Um sacerdote que só fala de Deus

Em junho de 1933, São Josemaria compilou uma lista de “Palavras do Novo Testamento meditadas repetidas vezes”. Oferecemos a seguir um exemplo de um destes textos, e um comentário do professor Francisco Varo.

Bibliografia e ensaios
Opus Dei - Um sacerdote que só fala de Deus

Em junho de 1933, São Josemaria compilou uma lista de “Palavras do Novo Testamento meditadas repetidas vezes”. Trata-se de oito páginas com 112 textos do Novo Testamento com alguns comentários ocasionais, muito breves, que o fundador do Opus Dei reuniu para facilitar o seu trabalho de pregação.

Pode-se considerar que é um testemunho que ilustra a vida espiritual e a atividade sacerdotal de São Josemaria nos primeiros anos do Opus Dei. Oferecemos a seguir um exemplo de um destes textos, e um comentário do professor Francisco Varo.

Non enim judicavi me scire aliquid inter vos, nisi Jesum Christum, et hunc Crucifixum. (ad Cor. I 2,2)

Pois, entre vós, não julguei saber coisa alguma, a não ser Jesus Cristo, e este, crucificado (Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios, 2,2).

O marco histórico no qual São Josemaria compôs este elenco de Palavras do Novo Testamento, repetidas vezes meditadas corresponde aos primeiros anos da segunda República Espanhola (1931-1936). Após sua proclamação, em 14 de abril de 1931, sucederam-se disputas de violência crescente. Nos dias 11, 12 e 13 de maio foram queimados mais de 100 edifícios religiosos, sobretudo igrejas e conventos, incendiados por grupos radicais ante a passividade das forças da ordem[1]. Em 9 de dezembro de 1931 se promulgou uma Constituição impregnada de um laicismo agressivo que era qualificada na declaração coletiva dos Bispos assinada no mês de dezembro como “um atentado jurídico contra a Igreja”[2]. Foram tempos de grande sofrimento para muitos católicos perante os graves atropelos que iam se multiplicando contra a Igreja, contra a liberdade, e inclusive contra a vida dos cidadãos que viviam coerentemente sua fé, e que nos anos seguintes desembocaram em aberta perseguição, na qual muitos alcançaram o martírio[3].

Mas nem todos os partidos que apoiaram essa nova constituição eram radicalmente contra a Igreja, e muito menos os votantes que os apoiaram, nem tampouco os que se opunham a ela na cena política o faziam por motivos religiosos.

Em um contexto tão conturbado, as conversas cotidianas abordavam uma e outra vez a situação política e social que se estava vivendo, e se discutia em todas as partes sobre o rumo a tomar. Não faltavam fiéis católicos, e inclusive sacerdotes que, ao mesmo tempo em que se lamentavam do que estava acontecendo, debatiam os prós e contras das possíveis alternativas em busca de soluções, ou tomavam partido abertamente por uma ou outra opção política.

São Josemaria era um homem culto, que nesse momento já tinha terminado sua licenciatura em Direito, e que estava dotado de grande finura jurídica. Poderia julgar com conhecimento de causa os debates parlamentares que eram acompanhados pela imprensa, e as leis que se iam promulgando, e teria muito para dizer. Realizava um intenso labor pastoral e percorria, atendendo doentes e enfermos, os bairros mais pobres de Madri, pela qual também conhecia o que se passava na rua, assim como as ideias que circulavam entre o povo. Mas era consciente de que seu trabalho como sacerdote deveria contemplar a realidade não a partir do ponto de vista do confronto, nem da queixa, mas a partir da perspectiva de Jesus Cristo, que morreu para redimir a humanidade inteira sem exceções[4]. Em uma carta escrita a Isidoro Zorzano nesta época lhe aconselhava o que ele mesmo se empenhava em viver: “Não te esfrie ou esquente a mudança política: que só te importe que não ofendam a Deus”[5]. Era consciente de que sua tarefa não devia mover-se no campo do debate nem na ação política, mas na pregação do Evangelho de Jesus Cristo, que nos redimiu na Cruz, com os braços abertos a todos. Talvez por isso, nesses momentos, causaram-lhe um forte impacto umas palavras de São Paulo que anotou e meditou várias vezes: não julguei saber coisa alguma, a não ser Jesus Cristo, e este, crucificado[6].

Durante toda a sua vida, São Josemaria sempre manteve a mesma atitude própria de pastor da Igreja que, ao mesmo tempo que está aberto a tudo o que acontece ao seu redor, é tem consciência clara de que a sua contribuição específica consiste em fazer Jesus Cristo presente[7]. Assim o repetia, muitos anos depois, na homilia pronunciada na solenidade de Cristo Rei, em 1970: “Abraçar a fé cristã é comprometer-se a continuar entre as criaturas a missão de Jesus. Cada um de nós tem que ser alter Christus, ipse Christus, outro Cristo, o próprio Cristo. Só assim poderemos empreender essa tarefa grande, imensa, interminável: santificar por dentro todas as estruturas temporais, levando a elas o fermento da Redenção.

“Nunca falo de política. Não encaro a tarefa dos cristãos na terra como se tivesse por fim fazer brotar uma corrente político-religiosa – seria uma loucura – nem mesmo com o bom propósito de infundir o espírito de Cristo em todas as atividades dos homens. O que é preciso situar em Deus é o coração de cada um, seja ele quem for. Procuremos falar a cada cristão, para que lá onde estiver – nas circunstâncias que não dependem apenas da sua posição na Igreja ou na vida civil, mas também do resultado das mutáveis situações históricas – saiba dar testemunho da fé que professa, com o exemplo e com a palavra”[8].

Como acontece no texto da Primeira Carta aos Coríntios que comentamos, São Josemaria, cada vez que se assomava às páginas do Novo Testamento, podia encontrar em São Paulo uma figura preclara, uma referência excelente sobre o que é um homem fiel a Cristo, ao mesmo tempo interessado ativamente pelo mundo em que vive, com o desejo de torná-lo melhor.

O exemplo de São Paulo

O Apóstolo era um homem instruído, orgulhoso de ser cidadão romano, apesar de que nesses momentos as qualidades morais dos governantes do Império, Cláudio e Nero, deixavam muito a desejar. Não era um pobre ignorante. Era uma pessoa bem educada, que tinha muito para contribuir, de diversos pontos de vista, com os outros. Bom conhecedor da literatura, da retórica e do pensamento helenístico de maior impacto nesses momentos, e dotado de uma excelente preparação rabínica na interpretação das Escrituras, adquirida em Jerusalém na escola de Gamaliel, um dos grandes mestres da época. Também tinha noções precisas do direito romano, que poderiam ser úteis para a atividade profissional daqueles homens e mulheres, entre os quais havia pequenos comerciantes e também funcionários locais. Mas de nada isso serviu ao falar a Corinto, ainda que tivesse preparação suficiente para fazê-lo com competência. Ele sabia bem que sua tarefa consistia em falar de Jesus Cristo àquelas pessoas para que pudessem conhecê-lO, e amar, e seguirem os seus passos. Não lhe faltavam recursos para falar de muitos temas, mas, como escreve no começo do segundo capítulo da sua primeira Carta aos Coríntios, só estava interessado no realmente importante: não julguei saber coisa alguma, a não ser Jesus Cristo, e este, crucificado[9].

Diante daqueles que em Corinto se gabavam de ser discípulos de uns ou outros mestres, o Apóstolo lhes diz que ninguém pode gloriar-se de méritos próprios na tarefa da evangelização, pois o Senhor escolheu os instrumentos mais ineptos para que se veja que a eficácia vem de Deus[10]. E imediatamente lembra com humildade como foi a sua atividade entre eles: Irmãos, quando fui até vós anunciar o mistério de Deus, não recorri à oratória ou ao prestígio da sabedoria[11]. Não ia buscando seu brilho, nem conseguir adeptos para as suas ideias pessoais, pois não se apresentou como um especialista em sabedoria, nem um pregador criativo capaz de propor novidades atraentes à sua audiência. O verdadeiro discípulo de Cristo é o que O conhece bem e fala dEle com simplicidade e claridade, com toda a clareza da sua mensagem íntegra, sem diluí-la para evitar afastamentos covardes: não julguei saber coisa alguma, a não ser Jesus Cristo, e este, crucificado[12].

Mas isso é razoável? Não teria sido oportuno que, tendo o Apóstolo tantas qualidades e conhecimentos, os empregasse para melhorar as condições de vida daqueles fiéis, colocasse mais interesse em elevar o seu nível de vida, ou em ajudar-lhes a crescer em liberdade cidadã, e gastasse parte do seu esforço e do seu tempo também nessas tarefas?

São Paulo tinha conhecido profundamente a Jesus, ouviu com interesse o que as testemunhas presenciais da sua vida contaram, e procurou assimilá-lo até fazer realidade em sua vida a lógica do Mestre. E o que Jesus fez?

Fazer que os homens conheçam mais a Jesus Cristo

Jesus pregou o Reino de Deus como uma realidade iminente, que já começava a se realizar. Enviou os seus discípulos para transmitir essa boa notícia, manifestando o profundo conteúdo espiritual desse Reino. Por outro lado, nunca clamou pela libertação do jugo romano, nem organizou um movimento revolucionário que assumisse os ideais que muitos compartilhavam de transformar o sistema social e político imperante. Jesus viera para algo muito mais importante que, se era assimilado profundamente, levaria pacificamente a uma melhora radical da sociedade, mas não era um líder social nem um impulsionador de reformas estruturais. E a missão que confiou a seus seguidores é a mesma que ele veio realizar: difundir seus ensinamentos sobre Deus e fazer que todos os homens pudessem se beneficiar da Redenção. Esse é, precisamente, o caminho que São Paulo seguiu, como o confessa abertamente aos coríntios.

“Se lhe perguntamos que coisas costumava tratar na pregação – dizia Bento XV – ele mesmo as resume assim: não julguei saber coisa alguma, a não ser Jesus Cristo, e este, crucificado[13]. Fazer que os homens conhecessem mais e mais a Jesus Cristo, com um conhecimento que não parasse só na fé, mas que se traduzisse nas obras da vida, isso é no que o Apóstolo se esforçou com todo o empenho de seu coração”[14].

A Igreja, continuadora no tempo da obra de Jesus Cristo, tem a mesma missão sobrenatural que seu Divino Fundador transmitiu aos Apóstolos, como o recordou, mais uma vez, o Concílio Vaticano II: “A Igreja nasceu para tornar todos os homens participantes da redenção salvadora e, por eles, ordenar efetivamente a Cristo o universo inteiro”.[15]

A Igreja está profundamente interessada por todos os problemas das pessoas, e procura orientá-los ao fim sobrenatural e verdadeiramente humano do homem, mas sua missão transcende o âmbito dos movimentos sociais, as ideologias, ou a ação política direta.

A Igreja não faz política em primeira pessoa

São Josemaria exercitou o seu sacerdócio em plena fidelidade a esses ensinamentos da Igreja, de profunda raiz neotestamentária. Nunca se desinteressou pela justiça e o bem comum, nem permaneceu indiferente ante os sofrimentos dos mais necessitados. Mas sabia bem qual era sua tarefa como pastor da Igreja e sabia que, do seu lugar, com seu trabalho sacerdotal, em um âmbito exclusivamente espiritual, é como podia proporcionar a melhor resposta a todas as nobres aspirações do homem.

Com efeito, como recordou Bento XVI em sua encíclica Deus caritas est, a Igreja, por sua própria natureza, não faz política em primeira pessoa, mas isso não quer dizer que se não se preocupe com as necessidades humanas, pois a busca da ordem de justiça corresponde ao bem comum, e a política é algo que afeta a todos os cidadãos, também a cada um dos fiéis cristãos, que hão de cumprir seus deveres e gozar de todos os direitos. Precisamente, quando os pastores da Igreja formam os cristãos na fé e na vida cristã, estão lhes proporcionando uma ajuda inestimável para que possam prestar à sociedade uma notável contribuição, já que, com efeito, também no que se refere à busca da justiça, a razão humana com frequência é cegada por interesses e pela vontade de poder. E a fé serve para purificar a razão, para que possa ver e decidir corretamente. Portanto, é tarefa da Igreja curar a razão e reforçar a vontade para fazer o bem. Nesse sentido, sem fazer política, a Igreja participa apaixonadamente na batalha pela justiça. Por outro lado, corresponde sim aos cristãos comprometidos no serviço público, na ação política direta, abrir sempre novos caminhos para a justiça[16].

Por isso, a pregação de São Josemaria sempre se movia no âmbito da fé e da moral cristã, falava de Jesus Cristo, e deixava a cada um que, com liberdade e responsabilidade, tomara as decisões adequadas[17]. Testemunho eloquente dessa atitude são umas palavras suas, pronunciadas na homilia, antes citada, da solenidade de Cristo Rei: “Sei que não me compete tratar de temas seculares e transitórios, que pertencem à esfera temporal e civil, e são matérias que o Senhor deixou à livre e serena controvérsia dos homens. Sei também que os lábios do sacerdote, evitando por completo parcialidades humanas, somente devem abrir-se para conduzir as almas a Deus, à sua doutrina espiritual salvadora, aos sacramentos que Jesus Cristo instituiu, à vida interior que nos aproxima do Senhor, dando-nos a consciência de sermos seus filhos e, portanto, irmãos de todos os homens sem exceção”[18].

Assim como dizia em sua pregação aos fiéis, também o repetia aos seus irmãos no sacerdócio, compartilhando com eles sua longa e fecunda experiência neste âmbito[19]. Transmitia-lhes, como em confidência, o que tantas vezes tinha comprovado: “os fiéis pretendem que nele se destaque claramente o caráter sacerdotal.

Esperam que o sacerdote reze, que não se negue a administrar os Sacramentos, que esteja disposto a acolher a todos sem se arvorar em chefe ou militante de partidarismos humanos, sejam de que tipo forem[20]; que ponha amor e devoção na celebração da Santa Missa, que se sente no confessionário, que conforte os doentes e os aflitos, que ensine catequese às crianças e aos adultos, que pregue a Palavra de Deus e não qualquer tipo de ciência humana que – mesmo que a conhecesse perfeitamente – não seria a ciência que salva e leva à vida eterna; que saiba aconselhar e ter caridade com os necessitados.

Numa palavra: pede-se ao sacerdote que aprenda a não estorvar a presença de Cristo nele, especialmente no momento em que realiza o Sacrifício do Corpo e Sangue e quando, em nome de Deus, na Confissão sacramental auricular e secreta, perdoa os pecados”.[21]


[1] Cfr. Payne 2006, págs. 17-18.

[2] Postura de los Obispos ante la nueva Constitución, III. O texto completo pode ser consultado em Iribarren 1974, págs. 160-181.

[3] Cfr. Cárcel 2000, págs. 15-68

[4] Cfr. Coverdale 2004, págs. 39-50.

[5] Carta 5-V-1931; VP I, 358.

[6] 1 Cor 2,2.

[7] Para mais detalhes concretos sobre este traço da personalidade de São Josemaria, é possível consultar Echevarría 2004, págs. 147-160; König 1978, págs. 608-610; Küng 1993, págs. 113-131

[8] É Cristo que passa, 183.

[9] 1 Co, 2,2.

[10] Cfr. 1 Co 1,26-31.

[11] 1 Co 2,1.

[12] 1 Co, 2,2.

[13] 1 Co, 2,2.

[14] BENTO XV, Enc. Humani generis Redemptionem, 15.VI.1917.

[15] CON. VATICANO II, Decr. Apostolicam actuositatem, 2.

[16] Cfr. BENTO XVI, Deus caritas est, nn. 26-29.

[17] Cfr. Castrillón 2004, págs. 39-62

[18] É Cristo que passa, 184.

[19] Sobre o interesse e empenho de São Josemaria em ajudar a seus irmãos no sacerdócio, vide: Rouco 2004, págs. 71-104 e Mateo-Seco 2004, págs. 69-78.

[20] Cfr. CONC. VATICANO II, Decr. Presbyterorum Ordinis, 6.

[21] Homilia Sacerdote para a eternidade. Pode-se encontrar um estudo sobre essa homilia em Capucci 2004, págs. 237-241.