Christus – me ensinou e me ensina a ver e a continuar”[30]. Uns meses depois ele se sentiu chamado por Deus a uma vida de entrega e pediu admissão como supernumerário em 4 de outubro de 1949.

Ferrer-Bonsoms conta uma pequena história sobre o final do retiro que Amadeo de Fuenmayor relembra com mais detalhe, por isso é a sua versão que seguimos:

Por medo, sem dúvida, de que se desse uma explosão de entusiasmo, o Padre não quis suspender o silêncio e assim chegamos à última meditação. Seguindo suas indicações, esperei – junto com os outros – no oratório depois de terminada a meditação, até ouvir o barulho do motor do carro em que ele voltou a Madri. Então, tendo eu dito a jaculatória habitual – “Sancta Maria, Spes nostra, Sedes Sapientiae” – saímos todos e recordo bem que tive de me defender daqueles homens que se alvoroçaram um pouco quando lhes disse que o Padre já tinha ido embora[31].

Ferrer-Bonsoms viveu a aventura de criar e educar quinze filhos com sua mulher, Carmen Millet Muntadas, também supernumerária. Sua vida não foi fácil. Embora tenha chegado a ser um empresário importante[32], nos começos passou necessidades materiais de todo gênero, trabalhando desde muito jovem[33] para pagar os estudos de professor mercantil em Barcelona e de agente de seguros em Madri. Começou depois a trabalhar no setor de seguros com o empresário catalão Félix Millet i Maristany[34], que, em 1951, enviou-o ao Chile e à Argentina. Nesses países teve um papel significativo no desenvolvimento do trabalho do Opus Dei[35]. Morou seis anos em Buenos Aires, onde fundou uma indústria.

Na volta à Espanha entrou para o Banco Popular e entre 1960 e 1961, foi aluno do Instituto de Estudos Superiores da Empresa (IESE, Universidade de Navarra). Entrou depois, como conselheiro delegado, no Banco Atlântico, e, a partir de 1963 foi presidente do Bank-Union, a União Industrial Bancária, fundada em Barcelona naquele ano. A partir desta entidade apoiou e ajudou a criar centenas de empresas, sobretudo na Catalunha. A iniciativa mais importante foi a construção das rodovias Barcelona-La Jonquera e Montgat-Mataró, que depois foram ampliadas. A primeira foi inaugurada em 1969. A crise econômica em fins dos anos setenta e diversos problemas no setor bancário espanhol levaram-no a renunciar a seus cargos e a ter que recomeçar profissionalmente. Na volta de uma nova estadia na Argentina, entre 1981 e 1983, ficou desempregado. Quis, porém, aos sessenta e três anos, fazer o concurso de censor jurado de contas, no qual passou com êxito. Exerceu depois a profissão livre de auditor[36]. Aqueles que o conheceram comentam sua alegria contagiosa e sua sobriedade e austeridade pessoal, bem como seu zelo apostólico, também nos últimos anos de sua doença[37]. Faleceu em Pamplona em 14 de abril de 2001, exatos cinquenta e dois anos depois do retiro de Molinoviejo.

O desenvolvimento do retiro e da pregação de Escrivá

A menção de Ferrer-Bonsoms à pregação de Escrivá introduz um aspecto chave daqueles dias e de toda a orientação que o Fundador quis dar à obra de São Gabriel: a pregação de São Josemaria desvelou o infinito amor de Deus por eles e os levou a enamorar-se de Jesus Cristo até – em muitos casos – a decidir-se a entregar-lhe a vida.

O diário daqueles dias conservou algumas ideias dessas meditações. Embora quase nenhuma frase seja literal será útil mencionar algumas aqui.

Na primeira noite, depois do jantar, houve uma tertúlia em que São Josemaria respondeu a muitas perguntas sobre a Obra. Falando dos participantes, pode-se ler: “Todos, com bons amigos de Casa, com possível vocação de supernumerário em um prazo mais ou menos curto; muitos com um desejo ardente de pedir admissão”[38]. Muitos, para chegar, tiveram que vencer dificuldades tanto familiares como econômicas, que foram providencialmente solucionadas.

Naquela noite, na meditação preparatória, Escrivá apresentou as pautas para aqueles dias como anota o autor do diário. “Para que viestes aqui? Para conhecer melhor a Jesus, amá-lo e servi-lo mais. Basta que haja um pequeno esforço de nossa parte e Ele fará tudo. Ex. [exemplo] do homem da mão seca: ‘Extende manum tuam!’[39]. E se nem somos capazes de um pequeno esforço, Ele fará que possamos olhar para cima, como fez com a mulher encurvada”[40].

No dia seguinte, durante a segunda meditação, São Josemaria falou sobre a fé. Para Javier Urquía, ele falou “em termos quase idênticos a uma fita magnética que ouvi anos mais tarde”[41], de cuja transcrição Escrivá se serviria para escrever uma homilia, publicada primeiramente em 1973 e depois incluída em Amigos de Deus, em 1977[42]: Vida de fé. O diário traz algumas ideias desta meditação:

Jesus Cristo vive hoje, como ontem e sempre. Com o mesmo poder, com o mesmo amor. Evitemos a consideração de [que é] uma simples figura histórica! Exemplos do Evangelho: o cego de nascimento: ‘Vai e lava-te!’ Ele vai com fé e volta curado[43]. Outro cego na entrada de Jericó, Bartimeu[44]. ‘Jesus, filho de Davi, tem compaixão de mim! ’ As pessoas mandam que se calem, como os que nos rodeiam: não dês importância, não compliques a vida! Porém, ele grita mais. “Ânimo, ele te chama! ” diz-lhe um bom amigo. Ele joga a capa; desprendimento. ‘Tua fé te salvou’. Fé operativa, fé com obras, superando as dificuldades[45].

Nas outras meditações daquele dia falou de diversos temas: o fim do homem; o pecado; a morte. A última meditação do dia – segundo o diário – foi sobre a humildade:

É o alicerce da vida interior. Não essa falsa humildade que se opõe à vontade de Deus, como Pedro no lava-pés[46]. ‘Não sou digno, não sirvo...’ Nem essa moleza que leva a não cumprir os deveres, nem a exigir os direitos. Cuidado: não sejam humildes só em ambientes difíceis, mas rudes no seio familiar! Cuidado, não sejais desses “santos” que só dois outros santos podem aguentar. 90% dos desgostos procedem da soberba e 10% da carne. Segredo da felicidade: queres ser feliz? Seja santo! Quer ser muito feliz? Seja muito santo! Estou persuadido de que só serão felizes no céu os que são felizes na terra. Sejam duros com as próprias misérias, compreensivos com as alheias. Não são necessários gestos ou palavras pseudohumildes; a humildade é a verdade! Jesus humilhado até a Cruz. Até a Eucaristia[47].

A primavera estava muito agradável, refere o diário, e notava-se o fervor dos assistentes. Um deles, Lucas Gallego, foi pedir admissão na Obra a São Josemaria que lhe respondeu com ‘um não rotundo’, como explica o diário. “O Padre diz-lhe que espere o outono, mas isso parece muito tarde para Lucas que procura a intercessão de Amadeu; este não lhe dá nenhuma esperança e não diz nada ao Padre. Então Lucas reza com fé a Isidoro e no dia seguinte, sem nenhuma insistência de sua parte o Padre o chama e lhe permite escrever a carta”[48].

No dia seguinte, os temas foram: a comparação inaciana do Rei temporal; a Encarnação; o Nascimento de Jesus. Entre as notas desta última meditação, se lê: “Nascimento de Jesus”. Naturalidade da Sagrada Família; tudo simples, tudo humilde. Vida santa sem esquisitices, em nosso ambiente e condição. Parece esquisito para muitos que não sejamos esquisitos. O primeiro anúncio do Natal foi feito aos pastores, porque são humildes e estão trabalhando, guardando os rebanhos. Encontramos o Senhor na própria profissão? A Virgem, como qualquer mãe, enfaixa o menino e o reclina. E depois adora-o com São José, com os pastores e os Anjos[49].

Na quarta meditação daquele dia continuou tratando do Nascimento de Jesus, para introduzir o tema da caridade:

Em Belém, Cristo dá lições de todo tipo de virtudes, mas, sobretudo, de caridade. É por amor que está lá feito uma criança frágil. “Mandatum novum...”[50] e hoje ainda continua sendo novo. Os homens não se amam; os cristãos não se amam. E é isso precisamente que o Senhor quer que os seus façam. Nos tempos de Jesus o mundo ardia em luxúria. Jesus é a própria pureza (“maravilhavam-se de que estivesse falando com uma mulher”[51]), contudo, porém, não diz “vocês serão conhecidos porque são castos’. A soberba dominava em Roma; Jesus é “manso e humilde de coração”[52], mas não diz “serão conhecidos porque são humildes ...”. Diz que serão conhecidos porque amam”! Não com caridade oficial, fria (“Aqui me tratam com caridade, mas minha mãe me tratava com carinho”); caridade ardente, carinho autêntico. Exemplos da caridade de Jesus: com os discípulos, com a adúltera, com Zaqueu, com a viúva de Naim... E comecemos pelos nossos; não sejamos muito atentos com os outros e insuportáveis em nossas casas[53].

Na última meditação desse dia tratou da mortificação e na primeira do dia seguinte, 13 de abril, voltou a outro tema tirado dos Exercícios espirituais de Santo Inácio, o símil das “duas bandeiras”[54]. Punha à frente daqueles que o escutavam a chamada de Jesus a seus apóstolos para pregar a chegada do Reino de Deus: “Ele chama você, que pelo menos tem vocação de cristão, e talvez vocação para algo mais. O que o impede de segui-lo não é uma corrente, nem uma corda; é fio de seda ou teia de aranha, mas prende-o da mesma forma. Pede ao Senhor luz e força para cortá-la”[55].

“Na segunda meditação, o Padre expõe a parábola da cizânia”, continua o diário, introduzindo o tema da responsabilidade dos leigos católicos na tarefa de iluminar o mundo com a luz de Cristo, tema central na proposta que São Josemaria dirigia aos que pensavam em sua provável vocação como supernumerários e aos cooperadores: Digamos a Jesus com a simplicidade dos apóstolos: “Edissere nobis parabolam”[56]. “Enquanto os homens dormiam...”: os homens que tinham obrigação de vigiar! Você tem o dever de guardar solicitamente o campo do Senhor. “Veio o inimigo e semeou cizânia”. Como acontece nessas murmurações vis, miseráveis, pelas costas do interessado. Muitas vezes os “bons” arrancam a honra do próximo a dentadas. “Não arranquem a cizânia, deixem que cresça com o trigo”. E assim conviveremos com os maus, sem, porém, deixar-nos dominar por eles. Não há direito de meter-se na casa! Não é admissível ser católico em casa e leigo em público! À política, à direção na economia! Dar tudo o que pudermos sem medo. Experiência da inibição dos católicos nos primeiros tempos da unidade italiana; aquilo foi um grande protesto, mas, normalmente não deve ser assim[57]. Se algum dia for necessário ir às ruas para fazer propaganda, serei o primeiro a ir. Cada um tem liberdade de opinar como quiser no que é opinável, sempre, porém, com um denominador comum: Amor e serviço à Igreja de Cristo. Três grandes amores: Jesus, Maria e o Papa[58].

José María Poveda Ariño

Voltando aos participantes, vamos referir-nos agora a José Maria Poveda Ariño[59].Conheceu São Josemaria por volta do fim do verão de 1939, nos difíceis tempos do pós-guerra espanhol. Desde 1934 tinha acompanhamento espiritual com o pe. Eládio España, “um sacerdote com virtudes e piedade notáveis, que se dedicava especialmente ao apostolado com jovens universitários”[60], e que com o tempo chegaria a ser muito amigo de Escrivá de Balaguer, e que encaminharia para a Obra futuros membros do Opus Dei.

Fazia anos que o pe. Eládio vinha falando a Poveda de entrega a Deus e o jovem médico pensava que “ter sobrevivido à guerra era sinal de uma maior exigência no serviço de Deus Nosso Senhor e das almas”. Foi o sacerdote valenciano que o apresentou ao Fundador do Opus Dei, como “o autor de um livro com o qual ele podia fazer oração: Caminho, cuja primeira edição vinha à luz naqueles dias em Valência, minha cidade natal”. Sua impressão foi muito favorável e Poveda guardou a recordação de ter encontrado uma pessoa não só dotada de uma “vigorosa e equilibrada personalidade”, mas também de uma “sobrenaturalidade natural”[61].

Voltaram a ver-se só dez anos depois, quando ele participou no retiro em Molinoviejo, do qual estamos falando. Como também havia sublinhado Ferrer-Bonsoms, Poveda anota que “desde a meditação preparatória até a última sobre o encontro do Senhor com os discípulos de Emaús, a fé do Padre estava focada na Pessoa de Jesus Cristo através de um vivíssimo diálogo com o texto dos Santos Evangelhos: ‘Cristo, ontem, hoje e sempre’, ‘...verdadeiro Deus e verdadeiro Homem!’, ‘Como te vejo Cristo..., cansado, adormecido no fundo da barca’ (cfr. Mc., IV, 38 e Lc, VIII, 23). ‘Fatigado pelo caminho, sentado junto ao poço de Jacó’ (cfr. Jo, IV, 6). Cristo, com um coração como o meu, como o teu”[62].

Poveda também conversou pessoalmente com São Josemaria: “Manifestei-lhe minhas disposições interiores e meu entusiasmo pessoal com relação à vocação, e ele animou-me simplesmente a perseverar nas minhas disposições, indicando-me que falasse disso aos diretores de Valência, onde eu morava na época: lá me diriam o que eu devia fazer”[63]. Seguiu as indicações e pediu admissão como supernumerário, poucos dias depois, em 7 de maio de 1949.

Depois – lê-se em suas lembranças – durante o ano letivo de 1949-50, em uma viagem que fez a Valência, estive com ele na residência da rua de Samaniego. Éramos então três sócios supernumerários naquela cidade: Antonio Ivars, Carlos Verdú e eu. Creio que foram também Antonio Pons, já falecido, e Mario Azara de Gandía e eu soube que era o próprio Padre que nos chamara. Falava-me sempre de oração e da necessidade de formar-me muito bem profissionalmente[64].

Foi o que ele fez, com efeito. Poveda era doutor em medicina e chegou a ser um eminente profissional no campo da Psiquiatria. Característica de sua atividade foi dar especial atenção à formação de psiquiatras e psicólogos, tal como São Josemaria lhe havia recomendado em outro momento[65]. Foi chefe do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade Autônoma de Madri, chefe de serviço do então Hospital Psiquiátrico Alonso Vega (hoje, Hospital Doctor Rodríguez Lafora) e fundador da Associação Católica Internacional de Psicologia Médica e Psicoterapia. Escreveu muitos trabalhos sobre sua especialidade e um estudo sobre a personalidade de Santa Teresa de Jesus. Aqueles que o conheceram destacam sua fidelidade à vocação, sua generosidade e seu espírito apostólico. Dirigia um círculo de cooperadores a amigos e uma tertúlia sobre temas doutrinais para outros. Até o dia do seu falecimento trabalhou e cumpriu seu encargo de zelador de seu grupo de supernumerários[66].

Mario Azara e os primeiros supernumerários de Valência e Gandía

León Mario Azara Pena[67], mencionado por Poveda, foi outro dos primeiros supernumerários do leste espanhol. Era veterinário do corpo militar, amigo de Carlos Verdú, advogado valenciano que havia conhecido São Josemaria em 1939, durante o primeiro retiro que o Fundador pregou no Colégio Mayor San Juan de Ribera, em Burjasot, Valência. Verdú, junto com Ivars, foram os dois primeiros supernumerários do leste e haviam participado no mês de setembro anterior no já citado retiro-convivência de setembro de 1948 em Molinoviejo[68]. De lá voltaram muito entusiasmados pelo panorama vocacional que São Josemaria havia aberto diante deles e pediram admissão na Obra.

O próprio Verdú recordava que havia voltado de Molinoviejo “com o entusiasmo contagioso que o Padre nos transmitia”[69] e não tardou em convidar seu amigo Azara para participar no já mencionado retiro que o pe. Jesus Urteaga pregou, nos primeiros dias de janeiro de 1948, em Alacuás (Valência). “Lembro-me – anotava Azara – que numa das vezes em que conversei com o pe. Jesus, ele me perguntou: ‘Você quer ser santo?’. Respondi: ‘Como todos. Quero ser santo’”[70].

Azara e Verdú haviam-se encontrado no Congresso Eucarístico Arciprestal em Gandía. “Para a organização daquele Congresso – recorda Azara – participávamos alguns sócios da Ação Católica de Gandía e, no encerramento, Carlos, não querendo perder contato com alguns de nós, que havíamos levado à frente o Congresso, reunia-nos na casa de Antonio Pons, tabelião em Gandía, lia para nós alguns pontos de Caminho e nos falava do Opus Dei, tendo assim iniciado meus primeiros contatos com a Obra. Conhecíamos estas reuniões com o nome de ‘Fragua’”[71].

Em fevereiro de 1949, Azara teve a oportunidade de conhecer pessoalmente a São Josemaria. Verdú ficou sabendo que o fundador do Opus Dei passaria por Valência e pediu para ser recebido, junto com um tabelião, um médico e um veterinário que queriam conhecê-lo.

O Padre me concedeu essa audiência – relata Verdú – esteve conosco um pouco mais de um quarto de hora e no rosto dos ouvintes percebia-se claramente o entusiasmo apostólico que as palavras do Padre despertavam. Lembro que ao despedir-nos, chamou-me de lado e perguntou-me quanto tempo se levaria do lugar em que estávamos – era precisamente a Residência de Samaniego – até a estação à qual ia acompanhá-los. Eu lhe disse que seria cerca de meia hora, e que ele me respondeu: “Dá tempo; levam o rejón de muerte[72]. Com isso o Padre queria me dizer que estavam tão dispostos que, em uma única meia hora, podia propor-lhes o tema de sua vocação à Obra[73].

Os amigos de Verdú eram Antonio Pons (o tabelião), Joaquín Bellver (o médico) e Mario Azara (o veterinário). Recordando esta entrevista, Azara escrevia anos depois que “recebeu-nos na Residência de Samaniego e sem perda de tempo, depois das apresentações, começou a falar de Deus e de santidade. Ao perguntar-nos se suas palavras nos incomodavam, todos juntos respondemos que não. Na saída, já sozinhos, comentávamos que ele nos tinha pregado uma meditação e que se tinha mostrado muito amável e carinhoso”[74]. Azara, relembrando o processo de discernimento que o levou à entrega como supernumerário do Opus Dei, tornava evidentes os passos que certamente muitos outros percorreram naquela época: descobrir o espírito da Obra através de Caminho e de algum amigo, membro ou simpatizante; participar de um retiro – neste caso foram dois – e conhecer pessoalmente o fundador do Opus Dei. Tal processo viu-se, por assim dizer, confirmado durante o retiro do qual Azara participou com o Fundador na Semana Santa de 1949. Durante aqueles dias, contava anos depois, “Falei com o Padre duas vezes. Eu pensava que o que me propunham como caminho para alcançar a santidade eu já o estava vivendo nas associações das quais eu participava e foi o que eu disse ao Padre. Eu não havia ainda captado o que o Opus Dei havia de representar em minha aproximação de Deus ao longo de minha vida”[75].

Vemos o mesmo aspecto nos itinerários de vários supernumerários da primeira hora: pessoas que colaboravam ativamente com a Ação Católica ou com outras associações apostólicas ou de piedade. No Opus Dei descobriram uma chamada concreta à santidade, uma missão apostólica para eles no mundo, especialmente no ambiente de trabalho, para iluminá-lo com a luz de Cristo:

Falava-me da necessidade de ser santos, de que já era hora de que nós leigos nos lançássemos - não são palavras textuais – a viver o Evangelho, procurando ser santos no meio do mundo, no ambiente em que Deus nos colocou e no lugar que cada um ocupa na sociedade, procurando levar Cristo a todas as atividades humanas ou temporais. Ele me dava como exemplo a revista ‘ARBOR’ na qual colaboravam alguns sócios do Opus Dei[76].

Quando o retiro estava terminando, conversaram outra vez. Mario Azara não tinha dúvidas: “eu tinha visto claro que o Senhor me chamava ao Opus Dei. No entanto, foi-me indicado que eu fosse para a cidade onde morava e, se durante um mês continuasse com o mesmo propósito, que eu pedisse então a admissão à Obra”[77]

De volta a Gandía ele continuou com um completo plano de vida de piedade, e cada vez eu estava mais convencido de que devia pedir admissão ao Opus Dei. Passaram os anos e fui recebendo uma formação espiritual que me levava a uma presença de Deus quase contínua, a retificar a intenção com frequência, a viver alegre mesmo nos momentos de prova, a amar muito o Padre, a Igreja, a Virgem, a Eucaristia, a Santíssima Trindade e São José. Foi-me recomendada uma grande devoção aos Anjos e ao Santos. E também que cuidasse a Liturgia. Que amasse os homens e o mundo. Que compreendesse, perdoasse e amasse a todos. Que santificasse o trabalho cotidiano, oferecendo-o ao Senhor...[78].

Não precisou esperar muito. No dia 20 de maio de 1949, Mario Azara pedia admissão ao Opus Dei. Seus amigos de Gandía, Antonio Pons e Joaquín Bellver seguiram os mesmos passos. Com a ajuda de Carlos Verdú, constituíram um foco de irradiação apostólica em Gandía.

Em sua cidade, Azara era muito conhecido por sua colaboração com diversas instituições e por seu trabalho profissional. Tinha perdido o braço direito na Guerra civil espanhola, mas isso não o limitava. Os que o conheceram na Obra recordam a sua perseverança apostólica com seus amigos – organizava, por exemplo, uma tertúlia todos os sábados com seus colegas veterinários – um bom número dos quais aproximou de Deus e muitos receberam também a vocação à Obra. Era encarregado de coordenar as atividades de um grupo de supernumerários e prestar-lhes ajuda espiritual, tarefa que procurava viver com responsabilidade e carinho aos demais[79]. Ele e sua mulher María García, que também era da Obra[80], tiveram sete filhos. Sua última doença não o impediu de acompanhar muito de perto as notícias da Obra e do apostolado. Para evitar esquecer-se, quatro dias antes de morrer – quando seu estado já era muito grave – pediu que lhe escrevessem os objetivos apostólicos pelos que tinha que rezar, secundando assim a intenção mensal pela qual todos os membros do Opus Dei oferecem orações e sacrifícios.

Um exilado croata chega tarde ao encontro: Luka Brajnovic

Luka Brajnovic Dabinovic[81], exilado croata, tinha previsto assistir ao retiro, mas uma distração o impediu de participar. Era amigo de Vladimiro Vince[82], o primeiro membro não espanhol do Opus Dei, que tinha pedido admissão na Obra em 26 de abril de 1946, e de Anton Wurster[83], outro croata que conheceu o Opus Dei em Roma e que pediria a admissão mais tarde como supernumerário[84].

Brajnovic tinha chegado a Espanha depois de uns anos dramáticos. Nascera no dia 13 de janeiro de 1919 em Kotor, cidade situada numa baía de grande beleza na atual Montenegro, na costa da Dalmácia. De 1420 a 1797, esse enclave pertenceu à República de Veneza, sob o nome de Cattaro. O regime fascista de Mussolini procedeu à sua anexação ao Reino da Itália, durante a Segunda guerra mundial, entre 1941 e 1943, e isso determinou, como veremos, o começo do calvário do jovem croata. Brajnovic – convidado por Wurster – havia participado de tertúlias no Colégio Mayor Moncloa e não ficou com uma ideia muita clara sobre o Opus Dei, parecia-lhe algo similar a uma organização de intelectuais católicos de seu país. Wurster o convidou ao retiro de Molinoviejo e aceitou o convite, mas, como recordava Brajnovic “não fui com ele. Dias antes fui de Madri a Segovia à casa de um amigo com o qual ia organizar uma exposição de fotografias com imagens da minha terra[85]. Eu pensava ir depois a Molinoviejo. Foi o que eu fiz, mas um ou dois dias (não me lembro exatamente) da data que Wurster tinha dito[86].

Quando chegou a Molinoviejo, disseram-lhe que era muito tarde para fazer o retiro. Brajnovic afirma que foi Wurster, que estava lá, quem lhe disse isso, mas o diário não menciona este último. É possível que o autor do diário tenha se esquecido de mencionar a presença de Wurster no retiro. Porém, parece improvável porque o diário era escrito logo depois dos fatos e se refere a eles de maneira minuciosa. Parece mais provável que as lembranças de Brajnovic – redigida muitos anos depois e que são um pouco contraditórias e imprecisas – tenham confundido seu amigo Anton com outro amigo Vlado, que tinha chegado na quarta-feira, dia 13, a Molinoviejo para fazer consertos na casa[87]. Diante da expressão desolada de Luca, pediram-lhe que esperasse um pouco e voltaram dizendo-lhe que o pe. Josemaria Escrivá queria vê-lo. “O Padre me recebeu em seu quarto – relembrava Brajnovic – já sabia da minha distração e da minha situação[88]. Os últimos anos de sua vida foram duros[89]. Em 1941, Brajnovic, ativista e jornalista croata, foi preso pela polícia italiana por criticar Mussolini em um artigo[90]. Certa noite, quando estava sendo deportado para a Itália no navio de guerra Dubrovnik, conseguiu escapar descendo por uma corrente e mergulhando para não ser visto pelo refletor que varria o mar e nadando até a margem. Com um salvo conduto falso foi para Zagreb, onde voltou a trabalhar em seu jornal. Lá ficou noivo de Ana Tiján, que seria mais tarde sua esposa.

Em 1943, um trem em que viajava descarrilhou por causa de uma bomba e foi metralhado. Brajnovic sobreviveu por milagre, mas caiu nas mãos de guerrilheiros comunistas, autores do atentado. Então começou um calvário e foi testemunha de atrocidades e escapou várias vezes da morte. Foi preso e sofreu tortura em campos de concentração, até que conseguiu fugir de novo e voltar ao seu jornal em Zagreb. Quando, porém, publicou uma alocução de Pio X, na qual o racismo e a ideologia nazista eram condenados, as autoridades favoráveis ao nazismo fecharam seu jornal[91]. Apesar dessas circunstâncias dramáticas, Luka e Ana decidiram casar-se, mas nem sequer nesse dia puderam esquecer a guerra, pois houve um forte bombardeio durante a cerimônia[92].

Ao acabar a guerra, a vitória do Marechal Tito obrigou-o a tomar o caminho do exílio, em 6 de maio de 1945, pois, apesar de ser inocente, era quase certo que acabaria por ser assassinado, como aconteceu com dois de seus irmãos – um deles, sacerdote – e jornalistas e ativistas católicos. Com dor, teve que deixar lá sua mulher e sua primeira filha, Elica, de poucos meses. Só voltaria a vê-las doze anos depois[93]. Esteve na Itália, onde Vladimiro (Vlado) Vince ofereceu-lhe um lugar na Assistência Pontifícia aos refugiados. Em fins de junho ou princípios de julho de 1946, na Praça de São Pedro, apresentou-lhe dois sacerdotes espanhóis: Josemaria Escrivá e Álvaro del Portillo. Em seu livro de memórias Brajnovic anota: No primeiro momento, o simples fato de conhecer um sacerdote em Roma não era nem objetiva nem pessoalmente um acontecimento especial para mim. Mas fui com certa curiosidade ao encontro com o fundador do Opus Dei. Eu esperava fazer uma simples entrevista jornalística, mais por curiosidade do que por qualquer outro motivo, embora Vlado e Anton falassem dele como de um ‘homem de Deus que transbordava simpatia e humanidade’ [...]. Naquela época eu estava em uma encruzilhada sobre a qual havia baixado uma espessa névoa de desalento, dúvidas, tristezas e rebeldias. Aquele homem, no entanto, atraiu-me imediatamente com sua amabilidade e elegância. Não era um estranho que se limitava a fazer o que requer a simples cortesia, e sim, um sacerdote santo que eu parecia conhecer – por assim dizer – desde sempre[94].

Em 1949 mudou-se para a Espanha, tentando sempre várias providências para tirar sua mulher e sua filha da Croácia. Os primeiros tempos em Madri foram muito difíceis para ele, pelas dificuldades econômicas e a solidão. Continuando seu relato do colóquio com Escrivá em Molinoviejo, recordava:

Creio que estivemos juntos uns vinte minutos. Eu quase não dizia nada [...]. O Padre me falou quase todo o tempo da santa pureza. E do Amor sem o qual – dizia – a pureza é apenas uma higiene moral. [...] “O bom cristão – repetiu esse pensamento várias vezes – deve ter alma sacerdotal. Você deve absoluta fidelidade à sua mulher. A fidelidade matrimonial deve ser sempre limpa, santa e pura. Mas em seu caso deve ser, se cabe, mais pura, como se você fosse solteiro, consagrado a Deus, entregue totalmente a seu amor. [...] Ama muito, muitíssimo, sua mulher e ama-a – sobretudo – amando a Deus e a Virgem, que lhe dará forças. Reza muito a São José que o ajudará. Não duvide nem um só momento. Ele te ajudará. E leva a sua cruz com graça e galhardia. Você verá que tudo será mais fácil, mais limpo e sem tristezas. E quando chegar o dia de se encontrar com sua mulher, sua alegria será imensa”[95].

Brajnovic ficou muito impressionado. Em seu diário além dessas palavras que tinha ouvido de São Josemaria, anotou: “Conversei com Mons. Escrivá de Balaguer. Esse homem entrou de cheio em minha alma no pouco tempo em que estive com ele. Penso constantemente nesse encontro e nas palavras que me disse. Quando penso em minha amada esposa e na minha filhinha, penso também nele. Meu amor – que tornava meus dias vazios como as mãos de um mendigo – recobrou uma nova dimensão, um sentido formidável”[96].

Em 1953 ele voltou a Molinoviejo para fazer um retiro. Na véspera escreveu em seu diário: “Eu estou procurando luz, novos fundamentos para minha esperança, procuro o completo sentido de minha vida”[97]. Desta vez não se atrasou. Durante o retiro decidiu pedir admissão como supernumerário do Opus Dei. Em 2 de abril de 1953, Quinta Feira Santa, ele escrevia: “Quero entregar minha vida, encher-me de alegria na alma e servir a Deus!”[98].

Na Espanha foi bolsista do CSIS e diretor de uma gráfica. Depois mudou para Alemanha e lá, em 1956, conseguiu, finalmente, reencontrar sua mulher e sua filha. Voltaram a Madri, onde a família viveu em condições precárias, até que Brajnovic conseguiu um emprego em uma tipografia. Mais tarde mudaram-se para Pamplona, para trabalhar numa gráfica e depois para entrar no recém-criado Instituto de Jornalismo da Universidade de Navarra.

Chegou assim a ser professor titular de matérias que iam desde tecnologia da informação até literatura e ética, e ocupou alguns cargos na universidade. Foi autor de um manual de deontologia para jornalistas, que orientou muitos profissionais da informação. Por esta razão, anos depois, a Universidade de Navarra criou um prêmio que tem seu nome, para honrar os comunicadores que tivessem se destacado pela ética no exercício de sua profissão. Faleceu em 8 de fevereiro de 2001.

Um antigo conhecido dos tempos de DYA: Miguel Deán Guelbenzu

As tentativas que São Josemaria fez para pôr em andamento a obra de São Gabriel nos anos 1930 e começo dos 1940 não tiveram o êxito que ele esperava. Em 1948, percebia que naquela época não tinha sido possível abrir o caminho vocacional dos supernumerários, por carecer de pessoas que pudessem atendê-los espiritualmente[99]. O que restou, pois, de todo aquele labor com jovens profissionais e universitários de antes da guerra e do imediato pós-guerra? Alguns se perderam de vista ou morreram, outros se conservaram amigos e alguns poucos se incorporaram à obra de São Gabriel no período considerado. Entre outros Ángel Santos e seu amigo Miguel Deán. Este último participou do retiro de que estamos falando.

Miguel Deán Guelbenzu[100] era um antigo conhecido da Obra. Formado em Farmácia em 1934, fazia especialização no Laboratório do Hospital Provincial de Madri, onde tinha como amigos Juan Jiménez Vargas – um dos primeiros membros do Opus Dei- Jaime Munárriz e outros que conheciam São Josemaria. Esse grupo tinha a mesma ideologia política tradicionalista e estavam unidos por firmes convicções religiosas como reação ao sectarismo antirreligioso que vigorava nos anos da II República, como ele mesmo escreveu em seu relato[101].

Haviam falado a Deán do trabalho que um sacerdote, que chamavam de pe. Josemaria, fazia com estudantes no apartamento da rua Luchana. “Eram Jaime e Juan - relembrava – os que com mais frequência me falaram do pe. Josemaria. Consideravam-no um sacerdote muito santo, com dotes extraordinários e que levava a cabo um trabalho de formação de jovens, enormemente importante. Animavam-me a que fosse à rua Luchana com eles. Mas, por uma razão qualquer, a verdade é que eu não lhes dei muita importância”[102].

Ele confessava em sua paróquia com um sacerdote chamado pe. Blas Romero[103], sem saber que era amigo de São Josemaria e que dava aulas de canto em DYA de vez em quando. “Numa de minhas confissões com pe. Blas – continua Deán – em seu afã de proporcionar-me ‘boas companhias’, ele me falou de um tema que me soou como algo que eu já havia ouvido; citou alguns nomes de rapazes que ele conhecia e acontece que eram também conhecidos meus. Ele mesmo indicou que alguns dos irmãos Azúa poderia acompanhar-me à Academia DYA”[104].

Quando, com o tempo, seus amigos conseguiram convencê-lo e o apresentaram a Escrivá, este último exclamou: “Já era hora, Miguel!... Faz muito tempo que falávamos de você e o esperávamos! ” Estavam na Academia DYA, na rua Ferraz 50, durante o ano letivo de 1934-35[105].

A alegre e cordial acolhida que o fundador do Opus Dei lhe dispensou conquistou seu coração. “Seu tratamento afetuoso e cheio de simplicidade e sua personalidade envolvente eram motivos mais que suficientes para que eu ficasse muito à vontade com ele. Era um sacerdote santo e culto, que inspirava grande confiança e um grande respeito, apesar de ser bem jovem”[106], explicava ele muitos anos mais tarde.

São Josemaria explicou-lhe as atividades que se realizavam lá, sobre as quais seus amigos Juan e Jaime lhe tinham falado. Contou-lhe que se tratava “de formar os jovens num ambiente de estudo e de autêntica piedade. Que fossem bons estudantes (e depois profissionais responsáveis e de prestígio) e ao mesmo tempo bons católicos. Para concretizar melhor essa ideia lembro-me de que o Padre me disse que tínhamos que imitar o espírito e o modo de vida, no meio do mundo, dos primeiros cristãos”[107].

Miguel conheceu os pioneiros do Opus Dei: Ricardo Fernández Vallespín, arquiteto, que era o diretor da Academia DYA; José María González Barredo, doutor em Ciências; Isidoro Zorzano Ledesma etc. “Comecei a ir lá aos sábados, quando havia Salve e benção com o Santíssimo Sacramento; a assistir aos recolhimentos mensais pregados pelo Padre, das 8 da manhã às 5:30 da tarde. Recordo poucos momentos de tertúlia, com pouca gente e o Padre. Lembro-me ainda de ter tido em mãos Considerações Espirituais”[108].A pregação de São Josemaria chamou a atenção de Miguel: “Era persuasiva, profunda, penetrava dentro, mexia com a pessoa. Fazia constantes referências às Escrituras e especialmente ao Santo Evangelho, fazendo-nos ‘viver’ e sentir a partir de dentro, como partes interessadas, as cenas e circunstâncias nele narradas”[109]. Gostou também do oratório:

Eu participava (com meu pai) da Adoração Noturna Espanhola; com isso quero dizer que tinha um certo costume de assistir às funções litúrgicas, especialmente as Eucarísticas. Mas o ambiente daquele pequeno oratório, era, para mim, algo novo e maravilhoso. O modo de acender e apagar as velas; de fazer a genuflexão diante do Sacrário; a unção e o recolhimento de todos; eram coisas notórias e não frequentes. Vendo o Padre dar a benção com o Santíssimo poder-se-ia deduzir facilmente sua enorme Fé e seus consequentes sentimentos de Amor e Adoração a Jesus Sacramentado. E isso era contagioso. Impressionava-me de modo especial a participação unânime na liturgia cantada ou rezada. Aquelas Missas dialogadas, fervorosamente vividas por todos os presentes, eram então algo inusitado e desconhecido[110].

São Josemaria animou-o a procurar algum amigo ou colega que pudesse se encaixar nesse labor. Depois de falar com pouco êxito a um de seus colegas, resolveu propor a ideia a seu melhor amigo: Ángel Santos. Conheciam-se desde o colégio e depois tinham se encontrado na faculdade de Farmácia. Em 1935, Santos tinha avançado muito na carreira acadêmica e estava então rodeado de pessoas entre as quais – segundo Deán – sua fé corria perigo. Não contava, além disso, com um sacerdote ao qual confiar-se. Deán falou de tudo isso com São Josemaria, que lhe respondeu: “Se soubesses, Miguel, como agradam ao Senhor estas ‘tuas preocupações’!”[111].

Santos concordou em ir conhecer o fundador do Opus Dei com o qual conversou e confessou-se. Chegaria a ser um bioquímico de prestígio internacional, mas sobretudo chegaria a ‘encaixar’ no Opus Dei antes do próprio Miguel. Teve direção espiritual com o Fundador durante anos e pediu admissão como supernumerário em 1948, depois do retiro-convivência de Molinoviejo[112]. Mudariam então os papéis: seria Ángel Santos que ‘empurraria’ Miguel Deán, que naqueles anos havia esfriado seu trato com São Josemaria.

Quando Ángel o orientou para a direção espiritual com um sacerdote do Opus Dei, Deán pensou que seu amigo lhe ‘estava devolvendo a bola’: “Alegrei-me, francamente e vi nisso a mão de Deus. Comecei a frequentar Diego de León toda semana. [...] Na época foram organizados também os primeiros recolhimentos mensais na capela da ‘Instituição San Isidoro para órfãos de jornalistas’. Eu assistia a esses recolhimentos e sempre procurava levar algum amigo pois aquilo era para mim melhor do que ‘ouro puro”[113].

Chegou assim a Semana Santa de 1949 e ele também foi a Molinoviejo. “Na primeira noite quando acabamos de jantar, o Padre veio ao nosso encontro no corredor frente à sala de jantar e conforme íamos saindo, um a um, nós o cumprimentávamos e ele correspondia com um alvoroço alegre e com palavras adequadas a cada de um de nós. Quando eu o cumprimentei, deu-me um abraço e disse em voz bem alta: Rapaz, isso é que é uma recuperação!”[114]. Depois, Quando foi a minha vez de falar com o Padre e ele ficou sabendo que eu tinha direção espiritual com um sacerdote do Opus Dei, encerrou o assunto e não entrou em detalhes sobre minha vida interior. Lembro que conversei com ele sobre certos temas de moral profissional e depois atendeu minha confissão. [...] Naqueles dias de retiro em Molinoviejo, tive oportunidade de falar com o Padre em conversa ‘amigável’, quer dizer, não de coisas de vida interior, mas de temas comuns. Em um dos tempos livres o Padre estava sentado em um banco perto do esguicho de água; quando eu passei em silêncio, na frente dele, fez-me sinal para sentar-me à sua esquerda e colocando carinhosamente o braço nos meus ombros, começou a falar, com muito afeto, fazendo-me perguntas e interessando-se por minhas coisas[115].

Acabou o retiro e no outono de 1949 “o bom Ángel voltou a falar-me apresentando, desta vez a sério, o problema da minha vocação. Em consequência, eu escrevi em 25 de dezembro uma carta ao Padre pedindo a minha admissão ao Opus Dei como sócio Supernumerário”[116].

Miguel Deán era doutor em Farmácia desde 1945 e farmacêutico do Corpo, onde chegou a ser tenente coronel. Dedicou boa parte de seus esforços científicos ao campo dos oligoelementos, foi também pesquisador do CSIC e depois professor titular de Bioquímica na Faculdade de Farmácia da Universidade Complutense de Madrid, até a aposentadoria em 1983. A partir de 1951 foi Acadêmico correspondente da Real Academia Nacional de Farmácia e a partir de 1970 foi Acadêmico de número da Real Academia de Doutores[117]. Em suas recordações, Deán relembra a insistência de São Josemaria, nos anos trinta, para que ele seguisse a carreira acadêmica, animando-o a fazer a tese de doutoramento e o concurso para cátedra, porque isso era importante para preencher o mundo universitário com os ideais cristãos e fazer “um grande trabalho de apostolado”. Diante das reticências de Deán, o Fundador exclamou: “estes acomodados!”[118]. Finalmente, como se viu, seguiu o conselho de Escrivá e encontrou sua vocação profissional na docência e na pesquisa. Sua mulher Maria Dolores (Lola), que também era supernumerária e com quem teve cinco filhos, faleceu em 1973[119]; Deán passou longos anos de viuvez, até sua morte, em 23 de março de 2008. Tinha um caráter forte, que ele lutava por dominar, e uma profunda surdez, que não o impedia de participar dos meios de formação espiritual com regularidade, embora tivesse às vezes dificuldades para ouvir o que se dizia. Durante anos foi encarregado de um grupo de supernumerários. Dava círculos de cooperadores e os acompanhava pessoalmente. Quando, por razões de saúde, já não podia desempenhar esses encargos, comentava de vez em quando: “tenho que agradecer muito a Deus por permitir essas dores, assim posso apoiar o Padre e fazer alguma coisa pela Obra”[120].

Um pouco mais sobre a pregação de Escrivá no retiro

Voltando à pregação de São Josemaria naqueles dias de retiro, o diário refere que na tarde de 13 de abril, quarta-feira Santa, o Padre começa a meditação seguinte com a cena da pobre viúva que lança duas moedas no gazofilácio, o cofre do templo. Os olhos de Jesus brilham, ela deu tudo o que tinha! E nós, o que damos, a não ser coisas pequenas? “Quando houver coisas grandes a fazer...”. Isso aparecerá uma ou duas vezes na vida...ou nunca. E você vai amar a Deus nada mais do que duas ou três vezes? Além de que, sem treino, você fracassaria. Coisas pequenas: exercício que fortalece a vontade, como se fosse uma ginástica. Ascética dos atletas, de que fala São Paulo. Não vá, como Tartarín, caçar leões nos corredores de sua casa. Lá, no máximo haverá um rato e, se você se assusta como uma menininha diante dele, não enfrentarás uma fera. Tática militar: posições longe da fortaleza. Luta do minuto heroico, da manteiga, mortificação do caráter; da vista, da gula... coisas que não implicam sequer pecado venial se formos derrotados. Como engolimos muitos pecados veniais! E é verdade que não se justifica um pecado venial nem para tirar todas as almas do purgatório. Não dizer nunca mentiras, nem fazer restrição mental que é uma ignomínia sem honradez: ou calar ou dizer a verdade[121].

Na última meditação desse mesmo dia falou sobre a oração. Basta, para fazê-la, saber que somos filhos de Deus e que nosso Pai pode tudo e nos quer de modo infinito. Oração vocal; algumas de origem divina. “Eis como vocês devem rezar: Pai Nosso, que estais no céu...”[122]. Nunca deixem este tipo de oração, mas, junto a ela, porém, pratiquem a mental, sem ruído de palavras, diretamente ao coração (O Padre fala suavemente, com persuasão e com emoção). Mas você não sabe orar? ... Condições: Humildade; o fariseu e o publicano. Confiança: a criança que bate na porta do pai... ele não irá lhe abrir? Simplicidade[123].

O dia seguinte era Quinta Feira Santa. São Josemaria tratou da Eucaristia, da Paixão de Cristo, das aparições do Ressuscitado... Na primeira meditação da tarde, falou das duas pescas milagrosas que o santo Evangelho relata:

“Faciam vos fieri piscatores hominum...[124]. O Evangelho relata duas pescas milagrosas. A primeira quando Jesus diz: “Duc in altum”[125]. Como diz a você. Pedro resiste, mas obedece. “Em teu nome lançarei a rede” Deixe de falsa humildade! Confiança no Senhor que é quem dá a ordem. E a pesca é muito abundante, tiveram que pedir ajuda, peixes à direita e à esquerda da barca, peixes de todos os tamanhos. A segunda pesca: “Vou pescar”[126]; são apóstolos, mas não abandonaram seu trabalho profissional. Passam a noite no mar e não pescam nada. Jesus ressuscitado aparece na margem. “Lancem a rede ao lado direito da barca”[127]; em um setor determinado; pesca seleta; apesar de serem tantos, “a rede não se rompeu”. João é o primeiro a reconhecer Jesus; o olhar da pureza. Pedro lança-se ao mar: o impulso do amor; fé de Pedro, firme, de rocha. Jesus quer que ele repare as três negações: “Simão, você me ama?”[128]. Pedro fica angustiado: “Você sabe que O amo”. “Apascente os meus cordeiros”[129]. Pedro dorminhoco e negador, mas com fé e amor de rocha, de pedra fundamental da Igreja. O Padre insiste no que repetiu muitas vezes esses dias: “você tem pelo menos vocação de cristão e essa vocação exige muito. E se o Senhor o chama para mais não podes dizer-lhe que não”[130].

Naquela tarde, o retiro terminava.

Tudo acaba. Também esses dias maravilhosos. E às cinco horas, entramos no oratório para a última meditação do Padre. Meditação de fogo. O Padre resume tudo o que é necessário para a perseverança. Fé. Comunhão. Oração. Perseverar é de santos. Empregar os meios. Uma fé inamovível: conhecer e relacionar-se com Jesus. No Pão e na Palavra. Comunhão frequente e fervorosa; oração perseverante; não deixar de fazê-la nenhum dia. Todos estão emocionados e os corações em fogo vivo[131].

Para evitar uma explosão de entusiasmo no fim do retiro assim como mostra de agradecimento à sua pessoa, São Josemaria preferiu ir embora discretamente, como já sabemos.

Um engenheiro de San Sebastián (Guipúscoa): Francisco Javier Urquía

Entre os que participaram do retiro estava Francisco Javier Urquía Zaldúa[132]. Seu cunhado, José María Pagola[133], tinha lhe falado de uns círculos de estudos de que tinha participado em Madri, quando estudava Medicina durante o ano acadêmico 1934-35. Eram dados na Academia DYA. Pagola “recordava que era o Padre [São Josemaria] que os dava e que para o Comentário do Evangelho utilizava um livro muito grande onde lia a passagem que depois comentava”[134].

Na primavera de 1943, Urquía encontrava-se em Madri, fazendo o segundo ano de Engenharia de Caminhos. Ele mesmo se definia como um estudante anticlerical, frio em matéria religiosa; só ia à Missa aos domingos e só comungava na Páscoa, no último dia do tempo pascal. Meu colega de curso, Fernando Valenciano, convidou-me a falar com um sacerdote, e eu aceitei porque umas semanas antes eu havia pensado na conveniência de tornar menos descuidada minha vida religiosa e não sabia como fazê-lo porque nenhum padre me convencia. Eu acabava de ficar noivo de uma moça que levava a religião mais a sério que eu, e o pensamento de que uma tolice minha podia fazê-la sofrer levou-me a essa ideia[135].

Aquele sacerdote era Josemaria Escrivá. Urquía foi conquistado por sua amabilidade, graças a um pequeno detalhe - em aparência incidental - que vale a pena deixar o protagonista narrar:

Entrei pela rua Diego de León, n. 14, em um hall grande onde estava Fernando e pouco depois apareceu o Padre, que me levou a um cômodo, mais escritório do que sala, e convidou-me a sentar-me em um grande e incômodo cadeirão de madeira. Assim que sentei ele quis tornar aquilo mais cômodo e colocou umas almofadas no cadeirão. Não ficou satisfeito e mexeu nelas até uma posição apropriada. Eu não gostava de almofadas, me incomodavam porque me pareciam coisas para senhoras idosas, mas era tal sua solicitude e amabilidade que não me atrevi a dizer nada. Sentou-se numa cadeira mais baixa e só recordo que bem depressa comecei a contar-lhe minhas preocupações juvenis que o Padre escutava com extrema atenção; não tive nunca a sensação de ter sido escutado com mais atenção do que naquele dia. Depois de um tempo perguntou-me: “você estuda bastante?” e mais tarde “quer confessar comigo? ”; fiz isso com muito gosto[136].

Na saída, a caminho de sua casa, exclamou: ”Que mañico tão simpático!”[137]. Ficara impressionado com sua “atitude humilde e amável, toda sua atenção” ao que ele dizia. “A partir de então havia dois tipos de padres: o Padre e os outros; passei a considerar-me seu amigo, embora não tenha sabido captar em absoluto sua dimensão sobrenatural”[138].

Houve outros encontros, até que Urquía voltou a sua terra natal. Em San Sebastián trabalhava como engenheiro de caminhos na Chefatura de Obras Públicas de Guipúscoa quando, na primavera de 1949, recebeu uma carte de Rafael Escolá – numerário do Opus Dei, engenheiro também – em que o convidava para um retiro que seria em Molinoviejo. Não dizia quem seria o pregador.

A ideia de fazer um retiro antes de seu casamento, em 30 de maio, atraiu-o, mas havia uma série de compromissos que não tornavam isso possível. Não respondeu à carta e Escolá escreveu de novo, pedindo-lhe que respondesse: “Li a carta na hora do jantar e decidi responder na manhã seguinte, dizendo que não podia e fui deitar-me. Na manhã seguinte minha decisão tinha mudado e achei um modo de superar os obstáculos, menos um que dependia de meu chefe; ele não viu inconveniente em adiar nosso compromisso; respondi a Rafa dizendo que iria ao retiro”[139].

Apesar do tempo transcorrido, ao redigir suas lembranças, em 1975, Urquía lembrava com clareza o modo de pregar de São Josemaria naqueles dias em Molinoviejo:

Lembro-me dele explicando episódios da vida de Nosso Senhor Jesus Cristo e do Novo Testamento com detalhes como se os estivéssemos vivendo. Recordo o episódio da saída da prisão de São Pedro e de como era tipicamente feminina a atitude da empregada do lar, Rode – nosso Padre chamava-a Rosa – que viu quem era e foi avisar aos da casa sem abrir a porta. Recordo também o episódio de Zaqueu por quem o Padre parecia ter especial carinho[140].

Urquia confirma que São Josemaria referiu-se muito pouco à Obra, mas disse alguma coisa: “pediu que nos aproximássemos dela. Sobre o caráter sobrenatural da Obra, lembro-me que disse que no momento da fundação pensava que esse empreendimento não seria para mulheres e que, contrariamente à sua opinião, o Senhor lhe tinha feito ver o contrário”[141].

Como os outros participantes, Urquía esperou com ânsia o momento de conversar com São Josemaria.

Eu lhe contei que ia me casar em 30 de maio e pedi que nesse dia, na Missa que celebraria, ele rezasse por nosso casamento, ele disse que sim e anotou a data em uma agenda. Disse-me também algo como: “se um filho meu te disser para ser da Obra, dize-lhe da minha parte que te deixem tranquilo durante um ano para que teu casamento assente bem e depois não precisarás fazer retiro para pensar nisso”. Não sei se o Padre disse isso porque não era da opinião de fazer retiro para tomar uma decisão sobre uma vocação, coisa comum na época, ou se tratava-se de um conselho particular, já que anos antes tinham me falado de entrega e respondi que não, depois de um retiro e de um comentário irônico que o sacerdote pregador fez desse tema[142].

Com efeito, passou um pouco mais de um ano até que pediu a admissão como supernumerário, em 26 de fevereiro de 1951. Doutor Engenheiro de Caminhos, Canais e Portos entrou para o claustro acadêmico da Escola de Engenheiros da Universidade de Navarra, em San Sebastian praticamente desde sua criação: Foi professor adjunto e durante alguns anos, subdiretor da escola. Além da sua atividade profissional como engenheiro, especialmente no desenvolvimento das rodovias do País Vasco e na construção de represas de abastecimento de água potável na Confederação Hidrográfica do Norte, foi conselheiro na Prefeitura de San Sebastián, da qual em 1987, recebeu a Medalha do Mérito Cidadão. Era um grande conhecedor da história de sua terra e foi membro da Real Sociedad Bascongada de Amigos del País.

Sua esposa, Concepción Pagola, que também era supernumerária suportou uma longa doença. O casal não pôde ter filhos. Aqueles que o conheceram recordam que Urquía aceitou com profundo sentido cristão essas circunstâncias, que logicamente o faziam sofrer[143].

Os inícios do trabalho apostólico do Opus Dei em San Sebastián/Donostia têm muito a ver com Urquía, que atuou com grande dedicação no começo de diversas obras apostólicas. De acordo com sua esposa, pôs vários imóveis pessoais à disposição dessas iniciativas. Tinha muitos amigos aos quais contagiou sua vida de fé e nomeou muitos como cooperadores da Obra, alguns dos quais foram depois supernumerários[144]. Faleceu em 24 de janeiro de 2003 em Pamplona, depois de ter padecido a enfermidade de Alzheimer durante quatro anos.

Um estudante com “vocação matrimonial”: José María (Chemari) Hernández-Sampelayo López.

José María (Chemari), Hernández-Sampelayo López[145] conheceu São Josemaria um ano antes de entrar na universidade em 1941, quando tinha dezessete anos. Foi seu amigo Salvador Canals que os apresentou um ao outro na casa da rua Lagasca[146]. A partir desse momento, começou a confessar-se e a ter direção espiritual com o fundador do Opus Dei. Não era a primeira vez que assistia a um retiro pregado por Escrivá: no mesmo ano em que se conheceram, participou no retiro que o santo pregou de 26 a 31 de dezembro de 1941 em Lagasca. Foi naqueles dias que escutou do Padre, durante uma conversa: “Chemari, tens vocação matrimonial”[147]. Hernández-Sampelayo continuou participando das atividades da obra de São Rafael e tratava de aproximar seus amigos de Deus. Um deles chamava-se Fernando Maycas, que seria um dos pioneiros do Opus Dei na França[148]. Conheceram-se em um cinema, enquanto assistiam a um filme. Quando terminou conversaram um pouco e se encontraram novamente um tempo depois.

Como Maycas recordava, voltamos a encontrar-nos uma outra vez [...] e ele entregou-me um papel no qual escrevera o ponto 18 de Caminho: “obstinas-te em ser mundano, frívolo e estouvado porque és covarde. Que é, senão covardia, esse não quereres enfrentar-te a ti próprio?”. No dia seguinte fui a casa de Chemari, na rua Claudio Coello, esquina com a rua Alcalá, no começo da manhã, e quando perguntei por ele, seus pais me disseram que ele ainda estava dormindo pois havia chegado muito tarde na noite anterior. Acordei-o e perguntei-lhe quem havia escrito aquilo que estava no papel, queria conhecer o autor. Ele me levou para conhecer São Josemaria. Nesse primeiro encontro ele me perguntou se eu era sobrinho de Margarita Alvarado, que tinha falado de mim para ele (ela tinha sobre mim uma melhor opinião que Chemari). Respondi-lhe que sim, sorriu (pois fazia tempo que rezava por mim). Esse encontro deve ter se dado em outubro ou novembro de 1941. Chemari conhecia São Josemaria há tempo, mas não o havia apresentado a mim antes porque pensava que a Obra não era para mim[149].

Em 1942, Hernández-Sampelayo levou também à residência de Jenner um antigo colega do secundário, do colégio Nossa Senhora do Pilar. EraManuel González-Simancas Lacasa, que pediu admissão na Obra no ano seguinte[150]. Durante o verão, que José Maria passava na vila de Zarauz em Guipúzcoa, escrevia aos outros que frequentavam junto com ele os meios de formação cristã em Jenner, e conversava apostolicamente com seus amigos das férias[151]. Quando teve a oportunidade de participar do retiro de Molinoviejo, do qual estamos falando, foi com dois amigos: Jaime Aguilar Otermín, colega também do colégio e Luis Aldama.

Hernández-Sampelayo contraiu matrimônio em 1954 com Manuela Matos Aguilar, que tinha conhecido através de Jaime Aguilar. Quem os casou foi seu amigo Fernando Maycas que na época já era sacerdote. Tiveram nove filhos. Sua vocação demorou para amadurecer: acabou pedindo admissão como supernumerário em 1960.

Do ponto de vista profissional, José Maria estudou Direito e Ciências Políticas e Econômicas, além de ter frequentado a Escola de Comércio. Tentou, sem êxito, conseguir o cargo de agente de Câmbio e Bolsa, mas conseguiu o de inspetor de seguros. Trabalhou vinte anos na Administração do Estado e na política. Laureano López Rodó é que tinha conhecido Hernández Sampelayo no Conselho Superior de Pesquisas Científicas através de José María Albareda, amigo comum, que o propôs em 1959 como chefe da Oficina de Planos Provinciais da Secretaria Geral Técnica da Presidência do Governo. Em 1962 ele substituiu o próprio López Rodó como secretário geral técnico da Presidência do Governo. Seu trabalho foi muito importante para o desenvolvimento socioeconômico, na Espanha, do boom econômico dos anos sessenta, na qual o PIB espanhol crescia a um ritmo superior a 7%. Em 1969 deixou a Presidência do Governo para ser nomeado subsecretário de Informação e Turismo. Pessoalmente também se envolveu em atividades sociais, para a difusão da cultura, como os ateneus operários, ideia surgida da preocupação de Vicente Rodríguez Casado pelos menos favorecidos. Em 1974 teve câncer e faleceu em 1975, com a idade de cinquenta anos[152].

Um especialista em Direito Romano: Álvaro d’Ors

Encerramos esse panorama de alguns dos que assistiram o retiro de Molinoviejo referindo-nos a Álvaro d’Ors Pérez-Peix[153]. Em seu relato, conta que conheceu São Josemaria “em 1941, em Madri (onde eu morava), mas não tive muitas oportunidades de voltar a vê-lo nos anos seguintes”[154]. Foram apresentados por Rafael de Balbín Lucas, catedrático de Literatura Espanhola, amigo de d’Ors, que também participou do mesmo retiro. Balbín tinha lhe falado de Escrivá várias vezes e é possível que ele mesmo já tivesse tido alguma outra referência indireta, através de amigos comuns. Em 4 de janeiro desse ano Escrivá e ele se encontraram, mas durante os anos seguintes mantiveram apenas um contato esporádico.

Com quem d’Ors coincidiu foi Amadeo de Fuenmayor, que seria estreito colaborador de Escrivá no andamento da obra de São Gabriel. Os dois foram professores ajudantesna Universidade de Madri e concorreram juntos ao prêmio extraordinário de doutorado. Anos depois, d’Ors recordava que “nossa amizade, logo depois de terminada a guerra, já em Madri, depois em Santiago, foi muito importante para mim. É pouco mais jovem que eu, mas obteve, a cátedra um pouco antes, e diretamente a de Santiago”[155].

São Josemaria quis manter contato com esse jovem acadêmico dedicado ao Direito romano e à epigrafia, campos nos quais Álvaro d’Ors chegaria a ter notoriedade internacional. São Josemaria havia dado aulas de Direito romano, e admirava o perfil profissional do jovem d’Ors. Escrevia-lhe algumas linhas, como por exemplo: “Lembro de você com carinho e lhe desejo feliz Páscoa. Quando nos veremos? ”[156]. Encontraram-se casualmente num bonde nos início dos anos 1940.

D’Ors manteve contato com pessoas do Opus Dei em Santiago de Compostela, onde ocupou a cátedra em 1944, depois de uma breve permanência em Granada. Lá eram também catedráticos na Faculdade de Direito dois numerários: Amadeo de Fuenmayor, como já dissemos e Laureano López Rodó. Quando começou a obra de São Gabriel, pensaram nele e d’Ors aceitou o convite para participar do retiro em Molinoviejo. O romanista não deixou senão uma lacônica recordação desses dias que, no entanto, devem ter deixado nele uma profunda marca. Poucas semanas depois, em 6 de junho de 1949, tomou a decisão de solicitar a São Josemaria a admissão ao Opus Dei como supernumerário ao entender que Deus o chamava por esse caminho. O Fundador, coisa um pouco excepcional nesses casos, respondeu-lhe imediatamente, em carta datada de 12 de junho: Meu querido Álvaro. Que Jesus o guarde. Deu-me uma grande alegria receber sua carta. Ajude-me a dar graças ao Senhor por esta delicadeza que teve com você: Ele espera muito deste trabalho calado e eficaz. Não se esqueça de rezar por tantas coisas grandes que o Senhor quer que façamos. Rezo por você e o abraço com todo carinho. Josemaria[157].

Em seu breve relato sobre o fundador do Opus Dei, Álvaro d’Ors deixou algumas impressões que, se bem que procedam de sua relação com Escrivá durante toda uma vida, podem ter sido suscitadas no ânimo deste intelectual naquele retiro de 1949. Vale a pena reproduzi-las aqui:

Este eclesiástico não se parecia em nada com outros, inclusive talvez muito santos cuja presença podia impressionar por si mesma, como algo excepcional; personalidades coroadas pela unção e pela gravidade, pela consciência, compatível inclusive com a humildade, de uma alta missão. Embora sempre sacerdotal, o Padre tinha uma afabilidade não condescendente, mas natural e profundamente secular [...]. A insistência do Padre na contemplação da vida oculta de Jesus Cristo, além de convir especialmente ao estilo de espiritualidade própria do Opus Dei, vinha a ser como uma chave da ação de seu Fundador, pois nessa vida oculta o rijo caráter humano do Redentor, que havia de manifestar-se inevitavelmente nos anos de pregação e na Paixão, achava-se como que latente e submetido à vontade de Seu Pai, sem a menor exteriorização da missão redentora própria do Verbo Encarnado. Mons. Escrivá de Balaguer também viveu assim [...]. Todas as suas virtudes humanas ficam como que obscurecidas pelo resplendor dessa missão que dominou plenamente sua existência. Sua vida foi a Obra, mas esta não foi dele, e sim de Deus”[158].

Com relação à sua própria vocação d’Ors explicava anos depois: “não se tratava simplesmente de congruência católica, mas do propósito vital de realizar uma unidade de vida sem fissuras, e congruente com a filiação de um batizado leigo”[159].

Álvaro d’Ors incorporou-se em 1961 na Universidade de Navarra, embora essa decisão não lhe tenha sido fácil de tomar. Significava deixar uma possibilidade de cátedra em Madri, com uma remuneração melhor[160]. Sua escolha deu uma grande alegria a São Josemaria. Lá, além de sua cátedra, ocupou-se de projetar e levar adiante as bibliotecas dessa instituição, o que considerava sua maior contribuição para a Universidade de Navarra[161]. Foi, antes de tudo, um jurista e romanista, mas também epigrafista, papirólogo, teórico do Direito e da Política, canonista, especialista em Direito Foral navarro, humanista e pensador original. Sua teoria política surge de uma crítica ao pensamento da Idade Moderna e à ideia de Estado[162].

Aposentou-se em 1985, mas não deixou de trabalhar e de assessorar estudantes e discípulos de sua especialidade. Não perdia as ocasiões de dar bons critérios aos jovens que encontrava fora das classes, abrindo-lhes horizontes intelectuais e vitais[163]. Uma boa mostra é o livro Cartas a um jovem estudante, escrito em 1991, no qual abre perspectivas humanas e sobrenaturais para a atividade estudantil e universitária, onde brilham os ideais que o inspiravam como acadêmico cristão.

Desenvolvia seu apostolado também em cursos e palestras sobre temas de vida cristã – os Dez mandamentos, a explicação do Pai Nosso etc. – para amigos e cooperadores, que atraíam um bom número de pessoas. Era notória sua fidelidade até nas menores questões da vida de um supernumerário. Embora se trate de um detalhe incidental, é significativo que, dois dias antes de falecer, ele se preocupasse em enviar com pontualidade sua contribuição econômica mensal[164]. Casou-se com Palmira Lois Estévez, tiveram onze filhos. Faleceu em Pamplona em 1º de fevereiro de 2004.

Conclusões

A descoberta de uma vocação laical que signifique uma entrega total a Deus e o compromisso de envolver-se positivamente no mundo para iluminá-lo e temperá-lo com a luz e o sabor de Cristo[165], seguiu caminhos de discernimento levemente diversos, mas no fim convergentes, no caso da primeira geração de supernumerários espanhóis, dos anos cinquenta do século XX.

Um grupo provinha de pessoas que conheciam o Opus Dei há muitos anos, como Miguel Deán ou Rafael de Balbín; outros, embora procedessem de um ambiente católico, haviam experimentado uma primeira conversão de uma posição religiosa fria, que se transformou em fervorosa através do retiro, como no caso de José Ferrer-Bonsoms ou Francisco Javier Urquía; para José María Poveda e mais um outro tratava-se do encontro com algo longamente procurado, uma dedicação a Deus que fosse compatível com a vida familiar e profissional, como aconteceu também de forma parecida com Mario Azara e Álvaro d’Ors, católicos já praticantes: todos eles compreenderam o sentido vocacional de missão que sua vida cristã tinha, para além de uma militância católica ou de uma intensa piedade.

Em vários casos, o encontro com Escrivá foi decisivo. Não só pelo afeto e simpatia que sua personalidade acolhedora suscitou neles, mas ainda pelo fogo interior que experimentaram escutando-o e relacionando-se com ele. O centro do retiro foi, com efeito, a figura de Jesus, a consideração de seu amor por nós, que se apresentava como uma chamada à correspondência, inclusive a entregar a vida em seu serviço. São Josemaria não se colocava a si mesmo como modelo nem o Opus Dei – do qual praticamente não falou – como a quinta essência do catolicismo. Explicava o Evangelho, levava as pessoas a um contato direto, muito pessoal com Jesus, como vimos. A reação imediata de vários deles foi querer seguir a Cristo de perto, entregando-lhe a própria vida, e entenderam que o modo de fazê-lo era pedir admissão à Obra.

A proposta da obra de São Gabriel não se mostra, ao mesmo tempo, como um misticismo individualista no meio do mundo. Pelo contrário: da intimidade com Jesus deveria surgir um compromisso com o mundo que Cristo veio salvar. Daí sua exortação a desenvolver ao máximo os talentos pessoais, pondo-os a serviço de Deus, sem falsa humildade e sem medo de assumir riscos e responsabilidades em tarefas de repercussão social, como a política, a economia a ciência, a educação etc. Sabe-se que os conselhos de São Josemaria orientaram a trajetória profissional de alguns a serviço do bem comum e da pessoa; de outros, não temos dados documentais, mas coincidem em tantos traços comuns que não é aventurado supor o peso que a doutrina e o exemplo do Fundador do Opus Dei tiveram na sua vida profissional e social.


Luis Cano. Secretário e membro ordinário do Instituto Histórico São Josemaria Escrivá. Licenciado em Direito e doutor em Teologia. Seu campo de pesquisa, além do Opus Dei e seu fundador – e em especial sua pregação e escritos – é a história da devoção ao Sagrado Coração e a Cristo Rei. É professor de História da Igreja no segundo milênio na Pontificia Università della Santa Croce e no Istituto Superiore di Scienze Religiose all’Apollinare (Roma). Publicou recentemente a edição crítica de várias cartas inéditas de São Josemaria: Cartas (I), Roma-Madri, Istituto Storico San Josemaria Escrivá – Rialp, 2020 e Cartas (II), Roma-Madri, Istituto Storico San Josemaria Escrivá – Rialp, 2022.

e-mail:lucano@isje.org

ORCID: 0000-0002-3314-9122


[1] Luis Cano, Los primeros supernumerarios del Opus Dei (1930-1950), em Santiago Martínez Sánchez – Fernando Crovetto (eds), El Opus Dei. Metodología, mujeres y relatos, Cizur Menor, Thomson Reuters Aranzadi, 2021, pp. 375-396; Idem, Os primeiros supernumerários do Opus Dei. A convivência de 1948, SetD 12 (2018), pp. 251-302.

[2] Cfr. Cano, Os primeiros supernumerários do Opus Dei (1930-1950), p. 391.

[3] Cfr. ibid, p. 395.

[4] Cfr. Nota de 5 de novembro de 1947, AGP, série A.2, leg. 40, carp. 3. Exp. 2.

[5] Em Madri, por exemplo, os primeiros foram realizados na Capela da Institución San Isidoro para órfãos de jornalistas. Recordações de Miguel Deán Guelbenzu, 20 de setembro de 1975, AGP, série A.5, leg. 206, carp. 3, exp. 6.

[6] Recordações de León Mario Azara Pena, 30 de julho de 1975, AGP, série A.5, leg. 312, carp. 2, exp. 9.

[7] Cfr. María Merino Bobillo, As primeiras supernumerárias espanholas (1939 – 1952), em Santiago Martínez Sánches – Fernando Crovetto (eds), Gentes, escenarios y estrategias El Opus Dei durante el pontificato de Pio XII, 1939 – 1958, Aranzadi, Cizur Menor, 2023, pp. 241-264.

[8] Em seu relato, José María Poveda Ariño fala de “mais ou menos vinte e cinco pessoas”. Com os dados que o diário do retiro proporciona parece que se contava com dezoito participantes, aos quais seria preciso acrescentar os numerários leigos que dirigiam a atividade. Duas pessoas mais estiveram na casa para trabalhar: Vladimiro Vince e Fernando L., que não foi possível identificar.

[9] Como veremos, não ficou claro se Anton Wurster participou.

[10] Cfr. nota 84.

[11] Nasceu em Bilbao em 18 de fevereiro de 1898. Fez Arquitetura. Em 1925, casou-se com Josefina Gamarra Orive, com quem teve doze filhos. Conheceu a Obra em 1946 e pediu admissão como supernumerário em 25 de abril de 1950. Quem o conheceu, destaca seu desprendimento e generosidade com relação aos bens materiais para o desenvolvimento do trabalho apostólico, seu espírito de serviço em seu trabalho de arquiteto, sua sensibilidade artística. Faleceu em 11 de janeiro de 1986. Nota necrológica de Rafael Fontán Sáenz, sem data, AGP, série M 1. 3, ainda não catalogada; cfr. “Romana” (1986), p. 139.

[12] Nasceu em Arjonilla (Jaén) em 1º de janeiro de 1889. Pediu admissão no Opus Dei em 24 de abril de 1949, pouco depois de terminar o retiro. Fez a fidelidade (incorporação definitiva) em 29 de fevereiro de 1956. E foi zelador de um grupo de supernumerários. Havia feito Direito na Universidade de Sevilha e depois foi notário de Gandía até sua aposentadoria em 1974. Era casado com Carmen Yacer, com quem teve onze filhos (dado proporcionado por Julio Montero e Maria Luisa Galdón, de uma publicação sobre as primeiras supernumerárias, atualmente no prelo). Faleceu em 14 de maio de 1974. Os que o conheceram recordam o seu amplo trabalho de apostolado em sua cidade, onde tinha muitos e bons amigos. Poucos dias antes de morrer, reuniu sua numerosa família e lhes disse, entre outras coisas: “quero despedir-me de vocês para dizer-lhes que sejam felizes; e para sê-lo, é preciso amar a Deus sobre todas as coisas. [...] Queiram muito ao Senhor. São as últimas coisas que lhes recomenda seu pai que os ama profundamente. Vocês podem ser felizes, aproximando-se do Senhor” (nota necrológica de Antonio Pons Pérez, sem data, AGP, série M. 1. 3, ainda não catalogada).

[13] Nasceu em Alcañices (Zamora) em 5 de março de 1910. Foi um dos primeiros residentes da Residência DYA, no ano escolar de 1934-1935 e 1935-1936 (cfr. Santiago Martínez Sánchez - Inmaculada Alva – María Jesús Coma - José Luis Gonzáles Gullón – Rafael Zafra Molina [eds], cronologia de José María Escrivá y Albas. Madri, 1927-1936, Roma-Madri, Istituto Storico San Josemaria Escrivá – Rialp, 2020, pp. 407, 527, 591). Pediu admissão como supernumerário e, quando ficou viúvo, como adscrito. Segundo a página oficial da Associação Católica de Propagandistas, foi sócio dessa instituição desde 1933: https://www.acdp.es/biografia/balbin-lucas-rafael-de/ [consultado em 2 de fevereiro de 2023]. Teve quatro filhos. Além de catedrático da Universidade Complutense, foi diretor do Instituto de Filologia Hispânica Miguel de Cervantes (CSIC). Em 1965 foi nomeado diretor geral de Assuntos Eclesiásticos, no delicado momento do pós- concílio. Faleceu em Madri em 27 de janeiro de 1978. (cfr. Diário ABC, Madri, 29 de janeiro de 1978, p. 88).

[14] Nasceu em Gáname (Zamora), em 17 de abril de 1908. Em 1928 obteve licença de professor de ensino fundamental e começou os estudos de medicina que terminou com prêmio extraordinário de licenciatura. Exerceu a medicina em Ponferrada antes da Guerra civil espanhola. Sempre quis dedicar-se à docência e à pesquisa em virtude do que se licenciou depois em Farmácia e obteve o doutorado. Era amigo de um dos primeiros supernumerários: Ángel Santos Ruiz. Desde 1947 era chefe de subseção da Seção de Bioquímica do CSIC. Em 1956 obteve a cátedra de Fisiologia. Dedicou a vida à pesquisa e à docência. Foi membro da Real Academia Nacional de Farmácia. Faleceu em Madri, em 29 de dezembro de 1975. Cfr. https://dbe.rah.es/biografias/25809/joselucas-gallego [consultado em 21 de janeiro de 2023]

[15] Nasceu em La Coruña em 1916. Fez estudo de professor de comércio. Na juventude, antes da Guerra civil, alistou-se na Falange. Casou-se com Francisca Jiménez Hernández, com quem teve seis filhos. Depois da guerra trabalhou na área governamental de Abastecimento e Transportes, e exerceu outros cargos relacionados com a economia e bancos. Foi diretor geral do Tesouro e de Banco, Bolsa e Investimentos e vice-presidente do Banco da Espanha. Faleceu em 31 de março de 1967. Cfr. Diario La Noche, ano XLVI, num. 13587, 18 de junho de 1965, p. 1, em http://biblioteca.galiciana.gal/es/consulta/registro.do?id=10000233414 [consultado em 21 de janeiro de 2023]. Havia pedido admissão no Opus Dei, como supernumerário, em 2 de outubro de 1949.

[16] Não encontramos dados sobre esta pessoa.

[17] Eloy González Obeso, (1913-1975) nasceu em Reinosa (Cantábria). Iniciou os estudos de Medicina em Madri em 1929. Lá conheceu Juan Jiménez Vargas que o apresentou a São Josemaria durante o ano 1932-1933. Assistiu as primeiras aulas de formação da obra de São Rafael, no Asilo de Porta Coeli e participou em catequeses no bairro de los Pinos de Tetuán de las Victorias (cfr. Martínez Sánchez et al. (eds.), Cronologia, p. 692). Em 1934 voltou a Reinosa e obteve o título de odontólogo pela Universidade de Barcelona. Faleceu em 1975. Cfr. José Luis González Gullón, DYA. A Academia y Residencia en la historia del Opus Dei (1933-1939), Madri, Rialp, 20163, p.87.

[18] Diário do retiro de 10 a 14 de abril de 1949, [p.32], AGP, série A. 1, leg. 40, carp 3, leg. 5, daqui em diante, Diário.

[19] Josemaria Escrivá de Balaguer, Carta n. 29, § 10, em Luis Cano, Carta n. 29, de São Josemaria Escrivá sobre a obra de São Gabriel. Edição crítica e anotada .SetD 17 (2023), p. 296.

[20] Lembrança de José Ferrer-Bonsoms, 30 de agosto de 1975, APG, série A.5, leg. 211, carp. 3, exp. 3.

[21] Nasceu em L’Arboç del Penedés (Tarragona, Espanha), em 19 de março de 1920. Faleceu em 2001.

[22] Relato de José Ferrer Bonsoms, 30 de agosto de 1975, APG, série A.5 leg 211, carp. 3, exp. 3.

[23] Cfr. Onésimo Díaz, Expansión. El desarrollo del Opus Dei entre los años 1940 y 1945, Madri, Rialp, 2020, p. 296.

[24] Relato de José Ferrer-Bonsoms, 30 de agosto de 1935, APG, série A. 5, leg. 211, carp. 3, exp. 3

[25] Relato de José Ferrer-Bonsoms, 30 de agosto de 1975, APG, série A.5, leg. 211, carp. 3, exp. 3.

[26] Relato de José Ferrer-Bonsoms, 30 de agosto de 1975, APG, série A.5, leg 211, carp. 3, exp. 3.

[27] Relato de José Ferrer-Bonsoms, 30 de agosto de 1975, APG, série A. 5, leg. 211, carp. 3, exp. 3.

[28] Relato de José Ferrer-Bonsoms, 30 de agosto de 1975, APG, série A. 5. leg 211, carp. 3, exp. 3

[29] Relato de José Ferrer-Bonsoms, 30 de agosto de 1975, APG, série A. 5 leg 211, carp. 3. exp. 3.

[30] Relato de José Ferrer-Bonsoms, 30 de agosto de 1975. APG, série A. 5, leg 211, cap. 3, exp. 3

[31]Relato de Amadeo Fuenmayor Champim, 4 de setembro de 1975, AGP, série A. 5, lê 353, carp 3, exp. 7. O diário do retiro afirma que quem disse a jaculatória foi Juan Antonio Paniagua: “O Padre teme que a despedida seja uma cena patética e decide ir embora discretamente. Juan Antonio demora alguns minutos antes de dizer o “Sancta Maria...” final e, no silêncio do oratório, todos ouvem o ruído de um motor que se põe em marcha e um automóvel que se afasta. Todos perceberam que o Padre foi embora e que não poderemos despedir-nos dele, o que cria um ressentimento geral”, Diário [p. 41].

[32] Foi também membro da Real Academia de Ciências Econômicas e Financeiras e recebeu a Creu de Sant Jordi de la Generalitat de Catalunha. Cfr. Carles M. Canals, Josep Ferrer I Bonsoms na Real Academia da História, biografias https://dbe.rah.es/biografias/65598/josepferrer-i-bonsoms [consultado em 9 de junho de 2022].

[33]. Nota necrológica de Jose Ferrer-Bonsoms, sem data, AGP, série M. 1.3, aguardando ser catalogada.

[34] Cfr. Albert Manent,Félix Millet y Maristany, em Real Academia da História, biografias, htpps://dbe.rah.es/biografias/65643/felix-millet-y-maristany [consultado em 11 de janeiro de 2023].

[35] Cfr. Dario Casapiccola – Francesc Castells, Os inícios do Opus Dei na Argentina e no Uruguai (1950-1962), em Martínez Sánchez – Crovetto (eds.), Gentes, escenarios y estratégias, p. 170.

[36] Cfr. Canals, Josep Ferrer i Bonsoms.

[37] Nota necrológica de José Ferrer-Bonsoms Bonsoms, sem data, AGP, série M.1.3, aguardando ser catalogada.

[38] Diário, [p. 4].

[39] Lc. 6,10.

[40] Diário, [p 6].

[41] Lembranças de Francisco Javier Urquia Zaldúa, 11 de agosto de 1975, AGP, série A. 5, leg 250, carp 2, exp. 4.

[42] Em 1973 a homilia apareceu em forma de folheto e depois foi integrada em Amigos de Deus (1977). A gravação que Urquia menciona procede de uma meditação de 12 de outubro de 1947, pregada em Madri cerca de um ano e meio antes do retiro. Cfr. Josemaria Escrivá de Balaguer, Amigos de Deus, edição crítico-histórica elaborada por Antonio Aranda, Coleção de Obras Completas de Josemaria Escrivá (ISJE), Madri, Rialp, 2019, pp. 585-586. Foi gravada em um gravador primitivo e os membros do Opus Dei escutavam-na em algumas ocasiões. O paralelismo com a meditação do retiro de 1949 é evidente, especialmente na cena de Bartimeu.

[43] Cfr. Jo, 9, 6-7.

[44] Cfr. Mc. 10, 46-52.

[45] Diário, [p.9].

[46] Cfr. Jo, 13, 8.

[47] Diário [pp 12-13].

[48] Diário, [pp 15-16]

[49] Diário [p.18]

[50] Cfr. Jo, 13, 34.

[51] Jo, 4, 27.

[52] Mt. 11, 29.

[53] Diário, [pp 18-19]

[54] A “bandeira” era uma companhia dos exércitos espanhóis em tempos de Santo Inácio de Loyola, liderada por um capitão, embora o termo se utilize ainda em algumas unidades táticas modernas. As duas bandeiras inacianas são a de Satanás, que incita ao pecado e leva à morte, e a de Cristo que conduz à salvação na qual o participante dos exercícios espirituais é chamado a alistar-se.

[55] Diário, [pp 22-23];

[56] Mt. 13, 35 (Vg).

[57] Diante da política anticlerical dos governos liberais do Reino da Itália e sua beligerância contra as pessoas e os bens eclesiásticos, a Santa Sé apresentou várias vezes uma negativa à pergunta sobre a possibilidade de os católicos participarem nas eleições políticas do país (“non expedit” “não convém”, respondeu). Tal proibição, que durou de 1868 a 1919, constituiu um protesto compreensível diante dos atropelos sofridos, mas ausentar-se da política italiana implicou de fato deixar o governo da nação em mãos de políticos que muitas vezes foram hostis à Igreja, sem encontrar oposição, em um país então majoritariamente católico.

[58] Diário, [p. 24].

[59]José Maria Poveda Ariño nasceu em Valência em 22 de outubro de 1918 e faleceu em Madri e 15 de novembro de 2004. Casou-se com Rosario de Agustin Jiménez, que também era supernumerária, com quem teve onze filhos.

[60] Relato de José Maria Poveda Ariño, sem data, AGP, série A.5, leg 239, carp 2, exp.4.

[61] Relato de José Maria Poveda Ariño, sem data, AGP, série A. 5, leg. 239, carp. 2, exp. 4.

[62] Relato de José Maria Poveda Ariño, sem data, AGP, série A. 5, leg. 239, carp. 2. exp. 4

[63] Relato de José Maria Poveda Ariño, sem data, AGP, série A. 5, leg. 239, carp. 2, exp. 4.

[64] Relato de José Maria Poveda Ariño, sem data, AGP, série A. 5, leg. 239, carp. 2, exp.4

[65] Nota necrológica de José Maria Poveda Ariño, sem data, AGP, série M.1.3, ainda não catalogada.

[66] Nota necrológica de José Maria Poveda Ariño, sem data, AGP, série M. 1. 3, ainda não catalogada.

[67] León Mario Azara Pena nasceu em 7 de abril de 1914. Licenciado em Veterinária e militar. Sua mulher chama-se Maria García del Busto, também supernumerária ; tiveram 7 filhos (dados proporcionados por Julio Montero e Maria Luisa Galdón, de uma publicação sobre as primeiras supernumerárias, no prelo). Faleceu em 21 de abril de 1997.

[68] Cfr. Cano, Os primeiros supernumerários do Opus Dei. A convivência de 1948, pp. 290-291; 299-301.

[69] Relato de Carlos Verdú Moscardó, julho de 1975, AGP, série A. 5, leg. 251, carp.3, exp. 10.

[70] Relato de León Mario Azara Pena, 16 de julho de 1975, AGP, série A. 5, leg. 312, carp. 2, exp. 9.

[71] Relato de León Mario Azara Pena, 16 de julho de 1975, AGP, série A. 5, leg. 312, carp. 2, exp. 9.

[72] Expressão que alude à tourada a cavalo: o rejón de muerte é uma lança longa que o ginete usa para acabar seu trabalho. Significa que a tarefa está quase terminada, em outras palavras, que o fundador do Opus Dei estava persuadido de que a mensagem de entrega a Deus havia penetrado no coração daqueles homens, como uma espada, e que já estavam quase decididos a dizer que sim, como com efeito ocorreria ao cabo de algumas semanas.

[73] Relato de Carlos Verdú Moscardó, Julho de 1975, AGP, série A. 5, leg. 251, carp. 3, exp. 10

[74] Relato de León Mario Azara Pena, 16 de julho de 1975, AGP, série A. 5, leg 312, carp. 2, exp. 9.

[75] Relato de León Mario Azara Pena, 16 de julho de 1975, AGP, série A. 5, leg 312, carp. 2, exp. 9.

[76] Relato de León Mario Azara Pena, 16 de julho de 1975, AGP, série A. 5,leg 312, carp. 2, exp. 9.

[77] Relato de León Mario Azara Pena, 16 de julho de 1975, AGP, série A. 5, leg 312, carp. 2, exp. 9.

[78] Relato de León Mario Azara Pena, 16 de julho de 1975, AGP, série A. 5, leg. 312, carp. 2, exp. 9.

[79] Nota necrológica de León Mario Azara Pena, sem data, AGP, série M. 1. 3, ainda não catalogada.

[80] María Antonia García del Busto (Maruja) pediu admissão em 1953: foi a primeira supernumerária de Gandía (dado fornecido por Julio Montero e María Luisa Galdón, de uma publicação sobre as primeiras supernumerárias,( ainda no prelo).

[81] Luka Brajnovic Dabinovic nasceu em Kotor (Montenegro) em 13 de janeiro de 1919. Era casado com Ana Tiján, com quem teve cinco filhos. Pediu admissão ao Opus Dei em 2 de abril de 1953. Faleceu em 9 de fevereiro de 2001, em Pamplona.

[82]Nasceu em Dakovo, em 15 de dezembro de 1923 e faleceu em um acidente de avião nas Ilhas Guadalupe, em 6 de março de 1968. Depois de realizar doutorados em Direito civil e Teologia, foi ordenado sacerdote em 1958. Desenvolveu uma intensa atividade sacerdotal na Espanha, Itália, Suíça e Alemanha. Foi diretor da Obra de Emigração Croata a partir da qual desempenhou um trabalho pastoral entre os croatas residentes fora de seu país. Cfr. José Orlandis Rovira, verbete Vince, Vladimiro, em Diccionario crítico de juristas españoles, portugueses e latinoamericanos (hispânicos, brasileños, quebequenses e restantes francófonos) [até abril de 2008]Saragoça – Barcelona, Faculdade de Direito, Universidade de Málaga, tomo II, pp 100-101. Cfr. Alfrediplomático durante a Segunda guerra m. Mudou-se para a Espanha em 1946, onde viveu o resto de sua vida e onde pediu admissão como supernumerario, em 19 de março de 1951. Trabalhou nos começos de La Actualidad Española y Nuestro Tiempo (cfr. Nota necrológica de Anton Wurster, sem data, AGP, série M. 1.3, leg 313, carp. 3, exp. 3; cfr. Méndiz Salvador Canals, pp. 156-157). Em Pamplona, foi professor do Instituto de Méndiz Salvador Canals. Uma biografia (1920-1975), Madri, Rialp, 2019, pp. 155-157; 159-160; 368-369; cfr. Vladimir Vince, Wikipedia, https://es.wikipedia.org/viki/vladimir_Vince.

[83] Alguns dados em Méndiz, Salvador Canals, pp. 156-157.

[84] Anton Wurster nasceu em Rijeka (Croácia) em 14 de janeiro de 1913. Foi um jurista, filósofo e intelectual. migo de Vladimiro Vince, conheceu o Opus Dei em Roma, onde era jornalista e lecionou Sociologia da Informação e Relações Públicas. Morreu em Pamplona em 20 de novembro de 1961. Cfr. Anton Wurster, em Wikipedia, https://es.wikipedia.org/wiki/... [consultado em 17 de janeiro de 2023]; cf. José Orlandis Rovira, Memorias de Roma en guerra (1942-1945), Madri, Rialp, 1992, p. 108; cfr. José Orlandis Rovira, voz Wurster [ou Vuster], Anton P., em Diccionario crítico de juristas Espanhol, português e latino-americano (hispânico, brasileiro, quebequense e outros países francófonos) [tradução livre outros países de língua francesa) [até abril de 2008], Zaragoza - Barcelona, Faculdade de Direito, Universidade de Málaga, volume II, pp. 137-140; cfr. José Orlandis Rovira, voz Wurster [ou Vurster], Anton P., em Diccionario de Canonistas Eclesiasticistas Europeos y Americanos (II). Desde o ano 1000 até 2018, Saarbrücken, Editorial Académica Española, 2018, pp. 559-563.

[85] Em seu livro de memórias explica, pelo contrário, que estava em Segovia por motivo de um casamento. Cfr. Luka Brajnovic, Despedidas y encuentros. Memorias de la guerra y el exilio, Pamplona, Eunsa, 2001, p. 133.

[86] Relato de Luka Brajnovic Dabinovic, 31 de agosto de 1975, AGP, série A. 5, leg 199, carp. 2, exp. 5.

[87] Cfr. Diário [p.23].

[88] Relato de Luka Brajnovic Dabinovic, 31 de agosto de 1975, AGP, série A. 5, leg. 199, carp. 2, exp. 5.

[89] Más datos biográficos en: Brajnovic, Despedidas y encuentros; María del Mar López Talavera, Entre la ética y la política: Luka Brajnovic en la España franquista, en «Aportes» 81, año XXVIII (1/2013), pp. 191-210.

[90] Brajnovic, Despedidas y encuentros, p. 14.

[91] Cfr. ibid., p. 61.

[92] Cfr. Ibid. p. 63.

[93] O casal teve depois mais quatro filhos.

[94] Ibid., p. 101.

[95] Memórias de Luka Brajnovic Dabinovic, 31 de agosto de 1975. AGP. série A.5, leg. 199. carp. 2. exp. 5.

[96] Relato de Luka Brajnovic Dabinovic, 31 de agosto de 1975, AGP, série A. 5. Leg. 199, carp. 2, exp. 5.

[97] Olga Brajnovic, Uma odisseia de amor e guerra. A luta de um jovem casal croata pela conquista de sua liberdade, Madri, Rialp, 2019, p. 242.

[98] Ibid., p. 243.

[99] Relato de Salvador Canals, 9 de fevereiro de 1948, série L.1.1, leg. 10, carp. 1, exp. 15.

[100] Nasceu em Cascante (Navarra) em 30 de janeiro de 1913 e faleceu em Majadahonda (Madri) em 23 de março de 2008. Cfr. Alfredo Méndiz, Os primeiros passos da obra de São Gabriel (1928-1950), SetD 13 (2019), pp. 253-254.

[101] Relato de Miguel Deán Guelbenzu, 20 de setembro de 1975, AGP, série A.5, leg. 206, carp. 3, exp. 6.

[102] Relato de Miguel Deán Guelbenzu, 20 de setembro de 1975, AGP, série A.5, leg.206, cap. 3, exp. 6.

[103] Blas Romero Cano (1882-1958) era capelão da paróquia de Santa Bárbara em Madri. Deán não foi o único estudante que direcionou para DYA a partir de seu confessionário: cfr. Constantino Ánchel, Fuentes para la historia de la Academia y de la Residencia DYA, SetD, 4 (2010), p. 86. Cfr. Martínez Sánchez et al. (eds), Cronologia, p. 703.

[104] Relato de Miguél Deán Guelbenzu, 20 de setembro de 1975, AGP, série A.5, leg. 206, carp. 3, exp. 6.

[105] Relato de Miguel Deán Guelbenzu, 20 de setembro de 1975, AGP, série A. 5, leg. 206, carp. 3, exp. 6.

[106] Relato de Miguel Deán Guelbenzu, 20 de setembro de 1975, AGP, série A.5, leg. 206, carp. 3. Exp. 6.

[107] Relato de Miguel Deán Guelbenzu, 20 de setembro de 1975, AGP, série A. 5, leg. 206, carp. 3, exp. 6

[108] Relato de Miguel Deán Guelbenzu, 20 de setembro de 1975, AGP, série A. 5, leg. 206, carp. 3, exp. 6.

[109] Relato de Miguel Deán Guelbenzu, 20 de setembro de 1975, AGP, série A. 5, leg. 206, carp. 3, exp. 6.

[110] Relato de Miguel Deán Guelbenzu, 20 de setembro de 1975, AGP, série A. 5, leg. 206, carp. 3, exp. 6.

[111] Relato de Miguel Deán Guelbenzu, 20 de setembro de 1975, AGP, série A. 5, leg. 206, carp. 3. Exp. 6.

[112] Cfr. Cano, Os primeiros supernumerários do Opus Dei. A convivência de 1948, pp. 297-299.

[113] Relato de Miguel Deán Guelbenzu, 20 de setembro de 1975, AGP, série A.5. Leg. 206, carp.; 3. Exp. 6.

[114] Relato de Miguel Deán Guelbenzu, 20 de setembro de 1975, AGP, série A.5. leg. 206, carp. 3, exp. 6.

[115] Relato de Miguel Deán Guelbenzu, 20 de setembro de 1975, AGP, série A.5, leg.206, carp.3, exp. 6.

[116] Relato de Miguél Deán Guelbenzu,, 20 de setembro de 1975, AGP, série A.5. leg.206, carp. 3. exp. 6

[117] Alguns detalhes biográficos no discurso de entrada na Real Academia de Doctores de seu sucessor: cfr. Real Academia de Doctores, Discurso de ingresso do académico numerário Exmo. Prof. Dr. D. Alfonso Dominguez-Gil Hurlé, pp. 7-8, em https://www.rade.es/imageslib/ACADEMICOS/DISCURSOS/DOMINGUEZ-GIL%20HURLE,%20Alfonso_Discursoingreso.pdf [consultado em 24 de janeiro 2023].

[118] Relato de Miguel Deán Guelbenzu, 20 de setembro de 1975, AGP, série A. 5. leg. 206, carp. 3, exp. 6.

[119] Sua mulher faleceu em 23 de agosto de 1973. Cfr. participação no Diário ABC, Madri, 24 de agosto de 1973, p. 74.

[120] Nota necrológica de Miguel Deán Guelbenzu, sem data, AGP, série M. 1.3, ainda não catalogada.

[121] Diario, [pp.28-29].

[122] Cfr. Mt. 6, 9.

[123] Diario [pp 30-31].

[124] Mt 4, 19 [Vg].

[125] Lc 5 ,4.

[126] Jo 21, 3.

[127] Jo 21, 6

[128] Jo 21, 16

[129] Jo 21, 15

[130] Diário [pp 38-40]

[131] Diário [p 40]

[132] Francisco Javier Urquía Zaldúa, nasceu em 23 de março de 1921, em San Sebastián/Donostia e faleceu em Pamplona em 24 de janeiro de 2003.

[133] José María Pagola Lacarra (1916-1959) nasceu em Hemani (Guipùzcoa). Enquanto estudava Medicina em Madri, em 1934, participou das atividades de DYA. Pediu admissão como supernumerário em 1953.

[134] Relato de Francisco Javier Urquía Zaldúa , 11 de agosto de 1975, AGP, série A. 5, leg. 250, carp. 2, exp. 4.

[135] Relato de Francisco Javier Urquía Zaldúa, 11 de agosto de 1975, AGP, série A.5, leg. 250, carp. 2, exp. 4

[136] Relato de Francisco Javier Urquía Zaldúa, 11 de agosto de 1975, AGP, série A. 5, leg. 250, carp. 2, exp. 4.

[137] Como explica em seu relato, não conhecia exatamente a procedência de São Josemaria, mas sabia de sua origem aragonesa (ou maño, diminutivo mañico). É assim que se referem aos aragoneses na Espanha.

[138] Relato de Francisco Javier Urquía Zaldúa, 11 de agosto de 1975, AGP, série A.5, leg. 250, carp. 2, exp. 4.

[139] Relato de Francisco Javier Urquía Zaldúa, 11 de agosto de 1975, AGP, série A. 5, leg. 250, carp. 2, exp. 4.

[140] Relato de Francisco Javier Urquia Zaldúa, 11 de agosto de 1975, AGP, série A. 5, leg. 250, carp. 2, exp. 4.

[141] Relato de Francisco Javier Urquia Zaldúa, 11 de agosto de 1975, AGP, série A. 5, leg. 250, carp. 2, exp. 4

[142] .Relato de Francisco Javier Urquía Zaldúa, 11 de agosto de 1975, AGP. série A. 5, leg. 250, carp. 2. exp. 4

[143] Nota necrológica de Javier Urquía Zaldúa, sem data, AGP, série M. 1. 3, ainda não catalogada.

[144] Nota necrológica de Javier Urquía Zaldúa, sem data, AGP, série M. 1. 3, ainda não catalogada.

[145] Nasceu em Madri, em 5 de junho de 1924. Faleceu em sua cidade natal em 22 de abril de 1975.

[146] Cfr. María Hernández-Sampelayo Matos, Chaves biográficas de um tecnocrata. José María Hernández-Sampelayo López (1924-1975), Madri, Bubok, [2022], pp. 97-98.

[147] Ibid., p. 100.

[148] Fernando Maycas de Alvarado nasceu em Madri em 1922. Estudou Direito em Sevilha. Mudou para Paris em 1947, onde impulsionou os começos do Opus Dei e onde preparou seu doutorado em Direito Internacional. Ordenou-se sacerdote em 1951 e doutorou-se em Direito Canônico em Roma em junho de 1953. Foi vigário Judicial da Diocese de Marselha nos anos 80 e depois em Paris. Faleceu em 12 de julho de 2014. Algum dado biográfico em Federico M.Requena – Fernando Crovetto, “Salir de España entre la Guerra Mundial y la Guerra Fria: la expansión del Opus Dei en los años 40”, SetD 14 (2020), p.354; cfr. DCEs de Mgr Ferdinand Maycas, https://opusdei.org/fr-fr/article/deces-de-mgr-ferdinand-maycas/ [consultado em 24 de janeiro de 2023]

[149] Entrevista com Fernando Maycas, setembro de 2014, em Hernández-Sampelayo Matos, Chaves biográficas, pp. 101-102. ernández

[150] Cfr. Ibid., pp. 103-104. Manuel González Simancas Lacasa nasceu em 19 de agosto de 1923. Estudou arquitetura. Fez o retiro na Semana Santa de 1942, pregado por São Josemaria e pediu admissão como numerário em 5 de setembro de 1943. Trabalhou em Roma como arquiteto, na construção de Villa Tevere e de Torreciudad. Faleceu em Madri em 19 de janeiro de 2015. Cfr. Díaz, Expansión, pp. 175 e 295.

[151] Cfr. Ibid., pp. 105-108.

[152] Cfr. Hernández-Sampelayo Matos, Chaves biográficas, pp.39-88

[153] Nasceu em Barcelona, em 14 de abril de 1915. Era filho de Eugenio d’Ors (1881-1954), filósofo e crítico de arte. Faleceu em Pamplona em 1º de fevereiro de 2004.

[154] Relato de Álvaro d’Ors Pérez-Peix, Pamplona, abril de 1976, AGP, série A. 5, leg. 1250, carp. 3, expo. 15.

[155] Gabriel Pérez Gómez, Álvaro D’Ors: sinfonía de una vida, Madrid, Rialp, 2020, p.285.

[156] Isso aconteceu provavelmente perto do Natal de 1942 ou 1943, cfr. Ibid., p. 285.

[157] … São Josemaria Escrivá de Balaguer, carta a Álvaro d’Ors Pérez-Peix, 12 de junho de 1949, em AGP, série A.3.4, leg. 261, carp. 1, carta 490612-01.

[158] Relato de Álvaro d’Ors Pérez-Peix, Pamplona, abril de 1976, AGP, série A. 5, leg. 1250, carp. 3, exp. 15.

[159] Pérez Gómez, Álvaro D’Ors, p. 286.

[160] Cfr. Ibid., pp. 453-455.

[161] Cfr. Ibid., p.483.

[162] Cfr. Rafael Domingo Olé, Álvaro d’Ors: uma aproximação à sua obra, Cizur Menor, Thomson Reuters Aranzadi, 2005, pp.38-42.

[163] Se me é permitida uma lembrança pessoal durante meus anos como estudante de Direito em Pamplona, tanto em aula como quando o encontrava às vezes em la Villares – o ônibus urbano de Pamplona – pude testemunhar essa solicitude. Álvaro D’Ors impunha um grande respeito a nós, seus alunos de Direito romano, tanto por sua exigência como professor, como por seu prestígio, mas sua conversa era cordial e simples, cheia de pensamentos originais, muito pessoais, e evidentemente, opináveis.

[164] Cfr. Nota necrológica de Álvaro d’Ors Pérez-Peix, sem data, AGP, série M. 1.3, ainda não catalogada.

[165] Cfr. Mt. 5, 13-14.

Luis Cano