Uma mentalidade universal

"Amar o pluralismo, na liberdade dos filhos de Deus, era para o Bem-aventurado Josemaría uma autêntica paixão."

Amanhã, 9 de janeiro de 2002, celebrar-se-á o centenário do nascimento do bem-aventurado Josemaría Escrivá, fundador do Opus Dei, que, no último dia 20 de dezembro, foi considerado "figura eminente da Igreja no século XX", no decreto de aprovação de um milagre a ele atribuído. Diante de uma ocasião tão significativa, vêm à minha memória algumas das lembranças que guardo da sua pessoa.

Recordo-me de uma fotografia sua que expressa, de uma maneira gráfica, um traço muito destacado da sua personalidade: a compreensão das pessoas, de qualquer condição e cultura. Nessa fotografia, Monsenhor Escrivá está de joelhos, diante de uma mulher índia, já de idade, talvez de ascendência asteca, que também permanece ajoelhada.

A cena aconteceu no México. Aquela mulher simples, que tinha ouvido falar da santidade do fundador do Opus Dei, quando o encontrou, imediatamente, sem dar tempo para a menor reação dos circunstantes, ajoelhou-se diante dele num gesto de agradecimento e respeito, e começou a inclinar-se para lhe beijar os pés. Comovido com a simplicidade daquela camponesa índia, Mons. Escrivá exclamou: "isso não, minha filha, isso não", enquanto ele também se ia ajoelhando diante dela e, acrescentou: "Somos iguais, minha filha, somos filhos de Deus, com a diferença de que eu não sou senão um pobre pecador por quem é preciso rezar muito". Ninguém dizia uma palavra. Ninguém se mexia. Só se escutava a voz afabilíssima do fundador do Opus Deis, falando àquela anciã, que chorava mansamente. Quando se retirou, essa camponesa disse com a voz entrecortada pelos soluços: "Hoje foi o dia mais feliz da minha vida" (1).

Esse homem, de inteligência eminente, que dialogava assim com uma mulher índia, comunicava-se igualmente com um universitário negro do Quênia ou da Nigéria, ou trocava impressões com um intelectual alemão. Era um homem de mentalidade aberta, de coração universal.

Serenidade. Viktor Frankl, um sucessor de Sigmund Freud na cátedra de psicopatologia da Universidade de Viena, de religião judaica, depois de um encontro com Monsenhor Escrivá, comentou: "O que me fascinou particularmente na sua pessoa foi acima de tudo a serenidade refrescante que dele emanava e que iluminava a conversa; depois, o ritmo inaudito com que o seu pensamento flui e, finalmente, a sua assombrosa capacidade de contato com os seus interlocutores" (2).

Esta qualidade de que fala Viktor Frankl era, singularmente, a capacidade de comunicação que lhe era peculiar com pessoas das mais diversas condições sociais, religiões, raças, línguas e profissões. Não era apenas uma qualidade humana. Era aquele espírito católico - universal - que esteve sempre no âmago do espírito do Opus Dei e que permeava toda a personalidade do seu fundador.

Ele apaixonou-se pelo Brasil, entre outras coisas porque, tanto no Rio como em São Paulo, pôde relacionar-se com pessoas de raça negra, japonesa, chinesa, portuguesa, espanhola, polonesa... Esse caleidoscópio multicor o enamorava.

Recordo-me que, falando a vários milhares de pessoas que enchiam um auditório em São Paulo, dizia que não tinha vindo ao Brasil ensinar nada. Que viera com os olhos e o coração abertos de par em par, para que entrassem por eles tantas coisas boas e ficassem no seu coração, a fim de que as pudesse levar pelo mundo dizendo que eram nossas, e que - por serem nossas - eram cristãs, humanas e divinas.

Lembro-me, igualmente, de quando falou que no Brasil a primeira coisa que encontrou foi uma mãe grande, formosa, fecunda, terna, que abre os braços a todos sem distinção de línguas, de raças, de nações, e a todos chamava filhos. Que grande coisa é o Brasil, comentava. Depois falou da forma como nos tratávamos de uma maneira fraterna, e se sentiu emocionado...

Disse ainda que para ele o Brasil tinha os braços abertos a todo o mundo: que aqui não havia distinções, que poderíamos repetir as palavras da Escritura: "gentes de todos os povos encontram aqui a Pátria", que já se sentia brasileiro, e que se não tivesse a obrigação de residir em Roma residiria no Brasil.

O Opus Dei já nasceu com um espírito universal, católico. Um índice disso é o de possuir uma marcante característica ecumênica. Já em 1950, quando nem sequer se sonhava com a abertura ecumênica que se operaria depois na Igreja a partir do Concílio Vaticano II, com a amplidão de afeto para com todas as pessoas que o caracteriza, o fundador conseguiu - com "filial braço-de-ferro" - que a Santa Sé admitisse como cooperadores do Opus Dei todo tipo de pessoas: protestantes, ortodoxos, judeus, muçulmanos e pagãos. Conversando um dia com João XXIII, comentava-lhe: "Santo Padre, na nossa Obra, todos os homens, católicos ou não, sempre encontram um ambiente amável: não aprendi o ecumenismo da Vossa Santidade"; e o Papa sorria, comprazido" (3).

Dada a falta de espaço, seria impossível mostrar um panorama completo do espírito universal do bem-aventurado Josemaría Escrivá. No entanto, deveríamos, para terminar, sublinhar que fazia parte desta mentalidade universal - tanto no espírito do Opus Dei como no do seu fundador - um grande amor à liberdade pessoal e ao pluralismo. O fundador repetia que no Opus Dei há um pequeno denominador comum - a fé e a moral da Igreja - e um grande numerador diferente: o pensamento livre de cada pessoa.

Liberdade. Perante um grupo de estudantes, manifestou uma vez a sua admiração pelos românticos do século passado. "Tinham todo um sonho romântico, sacrificavam-se e lutavam por alcançar essa democracia com a qual sonhavam, e uma liberdade pessoal com responsabilidade pessoal.

"Assim é preciso amar a liberdade: com responsabilidade pessoal (...). Penso que sou o último romântico, porque amo a liberdade pessoal de todos - a dos não católicos também (...). Amo a liberdade dos demais, a vossa, a do que passa agora mesmo pela estrada, porque se não a amasse não poderia defender a minha. (4)

"E esta mentalidade vos permitirá fugir de toda intolerância, de todo fanatismo - direi de modo positivo -, vos fará conviver em paz com todos os vossos concidadãos, e fomentar também a convivência nas diversas ordens da vida social... Não esqueçais que em assuntos temporais não há dogmas" (5).

Amar o pluralismo, na liberdade dos filhos de Deus, era para o bem-aventurado Josemaría Escrivá uma autêntica paixão. Isto permitia-lhe manter uma convivência com pessoas de todas as mentalidades - pagãos, ateus, comunistas... - sem afastar-se das suas próprias convicções. E esse espírito, inculcado nos que fazem parte do Opus Dei, permite que mais de 80 mil pessoas de 87 nacionalidades dos cinco continentes, das mais diversas raças e culturas, com mentalidades tão diversas, vivam a unidade e a fraternidade em torno de um ideal comum.

1. Cfr. Bernal, S., "Perfil do Fundador do Opus Dei". Edit. Quadrante. São Paulo, 1978, pp. 203-204.

2. Bernal, S., o. c., p. 191.

3. Cfr. Vazquez de Prada, "O Fundador do Opus Dei", p. 309.

4. Josemaría Escrivá de Balaguer y la Universidad, EUNSA, Pamplona, pp. 275-276.

5. Citado em Aranda, A., "El bullir de la Sangre de Cristo", Edic. Rialp, Madri 2000, p. 276.

D. Rafael Llano Cifuentes é bispo auxiliar do Rio de Janeiro

  • D. Rafael Llano Cifuentes // Jornal do Commercio