Seleção de Textos (2024-2025)

MEDITAÇÕES, HOMILÍAS, CARTAS E MENSAGENS, DISCURSOS E AULAS, ARTIGOS E ENTREVISTAS

MONS. FERNANDO OCÁRIZ

SELEÇÃO DE TEXTOS

2024-2025

MEDITAÇÕES

HOMILÍAS

CARTAS E MENSAGENS

DISCURSOS E AULAS

ARTIGOS E ENTREVISTAS

© 2026 Fundación Studium

Índice

MEDITAÇÕES

1. Por ocasião da solenidade da Imaculada Conceição (8-XII-2024) 6

2. Por ocasião da festa de São José (19-III-2025) 11

HOMILIAS

3. Na festa do Bem-aventurado Álvaro (11-V-2024) 19

4. Na festa de São Josemaria (26-VI-2024) 22

5. Na festa do Bem-aventurado Álvaro (11-V-2025) 25

6. Na festa de São Josemaria (26-VI-2025) 28

CARTAS E MENSAGENS

7. Carta sobre a obediência (10-II-2024) 32

8. Unidos na oração pela pronta recuperação do Papa (19-II-2025) 49

9. Carta sobre a alegria (10-III-2025) 50

10. Mensagem pelo falecimento do Papa Francisco (21-IV-2025) 56

11. Mensagem para participar do luto e dos ritos fúnebres pelo Papa Francisco (21-IV-2025) 57

12. Mensagem por ocasião da eleição do Papa Leão XIV (8 de maio de 2025) 58

DISCURSOS E AULAS

13. Aula sobre disponibilidade e o celibato no Opus Dei (20-I-2024) 61

14. Sobre a Vitalização Cristã das instituições Educativas (26 de julho de 2024) 68

15. Aula sobre a esperança (novembro de 2024) 80

16. Conferência “Eucaristia e sacerdócio” no centenário da ordenação sacerdotal de São Josemaría (27-III-2025) 92

17. Conferência “Santificar o trabalho, transformar o mundo : uma liderança com sentido cristão” (30-VI-2025) 108

ARTIGOS E ENTREVISTAS

18. El Debate, Espanha (22-VI-2024) 122

19. Avvenire, Italia (26-VI-2024) 127

20. El Mercurio, Chile (28-VII-2024) 132

21.Semana, Colombia (17-IX-2024) 140

22. El 9 Nou, Espanha (24-IX-2024) 144

23. The Pillar, Estados Unidos (18-XI-2024) 149

24. Avvenire, Italia (26-VI-2025) 156

25. Die Tagespost, Alemanha (26-VI-2025) 160

26. El Mundo, España (26-VI-2025) 164

MEDITAÇÕES

Por ocasião da solenidade da Imaculada Conceição (8/12/2024)

Igreja prelatícia de Santa Maria da Paz, Roma

A solenidade de hoje, Imaculada Conceição, começa com palavras de grande alegria que agora fazemos nossas neste tempo de oração, desejando que sejam verdadeiramente autênticas: “Exulto de alegria no Senhor e minha alma regozija-se em meu Deus; ele me vestiu com as vestes da salvação, envolveu-me com o manto da justiça e adornou-me como uma noiva como suas joias” (Is 61,10). Estas palavras do Antigo Testamento, aplicadas profeticamente à Virgem Santíssima, nos ajudam a nos unirmos à alegria de nossa Mãe. E queremos, Senhor, que esta alegria não seja algo superficial, uma simples recordação de algo que já conhecemos, mas que tenha um grande impacto em nosso dia, que nos alegre profundamente.

A primeira leitura da Missa, do livro do Gênesis, nos lembra da promessa de redenção feita a Adão e Eva depois de sua queda. Essa promessa de redenção se refere, é claro, a Cristo, mas também a Santa Maria, com ele e nele: “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela”, diz o Senhor à serpente. “Esta te ferirá a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gn 3, 15). Anuncia-se também uma luta, pois o demônio não se conformará, atacará, ferirá no calcanhar, mas sua cabeça será esmagada. Hoje, Senhor, queremos especialmente em nossa oração sentir-nos filhos da Virgem Santíssima, essa nova Eva, Mãe dos viventes e nossa Mãe: filhos de tua Mãe, irmãos teus, portanto. Tantas vezes, todos os dias, de uma forma ou de outra, nós a contemplamos, rezamos a ela e nos dirigimos a ela. Queremos fazê-lo hoje com uma fé especial, com uma fé maior no Senhor que nos dá Maria como Mãe continuamente, como onipotência suplicante, como meio seguro de pôr ao nosso alcance a força de Deus com o tom materno de Maria, com seu carinho de Mãe.

Conhecemos de cor o Evangelho da Missa de hoje, mas o Evangelho é sempre palavra de Deus, palavra eficaz, penetrante e queremos deixar-nos penetrar mais uma vez por ele. “No sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré, a uma virgem, prometida em casamento a um homem chamado José. Ele era descendente de Davi e o nome da Virgem era Maria. O anjo entrou onde ela estava e disse: "Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo!"” (Lc 1, 26-28). Rezamos estas palavras tantas vezes todos os dias: “Ave, gratia plena”. O anjo a princípio não a chama de Maria, mas lhe dá como nome próprio sua condição de cheia de graça. Chama-a assim, cheia de graça, o que de acordo com os especialistas significa algo como totalmente transformada pela graça.

Fiat mihi secundum verbum tuum” (Lc 1, 36). A Virgem responde com estas palavras, que dizemos todos os dias, à proposta do anjo. Queremos repeti-las hoje, Mãe nossa, com a convicção de que tudo o que Deus quer para nós é para nosso bem, mesmo que, às vezes, não o entendamos. Tenhamos a alegria e a segurança de estar sempre nas mãos de Deus, protegidos por ele, guiados por sua providência. Nada em nossa vida é acaso: atrás de tudo está sempre a vontade do Senhor, que quer o melhor para nós.

“Ó Mãe, Mãe! Com essa tua palavra – ‘fiat’ – nos tornaste irmãos de Deus e herdeiros da sua glória. - Bendita sejas! (Caminho, n. 512). Ao dizermos “faça-se” nas coisas de cada dia, tanto nas grandes quanto nas pequenas, nos tornamos cada vez mais irmãos de Deus, herdeiros de sua glória, com uma graça que nos chega precisamente por meio da mediação materna de Maria.

Na segunda leitura, São Paulo escreve: “Bendito seja Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Ele nos abençoou com toda a bênção do seu Espírito em virtude de nossa união com Cristo, no céu. Em Cristo, ele nos escolheu, antes da fundação do mundo, para que sejamos santos e irrepreensíveis sob o seu olhar, no amor” (Ef 1,3). Fomos escolhidos para também sermos imaculados. Evidentemente, fomos concebidos com o pecado original, mas, pelo batismo voltamos a nascer sem mancha, imaculados. Depois, por nossa fragilidade, vamos nos manchando. Ainda assim, sempre temos o remédio para voltar a ser imaculados por sua graça, pela força dos sacramentos, pela confissão, pela eucaristia, pela oração pela qual o Senhor sempre nos acolhe. Este é um motivo de grande esperança na vida espiritual e no trabalho apostólico. Por mais que notemos as dificuldades externas ou internas, pessoais ou do ambiente, podemos nos sentir imaculados, apesar de nossas manchas, porque Deus nos purifica constantemente cada vez que recorremos a Ele.

O Senhor nos escolheu antes da criação do mundo. Nossa vocação, o plano de Deus para nós, é tão eterno quanto o próprio Deus: Ele já pensou em cada um de nós para que fôssemos santos e sem mancha em sua presença. E, como recorda São Paulo, escolheu-nos em Cristo. Estas palavras são também importantes, porque toda a nossa vida é um viver em Cristo: tem que ser, queremos que seja um viver em Cristo. Nosso Padre nos dizia tantas vezes que temos que ir procurando sempre a união com o Senhor para permanecermos firmes: diante das dificuldades, diante do trabalho, diante dos nossos próprios defeitos. Para estar firmes, para não nos desalentar, para sentir a segurança na chamada que recebemos de Deus, procuremos a união com Jesus Cristo. E é precisamente Maria que nos guia rumo a Ele, que nos ajuda a nos identificarmos com ele a todo momento, de modo que possamos ser aquele ipse Christus que nosso Padre pregava.

A ideia do alter Christus é mais ou menos compreensível e comum. Porém, esse ipse Christus, enormemente original, mas enormemente profundo, é certamente muito mais: não se trata apenas de nos identificarmos com Ele por meio da imitação, mas de vivermos nele, de sermos Ele de alguma forma, sem deixarmos de ser nós mesmos. É o grande mistério de nossa filiação divina, de nossa participação na vida de Deus, que Cristo nos deu no Espírito Santo, para que sejamos santos e sem mancha, imaculados em sua presença. Hoje especialmente, ao ouvir novamente esta palavra, “imaculados”, nosso olhar vai para a Santíssima Virgem, para que ela nos ajude, para que nos pareçamos com ela também nisto, ser imaculados.

É preciso de fato ter audácia para pretender ser imaculados. Podemos, porém, sê-lo cada vez que nos levantamos, cada vez que nos purificamos. Devemos, por isso, muito agradecimento ao Senhor pela penitência, pela confissão, por seu amor e sua misericórdia, que nos perdoa, que nos levanta deste modo visível, no sacramento e sempre que nos levantamos nós com a alma para lhe pedir perdão.

Santos, imaculados..., em sua presença: a presença de Deus é outro grande tema de nossa vida, algo que deve caracterizar nosso caminhar por este mundo. Viver na presença de Deus: isso é ter vida sobrenatural. Vem-nos logo à memória esse outro ponto de Caminho: “Tem presença de Deus e terás vida sobrenatural” (Caminho, n. 278). A presença de Deus e a vida sobrenatural são duas coisas muito unidas, porque não se trata de uma presença de Deus qualquer, e sim de um ato de fé profundo no qual “Deus nobiscum”, e então: “quis contra nos?” (Rm 8,31). E quem melhor, quem com mais profundidade e mais verdade do que a Virgem Maria pode dizer “Deus nobiscum”. Vamos, pois, pedir-lhe agora: Mãe nossa Imaculada, ajuda-nos a ter fé na presença do Senhor em cada um de nós. Que esta realidade nos encha de serenidade e alegria, pois Ele nos dá a graça para afastarmos o medo e a tristeza.

Ele nos escolheu em Cristo, antes da criação do mundo, para que fôssemos santos e sem mancha, em sua presença... pelo amor. O amor: sabemos bem que a santidade é a plenitude da caridade, que é também a plenitude da força do Espírito Santo em nossas almas; e é daí que deve sair sempre a força para o trabalho, para a obra apostólica, para toda nossa vida. A santidade como plenitude da caridade deve, especialmente, levar-nos à unidade. Como diziam conhecidas palavras de São Cipriano, já tão antigas: “A caridade é vínculo de fraternidade, fundamento de paz, vigor e firmeza de unidade; é maior do que a fé e a esperança, sobrepuja as obras boas e os martírios, e, sendo eterna, sempre permanecerá conosco nos reinos celestiais” (São Cipriano, De bono patientiae, n.15: PL 4, 631 C).

O laço que une os irmãos: e esse amor, essa caridade, é inseparável do amor a Deus. De certa forma é a mesma coisa, embora em direções diferentes, é a mesma virtude. O laço que une os irmãos: as mães se alegram quando veem os irmãos, seus filhos, unidos, que se amam, que se ajudam, que andam juntos. Podemos pensar que a Virgem Maria se alegra quando nos vê unidos, quando vê que nos amamos. E, ao mesmo tempo, ela nos proporciona esta realidade de estarmos unidos, de vivermos a fraternidade, esta fraternidade que, por sua própria natureza, visa sempre um transbordar em zelo apostólico.

Que a Virgem Santíssima, Mãe, nos conceda o ar de família, é o que pedimos. Que ela nos proteja também no sentido de que a Obra seja, como nosso Padre queria, uma pequena família, mesmo que esteja estendida por todo o mundo. Recordareis que nosso Padre dizia que, mesmo estando espalhados pelo mundo, podemos ser uma pequena família, precisamente pelo amor, pelo carinho, pela unidade. O Senhor nos concede isso pela Virgem, pela Mãe, pois é a Mãe que dá unidade.

A ausência total de pecado em Maria a levou ao desejo de servir. A primeira coisa em que pensa depois do fiat, quando o próprio Deus encarnado está em suas entranhas, é ir visitar Isabel O anjo havia dito que ela estava esperando um filho. E como Nossa Senhora sabe que Isabel é idosa, compreende que ela precisará de ajuda. Ajude-nos, Mãe nossa, a ter a atitude que leva a descobrir as necessidades dos outros, manifestação imediata de teu ser Imaculada.

Por ocasião da festa de São José(19/03/2025)

Igreja prelatícia de Santa Maria da Paz, Roma

Hoje, na festa de São José, a liturgia nos oferece vários textos, como é habitual. A segunda leitura, em particular, da Carta de São Paulo aos Romanos, aplica a São José a figura de Abraão, aquele que, esperando contra toda esperança, acreditou que se tornaria pai de muitos povos, e isso lhe foi creditado como justiça (cf. Rm 4,16-22). Trata-se da conexão entre a fé e a esperança que hoje somos convidados a contemplar também na vida de São José: uma fé unida a uma esperança firme que nasce da confiança no poder, no amor e nos planos de Deus, mesmo quando esses planos excedem completamente nossa capacidade de compreendê-los.

Em São José vemos um homem que acredita, que confia, que acolhe com fé o imenso mistério da encarnação. Vemos que aceita um plano que rompe os planos humanos mais naturais, inclusive aqueles que certamente havia concebido em seu coração. Vemos que parte para o Egito quase sem preparação, confiando apenas na palavra de Deus. E o vemos sempre assim: obediente, silencioso, fiel. De um modo especial, o contemplamos ao lado de Nossa Senhora, anos mais tarde, quando o Menino fica no Templo e ambos recebem de Jesus uma resposta que é verdadeiramente desconcertante. Já meditamos muitas vezes sobre isso: apesar de quem eles eram, Nossa Senhora e São José não compreenderam totalmente o Senhor. O próprio Evangelho nos diz isso. E, no entanto, essa fé os impelia a aceitar sempre a vontade de Deus, a querer o que Deus quer. Era uma fé viva, operante, inteligente. Uma fé que agia pela caridade. Uma fé que também se manifestava como raiz de uma obediência pronta, delicada e total aos planos de Deus.

A própria fé já é uma forma de obediência: é a obediência da fé, a entrega da inteligência e do coração a Deus. Por isso, hoje podemos pedir ao Senhor, pela intercessão de São José, unido à Santíssima Virgem, que nos conceda uma fé assim tão grande. Uma fé que nos faça viver convencidos do seu amor, porque esse é, no fundo, o grande tema da nossa fé: acreditar no seu amor fiel e eterno.

Esse amor que nos leva a aceitar os seus planos e exigências, mesmo quando não os compreendemos totalmente. Hoje, Senhor, pedimos especialmente a fé de São José. É um pedido ousado, sabemos disso. Mas, pelo menos, desejamos nos aproximar dessa fé, e que ela nos conduza também a uma grande esperança. Que saibamos esperar contra toda a esperança, como Abraão, como São José. Concretamente, a esperança da santidade. A esperança de cumprir a Vossa vontade, Senhor, apesar da experiência da nossa fraqueza. Que essa esperança esteja enraizada numa fé renovada, maior, colocada não nas nossas forças, mas no Vosso poder e no Vosso amor por nós. E a partir daí, que possamos viver abertos à Vossa vontade, abertos com docilidade, com humildade, com confiança. Abertos, em suma, a obedecer com alegria o seu plano de amor.

Com uma obediência livre, com grande liberdade de espírito e um coração que acolhe o que Vós desejais, Senhor. Dessa forma, não hesitaremos em obedecer com alegria. Mesmo quando os Vossos planos nos parecerem difíceis, humanamente incompreensíveis, como aconteceu a São José. Em certa ocasião, o Papa Francisco dizia que “José não hesitou em obedecer, sem se questionar sobre as dificuldades que encontraria. E ele levantou-se de noite, tomou o menino e sua mãe e partiu para o Egito” (Patris Corde, n. 3): um plano verdadeiramente surpreendente... e, no entanto, José não hesitou.

Hoje, por intercessão de São José, pedimos que saibamos obedecer sem hesitar. Que seja não apenas de forma externa ou por dever, mas com liberdade interior. Que obedeçamos porque queremos de verdade, porque assumimos como nosso o que foi pedido e porque acreditamos, com fé firme, que o que o Senhor nos pede é sempre o melhor para nós, fruto do seu amor fiel.

Esperança nos céus

Nosso Padre nos dizia que éramos a sua esperança, pois a Obra está em nossas mãos, e temos certeza de que, lá do Céu, ele continua nos ajudando, continua nos impulsionando. Queremos viver com essa esperança que, como escreve São Paulo aos colossenses, está nos céus (cf. Cl 1,5). Não em nossas forças, não em nossas capacidades, mas em Vós, Senhor, em Vosso amor, em Vossa fidelidade. Confiamos que não nos deixais sozinhos, que sempre poderemos contar com Vossa ajuda e que seremos fiéis... se quisermos sê-lo. Senhor, hoje renovamos esse desejo: queremos ser fiéis. E sabemos que, se quisermos, seremos, pois sua graça nunca nos faltará. Por isso podemos viver com segurança, com uma esperança certa, não baseada em nossas forças, mas no poder de Deus, em seu amor. Uma esperança que é também segurança. E isso pedimos hoje, Senhor: que você nos conceda, como a nosso Padre, a segurança do impossível. Porque o impossível que queremos viver e alcançar é, antes de tudo, a nossa própria santidade.

Diante da experiência de nossa própria fraqueza, temos que estar convencidos de que a santidade não é uma utopia. Não é uma meta inatingível nem um ideal abstrato. A santidade é o chamado de Deus para cada um de nós. É o seu plano para a nossa vida. E Ele, que nos chama, nos dá também todos os meios necessários para a alcançar, toda a força, mesmo em meio às nossas fragilidades. Esta é a certeza do impossível: acreditar que, com Deus, podemos nos tornar santos.

Lembremos as palavras de nosso Padre, que descrevia São José como o homem do sorriso permanente e do encolhimento de ombros. Não se tratava de um gesto de indiferença, mas de abandono confiante: aconteça o que acontecer, contamos com a ajuda de Deus. Por isso, também queremos viver com um sorriso permanente diante das dificuldades, com essa esperança que é fonte de alegria. A esperança cristã de que fala São Paulo: “Alegres na esperança” (Rom 12,12). Uma esperança depositada no Senhor, não em nossas próprias forças. Porque a esperança nasce da fé e está inseparavelmente unida a ela.

O Evangelho fala pouco de São José. Mostra-nos a sua fé, a sua docilidade aos planos de Deus. E podemos imaginar, sem medo de errar, como ele se relacionaria com o Senhor, com quanto amor cuidaria de Jesus em sua infância. Também queremos tratar Cristo assim: com todo o carinho de que somos capazes. E sabemos que nos relacionamos com Ele e o amamos também quando nos relacionamos com os outros e os amamos. Por isso, hoje Vos pedimos, Senhor, que com a fé e a esperança aumente também em nós a caridade. Que saibamos amar verdadeiramente, com um amor que se traduza em espírito de serviço, em uma disposição habitual de pensar nos outros, de tornar sua vida mais agradável, de rezar por eles, de considerar como nosso tudo o que os afeta.

Renovar nossa entrega

A fé de São José é uma fé que se traduz em fidelidade. O Evangelho de hoje resume assim: “José fez o que o anjo do Senhor lhe havia mandado” (Mt 1,24). Uma fé que se converte em obediência, em docilidade, em uma fidelidade perseverante. E é isso que queremos renovar hoje, Senhor: nossa entrega. Que essa renovação não seja apenas uma lembrança, mas um ato real. Que nossa entrega seja verdadeiramente nova hoje. Que a ofereçamos com amor renovado, com o desejo sincero de sermos fiéis a Vós, como São José: sempre, em tudo, com alegria.

E como podemos renovar a nossa entrega? Em primeiro lugar, convencidos de que é possível torná-la nova. Que é possível não viver por inércia, mas com um nunc coepi, um “agora começo”. Renovar a entrega é renovar o amor, é renovar a luta e, com isso, também a fé e a esperança. Porque podemos renovar a convicção de que o Senhor quer que façamos a Obra e nos dá os meios para isso. Ele nos dá a graça para sermos santos, para sermos muito eficazes em nosso dia a dia, na nossa vida, nas pequenas coisas, que se tornam grandes quando são vividas por amor. A fidelidade se renova, e essa renovação é fidelidade à vocação; portanto, é fidelidade a Jesus Cristo, porque nisso consiste tudo.

Não lutamos apenas para ser fiéis a uma ideia – embora isso também aconteça –, mas principalmente para ser fiéis a uma pessoa, a Jesus Cristo. Queremos ser fiéis a Vós, Senhor. E hoje desejamos renovar especialmente essa fidelidade. Isso implica ser fiéis ao caminho, à vocação recebida. No entanto, essa fidelidade não se dirige a conceitos abstratos, mas ao Senhor. Por isso, queremos fazer nossas as palavras de São Paulo aos romanos: “Quer vivamos, quer morramos, pertencemos ao Senhor” (Rom 14,8-9). Queremos que tudo o que é nosso seja de Deus: nosso trabalho, nosso descanso, nossas diversões, nossas ilusões, nossas dores e nossos sofrimentos... tudo. Porque tudo pode ser do Senhor. E porque o Senhor quer que tudo seja seu, já que somos seus, e queremos ser ipse Christus, o próprio Cristo.

E somos fiéis, e seremos cada vez mais, se renovarmos nossa entrega com a graça de Deus, que nunca nos falta nem faltará. Toda a força para cumprir este desejo sincero de fidelidade renovada está, logicamente, onde deve estar: no próprio Senhor. Por isso, na Eucaristia, nesse momento central de cada dia, em que vivemos uma união íntima e real com Cristo — uma identificação física com o Senhor —, é aí que encontramos toda a nossa força. E aí também que vivemos aquele Ite ad Ioseph, “Vá até José”.

Hoje podemos pedir a São José que nos ajude a ser almas eucarísticas, que nos ensine a ficar bem dentro do sacrário, para encontrarmos ali a força para sermos fiéis. A força diária para renovar nossa fidelidade, dia após dia. Para que nossa renovação seja, de fato, renovar a fidelidade.

E, logicamente, para nós, ser fiéis ao Senhor é ser fiéis ao que Ele quer de nós: ser fiéis ao espírito da Obra e, portanto, também fiéis ao nosso Padre. Hoje, naturalmente, é um dia para tê-lo também muito presente. Talvez nos venha à memória o conselho que Paulo VI deu a Dom Álvaro, quando ele começou sua missão como Padre: “Sempre que tiver que resolver um assunto, coloque-se na presença de Deus e pergunte-se: nesta situação, o que meu fundador faria?” (Crónica 1976, p. 282). Dom Álvaro comentou com simplicidade que isso era exatamente o que havia ficado claro para ele desde o início: fazer as coisas como nosso Padre faria.

Hoje, festa de São José, podemos recordar também aquelas palavras de São Josemaria, numa de suas homilias: “O nome José significa em hebreu Deus acrescentará. À vida santa dos que cumprem a sua vontade, Deus acrescenta dimensões inesperadas: o que a torna importante, o que dá valor a tudo - o divino” (É Cristo que passa, n. 40). Nas coisas mais simples – em nosso trabalho, em nossa oração – tocamos o mundo inteiro, alcançamos horizontes imensos. A grandeza das nossas obras vem do Senhor. Ele nos concede essa grandeza. E quando colocamos em Vossas mãos, Senhor, até mesmo a menor coisa, ela alcança os confins do mundo, todas as regiões, todas as tarefas. Mesmo nas tarefas que nos parecem — e humanamente talvez sejam — pequenas, limitadas no tempo, Vós, Senhor, podeis fazê-las chegar aos confins mais remotos, às almas mais próximas e mais distantes. Fiéis..., vale a pena. Hoje também é um dia para cantar interiormente esse “Fiéis, vale a pena”.

Ao renovarmos nossa fidelidade, percebemos que vale a pena. Vale a pena mesmo quando essa pena é o cansaço do trabalho, a tarefa que custa, o aspecto que não compreendemos. Vale a pena, sim, vale a pena. E como nosso Padre, ao ouvir aquela canção, repetia baixinho esse “vale a pena”, como expressão de uma experiência viva: tinha valido a pena tanto esforço, tanto trabalho, tanto sacrifício, para levar a Obra adiante. Pedimos, Senhor, pela intercessão de São José, que fique mais profundamente gravada em nós esta ideia tão simples e tão verdadeira de que vale a pena. Tudo o que temos que fazer, trabalhar, até mesmo sofrer, para levar adiante a Obra, vale a pena. Já temos experiência de que é assim, e desejamos que essa experiência se torne mais constante, mais profunda e, portanto, também mais alegre.

São José, nosso pai e senhor, padroeiro da Igreja universal... Hoje é também uma ocasião para rezar pelo Papa, recordando São José como padroeiro de toda a Igreja. E terminamos, como é lógico, unindo nossa oração a Jesus, Maria e José. Nosso Padre contava que, ao acordar pela manhã, a primeira coisa que via era um quadro dessa trindade da terra: a Santíssima Virgem com o Menino e São José. Nós também queremos que esse despertar diário — não apenas físico, mas também o despertar de nossa consciência diante do trabalho, diante das circunstâncias — seja, de alguma forma, um olhar para essa trindade da terra, que nos conduz diretamente à Trindade do céu.

HOMILÍAS

Na festa do Bem-aventurado Álvaro (11-V-2024)

Basílica de Santo Eugênio, Roma

Este é o administrador fiel e prudente que o Senhor colocou à frente dos seus servos (cf. Lc 12,42). Podemos aplicar estas palavras da antífona de entrada ao Bem-aventurado Álvaro, que dedicou a sua vida a ser, primeiramente, um apoio firme e, depois, o sucessor de São Josemaria à frente do Opus Dei. Ele foi um filho leal da Igreja. Como escreveu o Papa Francisco por ocasião de sua beatificação, “destacava-se especialmente o seu amor à Igreja, esposa de Cristo, à qual serviu com um coração despojado de interesses mundanos, longe da discórdia, acolhedor para com todos e buscando sempre o lado positivo nos demais, o que une, o que constrói. Nunca uma queixa ou crítica, nem sequer nos momentos especialmente difíceis, quando, como aprendeu de São Josemaria, respondia sempre com a oração, o perdão, a compreensão, a caridade sincera” (Carta ao prelado do Opus Dei por ocasião da beatificação de Álvaro del Portillo, 16/06/2014). Podemos nos perguntar agora: tenho essa mesma atitude habitualmente na minha vida cotidiana, diante das dificuldades e dos problemas?

Um homem fiel e prudente: assim era o Bem-aventurado Álvaro! Recorramos à sua intercessão para que o Senhor nos torne fiéis e prudentes. Pedimos-lhe prudência para sermos, em todos os momentos, fiéis ao Evangelho diante das circunstâncias mutáveis do tempo e do lugar, muitas vezes complicadas. E a fidelidade, não para apoiar uma ideia, mas para seguir uma Pessoa: Jesus Cristo, Nosso Senhor, que abre horizontes sempre novos na vida de cada um de nós.

A liturgia da Palavra da celebração de hoje nos apresenta a figura do Bom Pastor. No Evangelho de São João, a figura do pastor é algo muito concreto: “Eu sou o Bom Pastor [...], eu dou minha vida pelas ovelhas” (Jo 10,11.15). E, de fato, Jesus dá verdadeiramente a vida pelas suas ovelhas, vai em busca daquela que se desviou e a conduz a águas tranquilas, como repete o salmo responsorial (cf. Sl 22). Amar as pessoas que lhe foram confiadas, da mesma forma que Cristo as ama, é uma das características fundamentais de um bom pastor. Foi assim que Dom Álvaro viveu ao longo de toda a sua existência: com sua atitude acolhedora, compreensiva e cheia de paz; de uma paz e alegria que não perdia nem mesmo diante das dificuldades e dos problemas.

Como dizia São Josemaria, a alegria cristã tem “raízes em forma de cruz” (É Cristo que passa, n. 43); é alegria “no Senhor” (cf. Fl 4,4): a alegria que Jesus nos conquistou na Cruz, e que é capaz não só de se manter, mas até de crescer diante das dificuldades e dos sofrimentos com a força da fé, da esperança e do amor. Na primeira leitura, ouvimos as palavras de São Paulo: “Alegro-me de tudo que já sofri por vós e procuro completar na minha própria carne o que falta das tribulações de Cristo, em solidariedade com o seu corpo, isto é, a Igreja” (Col 1, 24). Constatamos isso na vida de Dom Álvaro, bom pastor de suas filhas e filhos, que soube transmitir sua alegria aos outros. Com a graça de Deus, também nós podemos unir com alegria à Cruz de Cristo tudo o que neste momento nos faz sofrer mais.

Sim, essa alegria no Senhor não só permanece, mas cresce com as dificuldades e os sofrimentos, se a força da fé, da esperança e do amor atua na alma. A vida de Dom Álvaro não esteve isenta de contrariedades. “Estaríamos no caminho errado — observou recentemente o Papa Francisco — se pensássemos que os santos são exceções da humanidade: uma espécie de círculo restrito de campeões que vivem além dos limites da nossa espécie” (Audiência, 13/03/2024). Dom Álvaro soube apoiar-se, em primeiro lugar, na graça de Deus, de modo que Deus era o centro de sua vida. Seu exemplo, como o de todos os santos, nos ensina que quem é fiel à vocação que o Senhor lhe deu se realiza plenamente e experimenta assim, já nesta terra, uma felicidade que é a antecâmara da felicidade do céu.

Neste mês de maio, recorramos especialmente a Nossa Mãe Santa Maria, para que nos ajude a crescer na prudente fidelidade de saber e querer dar a vida pelos outros, dia após dia, com tanta alegria.

Assim seja.

Na festa de São Josemaria (26-VI-2024)

Basílica de Santo Eugênio, Roma

Na festa de hoje, e considerando as leituras da Missa, podemos considerar dois aspectos da vida de São Josemaria que nos mostram como era a sua relação com Deus: a filiação divina e a santificação do trabalho.

Filiação Divina

“Não recebestes um espírito de escravos, para recairdes no medo”, afirma São Paulo numa das leituras que acabamos de ler, “mas recebestes um espírito de filhos adotivos, no qual todos nós clamamos: Abá – ó Pai!” (Rm 8,15). Pelo Batismo somos filhos de Deus em Cristo, e isto supõe uma nova maneira de olhar para Deus, marcada pelo amor, a confiança e a simplicidade, que são as atitudes próprias de um filho com seu pai.

Saber que temos um Pai que nos ama infinitamente, nos permite ter uma vida alegre e plena, e também nos leva a iluminar todas as áreas da nossa existência, a partir desse amor, confiança e simplicidade, mesmo em meio às dificuldades ou quando vivenciamos nossos defeitos com mais força. Deus nos ama por quem somos – seus filhos – e não pelo que fazemos, pelas nossas realizações. E ao mesmo tempo, Ele não deixa de nos amar quando erramos. Como nos lembra o Papa: Deus “abraça-nos sempre, sempre, sempre, depois das nossas quedas, ajudando-nos a levantar e ficar de pé” (Discurso, 26 de janeiro de 2019). Nossa vida é um retorno contínuo à casa do Pai, como o filho pródigo, sabendo que Ele nos espera de braços abertos.

Por isso, não há nada mais contrário à nossa condição de filhos de Deus do que o medo. “Um filho de Deus – dizia São Josemaria – não tem medo da vida nem medo da morte, porque o fundamento da sua vida espiritual é o sentido da filiação divina: Deus é meu Pai – pensa – e é o Autor de todo o bem, é toda a Bondade” (Forja, n. 987).

Isto não significa que não sejamos afetados pelos golpes que recebemos ou pelos obstáculos que encontramos na vida. Quando surge um problema familiar, uma doença ou um contratempo financeiro, é normal que, especialmente no início, sintamos uma certa vertigem. Algo semelhante pode acontecer conosco quando contemplamos a situação do mundo. Como não recordar na nossa oração, entre tantas necessidades, a guerra entre a Ucrânia e a Rússia ou a difícil situação na Terra Santa?

A fragilidade que sentimos em nossas vidas e a instabilidade da paz no mundo podem ser, ao mesmo tempo, uma ajuda para nossa fortaleza, se nos movem a refugiar-nos no amor que nunca falha, naquela rocha que é muito mais sólida do que as realidades terrenas podem nos oferecer. “Refugia-te na filiação divina: Deus é teu Pai amantíssimo. Esta é a tua segurança, o ancoradouro onde lançar a âncora, aconteça o que acontecer na superfície deste mar da vida. E encontrarás alegria, fortaleza, otimismo… vitória!” (Via Sacra, VII estação, n. 2).

Santificação do trabalho

Na primeira leitura lembramos outra passagem que nos fala do plano de Deus para o mundo. Esta passagem é a que conta como Deus criou o homem e “colocou-o no jardim de Éden, para o cultivar e guardar” (Gn 2,15). É bonito poder considerar novamente que o trabalho – que ocupa boa parte do nosso tempo – é algo maravilhoso. Às vezes, parece nos arrastar – porque não gostamos de uma tarefa, ou porque ela se complica, ou porque estamos simplesmente cansados. No entanto, o texto do Gênesis nos lembra que o trabalho não é uma consequência do pecado original: desde sua origem, o homem tem a honra de participar da construção de um mundo melhor por meio do seu trabalho. O próprio Cristo passou a maior parte de sua vida desempenhando um ofício. Esses anos de trabalho também contribuíram para nossa redenção. Assim, Jesus nos mostra que qualquer tarefa pode conter um valor mais profundo do que aparece humanamente.

São Josemaria costumava repetir que a grandeza do trabalho depende do amor com que é feito. Um amor que se manifesta na atenção aos detalhes, na vontade de servir aos outros, no sorriso para todos, no profissionalismo com que realizamos nossas tarefas... E tudo isso com o desejo principal de dar glória a Deus e de servir aos outros, que também são filhos do mesmo Deus. “Por isso, o homem não se deve limitar a fazer coisas, a construir objetos – comentava São Josemaria -. O trabalho nasce do amor, manifesta o amor, orienta-se para o amor. Reconhecemos Deus não apenas no espetáculo da natureza, mas também na experiência do nosso próprio trabalho, do nosso esforço. O trabalho é, assim, oração, ação de graças, porque nos sabemos colocados na terra por Deus, amados por Ele, herdeiros de suas promessas” (É Cristo que passa, n. 48).

Recorramos à intercessão maternal de Santa Maria, pedindo-lhe que nos ajude a saber e sentir que somos sempre os filhos prediletos de Deus e a encontrar o seu Filho em nosso trabalho feito por amor.

Assim seja.

Na festa do Bem-aventurado Álvaro (11-V-2025)

Basílica de Santo Eugênio, Roma

“Eu mesmo vou procurar minhas ovelhas e tomar conta delas. Como o pastor toma conta do rebanho, assim vou cuidar de minhas ovelhas” (Ez 34, 11). Ouvimos estas palavras do profeta Ezequiel na primeira leitura, que se aplicam bem ao Bem-aventurado Álvaro del Portillo, cuja festa hoje celebramos no aniversário da sua Primeira Comunhão. Ele foi um pastor que, nas palavras de São João Paulo II, se destacou pela sua fidelidade à Sé de Pedro.

Na oração coleta, pedimos ao Senhor que nos ajude a gastar-nos humildemente na “missão salvífica da Igreja”, tal como o fez o Bem-aventurado Álvaro. Hoje, quando a Igreja acaba de acolher um novo sucessor de Pedro, o Papa Leão XIV, renovamos também a nossa adesão filial – efetiva e afetiva, como sempre procuramos viver – ao Santo Padre, rezando por ele e pelas suas intenções.

“O amor ao Romano Pontífice – recordava São Josemaria – há de ser em nós uma formosa paixão, porque nele vemos a Cristo” (São Josemaria, Amar a Igreja, p. 41). O fundador do Opus Dei transmitiu esta formosa paixão ao Bem-aventurado Álvaro e aos seus filhos, que todos os dias rezam pelo Papa, pedindo a Deus que o guarde, anime, faça feliz, e que lhe dê segurança e fortaleza nas tempestades que, por vezes, a barca de Pedro tem de enfrentar.

No Evangelho, Jesus menciona uma característica própria do bom pastor: é alguém que “dá a vida pelas suas ovelhas” (Jo 10, 11). D. Álvaro deu a vida pela Obra, sabendo que assim servia a Igreja, pois a única razão de ser do Opus Dei tem sido e será sempre “servir a Igreja, como Ela quer ser servida” (São Josemaria, Carta 8, n. 1).

Como descreveu o Papa Francisco, D. Álvaro exerceu esse serviço “com um coração despojado de interesses mundanos, longe da discórdia, acolhedor para com todos e buscando sempre o lado positivo nos demais, o que une, o que constrói. Nunca uma queixa ou crítica, nem sequer nos momentos especialmente difíceis” (Francisco, Carta por ocasião da beatificação de D. Álvaro). Nós também somos chamados a viver assim. Cada um no seu lugar: em casa, no trabalho, entre os amigos… Todos esses âmbitos estão unidos pelo desejo de servir o Senhor e as pessoas que estão à nossa volta. Como recordava o próprio D. Álvaro, “o melhor serviço” que podemos prestar à Igreja é “o esforço por sermos santos” (Bem-aventurado Álvaro, Carta, 30/09/1975, n. 62). Quando procuramos santificar o trabalho bem feito, com o desejo de dar glória a Deus e aproximar as almas de Cristo, estamos servindo a Igreja como ela quer ser servida.

Os santos experimentaram em primeira mão a frase que repetimos no Salmo responsorial: a quem tem Deus como pastor, nada falta (cf. Sl 22, 1). Quem decide seguir o Senhor sabe que Ele o guiará em todos os momentos. Neste sentido, a fidelidade de D. Álvaro não foi fruto da inércia, mas do desejo de dizer que sim a Deus em cada circunstância, pois sentia que não havia maior alegria do que viver unicamente para o Senhor e, com Ele, servir os outros. Entendia a fidelidade como um compromisso de amor, e o amor a Deus era o sentido último da sua liberdade. Podemos perguntar-nos se o que inspira cada uma das nossas ações é também o amor ao Senhor.

Ter Deus como pastor não significa que Ele nos poupe às dificuldades da vida. Mas, como também diz o salmista: “mesmo que eu passe pelo vale tenebroso, nenhum mal eu temerei. Estais comigo com bastão e com cajado, eles me dão a segurança” (Sl 22,4). Nessas circunstâncias, Deus nunca deixa de estar ao nosso lado. “Se contássemos apenas com as nossas pobres forças – dizia D. Álvaro – teríamos motivo para considerar este ideal como uma utopia irrealizável: não somos super-homens, nem estamos acima das limitações humanas. Mas – se quisermos – a fortaleza de Deus atua através da nossa fraqueza” (Bem-aventurado Álvaro, Homilia, 07/09/1991).

A nossa Mãe, Maria, é modelo de fidelidade a Deus. Pedimos-lhe para sabermos seguir o exemplo de vida do Bem-aventurado Álvaro, e colocamos nas suas mãos a nossa oração filial pelo Papa Leão XIV.

Nafesta de SãoJosemaría (26-VI-2025)

Basílica de Santo Eugênio, Roma

Acabamos de ouvir no Evangelho que “ Jesus estava na margem do lago de Genesaré. A multidão apertava-se ao seu redor para ouvir a palavra de Deus” (Lc 5,1). Estavam à beira do lago, e Cristo decidiu subir a uma barca e afastar-se um pouco da terra firme. O Senhor conhecia perfeitamente o coração daquelas pessoas; sabia que todas, de uma forma ou de outra, precisavam de seus ensinamentos para iluminar suas vidas.

Preencher o coração

São Josemaria, ao meditar sobre este trecho, comentava que o que aconteceu há dois mil anos continua acontecendo sempre: todos “andam desejosos de ouvir a palavra de Deus, embora o dissimulem exteriormente”; todos, embora muitas vezes não tenham palavras nem forças para expressar esse desejo, “sentem fome de saciar sua inquietação com os ensinamentos do Senhor” (Amigos de Deus, n. 260 e ss.). Esta sede de infinito manifesta-se de muitas maneiras, embora nem todas as formas de saciá-la deixem o coração satisfeito. Talvez tenhamos a experiência de ter perdido tempo aspirando a uma felicidade construída apenas sobre bens materiais, sucesso ou conforto. Sabemos, porém, que só Deus dá sentido a todas as realidades e satisfaz os desejos do nosso coração.

Inúmeras pessoas, ao descobrirem a vida cristã, encontraram a alegria mais profunda. Também por isso, a cena que o Evangelho nos narra não pertence apenas ao passado. Todos nós carregamos na alma desejos profundos que só o Senhor pode saciar. Podemos pedir a Deus que nos torne capazes de reconhecer as saudades do seu rosto, esses sinais da sede de Cristo também nos outros. E que saibamos transmitir sua verdadeira imagem àqueles que nos rodeiam: a imagem desse Cristo que se afasta um pouco da margem para que todos, mesmo os mais distantes, possam vê-lo e ouvi-lo.

Apostolado e filiação divina

No final desta passagem do Evangelho, Jesus convida Pedro, Tiago e João a segui-lo. É impressionante pensar que, apenas alguns anos depois, seu zelo apostólico levou a Boa Nova a muitos lugares importantes da época, incluindo a própria Roma. Os primeiros cristãos, apesar de sofrerem perseguições e incompreensões, sabiam que o mundo lhes pertencia. “Este é o espírito missionário que deve nos animar”, comenta o papa Leão XIV, “sem nos fecharmos no nosso pequeno grupo nem nos sentirmos superiores ao mundo; somos chamados a oferecer a todos o amor de Deus, para que se realize aquela unidade que não anula as diferenças, mas valoriza a história pessoal de cada um e a cultura social e religiosa de cada povo” (Leão XIV, Homilia, 18/05/2025).

São Paulo, na segunda leitura, expressa com clareza a convicção que enchia de confiança os primeiros cristãos: “E, se somos filhos, somos também herdeiros” (Rom 8,17). De fato, este mundo é parte de nossa herança. Na primeira leitura, diz-se que Deus colocou o homem no mundo “para o cultivar e guardar” (Gn 2,15). Este mundo é nosso: é o nosso lar e a nossa tarefa.

Por isso, sabendo que somos filhos de Deus, não podemos caminhar por esta vida como estrangeiros em terra alheia, nem percorrer as nossas ruas com a atitude de quem pisa território desconhecido. O mundo é nosso, porque é do nosso Pai Deus. Somos chamados a amar este mundo, não outro mundo hipotético em que talvez pensemos que estaríamos mais à vontade. Ao nosso lado, talvez tenhamos pessoas que nos são de certa forma desconhecidas, porque não conseguimos dar-lhes a atenção que merecem. Esse pode ser o primeiro âmbito em que podemos voltar a dirigir-nos a essas pessoas como Jesus faria.

Herança de São Josemaria

Quando São Josemaria convidava a amar o mundo apaixonadamente, costumava advertir contra aquela mística do “tomara” que condiciona o terreno que quer evangelizar, pensando: “Tomara que as coisas fossem diferentes”. Podemos pedir ao Senhor que nos dê a capacidade de nos entusiasmarmos com a missão que nos confiou, com o interesse de um filho que trabalha nas tarefas de sua própria casa junto com seus irmãos.

Hoje, voltando o nosso olhar especialmente para São Josemaria, podemos seguir o seu exemplo de fé e audácia para se lançar em empreendimentos que pareciam impossíveis, em uma época que, em muitos aspectos, era muito mais complicada e difícil do que a nossa. Deixemo-nos contagiar por essa confiança, que nos leva a amar este mundo que recebemos em herança e a procurar preencher o anseio de Cristo em tantas pessoas com quem nos encontramos.

Para isso, como para tudo, apoiamo-nos muito especialmente na mediação de nossa Mãe Santa Maria, que vela com amor e paciência materna pela felicidade de todos os seus filhos.
Assim seja.

CARTAS E MENSAGENS

Carta sobre a obediência (10-II-2024)

Queridíssimos, que Jesus guarde as minhas filhas e os meus filhos!

1. Há alguns anos, escrevi-lhes uma carta dedicada à liberdade. Cada uma e cada um de nós tentamos meditar sobre ela e aplicá-la na nossa vida diária. Naquela ocasião, recordei que somos chamados a fazer as coisas por amor, não simplesmente por obrigação. Queremos seguir o Senhor de perto, cumprindo Sua vontade, movidos pelo desejo de corresponder ao Seu amor. Agora lhes escrevo sobre a obediência, que à primeira vista pode parecer uma virtude oposta à liberdade. No entanto, sabemos muito bem que, na realidade, a verdadeira obediência é uma consequência da liberdade. E que, além disso, ao contrário do que se poderia esperar de um ponto de vista meramente humano, a obediência cristã tem como resultado uma liberdade cada vez maior.

Há algumas décadas, um grande intelectual que estudou a fundo as obras de São Josemaria apontava uma importante contribuição do nosso fundador: o fato de que ele enfatizou de que forma, na vida cristã, há uma certa prioridade da liberdade sobre a obediência[1]. Obedecemos porque queremos de verdade cumprir a vontade de Deus, porque esse é o desejo mais profundo da nossa alma. De fato, uma obediência sem liberdade não é digna da pessoa humana, nem, portanto, de um filho ou filha de Deus.

O amor, como bem sabemos, é muito mais do que uma inclinação mais ou menos passageira da sensibilidade. O amor pressupõe a disposição de dar a vida por alguém (cf. Jo 15,13). Por esse motivo, uma de suas manifestações mais profundas é identificar a nossa vontade com a da pessoa amada: “Quero o que você quiser, quero porque você quer, quero como você quiser, quero quando você quiser...”[2].

2. Muitas vezes teremos considerado, com maior ou menor atenção, o plano amoroso de Deus para o mundo: a criação e a elevação sobrenatural, por puro amor, para compartilhar a felicidade da Trindade com cada homem e mulher, e para dar-lhes uma existência plena, que satisfaria todos os anseios de seus corações. Mas, desde o início, o pecado também esteve presente no mundo: o pecado de nossos primeiros pais, que foi fundamentalmente uma desobediência.

No entanto - não nos cansemos de contemplar isso também, com gratidão -, Deus não quis nos abandonar ao nosso destino. Em uma decisão do mais livre amor, que não podemos entender porque está além da nossa pobre compreensão, enviou seu Filho Unigênito para nos devolver a amizade com Ele. Quando Jesus morre na Cruz por toda a humanidade - por você e por mim - Ele entrega sua vida em um ato de total obediência à vontade de seu Pai. Liberdade e obediência estão entrelaçadas na história da Salvação. As lamentáveis consequências da desobediência humana são redimidas pela obediência de Cristo. Sua graça nos permite viver com a liberdade dos filhos de Deus.

3. Nestas páginas, desejo convidá-los a que meditemos juntos sobre alguns aspectos da virtude da obediência, tão central nos mistérios de nossa fé e, ao mesmo tempo, tão presente na vida de qualquer pessoa. A necessidade de obedecer é uma realidade humana, de muitos níveis, pois existem leis e normas obrigatórias: desde o conteúdo da lei natural até as leis da convivência civil; desde a obediência dos menores aos pais até a obediência daqueles que voluntariamente se comprometeram seriamente com algo perante outras pessoas ou instituições. Em um sentido semelhante, também é considerado obediência o fato de uma pessoa seguir sua própria consciência. E em um sentido ainda mais amplo, pode-se chamar obediência o seguimento de certos conselhos espirituais.

Como é fácil de comprovar, já que estamos totalmente imersos nela, a cultura atual raramente considera a obediência como algo positivo: ela é vista mais como uma necessidade às vezes inevitável, da qual se tenta fugir ao máximo possível, porque parece contrária ao grande valor da liberdade. Soma-se a isso o fato de que, em não poucos ambientes, há uma certa crise de figuras de autoridade e uma concepção de dependência como algo negativo: como uma exceção inevitável à capacidade de julgar e decidir algo por si mesmo. Assim, por exemplo, a maior sensibilidade atual a qualquer tipo de abuso de poder, embora em si mesma muito positiva e necessária, pode às vezes questionar injustamente todas as formas de autoridade. Na realidade, acontece que existe uma espécie de tendência inata à desobediência, uma herança do pecado original, aquele momento em que “o homem, tentado pelo Diabo, deixou morrer em seu coração a confiança em seu Criador e, abusando de sua liberdade, desobedeceu ao mandamento de Deus”[3].

Para compreendermos o valor mais elevado da obediência e sua conexão existencial com a liberdade, precisamos olhar para além dos níveis necessários de obediência na sociedade humana e contemplar Jesus Cristo. É esse outro aspecto de sua centralidade, que deve ser o objetivo de nossa vida: que Cristo reine em nosso coração e dirija toda a nossa existência.

“Aprendamos com Jesus a viver a obediência. Ele quis colocar nas palavras do evangelista essa maravilhosa biografia que, em latim, tem apenas três palavras: erat subditus illis (Lc 2,51). Reparem se a obediência é necessária para um filho de Deus. Se o próprio Deus veio obedecer a duas criaturas, criaturas perfeitíssimas, mas mesmo assim criaturas: Santa Maria - mais do que Ela somente Deus - e São José! E Jesus obedeceu a eles”[4]. O Filho de Deus queria ser plenamente homem e, como todo bom filho, obedecer a Maria e José, sabendo que, dessa forma, estava obedecendo a Deus Pai. E essa obediência marcou toda a sua vida na terra, até a obediência da Cruz (cf. Fil 2,7-8).

Obedecer a Deus

4. Em um sentido absoluto, somente Deus é digno de obediência, sempre e em todos os momentos, porque somente Ele conhece plenamente o caminho que leva cada um de nós à felicidade. “Se obedeceres fielmente à voz do Senhor, teu Deus, praticando cuidadosamente todos os seus mandamentos que hoje te prescrevo, o Senhor, teu Deus, te elevará acima de todas as nações da terra” (Dt 28,1), diz Moisés antes de descrever todas as bênçãos que a obediência traria ao povo.

De certa forma, toda a revelação bíblica é uma pedagogia para a obediência mais inteligente e mais livre: aquela que nos leva à plena realização de quem somos, quando nossa vontade se identifica com a vontade de Deus, em um sim incondicional. É por isso que, por meio dos profetas, e apesar das muitas traições dos seus, o Senhor continua a lembrar ao seu povo: “Escutai minha voz: serei vosso Deus e vós sereis o meu povo; segui sempre a senda que vos indicar, a fim de que sejais felizes” (Jer 7,23). Nossos pequenos planos são ampliados quando são integrados aos Dele; nunca nos saímos tão bem como quando andamos nos caminhos de Deus.

O próprio Cristo se mostra a nós como o filho obediente. Antes de tudo, obediente a Maria e José, aos parentes e às autoridades. Mas, acima de tudo, obediente a Deus Pai. Jesus se alimenta fazendo a vontade do Pai: “O meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra” (Jo 4,34). Mesmo nos momentos mais difíceis, o Filho faz sua a vontade do Pai, apesar da profunda consciência da dor que isso vai lhe supor: “Pai, se é de teu agrado, afasta de mim este cálice! Não se faça, todavia, a minha vontade, mas sim a tua” (Lc 22, 42). São Paulo escreve que Jesus, “mostrando-se igual aos outros homens, humilhou-se a si mesmo e tornou-se obediente até a morte, e morte de cruz” (Fil 2,6-8).

Mas não é somente a morte de Cristo em si mesma que nos trouxe a salvação, mas sua obediência livre e amorosa ao Pai para se tornar um de nós e dar sua vida por cada um: “pela obediência de um só todos se tornarão justos” (Rom 5,19). Uma obediência que não se restringe a momentos ou instâncias específicas, mas é um modo de agir em todos os momentos, em uma docilidade “até o fim” (Jo 13,1).

5. São Pedro responde à autoridade nacional e religiosa que o proíbe de pregar Jesus: “É preciso obedecer antes a Deus do que aos homens” (At 5,29). Mas, comenta Bento XVI, “isto supõe que conheçamos verdadeiramente a Deus e que deveras desejemos obedecer-lhe. Deus não é um pretexto para a própria vontade, mas é realmente Ele quem nos chama e nos convida, se for necessário, até o martírio. Por isso, confrontados com esta palavra que dá início a uma nova história de liberdade no mundo, oremos sobretudo para conhecer Deus, para conhecer humilde e verdadeiramente Deus e, conhecendo a Deus, para aprender a verdadeira obediência que é o fundamento da liberdade humana”[5].

Quem conhece Deus estará nessa busca contínua com grande esperança e confiança: d’Ele não podemos esperar nada além de bênçãos, mesmo que às vezes sejam obscuras ou incompreensíveis, ou que nos façam sofrer. Nesse sentido, a oração pessoal se expressa também em uma atitude de obediência: “Senhor nosso”- rezava São Josemaria - “aqui nos tens, dispostos a escutar tudo o que nos quiseres dizer. Fala-nos; estamos atentos à Tua voz. Que as Tuas palavras, caindo na nossa alma, inflamem a nossa vontade, para que se lance fervorosamente a obedecer-Te!”[6].

Vontade divina e mediação humana

6. Deus frequentemente nos apresenta o que Ele quer para nós de forma mediada. Em primeiro lugar, por meio da Igreja, o corpo místico de Cristo: “A obediência é a decisão fundamental de acolher quem está colocado à nossa frente como sinal concreto daquele sacramento universal de salvação que é a Igreja”[7]. Deus também pode nos fazer ver sua vontade por meio das pessoas ao nosso redor, investidas de maior ou menor autoridade, dependendo do caso e do contexto. Saber que Deus pode nos falar por meio de outras pessoas ou de acontecimentos mais ou menos comuns, a convicção de que podemos escutá-lo ali, gera em nós uma atitude dócil diante de seus desígnios, ocultos também nas palavras de quem nos acompanha em nosso caminho.

São Josemaria, consciente do caráter delicado dessa mediação - escutar Deus, mas através de homens e mulheres comuns -, aconselhava uma atitude de humildade, de sinceridade e de silêncio interior: “Às vezes, o Senhor sugere o seu querer como que em voz baixa, lá no fundo da consciência; e é necessário escutarmos atentamente, para sabermos distinguir essa voz e ser-lhe fiéis. Muitas vezes fala-nos através de outros homens, e pode acontecer que, à vista dos defeitos dessas pessoas, ou pensando que não estão bem informadas, que talvez não tenham entendido todos os dados do problema, surja como que um convite para não obedecer. Tudo isso pode ter um significado divino, porque Deus não nos impõe uma obediência cega, mas uma obediência inteligente, e temos que sentir a responsabilidade de ajudar os outros com a luz do nosso entendimento. Mas sejamos sinceros conosco: examinemos em cada caso se nos deixamos conduzir pelo amor à verdade ou antes pelo egoísmo e pelo apego aos nossos próprios critérios”[8].

7. Por outro lado, devemos ter em mente que aqueles que ocupam posições de autoridade em vários níveis não são chamados para isso por serem perfeitos. Não recorremos à autoridade por causa de suas qualidades: “Que pena se quem manda não te dá exemplo!… - Mas porventura lhe obedeces pelas suas condições pessoais?… Ou será que, para tua comodidade, traduzes o “obedite praepositis vestris” - obedecei aos vossos superiores - de São Paulo, com uma interpolação tua que venha a significar… sempre que o superior tenha virtudes ao meu gosto?”[9].

Isso também não significa que aqueles que dão indicações ou conselhos não possam cometer erros; eles estão bem cientes disso e, se necessário, pedirão perdão. A possibilidade de erro, de uma forma ou de outra, dependendo da natureza do assunto e da área em questão, sempre pode ser vivenciada com inteligência e sinceridade, em um contexto de fé e confiança sobrenaturais. Também com humildade, porque é razoável duvidar, pelo menos um pouco, de nosso próprio julgamento e dialogar com confiança com a autoridade quando nos parecer que houve um engano.

São Tomás, por sua vez, explica que a obediência é a virtude que leva a cumprir a ordem legítima do superior, na medida em que essa obediência manifesta a vontade de Deus[10]. Naturalmente, nem toda ordem legítima é necessariamente a melhor possível; no entanto, a obediência será então o caminho para a fecundidade, porque às vezes o Senhor dá mais valor sobrenatural à humildade e à unidade do que a ter mais ou menos razão. Daí a importância de uma visão sobrenatural, de não permanecer meramente em uma avaliação humana das indicações recebidas.

De qualquer forma, aqueles que têm autoridade devem ser extremamente cuidadosos para não impor seus critérios desnecessariamente e para evitar que suas indicações ou conselhos sejam interpretados em si mesmos como uma expressão clara da vontade de Deus. Como lhes escrevi em minha carta de 9 de janeiro de 2018, “mandar com respeito às almas é, em primeiro lugar, respeitar delicadamente a interioridade das consciências, sem confundir o governo com o acompanhamento espiritual. Em segundo lugar, esse respeito leva a distinguir o que é mandado daquilo que são apenas exortações, conselhos ou sugestões oportunas. E, em terceiro lugar – mas nem por isso menos importante – é governar com tanta confiança nos outros, que se conte sempre, na medida do possível, com a opinião das pessoas interessadas” (n. 13).

Contemplemos, sobretudo, o exemplo de Cristo: “Jesus obedece, e obedece a José e a Maria. Deus veio à terra para obedecer, e para obedecer às criaturas”[11]. É muito significativo que, depois de sua resposta aos pais no templo – “Devo estar nas coisas de meu Pai” -, Lucas acrescenta que Jesus “erat subditus illis, estava sujeito a eles” (cf. Lc 2,49-51). O seguimento da vontade de Deus, que devemos buscar sempre e em tudo, é frequentemente encontrado no seguimento confiante de algumas pessoas.

Obediência e liberdade

8. Na história humana, nunca houve um ato tão profundamente livre como a entrega do Senhor na cruz (cf. Jo 10:17-18). “O ápice da sua liberdade o Senhor viveu-o na cruz, como vértice do amor. Quando no Calvário lhe gritavam: ‘Se és o Filho de Deus, desce da cruz’, ele demonstrou a sua liberdade de Filho exatamente permanecendo naquele patíbulo para cumprir completamente a vontade misericordiosa do Pai”[12].

A Cruz, escrevia São Josemaria, “não é a pena, nem o desgosto, nem a amargura… É o madeiro santo onde triunfa Jesus Cristo…, e onde triunfamos nós, quando recebemos com alegria e generosamente o que Ele nos envia”[13]. A Cruz nos mostra claramente o que mencionei no início desta carta: que a liberdade e a obediência não são opostas uma à outra, porque, de fato, pode-se obedecer por amor, e só se pode amar em liberdade. Mais especificamente, a obediência cristã não apenas não é contrária à liberdade, mas é um exercício de liberdade. “Sou muito amigo da liberdade, e, precisamente por isso, amo tanto essa virtude cristã”[14], escrevia também nosso Padre, referindo-se à obediência.

É sempre possível fazer o que se deve fazer “porque quero de verdade”: por amor. E quando é por amor a Deus, esse “porque quero de verdade” é “a razão mais sobrenatural”, como também dizia São Josemaria. Por isso, não há “nada mais falso do que opor a liberdade à entrega de si, porque essa entrega surge como consequência da liberdade”[15].

9. “Ama e faz o que quiseres”[16]: a famosa afirmação de Santo Agostinho significa, como ele mesmo escreveu, que quem faz o bem por caridade não o faz por mera necessidade ou obrigação, pois “a liberdade pertence à caridade” (libertas est caritatis)[17]. Por isso, é compreensível que a lei de Cristo seja “a lei perfeita da liberdade” (Tg 1,25), pois ela se resume, “é recapitulada”, no amor (cf. Rom 13,8-9).

Em tudo podemos agir livremente, como Cristo, fazendo nosso o que nos dizem, por amor. Nesse sentido, “ao obedecer, devemos escutar, porque não somos instrumentos inertes ou passivos, sem responsabilidade ou pensamento. E depois, com originalidade, com iniciativa, com espontaneidade, colocar todas as energias da inteligência e da vontade naquilo que é ordenado, para realizar tudo o que é ordenado e somente o que se manda. Outra coisa seria anárquica. A obediência na Obra favorece o desenvolvimento de todos os seus valores individuais e faz com que, sem perder sua personalidade, vocês vivam, cresçam e adquiram uma maior maturidade, sendo a mesma pessoa aos dois anos e aos oitenta e dois”[18]. Essa iniciativa, logicamente, não se limita às ocasiões em que é necessário obedecer, pois sempre podemos sugerir, propor e contribuir com criatividade onde estivermos, sem esperar receber indicações, e sempre em união com quem tem autoridade.

São Basílio Magno, explicava que o próprio dos filhos é obedecer por amor: “Ou nos afastamos do mal por medo da punição e estamos na disposição de um escravo, ou buscamos o incentivo da recompensa e nos assemelhamos a mercenários, ou finalmente obedecemos pelo próprio bem do amor daquele que manda (...) e então estamos na disposição de filhos”[19]. Obedecer por amor não é uma forma de voluntarismo que dispensa a inteligência; obedecer por amor significa colocar em ação todas as potências da alma, utilizar o melhor da inteligência que, raciocinando, busca o bem, e o melhor da vontade, que deseja realizá-lo.

De fato, sem inteligência e sem liberdade - sobretudo sem liberdade interior - não é possível uma obediência plenamente humana. E, menos ainda, uma obediência como a de Jesus. “Não concebo - dizia o nosso Padre - que possa haver uma obediência verdadeiramente cristã, se essa obediência não for voluntária e responsável. Os filhos de Deus não são pedras ou cadáveres: são seres inteligentes e livres e elevados todos à mesma ordem sobrenatural”[20].

10. Mas podemos nos perguntar: é possível obedecer sem entender, ou mesmo tendo uma opinião diferente sobre um assunto? É claro que sim; e então também - talvez ainda mais - isso pode ser feito por amor e, portanto, livremente. Aqui, muitas vezes, juntamente com a caridade, a fé entrará em ação: obedeço sem entender ou sem ver as coisas da mesma forma, quando aceito que a indicação me vem de pessoas prudentes, que podem julgar melhor do que eu mesmo; ou quando aceito que, depois de pesar as coisas, uma decisão deve ser tomada, e que cabe a outra pessoa tomá-la. Quando vemos a graça do Espírito Santo nesse julgamento e em nossa disposição de aceitá-lo, a obediência se manifesta como um ato de fé.

Como afirma São Tomás, seguindo nesse ponto Aristóteles, a vontade é a faculdade que dirige adequadamente a pessoa[21], embora precise do entendimento para apresentar-lhe os objetos de escolha. Do coração sai tudo o que é bom e tudo o que é mau (cfr. Lc 6,45): pode-se decidir não querer entender, ou não querer dialogar para entender melhor uma questão. A vontade - como mostra a experiência - pode dominar a inteligência de tal forma que pode até forçá-la a negar algo objetivamente evidente. Mas a vontade livre também pode levá-la a enveredar por novos caminhos, sem ter compreendido tudo em um determinado momento.

Se, diante das dificuldades e dos sofrimentos, nos encontramos desorientados, sem entender, ajuda-nos contemplar Jesus que, em sua natureza humana, também quis passar por esse sofrimento: ao rezar “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste”? (Mt 27,46), Ele cumpre as palavras proféticas do Salmo 22. Sua resposta, vibrante de liberdade em meio à dor, também se inspira nos salmos: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46, cf. Sl 31,6). A obediência de Jesus repara a desobediência de Adão (cf. Rom 5:19); toda a sua vida e morte é obediência a Deus Pai e a causa de nossa salvação (cf. Fl 2,6-11).

Obediência e confiança

11. A obediência e a confiança também se exigem mutuamente, na medida em que, quando são genuínas, passa-se naturalmente de uma para a outra: quando há confiança, consultar o julgamento de outra pessoa e, se necessário, torná-lo próprio, é geralmente uma manifestação normal do desejo de escolher o que é melhor. Por outro lado, quando a confiança é enfraquecida, a obediência corre o risco de se tornar puramente externa, formal e distante. É por isso que um clima de afeto e benevolência é essencial para facilitar a obediência saudável. Que as pessoas se sintam amadas e não controladas, que sejam efetivamente ouvidas, que sintam que suas opiniões são valorizadas: todas essas atitudes aumentam a liberdade e, ao mesmo tempo, a obediência.

São Josemaria apontava que a confiança é a chave para a construção de uma amizade entre pais e filhos: “Em contrapartida, se não têm liberdade, se veem que não confiam neles, sempre se sentirão com vontade de enganar”[22]. Quando não há confiança, as distâncias são rapidamente criadas e a transparência é facilmente perdida, porque a intimidade é uma área delicada que precisa de um ambiente seguro para se desenvolver. Tentar garantir uma obediência meramente externa, sem uma comunhão de vontades, é como construir uma casa sobre a areia (cf Mt 7,26).

Na missão de criar um clima de confiança, aqueles que ocupam uma posição de autoridade na família ou em um grupo têm uma responsabilidade maior. De fato, seu primeiro ato de serviço pode consistir em promover ativamente esse espaço de confiança com todos, enquanto, ao mesmo tempo, busca a vontade de Deus para si mesmo e para sua missão. Dessa forma, ao se apoiarem uns nos outros, eles buscarão e encontrarão a vontade de Deus para si mesmos e para sua missão. Mesmo com a organização necessária - indispensável, porque a Obra é uma “organização desorganizada”[23]—, todos devem saber-se e sentir-se, também na expressão de nosso Padre, “livres como os pássaros”[24].

Foi precisamente a necessidade de um contexto de confiança e de calor familiar que levou São Josemaria a referir que, na Obra, a ordem mais forte é um “por favor”. Não se tratava de uma simples questão de terminologia, mas de uma indicação da atitude natural em um ambiente familiar, entre adultos, inteligentes e livres. Além disso, o fato de a Obra ser uma família sobrenatural faz com que a fé e a caridade, juntamente com a confiança, sejam os verdadeiros fundamentos tanto do exercício da autoridade quanto da obediência.

Obediência e fecundidade apostólica

12. O Senhor “aprendeu a obediência por meio dos sofrimentos que teve. E uma vez chegado ao seu termo, tornou-se autor da salvação eterna para todos os que lhe obedecem” (Hb 5,8-9). A salvação, como fruto da obediência de Cristo até a morte na cruz, também ilumina a relação entre a obediência e a fecundidade apostólica de nossa vida.

Meditamos muitas vezes sobre a cena em que Pedro obedece ao Senhor, embora não fosse razoável, do ponto de vista humano, seguir as suas instruções: “Faze-te ao largo, e lançai as vossas redes para pescar” (Lc 5,4). Pensemos nisso com calma: quantas coisas boas se seguiram à obediência de Pedro a esse Duc in altum! “Que poder o da obediência! - O lago de Genesaré negava os seus peixes às redes de Pedro. Toda uma noite em vão. - Agora, obediente, tornou a lançar a rede à água e pescaram ‘piscium multitudinem copiosam’ - uma grande quantidade de peixes. - Acredita: o milagre repete-se todos os dias”[25].

13. Na missão apostólica, podemos e devemos ter uma iniciativa pessoal e ampla, fruto do amor a Deus e aos demais, e ao mesmo tempo desenvolver, seguindo aqueles que os dirigem, tantas atividades organizadas nos centros da Obra, em fidelidade aos meios que nos foram entregues por nosso Padre. Tudo isso, sem esquecer que o principal meio será sempre a oração: “A oração é a nossa força: nunca tivemos outra arma”[26].

Na direção da Obra e na organização de seus apostolados, o modo de obedecer é o de uma família, de uma comunhão de pessoas. Pensar em uma comunhão de pessoas é pensar em uma comunhão de liberdades, uma comunhão de iniciativas pessoais que também são “fazer Opus Dei”, e uma comunhão de gerações. A convicção de que Deus age no coração de todos, e de que todos estamos atentos à vontade divina, dá origem à obediência própria de uma família, na qual cada membro busca ativamente colaborar no projeto comum. Entendida e vivida dessa maneira, a obediência é expressão da unidade, daquela unidade que é precisamente a condição da fecundidade apostólica: ut omnes unum sint… ut mundus credat (Jo17,21).

Respeitando estritamente a separação entre o acompanhamento espiritual e o governo das pessoas, devemos viver e trabalhar sempre cheios de gratidão pela vocação cristã na Obra, promovendo as riquezas de cada um e de todos para trabalharmos juntos como equipe e como família.

Cultivar a autêntica virtude da obediência nos protege tanto da incapacidade de escutar como do servilismo que só executa, sem a mediação de toda a riqueza interior que Deus deu a cada pessoa. Por isso, São Josemaria nos alertou sobre essas possibilidades. Considerava, por um lado, que “a maior parte das desobediências provém de não saber ‘escutar’ a indicação, o que no fundo é falta de humildade ou de interesse em servir” [27]. Por outro lado, precisamente como consequência do desejo de escutar com uma atitude de serviço, assinalou que “no Opus Dei, meus filhos, obedecemos com a cabeça e com a vontade; não como cadáveres. Eu, com cadáveres, não vou a lugar nenhum; enterro-os piedosamente”[28]. Nesse sentido, obedecer não é apenas cumprir a vontade de outra pessoa, mas colaborar com ela na união da vontade e da cabeça, do pensamento.

A obediência inteligente de São José

14. Em sua carta sobre São José, o Papa Francisco considerava como “em cada circunstância de sua vida, José soube pronunciar seu fiat, como Maria na Anunciação e Jesus no Getsêmani”[29]. Quando São Josemaria tinha de falar de obediência, referia-se frequentemente a São José, porque via no patriarca precisamente aquele coração que escuta: atento a Deus e também atento às circunstâncias, às pessoas que o rodeiam. Por exemplo, no episódio do retorno do Egito, ele nos mostra como “a fé de José não vacila, sua obediência é sempre rigorosa e rápida. Para entender melhor essa lição que o Santo Patriarca nos dá, é bom considerar que sua fé é ativa e que sua docilidade não apresenta a atitude de obediência de quem se deixa arrastar pelos acontecimentos”[30].

Nesse sentido, nosso Fundador apreciava precisamente o fato de que São José, sendo um homem de oração, aplicava sua inteligência à realidade que tinha diante de si: “Nas diversas circunstâncias de sua vida, o Patriarca não renuncia a pensar nem desiste da sua responsabilidade. Pelo contrário, coloca toda a sua experiência humana a serviço da fé. (…) Assim foi a fé de José: plena, confiante, íntegra, manifestada numa entrega eficaz à vontade de Deus, numa obediência inteligente”[31].

É compreensível que, especialmente para aqueles de nós que são chamados a ser santos nas situações tão mutáveis e desafiadoras deste mundo, São Josemaria insista na necessidade de aprender uma obediência inteligente, integrada em nossa liberdade pessoal.

A obediência de Maria

15. Nos últimos anos, difundiu-se em todo o mundo a devoção a Nossa Senhora Desatadora dos Nós, que tem raízes muito antigas, pois já no início do século III Santo Irineu de Lyon escrevia: "Eva, com a sua desobediência, atou o nó da desgraça para o gênero humano; mas Maria, com a sua obediência, desatou-o”[32]. Quantos nós que parecem impossíveis de desatar no mundo e na nossa vida serão desatados se, como a Virgem Santíssima, vivermos para os planos de Deus!

Nosso Padre comentava: “Procuremos aprender também seu exemplo de obediência a Deus, nessa delicada combinação de escravidão e fidalguia. Em Maria não há nada que lembre a atitude das virgens néscias, que obedecem, mas estouvadamente. Nossa Senhora ouve com atenção o que Deus quer, pondera o que não entende, pergunta o que não sabe. Depois, entrega-se por completo ao cumprimento da vontade divina: Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra. Vemos a maravilha? Santa Maria, mestra de toda a nossa conduta, ensina-nos agora que a obediência a Deus não é servilismo, não subjuga a consciência; pelo contrário, move-nos interiormente a descobrir a liberdade dos filhos de Deus”[33].

Se a obediência alguma vez entrar em conflito com a liberdade, recorramos a Maria: ela nos obterá a graça de descobrir, na obediência autêntica, a liberdade dos filhos de Deus. E, com a liberdade, virá a alegria.

Com todo o carinho, abençoa-os

o Padre

Fernando

[1] Cfr. C. Fabro, “Un maestro de libertà cristiana”, en L'Osservatore Romano, 2/08/1977. Também em Um mestre da liberdade cristã.

[2] São Josemaria, Oração ao Espírito Santo, abril de 1934.

[3] Catecismo da Igreja Católica, n. 397.

[4] São Josemaria, Carta 38, n. 41. A partir de agora, as citações em que o autor não é mencionado são de São Josemaria.

[5] Bento XVI, Homilia, 15/04/2010

[6] Santo Rosário, 4º mistério luminoso

[7] Francisco, Discurso, 17/02/2022.

[8] É Cristo que passa, n. 17

[9] Caminho, n. 621

[10] Cf. São Tomás de Aquino, Suma teológica, II-II, q. 104 a. 1.

[11] É Cristo que passa, n. 17.

[12] Bento XVI, Ângelus, 1/07/2007.

[13] Forja, n. 788.

[14] É Cristo que passa, n. 17.

[15] Amigos de Deus, n. 30.

[16] São Agostinho, In Epist. Ioannis ad parthos, VII, 8 (PL 35, 2033).

[17] São Agostinho, De natura et gratia, 65, 78 (PL 44, 286).

[18] Carta 11, n. 39.

[19] São Basílio, Regulae fusius tractatae, prol. 3 (PG 31, 895).

[20] Entrevistas com Mons. Josemaria Escrivá, n. 2.

[21] Cfr. São Tomás de Aquino, Quaest. disp. De Malo, q. VI: Intelligo enim quia volo; et similiter utor omnibus potentiis et habitibus quia volo.

[22] Entrevistas, n. 100.

[23] Entrevistas, n. 63.

[24] Carta 18, n. 38.

[25] Caminho, n. 629.

[26] Carta, 17/06/1973, n. 35.

[27] Sulco, n. 379.

[28] Anotações de uma reunião de família, em Vázquez de Prada, O Fundador do Opus Dei (III), p. 372.

[29] Francisco, Carta apostólica Patris corde, 8-XII-2020, n. 3.

[30] É Cristo que passa, n. 42.

[31] Ibidem.

[32] Santo Irineu, Adversus hæreses, III, 22, 4 (PG 7-I, 959-960).

[33] É Cristo que passa, n. 173.

Unidos na oração pela pronta recuperação do Papa (19-II-2025)

Queridíssimos:

Escrevo estas linhas para animá-los a continuar rezando pela saúde do Santo Padre e a acompanhá-lo espiritualmente com o nosso afeto enquanto ele estiver no Policlínico Gemelli.

Desde que foi internado no hospital, no passado dia 14 de fevereiro, o Papa Francisco quis agradecer em várias ocasiões as manifestações de afeto e a oração de toda a Igreja, e também – de modo especial – o carinho, cartas e desenhos que outros pacientes do hospital, jovens e idosos, estão lhe enviando: isso expressa graficamente que a Igreja é família!

Como nos recorda o apóstolo Paulo, “se um membro sofre, todos sofrem com ele” (1Cor 12, 26). A realidade da comunhão dos santos nos leva a considerar nosso tudo o que afeta os outros. Em tantas ocasiões, vemos o Papa assumir como seu o sofrimento alheio; agora queremos retribuir esse afeto e essas atenções com a nossa oração e proximidade.

Com a minha bênção mais carinhosa,

O Padre

Fernando

Carta sobre a alegría (10-III-2025)

Queridíssimos: que Jesus guarde as minhas filhas e os meus filhos!

1. Nesta breve carta – acolhendo a sugestão que uma irmã de vocês me fez há poucas semanas –, pensei em refletir com vocês sobre alguns poucos aspectos da alegria, meditando, sobretudo, palavras de São Josemaria.

A alegria, em geral, é efeito da posse e da experiência do bem e, dependendo do tipo de bem, há diversas intensidades e permanências da alegria. Quando a alegria não é consequência de uma experiência pontual do bem, mas do conjunto da própria existência, costumamos considerá-la como felicidade. Em todo caso, a alegria e a felicidade mais profundas são as que têm sua principal raiz no amor.

Vivemos tempos difíceis no mundo e na Igreja (e a Obra é uma pequena parte da Igreja). Na verdade, de um modo ou de outro, todos os tempos tiveram suas luzes e sombras. Também por isso é especialmente necessário fomentar uma atitude alegre. Sempre e em qualquer circunstância, podemos e devemos estar contentes, porque é assim que o Senhor quer: “Que a minha alegria permaneça em vós e a vossa alegria seja completa” (Jo 15,11). Ele disse isso aos apóstolos e, neles, a todos os que viriam depois; por isso, “a alegria é condição própria da vida dos filhos de Deus”[1].

Pelo contrário, “a tristeza é causada pelo amor desordenado de nós mesmos, que não é um vício especial, mas como uma raiz geral de todos”[2] os vícios. Essa afirmação de São Tomás pode surpreender, se pensarmos, por exemplo, no sofrimento diante da morte de uma pessoa amada. Na realidade, essa situação não deveria levar necessariamente à tristeza nesse sentido, mas sim à dor, que não é a mesma coisa. De fato, é experiência comum que nem toda dor e renúncia originam tristeza, especialmente quando são assumidas com amor e por amor. Assim, os sacrifícios, às vezes muito notáveis, de uma mãe por seus filhos podem produzir dor, mas não necessariamente tristeza.

“O que é preciso para conseguir a felicidade não é uma vida cômoda, mas um coração enamorado”[3]. Todos os que vimos e ouvimos nosso Padre, em Villa Tevere, durante os últimos sete ou oito anos de sua vida, o víamos verdadeiramente contente, feliz, embora fossem anos em que ele sofreu muito, tanto fisicamente quanto, sobretudo, pelas graves dificuldades que a vida da Igreja atravessava naqueles anos.

A alegria da fé

2. A alegria natural elevada pela graça se manifesta especialmente na união aos planos de Deus. Aos pastores de Belém, os anjos anunciam a “grande alegria” (Lc 2,10) do nascimento de Jesus; os Magos voltam a ver a estrela com “uma imensa alegria” (Mt 2,10). Por fim, os apóstolos se encheram de alegria ao ver Jesus ressuscitado (cf. Jo 20,20).

A alegria cristã não é a simples alegria “do animal são”[4], mas fruto do Espírito Santo na alma (cf. Gl 5,22); tende, por si mesma, a ser permanente, porque se fundamenta Nele, como nos exorta São Paulo: “Alegrai-vos sempre no Senhor; repito, alegrai-vos” (Fl 4,4).

Essa alegria no Senhor é a alegria da fé em seu amor paterno: “A alegria é consequência necessária da filiação divina, de nos sabermos queridos com predileção pelo nosso Pai-Deus, que nos acolhe, nos ajuda e nos perdoa. Lembra-te bem e sempre disto: mesmo que alguma vez pareça que tudo vem abaixo, nada vem abaixo!, porque Deus não perde batalhas”[5].

No entanto, diante de dificuldades ou sofrimentos, nossa fraqueza pessoal pode fazer com que essa alegria diminua, especialmente pela possível debilidade da fé atual no amor onipotente de Deus por nós. “Um filho de Deus, um cristão que vive de fé, pode sofrer e chorar: pode ter motivos para se lamentar, mas para estar triste, não”[6]. Também por isso, para fomentar – ou recuperar – a alegria, convém atualizar a convicção de fé no amor de Deus, que nos permite afirmar com São João: “Nós conhecemos e cremos no amor que Deus tem por nós” (1Jo 4,16).

A fé tende a se expressar de um modo ou de outro – com palavras ou sem palavras – em oração e, com a oração, vem a alegria, porque “quando o cristão vive de fé – com uma fé que não seja mera palavra, mas realidade de oração pessoal –, a segurança do amor divino manifesta-se em alegria, em liberdade interior”[7].

Alegres na esperança (Rm 12,12)

3. A fé no amor que Deus tem por nós traz consigo uma grande esperança. Assim podemos entender também a afirmação da Epístola aos Hebreus: “A fé é fundamento das coisas que se esperam” (Hb 11,1). A esperança tem por objeto propriamente um bem futuro e possível. E o bem que a fé nos faz esperar é, fundamentalmente, a plena felicidade e alegria na união definitiva com Deus na glória. Como nos diz São Paulo, é “a esperança que vos está reservada nos céus” (Col 1,5). Essa certeza nos dá a segurança de que não nos faltarão os meios para alcançar essa meta, se os acolhermos livremente: para começar e recomeçar, todas as vezes que forem necessárias.

E quando se apresenta, de modos diversos, uma vontade de Deus diante da qual nos sentimos inadequados e impotentes, podemos ter inclusive “a segurança do impossível”[8], como o nosso Padre no início da Obra, em momentos de total ausência de meios e em um ambiente social profundamente contrário à vida cristã.

4. Temos, podemos ter sempre, “uma esperança que não decepciona”, não por causa de uma segurança em nós mesmos nem em nada deste mundo, mas “porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5,5).

Às vezes, as dificuldades de diversos tipos podem nos fazer pensar, por exemplo, que o trabalho apostólico não está sendo eficaz, que não vemos os frutos do nosso esforço e da nossa oração. Mas sabemos bem – e nos convém atualizar frequentemente essa convicção de fé – que o nosso trabalho não é vão no Senhor (cf. 1Cor 15,58). Como também assegurava nosso Padre: “Nada se perde”.

A esperança e a alegria são dons de Deus, e assim São Paulo pede para todos: “Que o Deus da esperança os encha de toda alegria e paz, por sua confiança nele, para que vocês transbordem de esperança, pelo poder do Espírito Santo” (Rm 15,13).

A alegria do coração enamorado

5. O amor a Deus e aos outros está unido, com a alegria, à fé e também à esperança. “Quem ama tem a alegria da esperança, de chegar a encontrar o grande amor que é o Senhor”[9].

São diversas as expressões do amor, que coincidem justamente no essencial: desejar o bem da pessoa amada (e, na medida do possível, procurá-lo) e a consequente alegria ao conhecer esse bem por fim presente.

No caso do amor ao Senhor, será que poderíamos desejar para Deus um bem que Ele não tenha? Sabemos que Ele, ao criar-nos livres, quis correr o risco da nossa liberdade[10]. Podemos não dar a Deus algo que ele anseia: o nosso amor. De alguma maneira, a alegria do amor a Deus não é só o aspecto – que ele significa para nós - de um amor consistente no bem, mas também a alegria de podermos dar a Ele o nosso amor.

O amor, como fonte de alegria, manifesta-se de modo especial na entrega aos outros, procurando ser, apesar dos nossos defeitos, “semeadores de paz e de alegria”[11]. Assim, além disso, alegramo-nos ao ver a alegria deles e, como o nosso Padre, podemos dizer-lhes com verdade: “A minha alegria é a alegria de vocês”[12].

6. “O amor verdadeiro exige que saiamos de nós mesmos, que nos entreguemos. O autêntico amor traz consigo a alegria: uma alegria que tem as suas raízes em forma de Cruz”[13]. Acima de tudo, a Cruz assumida por amor a Deus é fonte de bem-aventurança. Assim nos ensina o Senhor: “Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa. Alegrai-vos e exultai, porque é grande a vossa recompensa nos céus; pois assim perseguiram os profetas que vieram antes de vós” (Mt 5,11-12). Na realidade, todas as bem-aventuranças descrevem as raízes da alegria: “As bem-aventuranças levam-te à alegria, sempre; são o caminho para alcançar a alegria”[14].

Muitas são as causas que podem levar a perder a alegria; especialmente a experiência atual da própria debilidade, a consciência dos próprios pecados. Mas a fé no amor de Deus, e a esperança segura que acompanha essa fé, fundamentam, como afirma São Josemaria, “a profunda alegria do arrependimento”[15]. Também então, apesar das nossas limitações e defeitos, com a ajuda do Senhor, e o nosso carinho, podemos “tornar amável e fácil o caminho aos demais”[16].

Invocamos a Santíssima Virgem, Mãe de Deus e Mãe nossa, como Causa nostrae laetitiae. Que Ela nos ajude a estar sempre contentes e a ser semeadores de paz e de alegria em todas as circunstâncias da nossa vida. Em especial, pedimos-lhe agora, neste ano jubilar da esperança, muito unidos ao sofrimento do Papa Francisco.

Com a minha bênção mais carinhosa,

O Padre,

Fernando

[1] Carta 13, n. 99. Os textos dos quais não se menciona o autor são de São Josemaria.

[2] São Tomás, Suma Teológica, II-II, q.28, a.4 ad1. “A tristeza é a escória do egoísmo” (Amigos de Deus, n. 92).

[3] Sulco, n. 795.

[4] Cf. Caminho, n. 659.

[5] Forja, n. 332.

[6] “As riquezas da fé”, publicado no jornal ABC em 2/11/1969.

[7] Ibid.

[8] Carta 29, n. 60.

[9] Francisco, Audiência, 15/03/2017.

[10] Cf. Amigos de Deus, n. 35.

[11] Sulco, n. 59.

[12] Carta 14, n. 1.

[13] Forja, n. 28.

[14] Francisco, Homilia, 29/01/2020.

[15] Carta 14/02/1974, n. 7.

[16] Sulco, n. 63.

Mensagem pelo falecimento do papa Francisco
(21-IV-2025
)

Nestes momentos de dor, juntamente com toda a Igreja, dirigimos a nossa oração ao Senhor pela alma do nosso querido Papa Francisco. Deus terá premiado a sua entrega generosa ao serviço do Povo de Deus e do mundo inteiro.

O Papa tinha uma grande fé na misericórdia de Deus e uma das principais orientações do seu pontificado foi precisamente anunciá-la aos homens e mulheres de hoje. Com o seu exemplo, exortou-nos a acolher e a experimentar a misericórdia de Deus, que não se cansa de nos perdoar; e, por outro lado, a sermos misericordiosos para com os outros, como ele fez incansavelmente com tantos gestos de ternura que são parte central do seu magistério testemunhal.

São Josemaria dizia-nos: “Tens de acolher a palavra do Papa com uma adesão religiosa, humilde, interna e eficaz: serve-lhe de eco!” (Forja, n. 133). Que o exemplo do Papa Francisco nos leve a fazer eco desse testemunho, a continuar a caminhar como apóstolos da misericórdia num mundo trespassado pelas chagas da indiferença e da violência.

Recorramos a Santa Maria, Mater spei – como Francisco gostava de Lhe chamar – “tudo na sua vida foi plasmado pela presença da misericórdia feita carne” (Misericordiæ Vultus), para que também nós possamos um dia contemplar Deus face a face.

Mensagem para participar do luto e dos ritos fúnebres
do papa Francisco (21-IV-2025)

Em meio à tristeza pela morte de nosso amado Papa Francisco e à gratidão a Deus por seu generoso testemunho, escrevo esta mensagem para comunicar uma notícia imediata.

Como vocês sabem, o X Congresso Geral Ordinário da Obra estava programado para ser realizado em Roma nas próximas duas semanas, até 5 de maio.

Depois de ouvir a Assessoria Central e o Conselho Geral, levando em conta que - devido à proximidade das datas de início - a maioria dos participantes do congresso já chegou a Roma, foi decidido que o Congresso será reduzido ao mínimo essencial: a renovação dos cargos da Assessoria Central e do Conselho Geral, que devem ser nomeados ou renovados a cada oito anos.

Aproveitaremos esses dias para viver em comunhão com toda a Igreja o luto e as exéquias do Santo Padre. Todas as regiões do Opus Dei estarão presentes de alguma forma na Cidade Eterna por meio de suas irmãs e irmãos do Congresso.

As outras questões que seriam discutidas no Congresso, que mencionei em minha mensagem de 8 de abril, serão estudadas mais tarde, pois agora é um momento de luto, oração e unidade com toda a Igreja.

Como lhes disse em minha mensagem anterior, vamos recorrer a Santa Maria, Mãe da Esperança, para que, neste período de sede vacante, ela possa ser um consolo e um guia para todos na Igreja.

Mensagem por ocasião da eleição do Papa León XIV
(8-V-2025)

Queridíssimos: que Jesus guarde as minhas filhas e meus filhos!

Escrevo estas linhas para compartilhar com vocês nossa alegria pelo fato de a Igreja e o mundo terem um novo Vigário de Cristo: o Papa Leão XIV. Desde o momento em que seu nome foi anunciado na sacada da Basílica de São Pedro, oferecemos nossas orações por ele e pela imensa missão que tem pela frente.

Em momentos como este, a fé da Igreja brilha com particular esplendor na unidade dos corações e na oração pelo nosso pai comum e por todos os nossos irmãos. Hoje, de modo especial, somos chamados pelo conselho que São Josemaria deixou em Forja: “Ama, venera, reza, mortifica-te - cada dia com mais carinho - pelo Romano Pontífice, pedra basilar da Igreja, que prolonga entre todos os homens, ao longo dos séculos e até o fim dos tempos, aquela tarefa de santificação e de governo que Jesus confiou a Pedro” (n. 134).

As palavras que o Papa disse antes de dar a bênção ainda ressoam em nós: “Sejamos discípulos de Cristo. Cristo vai à nossa frente, o mundo precisa de sua luz. A humanidade precisa dele como a ponte para ser alcançada por Deus e seu amor”. Como o Papa pediu, rezamos “juntos por essa nova missão, por toda a Igreja e pela paz no mundo”.

Por providência de Deus, vivenciamos o luto de nosso Santo Padre Francisco mais perto de todos, com a presença de pessoas de tantos países que vieram participar do Congresso Geral realizado recentemente.

Vamos tentar orientar o caminho iniciado nas assembleias regionais partindo do horizonte que o Espírito Santo nos abre por meio do ministério do Papa Leão XIV, para servir a Igreja, a sociedade e cada pessoa, para levar-lhes o calor do Evangelho em um mundo tantas vezes atravessado pela frieza da indiferença, pela dureza da violência e da pobreza, pelo flagelo da solidão.

Acompanhemos o novo Romano Pontífice com nosso afeto e orações, seguindo o exemplo de nosso fundador, que quis gravar estas palavras carinhosas em Villa Tevere, a sede central da Obra: “Como brilhas, Roma! Como resplandeces daqui, em panorama esplêndido, com tantos monumentos maravilhosos de antiguidade! Mas a tua joia mais nobre e mais pura é o Vigário de Cristo, de quem és a única cidade que se gloria”.

Neste dia de Nossa Senhora de Pompeia e de Nossa Senhora de Luján, vamos todos com Pedro a Jesus por Maria - especialmente nas romarias que fizerem com seus amigos e amigas durante o mês de maio - para que o Papa e toda a Igreja sejam repletos das bênçãos de Nossa Senhora.

Com a minha bênção mais carinhosa,

O Padre,

Fernando

DISCURSOS E AULAS

Aula sobre a disponibilidade e o celibato no Opus Dei, (20/01/2024)

Colégio Romano da Santa Cruz, Roma

Esta aula é composta por duas partes, uma sobre a disponibilidade dos numerários e outra, relacionada a esta, sobre o celibato. As ideias que surgirem servirão tanto para a reflexão pessoal quanto para o trabalho de formação que vocês fazem com os seus irmãos. Que cada um veja como as vive, como as aplica, como servem para ajudar os outros.

Quanto à disponibilidade, a primeira coisa que podemos fazer é relembrar algumas palavras do nosso Padre: “Todos com vocação divina, os numerários devem dar-se diretamente e imediatamente ao Senhor em holocausto, entregando tudo o que é deles, seu coração inteiro, suas atividades sem limite, seus bens, sua honra” (Instrução para a obra de São Gabriel, n. 113).

Reparemos no que nos diz primeiro: “coração inteiro”. A disponibilidade do coração não consiste em ter o coração aberto para qualquer coisa entrar, mas para que nele caibam todas as pessoas que estão ao nosso redor, confiadas aos nossos cuidados. Entregar um coração inteiro significa evitar análises exaustivas e classificações, para amar a todos igualmente; para amar o trabalho da Obra como expressão do nosso amor a Deus; para entregar ao Senhor tudo o que somos e tudo o que temos.

A disponibilidade do coração se manifesta na disponibilidade eficaz, real e concreta do nosso tempo. É uma disponibilidade para as tarefas que nos são confiadas. Não se trata apenas de uma disponibilidade material, mas principalmente do coração, que consiste em dedicar a vontade e o afeto à essa atividade; mesmo quando é difícil, estando disposto a todas as mudanças necessárias.

Habitualmente, na Obra, cada um desempenha seu trabalho profissional em seu ambiente, santificando as realidades temporais. No entanto, como lembrava dom Javier em uma carta, às vezes “Não há outro remédio a não ser que algumas filhas e alguns filhos meus diminuam a sua atividade profissional – ou inclusive a deixem de lado completamente, ao menos por algum tempo – para se dedicarem a ajudar os seus irmãos na vida espiritual e dirigir o trabalho apostólico” (Javier Echevarría, Carta pastoral, 28/11/1995, n. 16). A isso deve-se acrescentar que, como o próprio Dom Javier explicava tantas vezes, o trabalho de direção das tarefas e o próprio trabalho de direção espiritual — que é o fundamental confiado às pessoas que formam os conselhos locais — são tarefas que também podem ser chamadas de profissionais em termos de seriedade e necessidade de preparação.

Por outro lado, a disponibilidade não é apenas uma atitude passiva, um “estar disposto para fazer tudo o que me pedirem”: mudar de centro, de encargo apostólico, de cidade, de país, de continente – porque por enquanto não podemos mudar de planeta… Certamente, é isso também, mas não basta. É preciso ter iniciativa e interesse, colocar o nosso coração e os nossos talentos a serviço da Obra, ou seja, disponibilizar o que temos e quem somos para viver a nossa vocação. De fato, parte da disponibilidade consiste em pensar em como melhorar, o que sugerir… São detalhes que manifestam que sentimos o Opus Dei como algo nosso.

Sem outros laços além do amor

No sentido bíblico, o coração não se refere apenas ao que é sensível, mas à pessoa inteira, e especialmente à sua vontade, ou seja, à sua liberdade. Um aspecto fundamental da nossa disponibilidade é que ela deve ser vivida como liberdade, e não como falta de liberdade. Podemos dizer: “Estou aqui, pronto para fazer tudo o que me disserem”, e depois, ao receber um novo encargo, sentir isso como uma limitação à própria liberdade. Quando, na realidade, a maior liberdade consiste em não ter outros laços além do amor.

Isso se aplica a todos nós no Opus Dei, mas especialmente, de forma mais completa e material, aos numerários: não ter nenhum laço, nem de trabalho, nem com um centro, nem com um país. Não se sentir atados a nada. E esse sentimento de não se sentir atado a nada é liberdade, liberdade espiritual, liberdade da alma.

Logicamente, isso não significa viver desarraigados, ser pessoas que vivem flutuando no ar. Estar profundamente enraizado no que fazemos, com os pés no chão e no nosso trabalho, assumindo a responsabilidade pela nossa missão e obrigações, e nos dedicando ao que fazemos com todas as nossas capacidades humanas, com entusiasmo profissional, como se fosse sempre a coisa definitiva, é compatível com não estar atado a nada. Porque a liberdade não consiste na ausência de limitações externas, mas em não estar vinculado a nada além do amor a Deus e, consequentemente, ao amor ao próximo, à Obra, às almas.

Talvez em algum momento — porque todos experimentaremos fraquezas até o momento da morte - percebamos certas exigências, mudanças, cargos e assim por diante como uma falta de liberdade. Então será uma oportunidade renovada para aprofundar nosso amor, para que a liberdade da alma seja fortalecida.

Nosso Padre falava de um grupo pregado na cruz: “Nosso Senhor não quer uma personalidade efêmera para a sua Obra: pede-nos uma personalidade imortal, porque quer que nela – na Obra – haja um grupo pregado na Cruz: a Santa Cruz nos tornará perduráveis, sempre com o mesmo espírito do Evangelho, que trará o apostolado de ação como fruto saboroso da oração e do sacrifício” (Instrução sobre o Espírito Sobrenatural da Obra, n. 28). Aqui não diz quem é esse grupo pregado na cruz, mas, pelo contexto, entende-se que sejam os numerários. De fato, todos nós temos que ser pregados na cruz, de alguma forma. Neste caso, porém, nosso Padre fala de uma maneira específica e especial de ser pregado à cruz: a dos numerários, que devem estar sempre disponíveis para mudar de trabalho...; todas essas, ocasiões de se unir à cruz. E quando unimos intencionalmente à cruz do Senhor as coisas que nos custam, elas deixam de pesar, embora ainda continuem pesando. Há uma aparente contradição.

Vimos tantas vezes na vida de nosso Padre como ele foi capaz, pela graça de Deus, de sofrer muito e, ao mesmo tempo, de estar muito contente. E nós também temos a possibilidade de viver a entrega, mesmo quando custa, como fonte de alegria.

É importante que, ao falar com alguém sobre a possibilidade de apitar como numerário, esse aspecto essencial do caminho seja explicado. Também é bom que essa ideia seja enfatizada na formação que recebem durante os primeiros anos, mesmo que possa parecer muito distante para a pessoa naquele momento.

Naturalmente, os diretores levarão em consideração as circunstâncias e a capacidade real de cada pessoa de empreender uma mudança. Graças a Deus, na Obra não funcionamos a base de ordens militares, porque, dentro da natureza radical do nosso compromisso, somos ao mesmo tempo família e milícia.

Em relação a essa disponibilidade radical, podemos lembrar também algumas palavras de nosso Padre na terceira de suas campanadas*. São palavras preciosas, mesmo do ponto de vista literário, e ao mesmo tempo tão expressivas que não há risco de nos prendermos somente ao que é bonito:

“Tenho que agradecer ao Senhor por sua grande bondade, porque minhas filhas e filhos me proporcionaram, neste quase meio século, tantas e tantas alegrias, precisamente por sua firme adesão à fé, sua vida cristã vigorosa e sua total disponibilidade – dentro dos deveres de seu estado pessoal, no mundo – para o serviço de Deus no Opus Dei. Jovens ou menos jovens, foram de lá para cá com a maior naturalidade, ou perseveraram fiel e incansavelmente no mesmo lugar; mudaram de ambiente quando necessário, suspenderam uma tarefa e concentraram seus esforços em outra que lhes fosse interessava mais por razões apostólicas; aprenderam coisas novas, aceitaram de bom grado se ocultar e desaparecer, abrindo caminho para outros: subir e descer”.

“É o jogo divino da entrega, ao qual meus filhos responderam, conscientes de sua responsabilidade perante Deus de levar adiante a Obra para o bem das almas. O Senhor brilhou e, sobre a vossa generosidade, derramou eficácia santificadora: conversões, vocações, fidelidade à Igreja em todos os cantos do mundo. Assim brota o fruto sobrenatural de uma entrega sem condições. E isso se pede a todos na Obra, porque deve ser sempre o cotidiano, o natural” (De nosso Padre, Carta 14/02/1974, n. 5).

Uma paternidade sem limites

Após esta primeira parte, começar a falar sobre o celibato acarreta um risco: poderia dar a impressão de que a disponibilidade constitui sua dimensão mais fundamental. Certamente, a pessoa célibe está muito mais disponível do que quem é casado e tem filhos, mas seu caminho não consiste apenas nisso, e nem mesmo principalmente. O celibato é, acima de tudo, um dom de Deus de identificação especial com Jesus Cristo. E é assim que devemos vê-lo, pois disso deriva tudo o mais, inclusive a disponibilidade. Os numerários e, no que se refere ao celibato, também os adscritos, têm a função de ser testemunhos vivos da entrega a Deus no meio do mundo.

O celibato não é uma limitação do humano. Basta olhar para Jesus Cristo para se convencer disso, pois se há alguém que encarnou a humanidade perfeita, esse alguém é Ele. E sendo ele a plenitude do homem, não se pode dizer que o matrimônio seja uma condição indispensável para alcançar essa plenitude. Embora, para quem tem vocação matrimonial — geralmente a maioria das pessoas —, o matrimônio constitui um autêntico caminho de santificação e de plenitude.

Por isso, no trabalho apostólico, não vale a pena entrar em comparações. Na realidade, o importante é o que Deus quer de cada pessoa. Não podemos cair no erro de fazer avaliações utilitárias sobre o que é mais e o que é menos. A questão fundamental, ao contrário, é a seguinte: o que Deus quer de mim? Porque o que Deus quer para cada pessoa será o que a fará feliz, o que a conduzirá à plenitude. Além disso — afastando-nos um pouco do tema do celibato — que ninguém pense que o casamento é mais fácil do que o celibato. Embora o celibato envolva inicialmente uma renúncia maior, óbvia e evidente, o casamento envolve um sacrifício, um compromisso e dificuldades que podem ser muito maiores do que as da vida no celibato. É precisamente por isso que não é aconselhável fazer comparações: o melhor será sempre o que Deus quer para cada pessoa.

Para os numerários e adscritos, o celibato tem uma dimensão de disponibilidade. Não se trata apenas de uma disponibilidade factual, uma questão de tempo, mas de uma disponibilidade marcada pela paternidade espiritual. O celibato implica uma maior capacidade de se dedicar a uma família maior. No Opus Dei, temos uma família imensa, e o celibato contribui para criar esse ambiente familiar tão essencial. Viver plenamente o significado do celibato, segundo o espírito do Opus Dei, não implica diminuir a paternidade, mas aumentá-la. Por isso todos os numerários, estejam ou não nos conselhos locais, têm a responsabilidade de cuidar das pessoas de Casa.

Não é surpreendente que às vezes surjam tentações no coração — e não apenas na carne. Todos as experimentam em algum momento, e isso é normal. Portanto, não seria lógico ter dúvidas pelo fato de, ocasionalmente, sentir essa atração natural por uma mulher. Ao trabalhar em ambientes profissionais com colegas mulheres, é preciso exercer prudência e proteger os sentidos, pois a atração pelas mulheres não desaparece. Esta é uma luta no sentido positivo: não se trata de viver com o coração fechado. Em certo sentido, sim, mas, ao mesmo tempo, ele deve estar muito aberto ao mundo inteiro, por meio do amor a Jesus Cristo. Não renunciamos a uma vida de amor e a tudo o que isso implica: afetos, desejos, paixão, criatividade, abnegação… Uma pessoa que vive o celibato dirige todas essas energias, típicas de alguém apaixonado, para Deus e para as pessoas e tarefas específicas que nos são confiadas na Obra.

Talvez nos lembremos daquela passagem em Caminho: “Como vai esse coração? - Não te inquietes; os santos - que eram seres bem constituídos e normais, como tu e como eu - sentiam também essas ‘naturais’ inclinações. E se não as tivessem sentido, a sua reação ‘sobrenatural’ de guardar o coração - alma e corpo - para Deus, em vez de entregá-lo a uma criatura, pouco mérito teria tido. Por isso, uma vez visto o caminho, creio que a fraqueza do coração não deve ser obstáculo para uma alma decidida e ‘bem enamorada’” (Caminho, n. 164).

Guardar o coração implica guardar os sentidos, prudência, perseverança e luta – mas uma luta de amor, para crescer na amizade com Deus, com a sua graça. Requer sinceridade consigo mesmo e na direção espiritual, para que nos ajudem; e cultivar a disponibilidade no celibato. E, acima de tudo, que não falte alegria, um bem muito necessário para alcançar a fidelidade: no amor desinteressado aos outros, muitas vezes encontraremos uma profunda felicidade, que nos levará a ter um coração cada vez mais semelhante ao de Jesus Cristo.

Sobre Vitalização Cristã das instituições Educativas (26-VII-2024)

Universidade dos Andes, Santiago do Chile

Introdução

Abordarei um tema que vocês conhecem muito bem: a identidade cristã da universidade. O conceito de identidade cristã é amplo, com diferentes manifestações, mas todas elas são de grande importância, não por serem cristãs, mas especialmente no que diz respeito à universidade.

Nesse sentido, a primeira ideia que considero interessante relembrar, embora vocês certamente já a conheçam, é que essa união entre universidade e cristianismo não é uma união artificial. Basta notar que as universidades nasceram a partir do cristianismo. Todas elas, porque em sua essência, o desejo de conhecer, o desejo de aprofundar nossa compreensão do mundo, das pessoas, da realidade, é profundamente cristão. Esse desejo não é apenas cristão, mas é profundamente cristão, e em sua origem, quando adquire um desenvolvimento mais completo, leva naturalmente ao conhecimento de Deus.

Assim, a dimensão cristã ocupa uma posição de destaque no conhecimento humano e, por conseguinte, no conhecimento universitário.

Identidade cristã pessoal

Para entrar no assunto, ainda que brevemente, pois o tema é bastante abrangente, sugiro considerar a identidade cristã da universidade como corporação, como instituição; mas também pensar na identidade cristã pessoal daqueles que trabalham na universidade. Pois essa identidade institucional se refletirá em uma série de medidas organizacionais que, se não forem informadas pela identidade cristã das pessoas, permanecerão como um molde praticamente inútil e artificial, inoperante, porque, em última análise, a primazia da pessoa é sempre o fundamental.

Isso não significa que todos na universidade devam ser cristãos, mas sim que, para que a instituição tenha uma inspiração cristã, é necessário, no mínimo, um núcleo de vida cristã pessoal para vitalizar a estrutura cristã organizacional; um núcleo de vida cristã sem o qual o institucional seria, no fundo, bastante morto.

Portanto, é necessária uma presença cristã pessoal, assim como uma abertura cristã para aqueles que, sem serem cristãos ou sendo cristãos não praticantes, contribuem com seu trabalho na universidade. Nesse sentido, a universidade cristã também está aberta a pessoas não cristãs, na premissa daquela identidade cristã institucional baseada na realidade pessoal dos cristãos que a vitalizam.

É necessário que essa identidade cristã pessoal esteja presente em muitas pessoas, como um núcleo que irradia um sentido cristão de vida, e possui inúmeros aspectos. Pode ser vista como a vida cristã de cada pessoa, levando à identificação com Jesus Cristo. Identificar-se com Jesus Cristo é verdadeiramente impressionante; possui uma enorme riqueza porque é a própria plenitude humana: Cristo, perfeito Deus, é o homem perfeito.

No que se refere a uma universidade, podemos nos concentrar em algumas dimensões dessa plenitude humana que o cristianismo implica. A entrega de si mesmo aos outros é uma característica especial de Cristo como homem perfeito. Ou seja, a dimensão cristã pessoal, na universidade ou em qualquer outro lugar, leva consigo a dedicação autêntica aos outros, o serviço aos outros.

O serviço e a preocupação com os outros também têm uma dimensão institucional, fazendo parte, digamos, do espírito da instituição. Ou seja, fazem parte da atmosfera, do espírito com que as atividades são realizadas: um espírito cristão precisamente por sua dimensão de dedicação aos outros, de serviço, de preocupação, de luta contra o individualismo.

A universidade é a universitas studiorum segundo a noção clássica. O Cardeal Ratzinger explicou que o conceito de universidade é o oposto da simples adição ou soma de cursos ou institutos, pois é necessário haver uma verdadeira unidade entre os membros, que se preocupam uns com os outros. Não é universitário fechar-se pessoalmente no que é próprio, nem o é para cada instituto ou faculdade, pois sempre cabe, em diferentes níveis, uma colaboração, um senso de pertencimento a essa unidade proporcionada pelo espírito universitário, um interesse positivo em colaborar, uma abertura ao outro.

Às vezes, é fácil pensar que o próprio campo de estudo tem pouco a ver com os outros por ser tão especializado. Poderíamos dizer: "O que eu tenho a ver com isso ou aquilo na engenharia ou na filosofia?" Na realidade, sempre tem muito a ver, especialmente no âmbito humano: todos estão muito interligados.

Identidade Cristã Institucional

Examinaremos alguns aspectos específicos da identidade cristã institucional, considerando o todo. Um desses aspectos é o esforço pela excelência profissional, que sem dúvida, depende de cada pessoa, mas também é uma característica da própria instituição. Ou seja, a busca pela excelência profissional depende da capacitação de cada pessoa, de cada professor, mas também de cada funcionário em tarefas não acadêmicas, em suas respectivas funções.

Excelência Profissional

O que a excelência profissional tem a ver com o cristianismo? Já mencionei isso em um contexto mais geral: Cristo é homem perfeito e Deus perfeito e, portanto, a dimensão cristã exige excelência profissional, que não é simplesmente uma questão humana de excelência, de virtude humana, de qualidade humana, mas também uma realidade cristã. São Josemaria tantas vezes pregou o chamado à santificação do trabalho, o que implica como base necessária o amor pelo trabalho bem-feito. Porque o sobrenatural — o cristão — e o humano não são dois âmbitos separados. O cristão é o humano elevado à ordem divina, à ordem sobrenatural.

Portanto, uma exigência da identidade cristã é a perfeição humana do trabalho bem-feito. Não haveria identidade cristã sem um esforço positivo para alcançar a excelência profissional.

Primazia da Pessoa

Outro aspecto, talvez menos óbvio, da dimensão universitária é a primazia da pessoa. Em uma universidade, pode parecer que a primazia pertence ao todo, à garantia de que tudo funcione corretamente. Mas não: a primazia pertence à pessoa. Sempre à pessoa.

Talvez vocês se lembrem daquele ditado clássico que afirma que, na humanidade, o indivíduo tem prioridade sobre a espécie, sobre o todo, e que pode ser entendido de maneira correta ou incorreta. A pessoa vale mais do que toda a humanidade. Parece uma afirmação absurda, mas tem um significado verdadeiro. Porque o que realmente importa é cada pessoa, e o todo é valioso porque é composto de pessoas, uma a uma. Cada pessoa, em conjunto, é o grande valor da humanidade.

E isso tem consequências práticas universais; por exemplo, não se pode matar uma pessoa inocente para salvar o todo. Alguns podem dizer: “Se eu puder salvar a vida de mil matando uma, vale a pena”. Mas não, não podemos matar uma pessoa para salvar muitas.

E que aplicação isso pode ter no mundo universitário? A mesma que em todos os âmbitos humanos: devemos cuidar de cada pessoa. Os professores devem estar atentos, tanto quanto possível, ao valor de cada aluno. Devemos cuidar de cada indivíduo. E isso se aplica a todos os níveis da vida universitária. O que mais importa é cada pessoa, única e insubstituível. Cuidar de cada indivíduo é a forma como cuidamos do todo. É assim que construímos uma comunidade universitária mais plena.

A presença institucional da Igreja

A identidade cristã da universidade também implica a presença institucional da Igreja. Ou seja, deve haver de algum modo uma presença sacerdotal, com capelães que atendam aqueles que desejarem livremente. É algo oferecido, não imposto. É também importante, na medida do possível — e sempre é, de certa forma —, que a capelania não seja um mundo à parte. Pode acontecer que, por um lado, haja a universidade com suas cátedras e, em um canto, um ou dois sacerdotes disponíveis para quem desejar atendimento. Se não houver outra opção, faz-se dessa forma, mas, na medida do possível, é aconselhável que a capelania também tenha uma função universitária própria. Ou seja, que haja aulas de doutrina cristã, teologia, antropologia cristã e que a capelania tenha não apenas um papel pastoral, mas também seja capaz de oferecer uma dimensão acadêmica da fé cristã por meio de aulas de um tipo ou de outro.

Harmonia entre Fé e Razão

Outro aspecto da identidade cristã institucional é o que poderíamos chamar de harmonia entre a fé e a razão em todos os ensinamentos.

Essa harmonia é um conceito muito amplo. Por exemplo, alguém da área da matemática pode dizer: “O que a harmonia entre fé e razão tem a ver com a minha área?" Bem, tem sim, porque a fé ilumina tudo. A fé é uma luz que ilumina todas as nossas ações. Essa pessoa pode dizer: “A fé não me diz como resolver problemas de matemática”. E isso é verdade, mas a fé também influencia a atitude com enfrentamos a matemática. E a matemática, como qualquer outra disciplina, também é uma manifestação da Inteligência divina.

Tudo o que é racional no mundo vem da mente de Deus. Não é necessário que, toda vez que um professor explica um teorema, ele se refira ao Alto e enfatize sua conexão com a mente de Deus Criador. Mas, de alguma forma, se o pensamento matemático estiver profundamente integrado à mente de um crente, a consciência de que Deus está em toda a criação e de que é Ele quem sustenta a própria realidade surgirá de maneira natural e espontânea. É aqui que entra em jogo nossa capacidade de apresentar as coisas de uma forma ou de outra. Algumas pessoas têm mais imaginação, são capazes de iluminar um assunto de maneira mais acessível. Embora nem sempre seja fácil esclarecer o fato de a presença de Deus iluminar todas as ciências, ele pode estar presente como um interesse, como uma aspiração, e talvez se deseje poder explicá-la. Alguns assuntos se prestam bem a isso, enquanto outros são mais difíceis de compreender.

A propósito, lembro-me de um professor de muito prestígio, um professor de matemática, que transmitia uma visão de mundo ateia por meio da matemática. Isso significa que, inversamente, também se pode transmitir uma visão de mundo cristã, inclusive por meio da matemática. Como? Deixemos que o matemático reflita sobre isso. Em resumo, a dimensão cristã pode estar muito mais presente do que imaginamos, assim como outras dimensões, como o marxismo ou o positivismo, infelizmente estão mais presentes do que pensamos. Não sei se é o caso neste país, mas em muitos lugares certamente está, em muitos campos do conhecimento. O cristianismo pode e deve estar presente, sem impor nada, pois a realidade de toda a criação se sustenta no poder de Deus. É sempre possível propor uma perspectiva cristã em todos os níveis de conhecimento.

Certamente, existem aspectos acadêmicos complexos, como os de natureza biológica, especialmente quando a dignidade da pessoa humana está em jogo. Nesses casos, a perspectiva da fé tem muito a contribuir. Em questões limítrofes, a prudência é necessária e, se é o caso, deve-se buscar aconselhamento, principalmente em assuntos médicos e biomédicos, ética médica e outras áreas afins.

A Liberdade

Outra realidade crucial na vida universitária é a liberdade. O amor à liberdade é característico do espírito cristão. Como muitos de vocês se lembram, São Josemaria nos dizia que o amor à liberdade estava entre os legados humanos que ele queria deixar para os filhos da Obra.

O amor à liberdade na universidade é de grande transcendência justamente por ser uma virtude essencialmente cristã. Nesse sentido, devemos respeitar tudo o que é opinável, não apenas como se fosse algo a que temos de ceder de qualquer forma, mas como uma riqueza positiva, para nunca impor como verdade ou necessidade aquilo que não é.

Certamente, existem muitos pontos opináveis que se pode defender apaixonadamente porque estamos convictos deles, como em matérias científicas, sociais e culturais. Os professores explicam ideias opináveis a partir de suas perspectivas acadêmicas e podem defendê-las apaixonadamente, mas sempre respeitando a liberdade de pensar e expressar pontos de vista opostos. Embora às vezes possa parecer difícil, se respeitarmos a liberdade dos alunos, torna-se fácil expressar vigorosamente opiniões em que acreditamos: vigorosamente, mas apresentando-as como opináveis.

A liberdade de viver e circular dentro da universidade também deve ser respeitada, ou seja, deve-se fomentar um ambiente de liberdade. Logicamente, isto será feito à luz de um conjunto de ideais que estudantes e professores, mesmo os que não são cristãos, devem respeitar: ideias centrais, princípios, escritos ou não, que constituem a identidade essencial da instituição.

Em toda sociedade humana, há um mínimo de regras que devem ser seguidas. É importante também ensinar que a liberdade não é incompatível com regras ou obrigações. Todos temos obrigações, quer queiramos, quer não. Por exemplo, temos a obrigação de respeitar as leis de trânsito: devemos parar no sinal vermelho. Toda a vida é repleta de regras, e a universidade não é exceção. São regras de convivência, de bom funcionamento, de boas maneiras etc., tanto para professores quanto para estudantes, tanto para administradores como para funcionários, porque a alternativa seria o caos.

O importante, porém, é viver em liberdade. E não apenas naquilo que não somos obrigados a fazer, mas também viver livremente dentro do que é obrigatório. Esta é a chave para a liberdade: ensinar a viver livremente dentro do que é obrigatório. E isso é possível? É possível e, no fundo, é necessário para a realização humana, pois caso contrário, nos sentiríamos sempre limitados por regras e leis de todos os tipos.

Tanto professores quanto alunos, devem viver livremente tudo o que é obrigatório na universidade para o seu bom funcionamento.

E como é possível viver livremente dentro daquilo que é obrigatório? É muito fácil dizer, mas, na prática, é preciso se esforçar para que isso se torne realidade. É possível viver o obrigatório com liberdade se o fizermos com amor, porque o amor é a força da liberdade. A tal ponto que, de certa forma, o amor se identifica com a liberdade. E podemos amar o que é obrigatório? Podemos. É evidente que se pode amar o que é obrigatório, e pode-se amá-lo quando se vê o bem que ele traz consigo. Porque o que se ama é o bem. E quando descobrimos o bem da luz vermelha, um bem digno de amor, paramos livremente. E assim é com tudo. É preciso enxergar o bem da regra para amá-la; e amando a regra, somos livres. Isso precisa ser ensinado, transmitido, vivido: transmitido, principalmente aos professores, e aos alunos. Ensinem que somos livres mesmo quando obedecemos.

A liberdade é um bem tipicamente cristão. Até mesmo Hegel reconheceu isso quando disse que a liberdade é cristã desde sua origem. Porque foi o cristianismo que trouxe a verdadeira liberdade ao mundo. Antes do cristianismo, não havia verdadeira liberdade, propriamente dita. Bem, nesse julgamento também há algo que é opinável.

A autoridade como serviço

Outro aspecto importante, e tipicamente cristão, é a compreensão da autoridade como serviço. A verdadeira autoridade em todos os níveis, quando bem exercida, é exercida como um autêntico serviço. Este fato tem uma dimensão interessante: os cargos universitários (reitores, decanos, chefes de departamento etc.), além de terem um período limitado, são um serviço e são exercidos como tal. E por essa razão, são abandonados com a mesma disponibilidade com que foram assumidos.

Se alguém quisesse ser decano para sempre, não seria apropriado, pois esse serviço consome tempo do que lhe é verdadeiramente importante, que é a pesquisa e o ensino. É preciso dedicar tempo para ser reitor, decano, chefe de departamento, pois não há outra opção. Isso é feito de bom grado, mas o que mais se deseja são as próprias atividades acadêmicas: a pesquisa, o ensino, as publicações. Não há como não ter um reitor, não há como não ter decanos, mas esses cargos são puramente serviços e devem ser compreendidos como tal. Graças a Deus, a vida é assim, e é por isso que as mudanças na liderança são administradas com total facilidade. As pessoas dizem: “Que maravilha, graças a Deus que não sou mais reitor, pois agora posso me dedicar mais ao que me interessa”. Mas antes disso, elas se entregaram de corpo e alma a serem reitores, decanos ou qualquer outro cargo que fosse necessário.

A colegialidade

A colegialidade no governo da universidade é outro aspecto importante. O que isso tem a ver com a identidade cristã? Tem muito a ver, pois a colegialidade no governo da universidade, que, na prática, pode se manifestar de maneiras muito diferentes, dependendo do sistema, é o que nos salva da tirania. Quem estiver no comando, seja no nível da universidade, de um departamento ou de um instituto, não pode ser um tirano que toma decisões sozinho e exclusivamente.

São Josemaria, referindo-se ao Opus Dei em geral, mas aplicando-se a todo o trabalho em que o Opus Dei proporciona um impulso espiritual, disse: “Matei o tirano como um traidor pelas costas; não admito tiranos nem ditadores”. Não há nenhum no Opus Dei, nem nesta universidade, claro, graças a Deus. Devemos ser gratos pela autoridade nunca ser tirânica, porque não é. E haverá diferentes maneiras de viver a colegialidade, ou seja, de levar em conta as opiniões dos outros, de modo que nunca seja apenas uma pessoa a apresentar o pensamento e a decidir. Embora, por razões operacionais, mais tarde possa ser necessário decidir pessoalmente, deve sempre haver consenso, deve-se sempre ouvir os outros. Saber ouvir. Ouvir não é apenas o ato físico de escutar; é preciso realmente ouvir o que os outros pensam. E não apenas ouvir: é preciso escutar, prestar atenção, estar disposto a aprender com o que os outros nos dizem.

A justiça

Outro aspecto muito importante: a justiça. A identidade cristã exige a virtude da justiça como parte da realização humana, virtude esta que és elevada pela caridade. A justiça se manifesta na forma como tratamos as pessoas, na demonstração de preocupação com elas e na luta contra o egoísmo pessoal. Ela também deve ter dimensões institucionais. Algo que pode parecer secundário, mas não é, são os salários, ou seja, o que as pessoas recebem. É preciso haver justiça: os salários devem ser proporcionais ao trabalho realizado. Às vezes, não temos recursos suficientes e precisamos cortar despesas, sim; mas as despesas são cortadas em todos os níveis quando necessário. Devemos sempre buscar a verdadeira justiça distributiva nessa questão.

Mas a justiça por si só não basta, embora seja necessária; também deve haver caridade. A justiça pode ser dolorosa em alguns momentos, como quando precisamos demitir alguém ou informar que seu contrato não será renovado. Como em qualquer instituição humana, essas coisas podem acontecer. Então, devemos praticar tanto a justiça quanto a caridade.

Devemos cuidar daqueles que precisam ser demitidos, quando não há outra opção a não ser causar-lhes sofrimento. Devemos fazê-lo com a máxima sensibilidade possível, movidos por um espírito cristão, em virtude da identidade cristã da universidade. Não podemos maltratar ninguém se quisermos ser cristãos, mesmo que por vezes seja necessário tomar decisões dolorosas. Decisões dolorosas podem sempre ser tomadas cultivando o afeto, a caridade, que é afeto. Esta é também a primazia da pessoa, que discutimos anteriormente em outro contexto.

A Dimensão Pública da Identidade Cristã

Para terminar, a identidade cristã deve ter uma dimensão pública, não confessional neste caso específico, mas pública de qualquer forma: os aspectos pessoais e institucionais de uma entidade tão pública quanto uma universidade terá manifestações públicas no que diz respeito à sua identidade cristã. Isto deve ser evidente, por exemplo, nos materiais promocionais e nos folhetos distribuídos. Deve ser perceptível de alguma forma nas publicações e atividades públicas realizadas na universidade. Se houver uma conferência, vamos retomar o exemplo da matemática: não é que necessariamente precise haver uma exposição explícita do cristianismo, mas, de uma forma ou de outra, em muitas outras atividades, o fato de haver uma realidade cristã, tanto na substância quanto na forma, emergirá espontaneamente.

Sobre cada um desses pontos, como vocês podem facilmente perceber, muito poderia ser dito, mas são coisas que, por um lado, vocês sabem e, por outro, graças a Deus, vocês praticam. Mas é bom sempre ter em mente que somos cristãos. E aqueles na universidade que não são cristãos devem demonstrar um mínimo de respeito e devem ser tratados com respeito, em seu modo de ser e em seu modo de pensar.

Aula sobre a esperança (novembro de 2024)

Colégio Romano de Santa Maria, Roma

A bula de convocação do Jubileu 2025, publicada pelo Papa Francisco, começa com algumas palavras de São Paulo dirigidas aos romanos, que também dão nome ao documento: “A esperança não decepciona” (Rm 5,5), spes non confundit. Essas palavras encerram um conteúdo muito profundo. Quando temos verdadeira esperança, ela não falha. Podemos falhar nós, mas a esperança, nunca; porque Deus é fiel ao seu amor por nós e às suas promessas.

É certo que, às vezes, podemos ter esperança em coisas que não acontecem: por exemplo, esperamos na eficácia de determinada gestão apostólica ou no resultado de uma conversa, e pode acontecer de os frutos não aparecerem. Isso significa que a esperança decepcionou? Não, porque a esperança fundamentada no amor de Deus por nós nos permite dizer com segurança, como afirmava São Josemaria: “Nada se perde!” (Forja, n. 278). O que fazemos pelo Senhor, o que realizamos seguindo a vontade de Deus, é sempre eficaz, ainda que não vejamos os resultados imediatamente. Talvez vejamos de outro modo, em outro momento, ou talvez nem vejamos nesta vida. Talvez seja um fruto diferente do que esperávamos. Assim, podemos ter a segura esperança de que nada se perde.

Após essa breve introdução, esta aula consistirá basicamente em reler alguns textos do Papa – da bula de convocação do Jubileu 2025 –, de São Josemaria e, naturalmente, da Sagrada Escritura. Minha intenção ao lê-los e comentá-los brevemente é que nos deem ocasião de fomentar uma disposição na alma que permita que nossa esperança cresça. A esperança sobrenatural é um dom de Deus, não se pode obtê-la apenas com forças humanas, mas podemos dispor a alma para receber os dons de Deus, especialmente a fé, a esperança e a caridade.

O que é a esperança?

A esperança é uma virtude que nos leva a confiar que vamos obter um bem futuro, mais ou menos árduo, mas possível. Estes são os três requisitos: futuro, árduo e possível. Não faria sentido uma esperança que não cumprisse esses critérios. Por exemplo, não posso dizer que tenho esperança de viajar amanhã para a Lua; seria uma esperança “louca”, porque não é possível. Também não se denomina esperança desejar algo que não é árduo. Não tenho esperança, em sentido estrito, de que dentro de três horas estarei na minha casa. Embora nesta vida nada seja cem por cento seguro, há coisas que, humanamente falando, não são propriamente objeto de esperança.

A esperança é uma virtude humana fundamental, porque todos esperamos algo. Sempre estamos esperando os frutos do nosso trabalho, esperando bens possíveis, esperando o fim de todo tipo de situações. Mas, como recordei no início, a esperança também é uma virtude sobrenatural, teologal. O que se espera com a virtude sobrenatural da esperança? A vida eterna, a união com Deus, a salvação, a felicidade imensa do céu. Essa é a grande esperança. Participar da vida de Deus é uma realidade possível de alcançar porque o próprio Deus a oferece para nós.

Já existe uma esperança humana, natural, necessária, no coração de cada pessoa. Escreve o Papa: “No coração de cada pessoa, encerra-se a esperança como desejo e expetativa do bem, apesar de não saber o que trará consigo o amanhã”. (Spes non confundit, n. 1). A esperança, mesmo não sendo de algo seguro no plano humano, também não é de algo impossível; é uma expectativa do bem, uma possibilidade de que esse bem chegue.

O objeto da esperança teologal, que leva à plenitude também a esperança natural, é a salvação, a felicidade eterna com Deus. São Paulo diz: “A esperança no que nos está reservado nos céus” (Cl 1,5). Essa esperança na felicidade no céu está unida à fé no amor de Deus por nós e nos meios que Ele colocou para que cheguemos ao céu: a Eucaristia, a oração…

A esperança na vida eterna é tão importante, que o Concílio de Trento condenou aqueles que sustentavam ser errado ter esperança na vida eterna e que se deveria fazer as coisas sem pretender alcançar a recompensa de chegar ao céu. O concílio diz: “ Se alguém disser que o justificado peca quando pratica boas obras visando uma recompensa eterna, seja anátema” (Concílio de Trento, sess. VI, cân. 31). A esperança na recompensa eterna não só não é ruim, como é algo que Deus quer e está unida à fé e à caridade.

O fundamento da esperança

Qual é o fundamento da esperança? A resposta é simples: a fé. Como se expressa na Carta aos Hebreus: “A fé é o firme fundamento das coisas que se esperam” (Hb 11,1). Que fé é essa? A fé no amor de Deus por nós. Uma fé que dá segurança à esperança, porque se fundamenta em algo que nunca falha: o amor inquebrantável de Deus por cada pessoa.

O Papa afirma que “ a esperança nasce do amor e funda-se no amor que brota do Coração de Jesus trespassado na cruz” (Spes non confundit, n. 3). E cita imediatamente São Paulo em sua Carta aos Romanos: “Se quando éramos inimigos de Deus fomos reconciliados com ele mediante a morte de seu Filho, quanto mais agora, tendo sido reconciliados, seremos salvos por sua vida” (Rm 5,10). Assim, a esperança nasce da certeza da fé no amor de Deus por nós.

Precisamos fomentar na nossa vida essa fé no amor de Deus, que é um amor concreto. Não se trata de um amor abstrato pela humanidade em geral, mas de um amor pessoal, dirigido a cada um de nós neste momento e sempre. O Senhor nos olha, está dentro de nós, com a graça, que nos eleva e santifica, e nos ama de maneira muito pessoal. Este amor é nossa força, a que nos faz esperar em algo que, sendo árduo, é possível: que conseguiremos ser santos, que é a meta do que esperamos: a união definitiva e plena com Deus.

É importante lembrar que, na vida espiritual, na luta ascética, ao começar e recomeçar, é sempre necessário viver de esperança. Uma esperança com fundamento. Não nas nossas forças, como se fosse uma luta que devemos vencer a todo custo, mas fundamentada no amor de Deus. Deus conta com nossa fraqueza, mas sobretudo conta com sua infinita potência, que se identifica com o seu amor por nós.

Também é importante considerar que, em Deus, o conhecimento e o amor se identificam. Ele nos conhece e nos ama infinitamente. E, concretamente, o espírito do Opus Dei nos impulsiona a considerar que o amor de Deus nos faz verdadeiramente filhas e filhos seus. Essa consciência da filiação divina fortalece nossa esperança, como explica São Josemaria em uma de suas homilias: “A mim, e desejo que o mesmo aconteça a todos vós, a certeza de me sentir - de me saber - filho de Deus cumula-me de verdadeira esperança, uma esperança que, por ser virtude sobrenatural, ao ser infundida nas criaturas, se amolda à nossa natureza e é também virtude muito humana” (Amigos de Deus, n. 208).

A virtude sobrenatural da esperança eleva a capacidade humana natural de esperar no bem, mesmo que seja difícil. Saber-se filho de Deus nos leva a ter uma esperança segura na meta. A experiência das próprias misérias poderia talvez levar a aspirar, no máximo, a salvar-se, como se a salvação não coincidisse com a santidade, considerando a santidade como uma “utopia ascética”. Ser santo é o fim, e se a vida se encerrar sem a suficiente santidade, se passará pelo purgatório até alcançá-la. É difícil alcançar a santidade sem esforço, por isso a vida de santificação é árdua, mas a esperança de alcançá-la se torna possível com a graça de Deus.

Como acabo de recordar, com palavras do nosso Padre, o tom de nossa esperança está marcado pela filiação divina. Temos um motivo extraordinário para ter esperança de sermos santos, para pensar na eficácia de nossas vidas: somos filhas e filhos amados por Deus. Tantas vezes o recordamos, agora com umas palavras de São João: “Nós conhecemos o amor que Deus tem por nós e cremos nele” (1Jo 4,16). Isso é da essência da vida segundo o Evangelho: conhecer e crer no amor de Deus por nós, sabendo que somos filhos de Deus graças ao seu amor. E atualizar essa fé.

Essa fé no amor de Deus leva a viver confiantes na providência. Ou seja, sabendo que não estamos abandonados ao acaso do mundo. Não é que Deus nos queira muito e depois andemos sozinhos por nossa conta. Deus nos ama e, respeitando nossa liberdade, nos acompanha constantemente. O seu não é um amor distante, mas de providência. O Papa Bento XVI, em sua encíclica sobre a esperança, Spe salvi, escreve que “Deus é o fundamento da esperança; mas não qualquer deus, senão o Deus que tem um rosto humano e que nos amou até o extremo, a cada um em particular e à humanidade em seu conjunto” (n. 31). A fé nesse amor concreto de Deus por nós é o fundamento de nossa esperança. Em contraste, São Paulo em sua Carta aos Efésios descreve os gentios como gente “sem esperança e sem Deus neste mundo” (Ef 2,12). A esperança está fundamentada em Deus, em seu amor concreto e pessoal. Embora possam existir esperanças humanas, estas se limitam a esta vida e não vão além dela. Sem Deus, não se pode ter verdadeira esperança em algo definitivo.

A certeza de que Deus está empenhado

A esperança cristã tem uma característica aparentemente contraditória: a certeza. Podemos ter certeza de algo que é possível, mas não imediato nem completamente seguro? Sim: temos uma esperança segura, fundamentada na vontade de Deus, na sua fidelidade ao seu amor por nós.

“Esta é a vontade de Deus, a vossa santificação” (1Tes 4,3). Isso não significa apenas que Deus quer que sejamos santos, mas que Ele mesmo está empenhado – por assim dizer – em nossa santificação. Deus não só nos dá os meios – a revelação, os sacramentos… –, mas, sem forçar nossa liberdade – dando-nos a liberdade –, Ele também nos concede todas as graças necessárias para que cheguemos à meta. Temos a esperança segura de chegar à meta se quisermos, porque não nos faltará a graça: Deus é fiel.

Como refletem as palavras de São Paulo na Epístola aos Efésios: “Deus, que é rico em misericórdia, pelo grande amor com que nos amou, deu-nos vida juntamente com Cristo, quando ainda estávamos mortos em transgressões — pela graça vocês são salvos. Deus nos ressuscitou com Cristo e com ele nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus” (Ef 2,4-7). O Apóstolo não diz “nos fará sentar nos céus”, mas “nos fez sentar nos céus”. Essa força da esperança traz a certeza, sem deixar de ser esperança.

São Josemaria escreveu: “Vivo feliz com a certeza do Céu que havemos de alcançar, se permanecermos fiéis até o fim” (Amigos de Deus, n. 208). Embora pudesse parecer contraditório “estar seguro de algo que não é seguro”, na realidade não é contraditório. É nisso que consiste a verdadeira esperança cristã. Temos tal confiança no amor de Deus, que podemos ter uma esperança certa e segura. Essa esperança supera nossas misérias e defeitos, e nos leva à segurança de que, como dizia o nosso Padre, mesmo que morramos com defeitos, podemos ser santos porque o Senhor, com nossa correspondência, nos levará a uma santidade que consiste na plenitude do amor. E a plenitude do amor é totalmente compatível com ter defeitos, desde que esses defeitos não sejam aceitos nem queridos, mas que lutemos contra eles por amor, uma e outra vez, ainda que não consigamos vencê-los totalmente.

Portanto, temos a certeza de que iremos para o céu se formos fiéis, se permanecermos em seu amor. E, além disso, temos a segurança de que seremos fiéis se quisermos, se perseverarmos livremente no amor, porque não nos faltará a graça de Deus.

A segurança do impossível

A esperança cristã não é uma esperança quimérica, porque contamos com a graça de Deus. Por isso, no plano sobrenatural, pensando tanto em nossa santificação pessoal, quanto na eficácia permanente do trabalho apostólico da Obra, tanto na vida pessoal como no nosso empenho em levar adiante o Opus Dei, devemos levar em conta o que dizia São Josemaria sobre “a segurança do impossível” (Carta 29, n. 60). A esperança torna possível “ter a segurança do impossível”.

A segurança do impossível, em primeiro lugar, de ser santos, porque quando experimentamos nossa fraqueza ou capacidade limitada, parece impossível que possamos chegar a ser santos. No entanto, temos a certeza de que podemos, porque possuímos a fé no amor de Deus, que é o fundamento da esperança.

É também muito bonito o que São Paulo recorda em sua Epístola aos Romanos sobre a figura de Abraão, que esperou contra toda esperança. São Josemaria costumava recordar muitas vezes essa expressão: “Esperar contra toda esperança”. Novamente, dito assim, parece uma contradição, mas entendido corretamente, é a plenitude da esperança. Significa que podemos esperar também quando humanamente não há motivos para isso.

A esperança cristã, portanto, tem um fundamento firme: o oferecimento do próprio Deus da união com Ele, que nisso consistirá a glória do céu. Mas essa esperança também se expressa em muitos aspectos da vida diária. É muito importante a esperança apostólica. Como escreve São Paulo na Primeira Epístola aos Coríntios: “sabendo que o vosso trabalho não é vão no Senhor” (1Cor 15,58). Nosso Padre quis colocar as palavras latinas deste texto no umbral de pedra de uma porta da Villa Vecchia, em Roma: Semper scientes quod labor vester non est inanis in Domino. Nada do que fazemos é vão diante de Deus.

O Papa, em Spes non confundit, convida a transmitir esperança ao afirmar: “Oxalá não falte a atenção inclusiva por todos aqueles que, encontrando-se em condições de vida particularmente extenuantes, experimentam a sua própria fragilidade” (n. 11). É muito importante dar esperança, porque muita gente parece não a ter. Viver sem esperança, sem verdadeiras metas que valham a pena, é paralisante. É preciso dar esperança no apostolado, na atenção às pessoas de Casa que ajudamos, de um modo ou de outro. Devemos ser pessoas que dão esperança, que não dão mais ênfase às dificuldades do que às soluções. É preciso ser positivos, transmissores de esperança.

Precisamos viver de esperança também ao experimentar dificuldades pessoais. Todos temos dificuldades de um jeito ou de outro: na experiência dos próprios defeitos, no trabalho, de saúde, de todo tipo. Na vida podemos encontrar, e encontramos, dificuldades. O Papa, em Spes non confundit, cita amplamente o texto da Epístola aos Romanos: “Quem poderá separar-nos do amor de Cristo? A tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, o perigo, a espada? (…) Mas em tudo isso saímos mais do que vencedores graças Àquele que nos amou. Estou convencido de que nem a morte nem a vida, nem os anjos nem os principados, nem o presente nem o futuro, nem as potestades, nem a altura nem o abismo, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, Senhor nosso” (Rm 8,35-39). É um texto extraordinário, para ser meditado muitas vezes na oração.

O Papa comenta brevemente: “por isso mesmo esta esperança não cede nas dificuldades: funda-se na fé e é alimentada pela caridade” (Spes non confundit, n. 3). E, desse modo, torna possível seguir adiante na vida. É assim, por muitas dificuldades que atravessemos. O que nos separará do amor de Deus? Os principados, as potestades, a morte, a vida, a espada, os perigos, a fome? Nada pode nos afastar, se não quisermos nos afastar. Porque “nada nos pode separar do amor de Deus – diz São Paulo –, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8,39). Somente nós podemos nos separar do amor de Deus. Só nós. Nem o demônio, nem a doença, nem as contrariedades. Apenas nossa própria liberdade. Por isso, diante das dificuldades, podemos sempre ter uma grande esperança no amor de Deus, manifestado em Cristo Jesus.

Onde está tua esperança?

Também neste contexto, é excelente reler o seguinte texto de nosso Padre, na Instrução para o labor de São Rafael: “Trabalhai, cheios de esperança: plantai, regai, confiando naquele que dá o crescimento, Deus” (1Cor 3,7). E, quando vier o desânimo, se o Senhor permitir essa tentação, diante dos fatos aparentemente adversos, ao considerar, em alguns casos, a ineficácia dos vossos trabalhos apostólicos de formação; se alguém, como a Tobias pai, perguntar: “ubi est spes tua?, onde está a tua esperança?…”, levantando vossos olhos sobre a miséria desta vida – que não é o vosso fim –, respondei com aquele varão do Antigo Testamento, forte e esperançoso, “quoniam memor fuit Domini in toto corde suo” (Tb 1,13), porque sempre se lembrou do Senhor e o amou com todo o seu coração: “Filii sanctorum sumus, et vitam illam expectamus, quam Deus daturus est his, qui fidem suam nunquam mutant ab eo”; “somos filhos dos santos, e esperamos aquela vida que Deus há de dar aos que não perdem jamais a confiança nele” (Tb 2,18)” (Instrução, 9-I-1935, n. 19). Diante das dificuldades, devemos trabalhar cheios de esperança; plantar, esperando em Deus, que é quem dá o crescimento. Não confiando em nossas forças, mas colocando-as a serviço do Senhor em todo o trabalho apostólico. Mais uma vez, sabendo que a nossa esperança está na certeza do amor de Deus por nós.

Portanto, esperança na entrega, com generosidade. Vale a pena sermos generosos no apostolado, em tudo o que supõe o esforço de ir ao encontro das pessoas. Também a mortificação pelo trabalho apostólico, que implica dedicação de tempo, superar dificuldades, etc.

São Josemaria, estando na Venezuela, comentou: “Lembrava-me de quando começamos o labor há tantos anos. Comecei com três, e agora são tantos milhares, centenas de milhares. Mas havia esperança. Contam de Alexandre Magno que, enquanto se preparava para uma batalha, antes distribuiu todos os seus bens entre seus capitães. E um deles perguntou: “Mas, Senhor, e o que te restou?”. Ao que ele respondeu: “Ficou-me a esperança”“. E acrescentou: “Eu olho para vocês, e me resta a esperança” (São Josemaria, Apontamentos de uma meditação, 10/02/1975). É assim. Essas palavras podem nos levar a ter esperança nos outros. Quando experimentarem sua fraqueza pessoal, podem se encher de esperança ao ver seus irmãos. E essa esperança está chamada a se estender ao mundo inteiro.

Paz, oração, alegria

O Papa fala sobre ter esperança na paz no mundo, uma paz que está muito ausente. Não só pelas grandes guerras, que são terríveis e tristes, mas pela falta de paz em muitos ambientes da sociedade. Nosso Padre dizia: “Não há paz nas consciências” (Em diálogo com o Senhor, n. 101). O Papa menciona “que o primeiro sinal de esperança se traduza em paz para o mundo, mais uma vez imerso na tragédia da guerra” (Spes non confundit, n. 8). Esperança de que o mundo vai melhorar, certamente, porque é também esperança na eficácia do apostolado. Mas com realismo; não sabemos o que acontecerá, não podemos prever o futuro.

De fato, o Apocalipse e as predições, que o Senhor faz no Evangelho sobre o fim do mundo são muito dramáticas. Mas isso não nos tira a esperança; pelo contrário, nos impulsiona a fazer tudo o que está ao nosso alcance para que o mundo melhore. Pensando na situação atual, em alguns países vivemos em ambientes muito descristianizados. Cada vez há mais pessoas que, sendo católicas, não frequentam os sacramentos. Há cidades em países tradicionalmente crentes, onde havia uma prática religiosa amplíssima, e agora só um porcentual muito pequeno da população vai à Missa aos domingos. Mas, ao mesmo tempo, há outros lugares onde as coisas estão muito melhores. E, em uns e outros, podemos ter a convicção de que as pessoas são boas, como dizia Dom Javier: “Quanta gente boa há no mundo!”. Em muitas ocasiões o que falta é formação. Por isso, as dificuldades que encontrarmos no trabalho apostólico nunca devem ser motivo de desânimo, mas ocasião para rezar mais, para nos lançarmos, para nos aproximarmos das pessoas e podermos ajudá-las, com a amizade e a confidência. Quanto mais difícil for o ambiente, mais o Senhor conta conosco; não porque sejamos melhores, mas porque Ele nos deu muita formação, apesar de sermos tão pouca coisa. Portanto, fortes na esperança!

E isso se aplica a tudo. Que esperança temos na oração? O Senhor disse: “Pedi e recebereis” (Jo 16,24). É impressionante. Pedi e recebereis, são palavras absolutamente verdadeiras. Certamente, às vezes pedimos e não recebemos, mas podemos pensar que recebemos de outro modo, ou que não pedimos bem. Enfim, outras vezes pedimos bem e parece que não recebemos. Por exemplo, pedimos por uma intenção apostólica determinada ou para que uma pessoa seja curada, e não se cura… Então, a oração foi inútil? Não. Ainda que não tenhamos obtido o que pedíamos, essa oração não foi ineficaz. Podemos estar seguros na esperança, pela fé na palavra de Deus. Nada se perde.

Por último, esperança com alegria. “Alegres na esperança” (Rm 12,12), diz São Paulo. E não é uma esperança de conto de fadas, onde tudo dá certo, por isso acrescenta: “Alegres na esperança, pacientes na tribulação, constantes na oração”. São Josemaria nos dizia assim: “Otimistas, alegres: Deus está conosco! Por isso, diariamente, me encho de esperança” (Memória do beato Josemaria Escrivá, p. 115). Otimistas, alegres porque Deus está conosco. A virtude da esperança nos faz ver o positivo, o belo da vida, porque vemos em tudo, ainda sem entender, o amor de Deus. Por isso, quando nos sentirmos meio desanimados, pessimistas, tristes, reajamos logo, com um grande ato de fé no fundamento desta esperança alegre: hoje, agora, Deus está me amando com loucura. Cada um tem que dizer isto, pensar com um ato profundo de fé. E isso nos levanta.

Falando de esperança, nos vêm ao pensamento e ao coração a santíssima Virgem, Spes nostra. Ela é a mãe da nossa esperança, a que nos consegue do Senhor essa graça da esperança, para tê-la e para dá-la, como diz São Pedro: “estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós” (1Pd 3,15).

***

Termino com a esplêndida frase de São Paulo: “Que o Deus da esperança os encha de toda alegria e paz, por sua confiança nele, para que vocês transbordem de esperança, pelo poder do Espírito Santo” (Rm 15,13). Aconselho que a leiam e meditem muito. Que estejamos contentes e, quando houver motivos humanos para não estar, pensemos que acima de todo motivo humano há um muito maior, que é o fundamento da nossa esperança: o amor de Deus por nós.

Conferência “Eucaristia e sacerdócio” no centenário da ordenação sacerdotal de São Josemaria (27-III-2025)

Saragoça, Espanha

Nesta celebração do centenário da ordenação sacerdotal de São Josemaria, vou me concentrar principalmente em alguns de seus textos, em alguns aspectos da relação entre o sacerdócio e a Eucaristia. São textos que, além do conteúdo doutrinal, expressam também a experiência viva da sua alma sacerdotal.

Primeiro, vou me concentrar no sacerdócio enquanto ordenado para a Eucaristia, depois na importância da Eucaristia na santificação do sacerdote e, finalmente, em seu papel na missão pastoral que o presbítero é chamado a desempenhar.

Sacerdócio para a Eucaristia

A Eucaristia, especificamente o sacrifício eucarístico, é central para a vida cristã. São Josemaria resumiu-o na expressão “centro e raiz”; por exemplo, no seguinte texto de uma de suas cartas: “Sempre vos ensinei, queridíssimos filhas e filhos, que a raiz e o centro de vossa vida espiritual é o Santo Sacrifício do Altar, no qual Cristo Sacerdote renova seu Sacrifício do Calvário, em adoração, honra, louvor e ação de graças à Santíssima Trindade”[1].

Essa ideia estava tão profundamente enraizada em sua alma e em seu coração que ele a repetiu com frequência, tanto verbalmente quanto por escrito[2]. Ao mesmo tempo, acrescentava que se o Sacrifício eucarístico é “o centro e a raiz da vida do cristão, deve sê-lo especialmente para a vida do sacerdote”[3].

Deve ter sido motivo de profunda alegria para São Josemaria que, anos depois, um texto do Concílio Vaticano II tão significativo como o Decreto Presbyterorum Ordinis, ao falar da relação entre o sacerdócio e a Eucaristia, usasse a mesma expressão para afirmar que o Sacrifício Eucarístico é “o centro e a raiz de toda a vida do presbítero”[4].

a) Centro e raiz da vida do presbítero

De fato, é lógico insistir neste ponto no caso do sacerdote. Como escreveu Bento XVI, “A relação intrínseca entre a Eucaristia e o Sacramento da Ordem Sagrada éevidente nas próprias palavras de Jesus no Cenáculo: ‘Fazei isto em memória de mim’ (Lc 22,19). De fato, na véspera de sua morte, Jesus instituiu a Eucaristia e, ao mesmo tempo, fundou o sacerdócio da Nova Aliança. (…) Ninguém pode dizer ‘este é o meu corpo’ e ‘este é o cálice do meu sangue’, exceto em nome e na pessoa de Cristo, o único Sumo Sacerdote da nova e eterna Aliança (cf. Heb 8-9)”[5].

O Papa Francisco enfatizou como essa identificação com Cristo sacerdote se estende a toda a vida do presbítero. Este “não pode dizer: ‘Tomai e comei todos vós porque este é o meu Corpo, que será entregue por vós’, e não viver o mesmo desejo de oferecer o seu próprio corpo, a sua própria vida pelo povo que lhe foi confiado”[6].

Esta profunda transformação do presbítero está intimamente ligada à Eucaristia. São Josemaria comentou sobre isso em uma homilia: “Pelo sacramento da Ordem, o sacerdote torna-se efetivamente apto para emprestar a Nosso Senhor a voz, as mãos, todo o seu ser: é Jesus Cristo quem, na Santa Missa, com as palavras da consagração, transforma a substância do pão e do vinho no Seu Corpo, Alma, Sangue e Divindade. Nisto se fundamenta a incomparável dignidade do sacerdote”[7].

b) Dignidade e fraqueza

A partir destas considerações sobre a relação entre o sacerdócio e a Eucaristia, compreende-se que esta última é, ao mesmo tempo, o centro para o qual tudo converge e, inseparavelmente, a raiz desta convergência. Ela é centro, pois, se Deus é aquele que atrai tudo e todos a si em Cristo, a Eucaristia é o lugar onde se realiza a oferta do mundo ao Pai, por meio de Cristo, com Ele e n’Ele. Ao mesmo tempo, “o próprio Cristo põe-se nas mãos dos sacerdotes, que, se fazem assim dispensadores dos mistérios – das maravilhas – do Senhor (1 Cor 4,1)”[8].

É possível uma ação mais elevada na Terra? A ação mais própria de Cristo, Sumo Sacerdote misericordioso e fiel, mediador da nova aliança (cf. Heb 2,17 e 9,15), é deixada nas mãos da sua criatura. Por meio dele se eleva o culto de adoração ao Pai, e por ele os dons divinos chegam aos fiéis.

Assim o expressa o Concílio Vaticano II: os sacerdotes “exercem o seu múnus sagrado sobretudo no culto eucarístico, no qual, representando a pessoa de Cristo e anunciando o seu mistério, unem as orações dos fiéis ao sacrifício da sua Cabeça, Cristo (…), que se oferece ao Pai como hóstia imaculada (cf. Heb 9, 11-28)”[9].

Entende-se que o centro da vida do sacerdote não pode ser outro. Além disso, pode-se dizer que a Santa Missa constitui o fim principal da ordenação, o ato no qual “todo o ministério sacerdotal encontra sua plenitude, seu significado, seu centro e sua eficácia”[10].

Certamente, a dignidade do sacerdócio se encontra com consciência que cada sacerdote tem da própria indignidade, e isso mesmo constitui a primeira razão para se esforçar por viver intimamente unido ao Senhor[11].Na mesma celebração da Eucaristia, as orações que o sacerdote reza em segredo e naquelas em que se dirige ao Senhor em seu próprio nome o ajudam, como nos recorda o Missal, a tomar consciência de sua missão e, assim, a poder desempenhá-la com maior atenção e piedade. Essas orações são frequentemente de caráter penitencial e são encontradas em momentos-chave da celebração eucarística: antes de proclamar o Evangelho, no final do Ofertório e na preparação para entrar na grande Oração Eucarística, ao dispor-se para receber o Corpo e o Sangue de Cristo. O sacerdote é consciente de que, pela graça que recebe na ordenação e pela ação do Espírito Santo na Igreja, quando se aproxima do altar, não é ele quem se prepara para celebrar o culto ao Pai, mas é o próprio Cristo que, nele, “renova no Altar o seu divino Sacrifício do Calvário”[12]. O gesto externo de vestir as vestes sacerdotais lembra ao celebrante esta verdade.

De fato, ao vestir-se com os paramentos, revela-se o acontecimento interior e a tarefa que dele deriva: revestir-se de Cristo, entregar-se a Ele como Ele se entregou por nós. Os paramentos não são sinais de poder ou superioridade: são símbolos que lembram a todos – e antes de tudo aos próprios sacerdotes – que eles não estão mais agindo como indivíduos privados, mas in persona Christi e in persona ecclesiae. Dessa forma, as vestes sagradas também nos lembram que os celebrantes não são donos nem da celebração nem da comunidade, mas sim servidores[13].

c) Eucaristia e outras funções sacerdotais

A centralidade da Eucaristia na vida de um sacerdote não é obstáculo para afirmar, como faz o Decreto Presbyterorum Ordinis, que os sacerdotes “têm como obrigação primária anunciar o Evangelho de Cristo a todos”[14]. E isto não só porque a pregação do Evangelho precede cronologicamente a celebração da Eucaristia, mas também e sobretudo porque a pregação conduz à Eucaristia, e dela — de Cristo que se doa à Igreja — retira a força para ser palavra de vida eterna (cf. Jo 6, 68)[15]. De fato, como considerarei mais tarde, toda a atividade do sacerdote brota da Eucaristia como sua fonte mais íntima. A celebração da Eucaristia não é a única função sacerdotal. Contudo, entende-se que esta é a sua principal e mais constitutiva missão, até porque nela estão resumidos todos os mistérios da fé cristã.

Eucaristia e santificação do sacerdote

Considerando o que é a Eucaristia, é fácil entender por que São Josemaria escreveu: “O sacerdócio exige — pelas funções sagradas que lhe são atribuídas — algo mais que uma vida honesta: exige uma vida santa de quem o exerce, constituídos — como são — em mediador entre Deus e os homens”[16].

a) A Eucaristia e a conformação a Cristo

Na configuração com Cristo Cabeça, própria do ministério ordenado, o Decreto Presbyterorum Ordinis afirma que os sacerdotes “são ordenados à perfeição da vida pelas mesmas ações sagradas que realizam cada dia, como por todo o seu ministério, que desempenham em união com o Bispo e os presbíteros”[17].

O Sacrifício Eucarístico, no qual ele cumpre sua missão ou função primária, é ao mesmo tempo para o sacerdote — como para todo cristão — o principal meio de santificação, de identificação com Cristo. Nas palavras de Bento XVI: “Se a Santa Missa for vivida com atenção e fé, ela é formativa no sentido mais profundo da palavra, pois promove a configuração a Cristo e fortalece o sacerdote em sua vocação”[18].

Este profundo aspecto formativo da própria celebração é lógico se tivermos em mente que “as palavras e os ritos litúrgicos são uma expressão fiel, amadurecida ao longo dos séculos, dos sentimentos de Cristo e nos ensinam a compartilhar seus sentimentos; conformando nossas mentes às suas palavras, elevamos nossos corações ao Senhor”[19]. A Santa Missa converte-se, assim, em uma escola de vida.

Por outro lado, a identificação com Cristo na mesma celebração leva, às vezes, a que “o Senhor ajude cada um de nós a descobrir o que deve melhorar, quais vícios devemos erradicar e como deve ser nosso relacionamento fraterno com todas as pessoas”[20].

Assim, na celebração e por variados caminhos, a existência do sacerdote torna-se uma existência eucarística. Não só porque se nutre da Eucaristia e faz da sua celebração o ato central da sua vida, mas também porque, em tudo, o sacerdote vive na mesma atitude com que Cristo se faz alimento dos seus irmãos.

b) A partir da Trindade para levar o mundo à Trindade

Olhando um pouco mais amplamente, entendemos que, no encontro com Cristo na Eucaristia, recebemos “a própria doação da Trindade à Igreja”[21]. De fato, a Santa Missa é a ação na qual, de forma máxima, se manifesta o amor da Trindade. “A oração ao Pai -explica São Josemaria-, é constante. O sacerdote é um representante do Sacerdote eterno, Jesus Cristo, que é ao mesmo tempo a Vítima. E a ação do Espírito Santo não é menos inefável nem menos certa. Pela virtude do Espírito Santo, escreve São João Damasceno, dá-se a conversão do pão no Corpo de Cristo”[22]. Na Eucaristia, a pessoa humana se diviniza, e da Eucaristia brota a alegria, o fruto do Espírito Santo, que é característico da existência cristã.

A Eucaristia é, portanto, a realidade em torno da qual se articula a vida espiritual do presbítero: é sua raiz e seu centro, sua fonte e a antecipação sacramental de sua meta definitiva. Essa centralidade e radicalidade conferem ao cristão, e especificamente ao sacerdote, a capacidade de converter toda atividade cotidiana em culto a Deus. Este é um ensinamento em que São Josemaria insistia, especialmente quando se dirigia aos fiéis comuns, que trabalham no meio do mundo, pois compete a todos os que participam no sacerdócio de Cristo, quer no sacerdócio comum, quer no sacerdócio ministerial.

O sacerdote tem consciência de ter sido escolhido entre suas irmãs e irmãos para apresentar ao Pai a oferenda da Igreja, que o próprio Cristo assume e faz própria. Nesse sentido, São Josemaria esforçava-se por fazer do dia uma Missa, procurando que esse ato de culto transbordasse, como ele próprio ensinava, em jaculatórias, em visitas ao Santíssimo Sacramento, na oferta do trabalho e das relações cotidianas[23].

c) Dom e tarefa

O fato de a Eucaristia ser de fato o centro e a raiz da vida do sacerdote constitui não apenas um dom, mas também uma tarefa pessoal de correspondência àquilo que foi recebido de Deus. São Bento II escreveu em uma de suas Cartas de Quinta-feira Santa aos sacerdotes: “Celebremos sempre a Santa Eucaristia com fervor. Prostremo-nos frequentemente diante de Cristo Eucarístico. Entremos, de alguma forma, na 'escola' da Eucaristia”[24].

Os detalhes em que o desejo de cuidar a Santa Missa pode se manifestar são inumeráveis, tão criativos quanto a capacidade que temos de amar uma pessoa. O importante é não perder de vista o fato de que, como pregava São Josemaria, “a vida litúrgica é uma vida de amor; amor de Deus Pai, por Jesus Cristo no Espírito Santo, com toda a Igreja”[25]. Esse amor não é uma realidade abstrata, mas muito concreta: encarnada. O fundador do Opus Dei gostava de repetir que “temos de ser muito humanos; caso contrário, também não poderemos ser divinos”[26]. E explicava isso de uma forma muito eloquente: “Reparem que Deus não nos diz: em lugar do coração, eu lhes darei uma vontade de puro espírito. Não: Ele nos dá um coração, e um coração de carne, como o de Cristo. Não tenho um coração para amar a Deus e outro para amar as pessoas da Terra. Com o mesmo coração com que amo meus pais e amo meus amigos, com o mesmo coração amo Cristo, o Pai, o Espírito Santo e Santa Maria”[27]. O amor do sacerdote pela Santa Missa, o esforço para lhe dar a centralidade que objetivamente lhe corresponde, pode ser expresso de mil maneiras diferentes. Por exemplo, S. Josemaria costumava dividir o dia em duas partes: a primeira metade para dar graças pela Comunhão e a outra metade para se preparar para o dia seguinte.

Outro aspecto que gostaria de enfatizar é seu recorrente convite para celebrar a Eucaristia com calma. É uma sugestão muito oportuna neste mundo marcado pela distração e pela pressa. Em um tom muito pessoal, confidenciava a um grupo de sacerdotes algo que havia vivenciado recentemente durante uma cerimônia universitária: “Enquanto não era minha vez de falar, eu estava pensando muito sobre o amor dos sacerdotes por Nosso Senhor, e como não sabemos como demonstrá-lo porque estamos quase sempre com pressa. Muita! Os amantes não têm pressa. Vejam como se acompanham um ao outro, uma e outra vez... Eles não querem se separar nunca”. E então os encorajava: “Celebrem a Santa Missa com calma, deixem-nos esperar! Então faremos um trabalho esplêndido, se soubermos não ter pressa, porque verdadeiramente, in persona Christi, estamos realizando uma profunda tarefa sacerdotal”[28].

d) Acompanhar o Senhor no sacrário

Juntamente com a celebração da Santa Missa, na qual a relação pessoal do sacerdote com a Eucaristia se realiza de maneira especial, a presença constante de Cristo no sacrário é um lembrete constante para dar a toda a existência uma orientação eucarística precisa.

Para o sacerdote, a Eucaristia é uma presença viva que consola e dá firmeza. Como escreveu São João Paulo II: “Ao longo dos séculos, muitos sacerdotes encontraram nela o consolo prometido por Jesus na noite da Última Ceia, o segredo para superar a solidão, o apoio para suportar os sofrimentos, o alimento para retomar o caminho depois de cada desânimo, a energia interior para confirmar a escolha de fidelidade”[29].

Na biografia de São Josemaria, em sua adolescência em Logronho, os longos momentos que passava em oração, à noite, junto ao tabernáculo de La Redonda, já são importantes. Agora que estamos em Saragoça, é impossível não recordar as noites que passou em oração em uma das tribunas que davam para o presbitério da igreja do Seminário de São Carlos. Manteve essa devoção ao longo dos anos, e é bem conhecido como promoveu a adoração eucarística em uma época em que, em muitos lugares, a fé da Igreja estava sendo questionada.

Em uma de suas viagens à América, ele recomendava aos sacerdotes que fizessem companhia ao Santíssimo Sacramento. Queria aumentar a piedade eucarística em todos, e lhes disse que “não façam isso porque as pessoas de sua igreja, os paroquianos de sua paróquia, os veem, não se importem em ser vistos. Se vocês estiverem atentos ao Senhor e as pessoas conhecerem seu amor, elas perguntarão por quê; e então vocês poderão falar desse amor que deve preencher toda a sua vida”[30].

Como se pode ver por essas simples palavras, a correspondência do sacerdote ao dom da Eucaristia, como centro de sua vida espiritual, transborda em ações guiadas pela caridade pastoral.

Eucaristia e caridade pastoral

A caridade pastoral leva o sacerdote a ser o servo de todos. Em uma de suas cartas, São Josemaria escreveu que os sacerdotes, “seguindo o exemplo de Nosso Senhor, que não veio para ser servido, mas para servir: non veni ministrari, sed ministrare (Mt 20,28), devemos saber colocar nossos corações no chão, para que os outros possam pisar com suavidade”[31]. Essa atitude não nasce de uma mera decisão ética, mas tem sua fonte na relação pessoal com Deus, com aquele Deus que se rebaixa e se doa a ponto de se tornar alimento para sua criatura na Eucaristia.

a) Uma existência eucarística

A força espiritual para viver a própria vida como uma entrega aos outros surge eminentemente da união com o próprio Jesus Cristo no sacrifício eucarístico[32]. Nele, o sacrifício da Cruz se torna sacramentalmente presente, o dom total de Cristo à sua Igreja, como o testemunho supremo de que ele é Cabeça e Pastor, Servo e Esposo. Dessa forma, a Eucaristia também é a raiz e o centro da dimensão pastoral da vida do sacerdote. Nas palavras de São João Paulo II: “A caridade pastoral do sacerdote não só flui da Eucaristia, mas encontra sua mais alta realização em sua celebração, assim como ele recebe dela a graça e a responsabilidade de permear toda a sua existência de forma sacrificial”[33].

Em outras palavras, o sacerdote é chamado a viver uma existência eucarística, ou seja, uma vida à imagem do sacrifício de Cristo que ele celebra na Santa Missa. O Papa Francisco explicou isso no Jubileu dos Sacerdotes de 2016: “Na celebração da Eucaristia, encontramos nossa identidade de pastores todos os dias. Toda vez que podemos realmente fazer nossas as palavras de Jesus: ‘Este é o meu corpo que é entregue por vós’. Esse é o sentido de nossa vida, essas são as palavras com as quais, de certa forma, podemos renovar diariamente as promessas de nossa ordenação”[34].

Em última análise, a caridade pastoral, que é conferida ao sacerdote no sacramento da Ordem, é um dom que se atualiza em cada Eucaristia e que deve ser traduzido em uma conduta correspondente na vida cotidiana.

b) Corresponder ao dom recebido, conformar-se com esse dom

Ao celebrar a Eucaristia, é necessário procurar identificar-se com a doação de Cristo, encarnando-a na própria vida. São Josemaria explicou-o graficamente numa das suas homilias: “quem não lavra o terreno de Deus, quem não é fiel à missão divina de se entregar aos outros, ajudando-os a conhecer Cristo, dificilmente conseguirá entender o que é o Pão eucarístico. Ninguém gosta daquilo que não lhe custou esforço”[35].

Em seguida, desenvolvia essa ideia utilizando uma imagem das Escrituras e enfatizando a identificação com Jesus Cristo: “Para apreciar e amar a Sagrada Eucaristia, é preciso percorrer o caminho de Jesus; sermos trigo, morrermos para nós próprios, ressuscitarmos cheios de vida e darmos fruto abundante: cem por um! Esse caminho resume-se numa única palavra: amar. Amar é ter o coração grande, sentir as preocupações dos que estão à nossa volta, saber perdoar e compreender: sacrificar-se, com Jesus Cristo, por todas as almas”[36].

E São Josemaria concluía: “Para amar desta maneira, é preciso que cada um expulse da sua vida tudo o que estorva a Vida de Cristo em nós: o apego à nossa comodidade, a tentação do egoísmo, a tendência à exaltação pessoal. Só reproduzindo em nós a Vida de Cristo, poderemos transmiti-la aos outros; só experimentando a morte do grão de trigo, poderemos trabalhar nas entranhas da terra, transformá-la por dentro, torná-la fecunda”[37].

Se a Eucaristia é para o sacerdote o lugar “central e radical” de sua identificação com Cristo e com seu dom salvífico, a caridade pastoral o levará necessariamente a conduzir os fiéis a essa mesma fonte de vida, na qual se encontra também o principal exercício do sacerdócio comum dos fiéis. O sacerdote pode fazer isso não apenas com sua pregação, mas também “vivendo” a missa com essa fé: ele celebra a Eucaristia pela Igreja e na presença da Igreja - mesmo que o povo não participe - e, por isso, sua vida também é chamada a imitar o sacrifício de Cristo, que “amou a Igreja e se entregou por ela” (Ef 5,25).

Em última análise, o ministro não pode limitar-se a ser um canal inerte através do qual passam a palavra e os sacramentos da Igreja: deve adaptar a sua vida ao caráter sacramental que recebeu, que o conforma a Cristo, orientando toda a sua existência para aquela doação plena que encontra o seu centro e a sua raiz na celebração da Eucaristia em benefício de toda a Igreja. “Um sacerdote - explica São Josemaria - que viva assim a Santa Missa - adorando, expiando, impetrando, agradecendo, identificando-se com Cristo - e que ensine os outros a fazer do Sacrifício do Altar o centro e a raiz da vida do cristão, demonstrará verdadeiramente a grandeza incomparável da sua vocação, esse caráter com que está selado, que não perderá por toda a eternidade”[38].

Quanto mais se compreende a lógica da Cruz presente na Santa Missa, mais se vive o ministério como um dom total de si. Referindo-se à graça própria da plenitude do sacerdócio, o Catecismo da Igreja Católica afirma: “Essa graça o impele a anunciar o Evangelho a todos, a ser modelo para seu rebanho, a precedê-lo no caminho da santificação, identificando-se na Eucaristia com Cristo Sacerdote e Vítima, sem medo de dar a vida por suas ovelhas”[39].

c) Viver para os irmãos, viver para a Igreja

Os sacerdotes - imitando aquilo de que se ocupam: a entrega total de Cristo - extraem da Eucaristia a força espiritual necessária para se sacrificarem com alegria a serviço dos irmãos, especialmente daqueles que mais precisam, daqueles que são “descartados” pelo mundo.

De fato, a existência eucarística do sacerdote se expressa em mil detalhes de atenção e cuidado. Ela se manifesta especialmente na misericórdia com que ele acolhe aqueles que vêm à Igreja em busca de reconciliação e no amor com que ele vai em busca daqueles que não conhecem Cristo ou que se afastaram dele. Em todos os aspectos de seu ministério, ele prepara e orienta todas as pessoas para encontrar Jesus na Eucaristia, ciente da necessidade que todos nós temos de um encontro pessoal com Jesus Cristo.

Por fim, vale a pena considerar que a centralidade e a radicalidade da Eucaristia no ministério do sacerdote, como dom e como tarefa, têm uma dimensão eclesial evidente e essencial, pois “a Eucaristia, na qual o Senhor nos dá o seu Corpo e nos transforma em um só Corpo, é o lugar onde a Igreja se expressa permanentemente em sua forma mais essencial: presente em todos os lugares e, no entanto, uma só, assim como um só é Cristo”[40].

A dupla dimensão universal e particular da Igreja também é projetada no ministério sacerdotal, e é principalmente na Eucaristia onde o sacerdote pode e deve sentir solicitude por toda a Igreja e, com a Igreja e na Igreja, solicitude pelo mundo inteiro. Nesse sentido, o sacerdote no altar, como Cristo no Gólgota, carrega o fardo das necessidades, dificuldades e sofrimentos de toda a humanidade[41]. O Papa Francisco se referiu exatamente a essa ideia: “O sacerdote celebra carregando em seus ombros as pessoas confiadas aos seus cuidados e trazendo seus nomes gravados em seu coração. Ao revestir-nos nossa humilde casula, pode nos fazer bem sentir em nossos ombros e em nossos corações o peso e o rosto de nosso povo fiel, de nossos santos e de nossos mártires, que são tantos nestes tempos”[42]. O Sacrifício eucarístico não é apenas um grande bem para o sacerdote, mas constitui seu principal ministério para o bem de todos[43].

Conclusão

O Sumo Sacerdote é somente Cristo, que, pelo Sacrifício da Cruz, dá vida à comunidade dos fiéis e assegura sua presença vivificante a toda a Igreja na celebração da Eucaristia. Na Eucaristia, o Senhor reúne visivelmente seu povo sacerdotal, destinado a louvar a Deus pelo exercício do sacerdócio batismal.

Cristo, como Cabeça da Igreja, faz-se presente nela por meio de seus ministros, daqueles que, em virtude do sacramento da Ordem, são constituídos seus instrumentos para o bem de todo o povo de Deus. A Igreja, uma vez gerada pela ação do Espírito Santo, por meio da pregação, do Batismo e da celebração do Santo Sacrifício, continua a viver, a se expandir e a se difundir graças à força da Eucaristia, que é o ato supremo de culto e a principal fonte de salvação, da entrega de Deus a nós.

“Compreende-se assim - diz São Josemaria - que a Missa seja o Centro e a raiz da vida espiritual do cristão. É o fim de todos os sacramentos. Na Santa Missa, a vida da graça encaminha-se para a sua plenitude, que foi depositada em nós pelo Batismo, e que cresce, fortalecida pela Confirmação”[44].

Não gostaria de concluir estas considerações sem uma referência a Nossa Senhora. No artigo que São Josemaria escreveu em 1974 sobre Nossa Senhora do Pilar, lemos: “Para mim, a primeira devoção mariana - gosto de ver assim - é a Santa Missa”.

E explicava como via a presença de Maria no Santo Sacrifício: “Todos os dias, quando Cristo desce às mãos do sacerdote, a sua presença real entre nós é renovada com o seu Corpo, o seu Sangue, a sua Alma e a sua Divindade: o mesmo Corpo e o mesmo Sangue que fez sair do seio de Maria. No Sacrifício do Altar, a participação de Nossa Senhora evoca para nós o silencioso recolhimento com o que ela acompanhou a vida de seu Filho, quando ele caminhava pela terra da Palestina (...) Nesse mistério insondável, percebe-se, como coberto por véus, o rosto puríssimo de Maria, Filha de Deus Pai, Mãe de Deus Filho, Esposa de Deus Espírito Santo”[45].

Por isso, concluía: “O encontro com Jesus no Sacrifício do Altar traz necessariamente consigo um encontro com Maria, sua Mãe. Quem se encontra com Jesus, também se encontra com a Virgem Imaculada”[46].

[1] Carta número 10, n. 11. Os textos em que o autor não é citado são de São Josemaria

[2] Cf., por exemplo, Carta número 25, n. 5.

[3] Sacerdote para a eternidade, em Amar a Igreja https://escriva.org/pt-pt/amar-a-la-iglesia/sacerdote-para-a-eternidade/

[4] Conc. Vaticano II, Decr. Presbyterorum Ordinis, n. 14.

[5] Bento XVI, Ex. Ap. Sacramentum caritatis, n. 23.

[6] Francisco, Carta apost. Desiderio desideravi, n. 60.

[7] Sacerdote para a eternidade, n.16-17.

[8] Ibidem, n.1.

[9] Conc. Vaticano II, Const. Lumen gentium, n. 28. Cfr. Decr. Presbyterorum Ordinis, n. 2.

[10] Carta número 26, n. 18.

[11] Cf.Sacerdote para a eternidade, nn. 16 e 17.

[12] Sacerdote para a eternidade, n. 28.

[13] O celebrante deve, com efeito, combinar o eu e o nós. Há uma dupla perspectiva do ministério sacerdotal: ele representa sacramentalmente Cristo, “único mediador entre Deus e os homens” (1 Tim 2,5), que reúne e guia o seu povo, e representa também a Igreja, a cujo serviço realiza a sua ação.

[14] Conc. Vaticano II, Decr. Presbyterorum Ordinis, n. 4.

[15] Cf.ibidem, n. 5.

[16] Carta 2-II-1945, n. 4.

[17] Conc. Vaticano II, Decr. Presbyterorum Ordinis, n. 12.

[18] Bento XVI, Ex. ap. Sacramentum caritatis, n. 80.

[19] Congregação para o Culto Divino, Instr. Redemptionis sacramentum, n. 5.

[20] É Cristo que passa, n. 88. Neste texto, São Josemaria continuava sua homilia, mostrando, com sua catequese mistagógica, que a Santa Missa é formativa no sentido mais profundo da palavra.

[21] É Cristo que passa, n. 87.

[22] É Cristo que passa, n. 85

[23] Cf.Forja, n.69

[24] São João Paulo II, Carta aos sacerdotes, Quinta-feira Santa de 2000, n. 14.

[25] Citado em E. Burkhart–J. López,Vida cotidiana y santidad en la enseñanza de san Josemaría, Rialp, Madri 2013, vol. III, p. 472.

[26] É Cristo que passa, n. 166.

[27] Ibidem.

[28] Dos meses de Catequesis, vol. II, pp.755-757.

[29] São João Paulo II, Carta aos sacerdotes, Quinta-feira Santa do ano 2000, n. 14.

[30] Citado em J. Echevarría, Recordações sobre Mons. Escrivá, Quadrante, São Paulo.

[31] Carta número 10, n. 20.

[32] Cfr. Conc. Vaticano II, Decr. Presbyterorum Ordinis, n. 14.

[33] São João Paulo II, Ex. ap. Pastores dabo vobis, n. 23.

[34] Francisco, Homilia, 3-VI-2016.

[35] É Cristo que passa, n. 158

[36] Ibidem.

[37] Ibidem.

[38] Sacerdote para a eternidade, n. 44.

[39] Catecismo da Igreja Católica, n. 1586

[40] Congr. para a Doutrina da Fé, Carta Communionis notio, n. 5.

[41] Cf. J. Echevarría, Para servir a la Iglesia. Homilías sobre el sacerdocio, Rialp, Madrid 2001, p. 58.

[42] Francisco,Homilia na Santa Missa Crismal, 28-III-2013

[43] Cf. Conc. Vaticano II, Decr. Presbyterorum Ordinis, n. 13.

[44] É Cristo que passa, n, 87

[45] La Virgen del Pilar, n. 18; em “Escritos varios” pp. 289-290

[46] Ibid., n. 19

Conferência “Santificar o trabalho, transformar o mundo: uma liderança com sentido cristão” (30 de junho de 2025)

50.º aniversário do início das atividades do IESE, Madri, Espanha

É para mim um prazer e um orgulho estar com vocês por ocasião do 50º aniversário das atividades do IESE em Madri, motivo de profunda alegria ao ver o desenvolvimento de uma iniciativa de formação que ajudou muitas pessoas a crescer profissionalmente e a descobrir o sentido profundo (humano, social, cristão) do trabalho, tema muito querido por São Josemaria. Precisamente, nesta intervenção, vou me concentrar principalmente em alguns dos seus textos.

Vocês construíram uma das escolas de administração de empresas mais prestigiadas do mundo, portanto, a julgar pelos resultados externos, vocês fizeram um bom trabalho. Gostaria de encorajá-los a que, juntamente com seus sucessos externos comprovados pelos rankings das escolas de administração de empresas mais relevantes, vocês também se empenhem em alcançar outros sucessos internos que têm ainda mais valor para cada um de vocês da perspectiva de Deus. Esses sucessos internos, que são compatíveis com os sucessos e fracassos do ponto de vista dos negócios, são fruto do trabalho bem feito por amor.

Para esses sucessos internos, importa não apenas o que fazemos e com quais resultados, mas também como trabalhamos e por quê. É através desses sucessos internos que o impacto desta escola chegará ainda mais longe.

Realidade e valor humano do trabalho

Como dizia São Josemaria: “O trabalho, todo o trabalho, é testemunho da dignidade do homem, do seu domínio sobre a criação; é meio de desenvolvimento da personalidade; é vínculo de união com os outros seres; fonte de recursos para o sustento da família; meio de contribuir para o progresso da sociedade em que se vive e para o progresso de toda a humanidade”[1].

São Josemaria fala aqui do porquê do trabalho em geral. Para vocês, o porquê do seu trabalho reflete-se na missão do IESE: “Formam líderes que aspiram a ter um impacto profundo, positivo e duradouro nas pessoas, nas empresas e na sociedade através da excelência profissional, da integridade e do espírito de serviço”.

Verdadeiramente, se vocês cumprirem bem esse propósito tão inspirador, chegarão ao coração da sociedade. Irão melhorar o mundo a partir de dentro. Pois esse propósito tão nobre que vocês perseguem pode ser vivido em todas as suas atividades, não apenas naquelas com maior valor estratégico que vocês assumem no IESE a partir da alta diretoria. Todo trabalho pode ter um grande valor do ponto de vista interior.

Já na própria ordem natural, “a dignidade do trabalho depende não tanto do que se faz, mas de quem o faz; e, no caso do homem, é um ser espiritual, inteligente e livre”[2].

A dignidade natural do trabalho radica, portanto, na dignidade espiritual da pessoa humana, e será maior ou menor em função da maior ou menor qualidade ou bondade que esse trabalho tenha como ação espiritual. Ora, essa qualidade ou bondade depende essencialmente da liberdade: do amor — não como paixão ou sentimento — mas como dilectio ou amor eletivo do fim, como ato próprio da liberdade[3].

Como Juan Antonio Pérez López explicava, trata-se de fomentar em nós e nas pessoas que lideramos os motivos transcendentais: o interesse em servir bem os clientes, a conexão humana com as pessoas, o compromisso com o propósito da empresa. Isso é, em grande parte, o que nos estimula a servir mais e melhor. E isso pode ser feito ao mesmo tempo em que se alcançam os resultados estratégicos de que as empresas precisam e as pessoas adequadas desenvolvem as competências necessárias.

Também neste contexto, as seguintes palavras de São Josemaria são muito esclarecedoras e certamente exigentes: “Convém não esquecer, portanto, que esta dignidade do trabalho se baseia no Amor. O grande privilégio do homem é poder amar, transcendendo assim o efêmero e o transitório. O homem pode amar as outras criaturas, dizer um ‘tu’ e um ‘eu” cheios de sentido. E pode amar a Deus, que nos abre as portas do céu, que nos constitui membros da sua família, que nos autoriza a falar-lhe também de tu a Tu, face a face”.

Em outras palavras, fomos feitos para o Amor, e o trabalho é uma das plataformas sobre as quais o Amor pode crescer dentro de nós mesmos e na sociedade. Nisso consiste boa parte da vocação do cristão no mundo, na sociedade. “Por isso, o homem não se deve limitar a fazer coisas, a construir objetos. O trabalho nasce do amor, manifesta o amor, orienta-se para o amor”[4]

Recentemente, recebi uma história inspiradora publicada há muitos anos na revista Forbes que ilustra essa conexão humana, esse amor manifestado através do trabalho. Ela foi escrita por uma enfermeira do pronto-socorro de um hospital americano que testemunhou um ato surpreendente de liderança:

“Eram aproximadamente 22h30. O quarto estava uma bagunça. Eu estava terminando de trabalhar no prontuário antes de ir para casa. O médico com quem eu adorava trabalhar estava treinando um novo médico, que tinha feito um trabalho muito respeitável e competente, dizendo-lhe o que ele tinha feito bem e o que poderia ter feito de maneira diferente. Então, ele colocou a mão no ombro do jovem médico e disse: ‘Quando você terminou, viu o jovem da limpeza que entrou para limpar o quarto?’. O jovem olhou para ele sem entender. O médico mais velho disse: 'O nome dele é Carlos. Ele está aqui há três anos. Faz um trabalho fabuloso. Quando entra, limpa o quarto tão rapidamente que você e eu podemos atender nossos próximos pacientes rapidamente. Sua esposa se chama Maria. Eles têm quatro filhos'. Em seguida, ele citou o nome de cada um dos quatro filhos e disse a idade de cada um. O médico mais velho continuou dizendo: “Ele mora em uma casa alugada a cerca de três quarteirões daqui, em Santa Ana. Eles vieram do México há cinco anos. O nome dele é Carlos”, repetiu. Em seguida, disse: “Na próxima semana, gostaria que você me contasse algo sobre Carlos que eu ainda não saiba. Tudo bem? Agora, vamos ver como estão os outros pacientes”.

A enfermeira ficou surpresa: “Lembro-me de ficar ali parada, escrevendo minhas anotações de enfermagem, atônita, e pensar: Acabei de testemunhar uma liderança impressionante”.

Às vezes, podemos perder de vista esse tom humano quando pensamos no trabalho sob a perspectiva de competir com outras empresas para obter mais lucros, em vez de pensar em servir às pessoas com atenção e cuidado, com amor.

Obviamente, as empresas também não podem perder de vista a estratégia e o lucro, que são sinais de um serviço de qualidade prestado de forma responsável e eficiente. Mas tão importante quanto os resultados econômicos, ou mais, é servir com amor ao trabalho e com amor às pessoas.

O valor sobrenatural: a santificação do trabalho

Para um cristão, essas perspectivas se ampliam e se expandem. Porque o trabalho aparece como participação na obra criadora de Deus, que, ao criar o homem, o abençoou dizendo-lhe: “Crescei e multiplicai-vos, e enchei a terra e submetei-a, e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves do céu, e sobre todos os animais que se movem sobre a terra. E porque, além disso, ao ser assumido por Cristo, o trabalho se nos apresenta como realidade redimida e redentora: não é apenas a esfera em que o homem se desenvolve, mas também meio e caminho de santidade, realidade santificável e santificadora”[5].

O que significa santificar o trabalho?

Consideremos dois aspectos fundamentais essencialmente ligados entre si, e nos quais o Fundador do Opus Dei insistiu inúmeras vezes. Em primeiro lugar, é evidente que a dimensão sobrenatural do trabalho não é algo justaposto à sua dimensão humana natural: a ordem da Redenção não acrescenta algo estranho ao que o trabalho é em si mesmo na ordem da Criação; é a própria realidade do trabalho humano que é elevada à ordem da graça; santificar o trabalho não é “fazer algo santo” enquanto se trabalha, mas precisamente tornar santo o próprio trabalho.

O segundo aspecto, inseparável e, de certa forma, consequência do anterior, é que o trabalho santificado é santificador: o homem não só pode e deve santificar-se e cooperar na santificação dos outros e do mundo enquanto trabalha, mas precisamente através do seu trabalho, fazendo-o humanamente bem, servindo as pessoas por amor a Deus.

Este espírito cristão na realização do trabalho deve preparar o mundo para reconhecer melhor a Deus e, assim, contribuir também para a sustentabilidade, a paz e a justiça social. “É necessário”, lembra Leão XIV, “esforçar-se para remediar as desigualdades globais, que veem a opulência e a indigência traçar sulcos profundos entre continentes, países e mesmo no interior de cada sociedade”.

Como explicava São Josemaria, há uma relação necessária entre a santificação do trabalho profissional e a reconciliação do mundo com Deus: “Unir o trabalho profissional à luta ascética e à contemplação – coisa que pode parecer impossível, mas que é necessária para contribuir com a reconciliação do mundo com Deus – e converter esse trabalho normal em instrumento de santificação pessoal e de apostolado. Não é este um ideal nobre e grande pelo qual vale a pena dar a vida?”[6]

Podemos viver no trabalho, seja qual for, ter sempre essa perspectiva de servir a sociedade, “A world to change”, como vocês dizem na sua publicidade. Gosto de ver que no seu propósito vocês falam de liderança que seja boa para as pessoas, para as empresas e também para a sociedade.

Nas empresas, é possível fazer muito bem à sociedade, embora também seja verdade que nem tudo o que a sociedade precisa pode ser obtido através das empresas, uma vez que estas estão limitadas pela necessidade de oferecer um serviço limitado e concreto e de gerar lucros, o que faz parte do seu objetivo.

Também são necessários Estados, comunidades e famílias responsáveis. Em sua formação, portanto, esforcem-se por alcançar a pessoa em sua totalidade, também em sua dimensão espiritual, para que, a partir dessas pessoas bem formadas, possamos contribuir para servir a sociedade, também em todas as suas dimensões. Este é o fruto distante da santificação de seu trabalho bem feito por amor.

Para transformar o mundo, temos que começar por nós mesmos e deixar espaço para Deus em nossas vidas. O trabalho é um dos espaços em que Deus quer estar presente em nossas vidas e motivações. Há algumas palavras conhecidas do Fundador do Opus Dei que resumem de forma breve e essencial o conceito de santificação do trabalho, na forma de um conselho prático: “Põe um motivo sobrenatural na tua atividade profissional de cada dia, e terás santificado o trabalho”[7]. Não se trata de fazer coisas diferentes, como trabalhar em entidades beneficentes sem fins lucrativos, mas de fazer as mesmas coisas de sempre de maneira diferente, com um motivo sobrenatural que nos estimula a colocar mais esforço e mais amor.

Ou seja, a atividade de trabalhar torna-se santa quando é realizada por um motivo sobrenatural. Mas essa afirmação não deve ser entendida como uma espécie de “moral da mera intenção”; não se trata, em termos clássicos, de dar primazia ao finis operantis como independente do finis operis, que ficaria privado de sua própria relevância.

O finis operantis é a motivação de quem trabalha, que pode ser movida por motivos de diversa natureza. O finis operis é o que se pretende alcançar com a atividade, que pode ser servir o cliente, terminar um relatório, atingir uma meta. Para servir eficazmente com nosso trabalho, não basta ter boas intenções, mas sim chegar a fatos concretos. “Para servir, servir”, como dizia São Josemaria.

A ordem sobrenatural assume e eleva essa realidade humana, de modo que o trabalho é santo se “nasce do amor, manifesta o amor, se ordena ao amor” e se esse amor é aquela “caridade de Deus que foi derramada em nossos corações, pelo Espírito Santo que nos foi dado”[8]. Quando vivemos essa unidade de vida de que tanto falava São Josemaria, essa caridade de Deus derrama-se por todas as atividades do nosso trabalho: relatórios, telefonemas, pequenos detalhes feitos com amor. O finis operantis penetra e informa de dentro o finis operis todo o nosso agir.

O trabalho é santo, é santificado, quando é regido e informado pelo amor a Deus e aos outros por Deus. Esta é a essência daquele “motivo sobrenatural” que basta colocar no trabalho para santificá-lo; e entendemos ainda melhor que essa “intenção” tende por si mesma à perfeição humana do próprio trabalho: “Não podemos oferecer ao Senhor uma coisa que, dentro das pobres limitações humanas, não seja perfeita, sem mancha, realizada com atenção até nos mínimos detalhes: Deus não aceita trabalhos “marretados”. Não apresentareis nada de defeituoso, admoesta-nos a Escritura Santa, pois não seria digno dEle[9]. Por isso o trabalho de cada qual - essa atividade que ocupa as nossas jornadas e energias - há de ser uma oferenda digna aos olhos do Criador, operatio Dei, trabalho de Deus e para Deus; numa palavra, uma tarefa acabada, impecável”[10].

Mas não se deve confundir trabalhar com perfeição com o perfeccionismo que pode surgir do orgulho e da falta de ordem. Devemos trabalhar bem, dentro do razoável, sabendo que temos muitas ocupações que exigem nossa atenção, às quais também devemos levar o amor de Deus.

O trabalho santificado não é apenas trabalho por Deus e para Deus, mas é, ao mesmo tempo e necessariamente, trabalho de Deus, porque é Deus quem santifica; é Ele quem ama primeiro e torna possível o nosso amor por meio do Espírito Santo, de quem nossa caridade é uma participação.

Para que Deus trabalhe em nós e através do nosso trabalho (para que o nosso trabalho seja opus Dei), é necessário abrir espaços para Deus no nosso dia, espaços de oração e escuta — em casa, no escritório, na rua, na igreja — para alcançar essa unidade com Deus que permite que Deus entre em todas as nossas ações.

Santificar o trabalho, no sentido objetivo, externo, estrutural (por exemplo, finanças ou contabilidade), é inseparável não só de santificar com o trabalho (no dia a dia, através do esforço concreto para alcançar metas específicas e servir determinadas pessoas) mas também de santificar-se no trabalho (crescendo em amor), que é a consequência necessária e imediata de santificar o trabalho em seu aspecto subjetivo (como ação da pessoa).

Certamente, um trabalho subjetivo não santificado pode cooperar para a santificação do mundo, na medida em que contribui para o estabelecimento de estruturas sociais, econômicas, etc., naturalmente eficazes e justas, o que é parte indispensável da ordenação dessas estruturas de acordo com Deus. Pensem aqui, por exemplo, nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas.

No entanto, somente um trabalho subjetivo santificado e, portanto, santificador de quem o realiza, coopera necessariamente não só para configurar um mundo justo, mas também para dar-lhe forma com a caridade de Cristo, santificá-lo. Naturalmente, essa santificação do mundo a partir de dentro requer não uma, mas muitas pessoas que santifiquem seu trabalho e se santifiquem em seu trabalho em todas as profissões.

São Josemaria já o dizia quando afirmava que se abriram os caminhos divinos da terra e são necessários muitos e muitas que queiram percorrer esses caminhos para elevar o mundo a partir de dentro, não através de campanhas organizadas e possivelmente ideológicas, que podem ser polarizadoras, mas através do crescimento interior de cada um no seu próprio lugar, aberto às pessoas ao seu redor e acolhendo assim a graça de Deus que quer derramar fé, esperança e caridade ao nosso redor.

A relevância peculiar do trabalho de gestão

Vocês têm pela frente um grande propósito: formar líderes empresariais que criarão o contexto no qual muitas outras pessoas trabalharão e se desenvolverão como indivíduos por meio de seu trabalho. É uma grande responsabilidade preparar pessoas com tanta responsabilidade.

Muitas vezes, eles não terão receitas claras sobre como interpretar um problema ou resolver uma situação. Em geral, o trabalho de gestão envolve um conjunto de atividades, como prever, organizar, coordenar e controlar o desenvolvimento e os resultados da atividade de uma organização.

Diante de uma realidade tão complexa e variável, é compreensível que, ao teorizar sobre a natureza ou analisar a prática do trabalho de gestão, surjam interpretações mais ou menos diversas[11]. Por isso, a formação de um executivo não requer apenas memorizar princípios ou reunir ferramentas de marketing, finanças, estratégia ou contabilidade, mas chegar a um entendimento prudente que normalmente é adquirido com uma experiência bem assimilada.

A responsabilidade de um executivo exige prudência, que é a virtude mais própria do trabalho diretivo. Lembro-me de uma famosa afirmação de São Tomás de Aquino: “que os sábios nos ensinem, que os santos rezem por nós, que os prudentes nos governem”.

Através das suas aulas com o método do caso, os seus alunos aprendem a exercer a prudência, a fazer as perguntas-chave, a aprofundar os argumentos, a compreender os pontos de vista dos outros sem preconceitos e a mudar de opinião.

Em sua expressão mais geral, a ação prudente requer um conhecimento suficiente do passado (os precedentes dos assuntos), a atenção às circunstâncias que delimitam o assunto presente e a previsão dos efeitos futuros das possíveis decisões.

“A prudência, além de ser o hábito aperfeiçoador desse tipo de atividade (práxis), é a única virtude intelectual cujo objeto é moral, ou seja, atua como uma espécie de 'ponte' entre ambas as dimensões, permitindo conciliar o pensamento com a ação".

Exercitando a prudência na hora de liderar, os participantes de seus programas crescerão moral e intelectualmente e serão capazes de criar ambientes nos quais outras pessoas cresçam, contribuindo assim para melhorar a sociedade.

Outras características de um bom trabalho de gestão, na minha opinião, são a abertura e a flexibilidade. Abertura de mente, para aprender com a experiência e com o estudo. Abertura para compreender as mudanças que são necessárias nos novos tempos. Abertura para acolher e valorizar sugestões ou explicações de outros, sem pressa e sem admitir preconceitos. Saber ouvir.

Abertura para não cortar iniciativas arbitrariamente, mas promovê-las e canalizá-las. Abertura para captar e aceitar oportunidades de mudança; em particular, abertura mental para mudar de opinião: como dizia São Josemaria, “não somos como os rios que não podem voltar atrás”.

Enfim, abertura de coração, para compreender e amar os outros. Essa abertura nos leva a aceitar os outros como são, sem julgar e sem nos deixarmos levar por preconceitos, ao mesmo tempo em que podemos desafiá-los a serem melhores. Consiste também em ser uma ponte para pessoas que pensam de forma diferente. É possível trabalhar muito bem com pessoas de outra religião ou sem religião, e que seguem estilos de vida que podem chocar, pessoas que têm sempre, ou quase sempre, uma boa base sobre a qual se pode construir uma amizade e um projeto comum dentro da empresa.

No que diz respeito à flexibilidade, é óbvio que ela se opõe à rigidez, mas não se opõe à força. Trata-se da capacidade de aceitar e decidir exceções necessárias ou convenientes. Nesse contexto, parece-me interessante mencionar também a importância de promover a liberdade interior dos colaboradores de todos os níveis profissionais, explicando o motivo das instruções dadas.

Trata-se de fazer com que queiram fazer bem o seu trabalho para servir melhor. Nesse mesmo sentido, um bom trabalho de gestão evita o controle excessivo e o excesso de detalhes ao delegar uma tarefa. A microgestão como forma de liderança cria marionetes, não pessoas maduras com critério próprio.

Também vale a pena mencionar a importância de saber delegar, atendendo às circunstâncias das pessoas e dos ambientes. Lembro-me do que escreve São Josemaria, num contexto mais amplo: “Não se pode empregar os mesmos meios com todos. Também nisto é necessário imitar o comportamento das mães: sua justiça é tratar de maneira desigual os filhos desiguais”[12].

Alguns, os mais jovens, precisam de acompanhamento e feedback para adquirir o mais rápido possível a experiência necessária para fazer bem seu trabalho. Outros, mais maduros, precisam de coaching para aprender a tomar suas próprias decisões. E chega um momento em que podem trabalhar sem nenhum acompanhamento, porque o gestor pode delegar-lhes com total confiança e sem preocupações. Mas uns e outros precisam da confiança, proximidade e amizade de seus gestores.

A atividade diretiva exige normalmente canalizar elementos e ações em si mesmos diversos para um objetivo comum. É necessária, portanto, uma capacidade de síntese suficiente que, mantendo a atenção que distingue os diversos elementos da questão, consiga uni-los em uma dimensão final comum. Aqui entra o que muitos chamam de propósito da empresa, que inclui prestar atenção aos seus muitos stakeholders para que a atividade diretiva unifique os esforços de todos.

A relevância peculiar do trabalho diretivo reside, obviamente, no fato de que desse trabalho depende em grande parte a eficácia do trabalho de outras pessoas, seu crescimento pessoal através do trabalho e a cultura e o tom da empresa. Daí um aspecto peculiar da responsabilidade dos diretores.

A posição de diretor não é um privilégio, mas um serviço e uma responsabilidade que consiste em criar um contexto eficaz para o trabalho dos outros. Portanto, um gestor deve fomentar a disposição interior que o leva a cumprir decididamente os seus deveres.

Vocês educam esses gestores não só através das aulas e do trabalho em equipe, mas também criando um tom de trabalho bem feito — jardins bem cuidados, lousas limpas, aulas bem preparadas com finalizações impactantes e claras — e de alegria e proximidade humana, de cuidado com as pessoas.

Esse tom de amizade em que todos percebem que realmente importam, que são amados, explica a abertura e a alegria que se vê em sua escola e nas reuniões de ex-alunos.

Muito obrigado

[1] São Josemaria, É Cristo que passa, n. 47.

[2] São João Paulo II, Discurso, 3/07/1986, n. 3.

[3] Sobre a escolha existencial do fim último, como ato de liberdade, cf. C. Fabro, Riflessioni sulla libertà, Maggioli, Rimini 1983, pp. 43-51; 57-85.

[4] São Josemaria, É Cristo que passa, n. 48.

[5] São Josemaria, É Cristo que passa, n. 47.

[6] São Josemaria, Instrução, 19/03/1934, n. 33.

[7] São Josemaria, Caminho, n. 359.

[8] cf. Rm 5, 5.

[9] Cfr. Lev 22, 20.

[10] São Josemaria, Amigos de Deus, n. 55.

[11] Cf., por exemplo, G. Scalzo e S. García Álvarez, El Management como práctica: una aproximación a la naturaleza del trabajo directivo, en “Empresa y humanismo”, XXI (2018) pp. 95-118.

[12] São Josemaria, Carta 29/09/1957, n. 25.

ARTIGOS E ENTREVISTAS

El Debate, Espanha (22-VI-2024)

— O que permanece e o que mudou na Obra ao longo desse tempo?

— No Opus Dei, há um espírito de fundo, uma mensagem significativa sobre a santidade no meio do mundo, que não mudou. É o núcleo imutável que lhe dá sentido, pois, como acontece com as instituições, se o Opus Dei existe, é precisamente para conservar e difundir ao longo do tempo uma mensagem específica. Ao mesmo tempo, o fundador, São Josemaria, ciente da necessidade de manter intacto esse espírito, dizia que as formas podem e devem mudar com o tempo. Em cem anos, a sociedade e a Igreja evoluíram muito, e o Opus Dei também, pois faz parte da Igreja e da sociedade.

As transformações implicadas por fenômenos como a globalização, a conquista do espaço público pelas mulheres, as novas dinâmicas familiares, etc., encontram reflexo no Opus Dei como instituição e na vida real de seus membros. Saber mudar — modelando qualquer mudança a partir do essencial — é um requisito para poder continuar sendo fiel à missão.

— Como as novas disposições papais afetam o Opus Dei? Elas afetam o dia a dia da instituição?

— O jurídico e o vital são áreas que caminham juntas, mas que também têm suas distinções. Na vida cotidiana dos leigos, imersos nas questões deste mundo, as novas disposições não alteram a forma como vivem sua vocação para a Obra. No que diz respeito ao Opus Dei como instituição, estamos trabalhando com o Dicastério do Clero para realizar ajustes nos estatutos, conforme solicitado pelo Santo Padre no Motu proprio Ad carisma tuendum. Como ainda estamos estudando esses ajustes, não posso dizer qual será o resultado. Posso assegurar, entretanto, que no desenvolvimento dessas obras, estabeleceu-se um clima de diálogo e confiança, típico da Igreja como família de Deus.

— Não é uma clericalização de uma instituição da Igreja cuja razão de ser são os leigos? Até que ponto estas medidas podem afetar o objetivo dos leigos de serem santos no meio do mundo?

— A mensagem do Opus Dei dirige-se principalmente aos leigos, homens e mulheres do meio do mundo, que, desde o início, constituíram a grande maioria dentro da Obra e de sua razão de ser.

Da mesma forma que os carismas não devem ser absolutizados, a lei também não deve. Por isso, o Opus Dei passou por diversas soluções institucionais para encontrar a fórmula mais adequada, que integrasse, por um lado, a tutela do carisma e, de outro, uma figura jurídica que lhe conferisse um lugar na Igreja, refletindo sua natureza sem restringi-la ou sufocá-la.

— O Opus Dei do século XXI buscará um novo modelo jurídico, em vez da prelazia pessoal, que se adapte melhor às novas formas de vida cristã?

— A figura jurídica da prelazia pessoal se adaptou muito bem ao espírito do Opus Dei e aos seus apostolados. Como lhe comentei anteriormente, estamos em pleno diálogo com a Santa Sé para a adequação dos estatutos. Como compreenderá, não seria prudente referir-me a um possível novo modelo jurídico antes de terminar o processo no qual estamos trabalhando há quase dois anos.

A elasticidade do direito canônico pode ajudar a conciliar o desejo da Santa Sé e da própria Obra de impulsionar a missão da Igreja em um mundo em mudança, encontrando soluções adequadas, sem rupturas institucionais.

— A caminho do centenário, quando o Opus Dei conta com bispos e arcebispos em todo o mundo. Não seria apropriado que o prelado também fosse bispo?

— Se me permite esclarecer, devemos ter em mente que os poucos bispos e arcebispos que vêm do Opus Dei no mundo são das próprias Igrejas particulares e, portanto, respondem apenas ao Papa, não tendo nenhum outro superior.

Acredito que o fato de o Bem-aventurado Álvaro e D. Javier Echevarría terem recebido a consagração episcopal foi muito positivo para reforçar a comunhão eclesial entre 1991 e 2016. Atualmente, o importante é seguir fielmente as disposições do Santo Padre, mais do que discutir o que é mais ou menos adequado.

— Por que uma parte da hierarquia eclesiástica via o Opus Dei como uma instituição rival ou paralela, se os fiéis da Obra também são fiéis das dioceses territoriais?

— Percebo, em geral, apreço por parte da hierarquia e de outras instituições da Igreja. As pessoas da Obra têm consciência de que navegam no mesmo barco que a Igreja, onde coexistem diferentes espiritualidades e sensibilidades [...] Por outro lado, vêm à mente alguns exemplos de iniciativas do Opus Dei (em Roma e no mundo) das quais, pela graça de Deus, surgiram vocações para tantas instituições da Igreja. E vice-versa: atualmente, por exemplo, a diocese de Florianópolis (Brasil) iniciou o processo de beatificação de um jovem da Obra, que realizou um extenso trabalho de evangelização naquela diocese e que se aproximou da fé católica graças aos retiros de outra realidade eclesial, Emaús.

Como o senhor salienta, do ponto de vista do direito, os leigos do Opus Dei são fiéis às suas dioceses da mesma forma que quaisquer outros fiéis. E, na prática, muitos colaboram ativamente no catecismo ou nos cursos pré-matrimoniais em suas paróquias, em iniciativas de serviço como a catequese, em atividades com jovens, etc. Da mesma forma, recebo inúmeros pedidos de bispos diocesanos para que este ou aquele sacerdote colabore em uma paróquia, em um hospital, em um serviço da diocese. Sempre que possível, colaboramos com prazer.

Se houve dúvidas com alguma instituição da Igreja, talvez seja devido a relações humanas imperfeitas, que deveríamos tentar resolver dia após dia. Às vezes, os mal-entendidos também advêm da compreensível dificuldade histórica de abrir espaço para novas realidades que carregam uma “novidade” que à primeira vista pode surpreender. Gosto de pensar que são algo do passado.

— Qual é a situação atual do desenvolvimento do Opus Dei no mundo? Existem planos de expansão específicos para o centenário? Em quais países encontra mais dificuldades?

— Pode-se dizer que o desenvolvimento do Opus Dei transcorre como o do resto da Igreja no mundo. A Obra como um todo cresceu nos últimos anos, mas isso não significa que cresça em todos os lugares ou que o faça da mesma maneira.

Por exemplo, a Obra cresce em países como Nigéria, Estados Unidos ou Brasil, enquanto seu trabalho é mais difícil em outros lugares, como na Europa e na Ásia. Os obstáculos externos às vezes provêm da secularização ambiental, de certos estilos de vida que dificultam a formação de famílias duradouras ou a compreensão do celibato ou das vocações dedicadas ao serviço e ao cuidado, etc. Há também obstáculos que todo cristão no meio do mundo deve enfrentar, como o perigo do mundanismo. Nesse sentido, uma vez que não existe um contexto de fé compartilhado, é necessária uma delicadeza especial de coração para ser coerente com os próprios compromissos familiares ou vocacionais.

Do ponto de vista geográfico, a diversidade cultural e religiosa é muito ampla. Incorporar uma vocação cristã em cidades de maioria muçulmana, como Mombaça (Quênia) ou Surabaya (Indonésia) não é a mesma coisa que em Lisboa ou Varsóvia. Como sabem bem as pessoas da Obra que vivem nesses lugares, a semeadura evangelizadora olha para um horizonte de décadas, como na China ou na Coreia do Sul. Nesses países, a par das dificuldades, existe também um forte dinamismo eclesial, traduzido em conversões, batismos de jovens e adultos, etc.

Por outro lado, a Obra vive há alguns anos um momento de reestruturação das circunscrições para melhorar o governo e a ação apostólica. De qualquer forma, independentemente das programações e reestruturações, é o próprio Deus que abre caminho em qualquer tipo de sociedade, tocando o coração das pessoas, porque só Ele é a resposta aos anseios e às esperanças do ser humano.

— O Opus Dei foi a primeira organização católica a admitir não católicos como cooperadores. É, acima de tudo, um sinal de ecumenismo?

— Em 1950, quando São Josemaria obteve da Santa Sé a autorização para admitir, no Opus Dei, homens e mulheres não católicos como cooperadores, o movimento ecumênico já estava em andamento há bastante tempo, tanto dentro da Igreja Católica quanto no âmbito das outras confissões cristãs. Foi mais uma manifestação desse impulso natural à união de todos os crentes em Jesus Cristo. Desde então, houve muitos frutos de amizade e diálogo com pessoas de outras confissões religiosas.

— Como devem agir os cristãos diante do crescente ambiente de polarização política e social em tantas partes do mundo?

— No que é opinável, com muita liberdade. Como cristãos, com caridade e compreensão. Como dizia São Josemaria: “Sempre como semeadores de paz e alegria”, mesmo que, em ambientes tensos e polarizados, às vezes seja difícil. É importante amar e compreender as pessoas, mesmo quando pensam de forma diferente.

Avvenire, Italia (26-VI-2024)

— O Opus Dei está envolvido em uma autêntica ‘viagem’, convidado pelo Papa, para redescobrir o frescor e a força de suas origens. O que está aparecendo nesta viagem?

Em todas as nações onde o Opus Dei está, estão se realizando as chamadas ‘assembleias regionais’, que se realizam de 10 em 10 anos. São momentos preciosos de diálogo e reflexão. Descobre-se neles o desejo de ir ao essencial, ao carisma, encontrando o modo de vivê-lo e comunicá-lo melhor nas circunstâncias atuais. Uma questão, por exemplo, que emerge dessas assembleias é o desejo de fundamentar cada vez mais o trabalho apostólico da Obra na amizade sincera e na transformação do coração, mais do que em estruturas, obras ou atividades.

— O método que o senhor indicou para esta reflexão é uma ampla consulta da qual estão participando todos os membros do Opus Dei e inclusive outras pessoas que não formam parte da Prelazia. Pode explicar as razões pelas quais, em chave sinodal, escolheu essa opção?

Tal como a Igreja em seu conjunto, o Opus Dei é família, e quando uma família deve tomar uma decisão importante (desafios ou prioridades) todos são ouvidos. Entramos em contato com a Secretaria do Sínodo, que nos encorajou a viver as assembleias regionais da prelazia como um momento especial de escuta. Cada assembleia teve encontros em nível local, com grupos de discussão, questionários, intercâmbios entre gerações. Tal processo ocorreu simultaneamente à participação de muitos membros do Opus Dei nas fases diocesanas do Sínodo sobre a sinodalidade em suas respectivas dioceses.

— O Opus Dei está se encaminhando também ao centenário da sua fundação: quais são os passos previstos e o que se espera desta longa preparação?

Nesses anos que precedem o centenário, vamos interrogar-nos sobre as necessidades e os desafios da Igreja e do mundo. Queremos aprofundar em nossa identidade e ver como a Obra pode contribuir para a santificação da vida cotidiana através de seu carisma. Observaremos, portanto, neste tempo, o conjunto do nosso horizonte apostólico (a Igreja e o mundo) e, por outro lado, olharemos para nosso interior (a Obra), com esperança de que esses olhares convirjam para um momento de graça. Quando penso no centenário do Opus Dei, vem-me à cabeça uma oração que o bem-aventurado Álvaro dirigia pessoalmente ao Senhor: “Obrigado, perdão, ajuda-me mais”. No momento atual, de certa forma, todos deveríamos ter esta aspiração.

— Como vai a revisão dos Estatutos?

Como dizia o Papa, trata-se de que os ajustes preservem o carisma e a natureza do Opus Dei, sem o apertar nem sufocar: sublinhando, por exemplo, seu caráter secular e o fato de que mais de 98% dos membros são leigos, homens e mulheres que vivem a sua vocação na rua, na família, no trabalho. Para isso, está havendo uma série de reuniões entre representantes do Dicastério do Clero e quatro canonistas do Opus Dei, três professores e uma professora. Como estamos ainda no meio deste processo, não posso dar mais detalhes. Posso assegurar-lhe, porém, que os trabalhos estão se desenvolvendo em clima de diálogo e confiança.

— A secularidade, tão característica do Opus Dei, com a ideia central da santificação do trabalho e da vida cotidiana, é um dos traços mais importantes da Igreja no período pós-conciliar: é como se o ‘tesouro’ da Obra tivesse se convertido em patrimônio de toda a catolicidade. Esta característica, tão importante em seu espírito, apresenta hoje algo novo para o Opus Dei?

Recordo que no dia da canonização de São Josemaria, um conhecido dirigente sindical da Polônia disse aos jornalistas que, como representante dos trabalhadores, estava em festa porque tinham um santo ‘padroeiro’. Na realidade, a santificação do trabalho constitui um tesouro que Jesus nos mostrou durante os trinta anos de sua vida oculta, trabalhando e mantendo assim sua família. São Josemaria o recordava especialmente. De qualquer forma, hoje, embora esta mensagem tenha se tornado um patrimônio de toda a Igreja, ainda há muito por fazer para redescobrir o papel dos leigos, sua responsabilidade eclesial e suas infinitas possibilidades de evangelização da sociedade.

Leigos são quase todos os membros do Opus Dei, que estão, portanto, imersos nas realidades do mundo, atentos ao que acontece, desde as grandes feridas da humanidade até as novas oportunidades que surgem. Como participa a Obra nas mudanças e sofrimentos de nosso tempo?

As guerras em curso, o problema da solidão e da pobreza e, em geral, o sofrimento de tantas pessoas não podem constituir apenas matéria de notícias da atualidade, mas devem afetar a todos. Em sua catequese pela América do Sul, são Josemaria animou milhares de pessoas a ter um coração grande, imitando Cristo na cruz, que tinha os braços abertos para acolher a todos, sem distinção. Cada membro da Obra deverá atuar assim para aliviar o sofrimento, levando o amor de Deus aos cantos mais afastados da sociedade. Deus confia a todos os batizados a tarefa divina de construir o mundo (a família, o bairro, o progresso, as artes, o ócio) como filhos seus.

— Secularidade significa também estar preparado para enfrentar novos desafios: o que o senhor espera dos membros da Obra e o que vê que pode surgir no mundo por iniciativa deles?

As iniciativas dos membros adaptam-se e surgem em função das novas necessidades. Por exemplo, nasceu em Madri o hospital ‘Laguna’ que atende doentes terminais; pessoas da Obra e amigos formaram na Colômbia um grupo para apoiar os presos; fiquei sabendo de outros membros do Opus Dei que, no leste europeu, acolhem famílias vítimas da guerra; fico especialmente contente por uma iniciativa de famílias que ajudam outras famílias a viverem de modo cristão, apoiando-se umas às outras e estendendo essa ajuda a outros amigos, a outros casais... São alguns exemplos de como combater a pobreza material e espiritual, e que nos recordam o que São Josemaria fez desde o princípio com os doentes e necessitados na Madri dos anos 30 do século passado, procurando atrair para esse trabalho os primeiros jovens que tinha à sua volta. Porém, a resposta aos novos desafios sociais concretiza-se especialmente através do trabalho profissional, procurando gerar relações de justiça – condições de trabalho, pagar os impostos... – de serviço, de amizade. A dimensão social do cristão, embora com diversas manifestações, deve interpelar a todos nós para que tentemos transformar nossa vida em doação, em semeadura de paz e alegria.

Escrivá recordava frequentemente a seus filhos espirituais seu dever de “servir a Igreja como a Igreja quer ser servida”: que leitura o senhor faz hoje dessa famosa frase dele?

Eu diria que seu significado não mudou desde que ela foi pronunciada: o amor à Igreja e ao Papa está no DNA da mensagem de São Josemaria. Do ponto de vista prático, isto se traduz em ajudar o mais eficazmente possível nas dioceses onde moram, às quais pertencem os membros do Opus Dei. Há, por exemplo, muitos leigos que colaboram ativamente nas catequeses ou em cursos pré-matrimoniais de suas paróquias, em iniciativas de serviço como Cáritas, em atividades com jovens, etc. Recebo também muitas petições de bispos diocesanos para que tal ou qual sacerdote colabore em uma paróquia, em um hospital, em um determinado serviço na diocese. Sempre que possível, ficamos felizes em colaborar.

— O que mostra hoje uma iniciativa tipicamente laical como as escolas do grupo FAES (Famiglia e Scola – Família e Escola), das quais participam pessoas ligadas à Obra e muitos amigos, inclusive não cristãos?

Cinquenta anos desta instituição constituem um patrimônio importante a serviço da família na educação dos filhos. Estou feliz com essa conquista e incentivo as famílias a continuarem nesse caminho, com a simpatia e a capacidade de encontrar soluções tão típicas dos italianos.

El Mercurio, Chile (28-VII-2024)

— O Opus Dei costuma ser caracterizado por três adjetivos: conservador, poderoso e hermético. Por que isso acontece? Que adjetivos o senhor gostaria que fossem utilizados para caracterizar o Opus Dei e seu trabalho?

— Todo mundo pode ter suas próprias opiniões e suas razões para avaliar a realidade. Se algumas pessoas a percebem dessa forma, é porque há algo objetivo e/ou subjetivo que pode causar essa impressão. De certo modo, cada membro é responsável da tarefa de tornar a Obra mais conhecida, vivendo a própria vocação de maneira autêntica. É algo grande e maravilhoso, embora eu entenda que seja necessária uma perspectiva de fé para compreendê-la em profundidade. Em todo caso, creio que, humanamente falando, quem conhece de perto o Opus Dei será capaz de reconhecer pessoas normais, com virtudes e defeitos. Gostaria que fôssemos conhecidos como pessoas alegres, simples e serenas, pacíficas, de fácil amizade, de mente aberta e compreensivas. Também gostaria que se reconhecesse a variedade dos fiéis do Opus Dei, e não apenas os poucos que adquirem certa relevância pública. Isso mostraria que todos e cada um lutam para viver plenamente a fé, convivendo com suas próprias deficiências e tentando colocar seus talentos a serviço da família, dos amigos e da sociedade.

– O que o senhor definiria como a contribuição do Opus Dei para a vida da Igreja?

– A principal contribuição do Opus Dei é acompanhar os leigos (98% de seus membros) para que se tornem protagonistas da missão evangelizadora da Igreja no meio do mundo, um a um. Os leigos não são meros receptores ou atores secundários, mas protagonistas da evangelização, que podem levar o calor e a amizade de Cristo onde são mais necessários: às salas de aula, às cidades, aos campos de futebol, aos hospitais, aos escritórios, às famílias, aos pobres e aos ricos... a todos. É um trabalho de acompanhamento espiritual, de vivificação cristã, que evita interferir em suas legítimas escolhas terrenas: a atuação dos membros na sociedade, com seus acertos e erros, será responsabilidade deles, não da Igreja ou do Opus Dei. Atribuir ao Opus Dei as iniciativas políticas, empresariais ou sociais de seus fiéis seria clericalismo.

— O senhor nasceu em 1944 no exílio, em Paris. Hoje se recordam os momentos dramáticos que a Europa vivia, que sua família viveu no exílio na França. Essa experiência os marcou de alguma forma?

Durante a Guerra Civil Espanhola, meu pai serviu no exército republicano, o que fez com que ele tivesse que se exilar em Paris no final da guerra. Ele era veterinário militar e teve seu primeiro emprego cuidando dos animais em um circo. Pouco tempo depois, conseguiu um trabalho em um laboratório e pôde levar sua família com ele. Graças a Deus, as represálias que meu pai sofreu alguns anos depois, quando retornou à Espanha, foram brandas e ele pôde desenvolver sua atividade no campo da pesquisa em biologia animal. Quanto ao resto, eu era uma criança e vivi tudo isso sem ter muita consciência. Mesmo assim, talvez a reflexão sobre essa experiência tenha me vacinado contra a sedução de qualquer tipo de violência e contra a tentação de identificar a religião com certas opções políticas.

– O senhor estudou física e depois teologia, uma mistura única. Que aspectos da física iluminaram seu caminho religioso?

– Tanto a física quanto a teologia são, cada uma a seu modo, conhecimento da realidade: não apenas não são contraditórias, mas se complementam. Não posso dizer que o estudo da física abriu meus olhos para a realidade de Deus, pois eu já acreditava por tradição familiar e convicção pessoal. Mas olhar para a realidade física concreta me ajudou a ver o mundo como criado por Deus sob uma luz diferente.

– Na sua juventude, o senhor conviveu com São Josemaría Escrivá, fundador do Opus Dei. Nesse contexto cotidiano, quais das suas características lhe chamaram a atenção?

– Cheguei a Roma em 1967 e vivi na mesma casa que São Josemaria até sua morte, em 1975, mas éramos cerca de 200 pessoas. Apesar de sermos muitos, nos sentíamos muito amados, cercados por sua alegria e afeto. Em uma ocasião, na frente de muitas pessoas, ele me fez uma pergunta e imediatamente percebi que estava me colocando em uma situação difícil. Sem me dar tempo para responder, ele acrescentou um comentário lateral que tornou minha resposta desnecessária. Esses pequenos detalhes se repetiam diariamente. Acima de tudo, fiquei impressionado com sua união com Deus, que se manifestava quando o ouvíamos falar em um momento de pregação ou em uma reunião familiar. No aspecto humano, eu destacaria seu amor pela liberdade e seu bom humor.

– O Papa Francisco fez um chamado para que o “carisma essencial” do Opus Dei fosse reforçado. Como o senhor definiria esse carisma?

– Eu o descreveria como a busca de Deus, o encontro com Deus e a ajuda a muitas outras pessoas para esse mesmo encontro, na vida cotidiana, no trabalho, na família, na rua. Com palavras do Papa Francisco, trata-se de “difundir o chamado à santidade no mundo, por meio da santificação do trabalho e das ocupações familiares e sociais”.

– Esse carisma, que foi configurado há quase 100 anos, precisa passar por revisões?

– Em 100 anos, a sociedade e a Igreja evoluíram muito, e o Opus Dei também, pois faz parte delas. Não somos indiferentes a fenômenos como a globalização, a conquista feminina da esfera pública, as novas dinâmicas profissionais e familiares etc. Como dizia São Josemaria, mudam as formas de fazer e de dizer, mas a essência, o espírito, permanece o mesmo. Saber mudar, nesse sentido, é necessário para ser fiel a uma missão, mas qualquer mudança deve ser baseada no que é essencial, naquele núcleo que não podemos mudar, porque, como todos os carismas, é um dom de Deus.

– A decisão do Papa Francisco sobre a estrutura do Opus Dei foi uma surpresa?

– O Santo Padre nos avisou com alguma antecedência sobre o motu proprio Ad charisma tuendum. As principais mudanças nesse documento afetam aspectos estruturais e organizacionais, o fato de o prelado não ser bispo, entre outras coisas, mas não tocam a missão ou a substância do Opus Dei. A modificação dos estatutos é uma resposta a esse pedido do Papa. Neste momento, isso está sendo trabalhado com o Dicastério do Clero, em um clima de diálogo e confiança.

– Algumas pessoas se surpreendem com a juventude de algumas vocações do Opus Dei. Por exemplo, os jovens de 16 anos são livres para decidir sua vocação?

A liberdade é um pré-requisito para qualquer vocação. Só é possível ingressar no Opus Dei aos 18 anos, quando se atinge a maioridade. Se alguém acha que tem vocação, pode começar um processo de discernimento antes disso, mas sabendo que ainda não faz parte do Opus Dei e sempre com a permissão expressa de seus pais. Desde o momento do pedido de admissão à Obra até sua incorporação definitiva, há uma série de etapas formativas, que duram pelo menos 6 ou 7 anos. A cada ano, a pessoa deve expressar seu desejo de continuar: não se trata de um processo automático, mas de um processo que exige discernimento e liberdade pessoais de maneira muito profunda.

“As atividades de formação espiritual que o Opus Dei promove entre os jovens, com a participação dos pais, são uma semente para ajudá-los a conhecer e testemunhar sua fé, a amar sua família, a se preparar para serem bons profissionais e cidadãos. A maioria deles descobre que sua vocação está no matrimônio, outros no celibato leigo; talvez outros optem pelo sacerdócio ou pela vida religiosa... Como diz o Papa, ao se dirigir aos jovens, trata-se de 'descobrir-se à luz de Deus e fazer florescer o próprio ser'”.

– O Vaticano agora está pedindo um relatório anual sobre a situação do Opus Dei, e não a cada cinco anos como antes. Isso tem a ver com a necessidade de maior transparência e controle?

– Essa troca de periodicidade é uma consequência da mudança de Dicastério. Agora, o interlocutor imediato do Opus Dei é o Dicastério para o Clero, e nesse dicastério os relatórios são entregues todos os anos, e não a cada cinco anos, como era o caso do Dicastério dos Bispos. Independentemente disso, não há dúvida de que a Igreja, e a Obra como parte dela, está melhorando na maneira como divulga de forma clara e compreensível os dados mais relevantes de sua atividade, bem como suas motivações.

“A transparência, devidamente compreendida e bem aplicada, favorece a confiança, que, como o senhor destaca, foi muito questionada pelos casos de abuso. Nesse sentido, o Opus Dei conta, desde 2013, com um protocolo para a proteção de menores e pessoas vulneráveis, que formaliza medidas prudenciais que estão em vigor na Obra há décadas e incorpora as normas mais recentes da Igreja. Por outro lado, estamos trabalhando na criação de canais especiais de cura e resolução para acolher as pessoas que querem ser ouvidas”.

– Embora em menor grau do que em outras instituições, no Chile também foram levantadas denúncias de abuso por parte de membros do Opus Dei. O senhor expressou seu perdão pelas “faltas e pecados dos membros do Opus Dei”. Quais são essas faltas e pecados?

– As faltas e pecados pessoais são conhecidos por cada um de nós. Ao mesmo tempo, não se pode ignorar que há pessoas que pertenceram ao Opus Dei ou estiveram em contato com a Obra e que foram feridas por modos de agir ou viram quebrada a sua confiança na própria instituição ou naqueles que eram seus líderes. Tendo em conta que o objetivo da Obra é seguir um caminho de santidade e de encontro com Cristo, pensar que há pessoas que não encontraram a felicidade nesse caminho causa-me dor pessoal e é um convite a um exame saudável para detectar as causas, para ver como reparar cada situação, para estudar o que pode ser melhorado etc. As razões para essas feridas podem ser muito variadas. O que mais me causa dor é o fato de que nem sempre soubemos acompanhar bem as pessoas no discernimento de sua vocação, no acompanhamento espiritual ou diante de uma situação familiar ou pessoal difícil.

– Hoje em dia há um grande clamor para dar mais espaço às mulheres, que muitas vezes foram relegadas ao longo da história. Como o Opus Dei vive isso?

– De fato, nas últimas décadas, a mulher vem ampliando seu espaço na vida pública, enriquecendo-a com sua insubstituível contribuição. Na Igreja, seu papel cresceu em todos os níveis, incluindo nomeações para cargos de responsabilidade na cúria do Vaticano, por exemplo. No Opus Dei, as mulheres estão no governo ao lado de São Josemaria e seus sucessores desde o início, e são autônomas em relação aos homens na liderança de seus apostolados. À medida que cresce a presença de mulheres na governança de empresas ou instituições, mais mulheres do Opus Dei, como suas contemporâneas, assumem cargos de responsabilidade, e é bonito ver o alcance que seu serviço pode proporcionar.

– Nosso país está passando por mudanças em matéria religiosa. A pesquisa do Bicentenário da UC mostra uma queda significativa na adesão dos jovens à religião católica. Devemos presumir que os católicos estão se tornando um grupo minoritário?

– Não moro no Chile, portanto não conheço a situação a fundo, mas ousaria dizer que seria um erro ficar entrincheirado, uma reação natural quando alguém se encontra em uma minoria. Pelo contrário, como discípulos de Jesus Cristo, devemos sentir como nossas as aspirações, necessidades e sofrimentos de todas as pessoas e trabalhar lado a lado com elas.

“Depois do furacão causado pela crise dos abusos, por exemplo, muitos católicos tomaram o caminho de acompanhar as pessoas feridas, e a Igreja no Chile colocou em prática medidas de prevenção e promoção de uma atmosfera de confiança e liberdade, que são essenciais para recuperar seu vigor na sociedade, e que são fundamentais para evitar que esses crimes aconteçam novamente. Uma Igreja ferida em seus membros pode transmitir Cristo e tem muito a contribuir: ajudar, colaborar, curar, sem buscar interesses pessoais ou institucionais ou soluções precipitadas. Esse é o caminho que vejo que a Igreja no Chile tomou, o caminho para recuperar a credibilidade e, acima de tudo, para levar a proximidade de Jesus Cristo a muitas e muitas pessoas”.

– A queda de vocações que a Igreja Católica está experimentando também afeta o Opus Dei?

– Nos países mais secularizados, compartilhamos as mesmas dificuldades que o resto da Igreja. Em lugares onde a Igreja está crescendo – estou pensando na Nigéria, no Brasil, nos Estados Unidos – o Opus Dei também está crescendo. Em particular, está aumentando o número de leigos e leigas que, inspirados por São Josemaria, querem buscar a santidade e estão dispostos a formar uma família.

Por outro lado, está diminuindo o número de pessoas que abraçam o celibato, um dom de Deus que hoje talvez seja menos compreendido, embora seja tão enriquecedor para a Igreja. Já há algum tempo, mais de mil membros do Opus Dei falecem a cada ano; mesmo assim, graças a Deus, há um pequeno crescimento no número total, embora em uma realidade eclesial o que importa é a união com Deus e não números ou estruturas.

Semana, Colômbia (17-IX-2024)

— Que espera do Opus Dei nos próximos 50 anos?

Projetado no tempo, gostaria que o Opus Dei fosse propagador de amizade, de fé manifestada em obras, de liberdade de espírito e de criatividade para levar a cabo a missão evangelizadora da Igreja e colaborar na construção de uma sociedade justa.

— Em que consiste o serviço que um membro da Obra – como também é chamado o Opus Dei – pode prestar à Igreja?

A vocação específica dos membros do Opus Dei – que, na sua grande maioria, são leigos, só 2% são sacerdotes – chama a um encontro pessoal com Cristo na família, no trabalho, nas relações sociais, sabendo que a busca da santidade não é para supermulheres nem super-homens, mas para pessoas de carne e osso, com acertos e erros. A “santidade no meio da rua” que São Josemaria pregava impele a procurar soluções dignas para os problemas de cada contexto e de cada tempo.

— Qual é ou deve ser o papel dos leigos na Igreja?

Como o Concílio Vaticano II destacou, é vocação dos leigos dar vida cristã aos assuntos temporais: ou seja, o trabalho, a família, o comércio, a cultura, etc. O seu papel é contribuir para a santificação do mundo, refletindo um pouco o amor de Cristo em cada lugar e circunstância; e é neste ponto que ainda há um longo caminho a percorrer. Penso, por exemplo, na formação dos leigos em bioética ou em justiça social, na sua consciência de ser protagonistas na evangelização. A missão do leigo não se limita a “ocupar postos” em estruturas eclesiais.

— Em 1946, quando São Josemaria pediu a aprovação jurídica do Opus Dei, disseram-lhe que tinha chegado com um século de antecedência. Tendo em que a Obra se aproxima do seu primeiro centenário, acha que a reforma aos seus estatutos, pedida pela Santa Sé, se relaciona com aquela resposta dada ao fundador?

Em 1946, o Opus Dei estava estabelecido em quatro países e hoje em 70. Naquela época, uma mensagem dirigida especialmente aos leigos sobre a busca da santidade no meio do mundo era surpreendente e vista como antecipatória, apesar de estar enraizada no Evangelho. Posso garantir-lhe que a modificação atual dos estatutos solicitada pelo Santo Padre está se realizando, precisamente, com este critério fundamental de se ajustar ao carisma, que hoje é mais compreendido e compartilhado. O direito, tão necessário, sucede à vida, à mensagem encarnada, para dar apoio e continuidade à vida.

— Na sua maioria, os membros do Opus Dei são mulheres, e a maior parte delas casadas. Como dar mais brilho a quem entrega a sua vida a Deus no matrimônio?

O matrimônio é um caminho de santidade: no Opus Dei, todos os membros – casados, solteiros ou celibatários – compartilham uma mesma vocação, missão e responsabilidade. Aspessoas casadas vivem com a consciência de que o seu amor a Deus passa através da sua família, amizades e o trabalho que realizam no mundo. Isto tem um enorme potencial transformador de serviço. Quanto às mulheres, que como refere, são maioria, São Josemaria entendeu que, sem elas, a Obra estava incompleta. Não se entenderia o Opus Dei sem a sua contribuição insubstituível, tal como não se entende a família, o mundo do trabalho ou a vida social sem elas.

— O Papa Francisco descreveu a crise de vocações como uma “hemorragia para a Igreja”. No seu caso, entregou a vida a Deus quando jovem e depois foi ordenado sacerdote. Por que hoje é mais difícil que as pessoas considerem a vocação ao celibato apostólico?

O mundo atual enfrenta o desafio de voltar a acreditar no compromisso; num amor para toda a vida que enche de alegria e de liberdade. Para muitos, o compromisso aparece como um limite, quando na realidade Deus abre sempre horizontes luminosos. Diria que é fundamental recuperar a virtude da esperança.

— “Na Igreja há espaço para todos”, disse o Papa Francisco na Jornada Mundial da Juventude 2023 em Lisboa. O que significa exatamente essa abertura e como pode o Opus Dei transmitir essa mensagem?

O próprio São Paulo afirma que Deus quer que todos se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade. O Papa indicou esta universalidade como um eixo central do seu magistério. São Josemaria falava aos seus filhos espirituais de ter os braços abertos a todos. Em uma época de polarização, divisões e muros, nós, seguidores de Cristo temos um caminho muito claro marcado para recorrer.

— No Opus Dei, há pessoas de todas as idades. Que pode fazer, como Padre e Prelado, para fomentar a cooperação intergeracional na Obra?

Na minha casa, em Roma, convivemos desde uma pessoa de 102 anos até outra que está na casa dos 30. Entre muitas outras cosas, os mais velhos contribuem com a sua experiência, os jovens, com os seus sonhos e vitalidade. Devíamos encarar a vivência intergeracional com afeto, sabendo que às vezes implica sacrifícios pelas duas partes.

— Algumas pessoas do Opus Dei são reconhecidas pelas suas contribuições à sociedade, como colégios, universidades e obras sociais. No entanto, também enfrentam narrativas que se lhes opõem. Por que acha que surgem estas narrativas e como podemos responder a elas?

Às vezes penso que estas narrativas que menciona nos ajudam a nos purificar da tentação de pensar que não precisamos corrigir nada e, ainda mais, de nos sentirmos satisfeitos. Como todos, necessitamos refletir sobre o bem que queremos fazer e sobre o que realizamos efetivamente. O nosso fundador, de fato, advertia de que a Obra devia viver “sem glória humana”.

Por outro lado, é natural que haja visões diferentes, porque há muitos modos de fazer e de entender as coisas. As opiniões contrárias podem ser uma ajuda quando são sinceras; elas nos permitem pedir perdão e nos corrigir. Gostaria de que todos os que se aproximarem dessas atividades pudessem ver que o objetivo delas é semear paz e alegria.

Pessoalmente, fico feliz ao ver que quase todos os dias do ano recebemos algum pedido de admissão no Opus Dei de pessoas que já fizeram parte da Obra, e que por qualquer motivo, se desvincularam. Notícias como estas são uma carícia de Nosso Senhor, que em certo sentido superam certas “narrativas” excessivamente dicotômicas.

— No ano que vem, haverá um Jubileu da Juventude em Roma. Em sua opinião, qual é o maior desafio que os jovens de hoje enfrentam para se aproximar de Deus como um ideal atraente?

Só Cristo é a resposta a todas as questões que os jovens guardam hoje em seus corações e o amor de Deus Pai, quando se abrem a Ele, é capaz de curar as feridas e fragilidades. Talvez sejamos nós, os adultos que temos que nos perguntar se somos capazes de compreender os jovens. Naturalmente, o testemunho de uma vida coerente também é essencial para mostrar a força de atração de uma vida junto de Cristo.

El 9 Nou, Espanha (24-IX-2024)

— O que destacaria dos seus anos de formação na Catalunha?

— Nos anos sessenta, tive uma visão mais ampla de uma Espanha diferente, que era a Catalunha. Foram anos muito importantes para a minha formação. Lembro-me muito bem das aulas no edifício central da Universidade de Barcelona, especialmente do famoso professor Teixidó, que tinha um grande prestígio, mas era um osso duro de roer, como se dizia na época. Ele ensinava uma matemática muito moderna, mas difícil de entender.

— Como você entrou em contato com Vic?

— Tudo começou no Colegio Mayor Monterols, onde conheci muitas pessoas de diferentes lugares da Catalunha e da Espanha. Na época, era um centro de formação apenas para jovens do Opus Dei. Agora está aberto a todos os tipos de estudantes. A partir de Monterols, tive a oportunidade de ir várias vezes a Vic para atender ao trabalho apostólico que estava começando a se desenvolver lá. Isso ocorreu entre os anos de 1964 e 1967. Percebi a importância de Vic dentro da Catalunha e passei a entender o catalão sem problemas. Depois vieram as milícias no acampamento de Talarn: dois verões de três meses e um estágio de quatro meses como alferes também lá, no acampamento.

— Em Roma, em 1971, São Josemaria disse: “Barcelona dará muitos frutos porque sofreu muito”, em alusão aos turbulentos anos 40, marcados pela incompreensão em relação à Obra. Montse Grases, a jovem barcelonesa da Obra que morreu de câncer aos 17 anos, pode se tornar a primeira santa canonizada do Opus Dei?

— Montse Grases foi proclamada venerável em 2016. Para a beatificação, é preciso demonstrar o caráter extraordinário de uma graça obtida por sua intercessão. À postulação e ao site da Obra chegam inúmeros relatos de graças relacionadas à vida cotidiana ou à escolha de vida. Sua devoção é mais difundida entre os jovens. Lembro que em 2022, no 80º aniversário de seu nascimento, um grupo de jovens levou 80 rosas brancas ao seu túmulo, na cripta do oratório de Santa Maria de Bonaigua (em Barcelona), para agradecer os favores recebidos por sua intercessão. Estão sendo estudados alguns casos interessantes, mas ainda estamos nas primeiras fases da compilação da documentação.

Seja ela a primeira santa canonizada ou não, é sem dúvida uma boa intercessora para os apostolados de toda a Igreja com os jovens, na querida cidade de Barcelona, nesta região de Osona onde passava as férias, na Catalunha e em todo o mundo.

— Como o Opus Dei está se preparando para o seu centenário?

— Nos anos que faltam para o centenário, queremos nos perguntar sobre as necessidades e os desafios da Igreja e do mundo. Desejamos também aprofundar a nossa própria identidade, olhando o futuro, e estudar como a Obra poderia contribuir a partir do seu carisma de santificação da vida ordinária. Portanto, nesse período, olharemos para o conjunto (a Igreja e o mundo) e para dentro (a Obra), com a esperança de que os olhares se encontrem em um momento de graça.

Quando penso no centenário do Opus Dei, lembro uma oração que o Bem-aventurado Álvaro dirigia pessoalmente a Deus: “obrigado, perdão, ajuda-me mais”. De certa forma, é um momento para viver esta aspiração também na perspectiva do conjunto.

— Na sua opinião, houve luzes e sombras nestes quase cem anos de história?

— O Opus Dei foi e é um dom do Espírito Santo para a Igreja, como recorda o Papa Francisco na Ad charisma tuendum. Vejo a Obra como uma luz que inspira muitas pessoas a se encontrarem com Jesus Cristo por meio das tarefas cotidianas: trabalho, família, relações sociais. Eu diria que estas são as principais luzes, cujo protagonista é Deus que intervém na história.

Entre essas luzes, gostaria de lembrar tantas pessoas da Obra que passaram por esta terra tentando fazer o bem, com suas virtudes e seus defeitos. Atualmente, morrem anualmente cerca de mil pessoas do Opus Dei. Na maioria dos casos, são pessoas simples, normais e anônimas que tentaram semear paz e alegria ao seu redor, em contextos às vezes difíceis.

Outras vezes são pessoas que foram publicamente apontadas como exemplo para os fiéis, como Guadalupe Ortiz de Landázuri, a primeira fiel leiga do Opus Dei a ser beatificada, uma profissional de química que desenvolveu um amplo apostolado de amizade na Espanha, no México e na Itália. Mais recentemente, o pediatra guatemalteco Ernesto Cofiño, médico e pai de família que a Igreja declarou venerável em dezembro de 2023. Entre outras coisas, desenvolvendo um amplo trabalho de evangelização entre seus familiares, colegas e amigos.

Ao mesmo tempo, a história do Opus Dei também tem sombras e erros, pois é constituída por seres humanos falíveis. As boas intenções não eliminam a possibilidade de erro, e isso deve ser aceito com humildade. Dói particularmente ouvir falar de pessoas que estiveram em contato com a prelazia e foram feridas por alguma falta de caridade ou de justiça, como em casos de falta de apoio emocional, erros nos processos de incorporação, negligência no acompanhamento de pessoas que deixaram o Opus Dei, etc. Devemos aprender com os erros e continuar melhorando, com a ajuda de Deus.

— O que permaneceu igual e o que mudou na Obra ao longo de todo esse tempo?

— O que não mudou foi o núcleo imutável, a mensagem fundamental da santidade no meio do mundo. Ao mesmo tempo, o fundador, ciente da necessidade de manter intacto esse espírito, afirmou que as formas e os modos de agir mudariam com o tempo. Em cem anos, a sociedade e a Igreja evoluíram muito, e o Opus Dei também, pois faz parte da Igreja e da sociedade. Saber mudar – modelando qualquer mudança a partir do essencial – é um requisito para poder permanecer fiel a uma missão. Por diferentes razões, o quadro jurídico, alguns modos apostólicos e muitas outras coisas que podem não ser visíveis, mas são importantes, mudaram nos últimos anos. Por exemplo, houve insistência em uma separação clara entre governo e direção espiritual, foram adotadas medidas para garantir melhor e reforçar a plena liberdade e voluntariedade nos processos de incorporação, foram atualizadas as formas práticas de manifestar a exigência de viver a virtude da pobreza no meio do mundo, etc.

— Quais foram os acontecimentos mais importantes no desenvolvimento institucional do Opus Dei e para onde ele se dirige no século XXI?

— Eu diria que os marcos mais importantes são os menos visíveis: a graça de Deus que atua em milhares de pessoas, que afirmativamente respondem ao seguimento de Jesus Cristo no meio do mundo. Ou tantas histórias de arrependimento, de conversão, que ocorrem em pessoas da Obra e em outras que frequentam seus apostolados.

No âmbito institucional, recordaria a canonização do Fundador, no dia 6 de outubro de 2002. Diante da multidão reunida em Roma, São João Paulo II se referiu a Josemaria Escrivá como “o santo da vida quotidiana”. Essa expressão também serve de guia para o futuro do Opus Dei, sobre o qual se pergunta: o fundamental não são as atividades, as estruturas ou os números, mas ajudar muitas pessoas – com a graça de Deus – a encontrar Deus na rua, na fábrica, no hospital, etc. ou, nas palavras do nosso fundador, “transformar a prosa diária em decassílabos, em poesia heroica”.

— Em que fase se encontra a causa de canonização do Bem-aventurado Álvaro? Foram documentados novos milagres?

— Após sua beatificação em 2014, chegaram à postulação muitas narrativas de favores extraordinários atribuídos à intercessão do Bem-aventurado Álvaro del Portillo. Um deles refere-se a um grave acidente automobilístico ocorrido no México, em 2015. Os médicos que acompanharam o caso consideraram extraordinária a recuperação de um traumatismo cranioencefálico grave sem sequelas neurológicas ou psicológicas. No final do ano passado, a investigação diocesana foi concluída e a documentação está agora sendo estudada pela Santa Sé. Outros casos também estão sendo examinados, entre eles um na Alemanha. Por outro lado, com frequência chegam outros favores mais comuns, relacionados à família, aos amigos, etc. Dom Álvaro era uma pessoa verdadeiramente próxima e é uma alegria ver que muitas famílias recorrem a ele pedindo a ajuda que se pede a um bom pai ou a um bom irmão.

— Qual é a sua agenda de viagens para os próximos meses?

— As viagens mais significativas foram as que fiz neste verão em parte da América do Sul: Chile, Peru, Equador e Colômbia. Trata-se de ajudar, incentivar e dar ideias às pessoas, mas também, ao mesmo tempo, aprender com os outros. Tenho muito presente algo que ouvi de São Josemaria: “Qualquer pessoa pode nos dizer coisas que nos enriquecem muito”.

The Pillar, Estados Unidos (18-XI-2024)

— Um dos principais temas do atual Sínodo sobre a sinodalidade é o papel dos leigos na Igreja; que contribuição o Opus Dei poderia dar a essas reflexões, tendo em conta a centralidade dos leigos em sua mensagem, missão e espiritualidade?

O papel dos leigos na Igreja não é principalmente o de ocupar cargos em suas estruturas, que logicamente serão muito poucos em relação ao conjunto (alguns podem ser necessários). É um assunto que ressurgiu nas conversas sinodais e que está muito presente no carisma do Opus Dei: facilitar que cada fiel leigo – cada homem e mulher que recebeu o batismo – tome consciência da grandeza e da beleza de sua missão. Como aconteceu com os primeiros cristãos, cabe a eles, especialmente hoje, a tarefa de evangelizar o futuro, em união e comunhão com os pastores.

A Igreja não é primordialmente um conjunto de templos ou estruturas, mas pessoas incorporadas a Cristo por meio do batismo. Um leigo ou uma leiga que leva Jesus Cristo em seu coração e em seu modo de vida será uma presença vibrante e aberta da Igreja em seus respectivos bairros e comunidades; entre seus parentes e amigos, entre crentes e não crentes, no mundo do esporte e do entretenimento; nas várias esferas profissionais, sociais, culturais, científicas, políticas e comerciais.

Em sua exortação apostólica Gaudete et exsultate, o Papa Francisco fala da centralidade dos leigos quando nos convida a descobrir a “santidade da porta ao lado, daqueles que vivem perto de nós e são um reflexo da presença de Deus”. Desde seu início, a Obra tenta ir nessa direção: ela nos lembra que pessoas com virtudes e defeitos, como cada um de nós, podem se tornar uma mão estendida por Deus a muitas outras pessoas, mesmo àquelas que talvez nunca entrariam em uma igreja.

Por isso, eu diria que um grande desafio é dedicar muito tempo e cuidado à formação e ao acompanhamento espiritual dos cristãos comuns, verdadeiros apóstolos em seu próprio ambiente. Essa é uma prioridade na vida cotidiana da Igreja que, graças a Deus, está presente em milhares de paróquias e iniciativas.

— Por que essa identidade laical é tão essencial para o Opus Dei como instituição e como caminho espiritual?

É essencial porque é o que Josemaria Escrivá entendeu que Deus lhe pedia: explicar, mostrar, descobrir, recordar... o chamado universal à santidade no meio do mundo e através das realidades cotidianas, como a vida familiar e o trabalho. O fundador iniciou sua atividade para impulsionar a Obra acompanhando estudantes e profissionais, bem como formando grupos, rezando e pedindo orações por eles. Ele também envolveu esses jovens em suas visitas aos pobres e doentes em Madri e organizou retiros espirituais e aulas de formação que, com o mesmo estilo, se espalharam por muitas culturas e nações, entre pessoas de todas as classes e origens.

Cuidar e fazer frutificar esse carisma é o que o Senhor e a Igreja nos pedem: evangelização – como já disse – na família e no trabalho, em meio a uma sociedade que permanentemente apresenta grandes desafios como a guerra, a pobreza, a doença etc. São os fiéis comuns que vivem nessas realidades que podem, em primeiro lugar, dar testemunho de como Cristo se faz presente em suas vidas e como Ele é um impulso para a transformação pessoal e para a transformação de seu ambiente. Para isso, o Opus Dei, como instituição, oferece formação, acompanhamento e uma espiritualidade concreta, adaptada a mulheres e homens com famílias a cuidar, horários de trabalho exigentes, dificuldades econômicas, mudanças de residência etc. Algumas pessoas, ao descobrir esse espírito, sentem um chamado vocacional para difundi-lo com suas vidas.

— Em 1946, quando São Josemaria solicitou pela primeira vez a aprovação canônica do Opus Dei, foi-lhe dito que tinha chegado com um século de antecedência. Com a reforma canônica da Obra em andamento, o senhor acha que essas palavras ainda são verdadeiras?

Em 1946, o Opus Dei estava estabelecido em quatro países e sua mensagem era menos conhecida. Já então era formado por uma minoria de sacerdotes e uma grande maioria de homens e mulheres comuns. Naquela época, a pregação do fundador chocava, pois incentivava os leigos a buscarem a santidade no meio do mundo, a levar o Evangelho a todos os ambientes e profissões.... Sua mensagem parecia antecipatória, embora estivesse totalmente enraizada no Evangelho. Hoje, a Obra trabalha em mais de 70 nações e sua mensagem foi totalmente aceita e difundida pelo Concílio Vaticano II. Ao mesmo tempo, está claro que é difícil para a lei enquadrar novos fenômenos pastorais, e talvez o protagonismo que o Concílio quis dar aos leigos ainda tenha um longo caminho a percorrer. Além desse ponto, o que posso garantir é que a atual modificação dos estatutos solicitada pelo Santo Padre está sendo realizada justamente com o critério fundamental de se adequar ao carisma, que hoje, em muitos lugares, é mais compreendido e compartilhado. O direito, tão necessário, acompanha a vida, a mensagem encarnada, para dar apoio e continuidade à vida.

— A Europa, os Estados Unidos e, em menor medida, a América Latina estão se secularizando rapidamente. O Opus Dei está presente em muitas das maiores e mais secularizadas cidades do mundo. O que o Opus Dei está fazendo para ser uma presença fiel da Igreja no meio dessas sociedades e para evangelizar nesses ambientes?

Em 3 de março de 2017, fui recebido pela primeira vez em audiência pelo Papa Francisco. Naquela reunião, ele fez um pedido muito específico aos fiéis da Prelazia, quando nos encorajou a dar prioridade a uma periferia: as classes médias e o mundo profissional que estão longe de Deus. Sem deixar ninguém de fora, essa prioridade abre um panorama apostólico tão imenso quanto apaixonante, que se encaixa bem no próximo jubileu da esperança.

O Opus Dei esforça-se por estar presente nesses ambientes secularizados, proporcionando uma formação integral através de iniciativas educativas ou assistenciais. No entanto, o mais importante não são essas iniciativas ou estruturas, mas as pessoas que fazem parte dele e as centenas de milhares que participam de seus apostolados: a amizade com Deus que cada membro da Obra procura viver interiormente e difundir em toda a rede de seus relacionamentos. É importante notar que, nos primeiros tempos da Igreja, a evangelização ocorreu em diferentes contextos: alguns com uma tradição profundamente religiosa – como vemos nos Evangelhos – e outros onde isso não acontecia. Essa realidade é uma luz que pode nos dar confiança, pois podemos aprender muito com a maneira como a Igreja vivia naquela época apostólica

Em poucas palavras, e pensando nos dias de hoje, poderíamos dizer que o aspecto essencial da missão do Opus Dei é a amizade e a confidência com cada homem e mulher, usando as palavras de São Josemaria. Colaborar com a graça de Deus para ajudar pessoas e nações a encontrarem Cristo, pessoa a pessoa, um a um. Em todos os lugares, e especialmente onde há maior secularização, precisamos confiar ainda mais na ajuda de Deus e mostrar essa força por meio do próprio modo de vida e de iniciativas variadas. Todo cristão é chamado a tornar visível a atratividade da vida com Deus e em Deus; a Obra procura apoiar aqueles que vivem essa missão.

— Parece que o Opus Dei tem muitos “desafios abertos” incluindo a reforma dos estatutos, a situação de Torreciudad, vários artigos, livros e documentários em que antigos membros falam contra a Obra, e uma investigação judicial sobre as denúncias de 43 ex-numerárias auxiliares na Argentina. Este é o momento mais difícil da história do Opus Dei? Como o Opus Dei lida com as denúncias de antigos membros?

A Obra está se aproximando dos cem anos de história e este é um bom momento para olhar para as origens e fazer um balanço do caminho percorrido até agora. Esta é a melhor maneira de continuar aprendendo corrigir o que precisa ser corrigido, encontrar alegria no presente e planejar o futuro.

Nesse contexto, os “desafios” que o senhor mencionou também são apelos para examinar cuidadosamente até que ponto refletimos bem a beleza desse carisma e, ao mesmo tempo, em que áreas pode ter prevalecido a falta de adaptabilidade para mudar questões não essenciais, que – como o próprio fundador disse – faz parte da vida de todo organismo vivo.

Como mencionei anteriormente, o trabalho sobre os estatutos está progredindo bem e esperamos de todo o coração chegar a uma solução adequada para a diversidade de opiniões sobre Torreciudad, que está nas mãos da Santa Sé.

Cada livro, artigo ou documentário a que você se refere pesa sobre nós na medida em que expressa uma dor ou frustração de alguém. Como o senhor compreenderá, trabalhamos para que não haja motivos para isso, porque desejamos que viver a vocação à Obra seja motivo de felicidade, como, graças a Deus, é para muitos milhares de pessoas. Mas sempre cometeremos erros, porque somos uma instituição formada por seres humanos. Naturalmente, queremos detectá-los a tempo e corrigi-los na medida do possível.

Ao mesmo tempo, as críticas, mesmo quando não correspondem à realidade, podem nos ajudar a descobrir aspectos em que podemos melhorar. Embora possam não ser agradáveis ou justas, às vezes podem tornar-se oportunidades de exame e momentos de amadurecimento interior. Em geral, é sempre importante encarar com serenidade e confiança o que precisa ser melhorado ou corrigido.

Em relação às reivindicações que o senhor menciona na Argentina, foi criada uma comissão de escuta no país. Com a experiência adquirida, criamos um primeiro escritório de cura e resolução para resolver cada possível conflito. Tivemos a satisfação de chegar a acordos com várias pessoas e isso também facilitou oferecer um pedido de perdão pessoal e concreto. Além disso, a escuta ampla permitiu aliviar a dor de pessoas que pertenciam à instituição há algum tempo, ou que buscavam nela acompanhamento e ajuda, mas não haviam encontrado. Após esse trabalho, que está gerando processos de cura, procedimentos semelhantes estão sendo implementados em outros países.

Amamos de todo o coração as pessoas que fizeram parte da Obra e que, por qualquer motivo, se desvincularam. Agradecemos sinceramente todo o bem que fizeram naquela época e que continuam a fazer agora. Além disso, temos grande respeito por cada uma delas, porque em sua decisão de entrar para o Opus Dei havia o desejo de entregar sua vida a Deus. Em inúmeras ocasiões, tive a oportunidade de pedir perdão àqueles que foram feridos, por alguma falta de caridade ou justiça, ou por qualquer outro motivo. Em muitas outras ocasiões, testemunhei sua gratidão pelo tempo passado na Obra e pelo acompanhamento recebido, o que os leva a continuar participando das atividades espirituais e formativas. No último ano, como tive a oportunidade de explicar em outra ocasião, quase todos os dias recebemos algum pedido de admissão no Opus Dei de pessoas que já fizeram parte da Obra: a vida mostra que a realidade tem mais nuances do que poderíamos supor, segundo uma narrativa excessivamente dicotômica ou polarizada.

— Em certos meios de comunicação, especialmente nos Estados Unidos, o Opus Dei é acusado de estar por trás de uma conspiração ultraconservadora para tornar Donald Trump presidente, entre outras coisas. O que o senhor tem a dizer sobre isso?

Não posso lhe dizer muito, porque é simplesmente uma fantasia. No Opus Dei não damos indicações, conselhos ou ordens de natureza política a ninguém: se alguém o fizesse todos nós nos rebelaríamos contra isso. É contrário ao nosso espírito. Há bons católicos que votam em partidos ou candidatos diferentes, de acordo com a sua sensibilidade. Não vou dizer, nem ninguém do Opus Dei vai dizer, em quem votar, quem apoiar ou que causa promover. Também seria inoportuno criar, mesmo indiretamente um clima nas atividades de formação que tomasse como certo que há apenas uma opção legítima para as pessoas no Opus Dei. Amar a liberdade significa amar o pluralismo.

Nos meios de comunicação que menciona, existem hipóteses e teorias de conspiração, que mencionam pelo nome pessoas que, no entanto, não são membros do Opus Dei. Tenho certeza de que são muito bons católicos, mas [esses meios de comunicação] simplesmente manipulam a verdade para tentar envolver uma instituição da Igreja em questões políticas.

Por outro lado, eu gostaria que houvesse uma melhor compreensão da liberdade dos leigos nas esferas política, social e cultural.... Em assuntos públicos, cada cristão tem a responsabilidade de formar sua consciência de acordo com a doutrina social da Igreja, de se informar sobre as propostas de candidatos ou partidos, de refletir sobre a melhor opção para o bem comum e de decidir livremente. Por isso, o trabalho de acompanhamento espiritual realizado pelo Opus Dei evita interferir em suas legítimas escolhas terrenas. O respeito à autonomia dos leigos que participam da política (sejam ou não membros do Opus Dei) é fundamental: seus acertos e erros são responsabilidade deles, não da Igreja. Atribuir ao Opus Dei ou à Igreja como um todo as iniciativas culturais, políticas, econômicas ou sociais de seus fiéis é clericalismo.

Avvenire, Italia (26-VI-2025)

1. No dia 26 de junho, há 50 anos, o fundador do Opus Dei, Josemaria Escrivá, concluía o seu caminho terreno. Qual é o ensinamento que hoje lhe parece mais atual?

A mensagem de São Josemaria mantém hoje uma força especial: o chamamento universal à santidade no trabalho ao serviço da sociedade e na família, pequena igreja doméstica, como gostava de dizer São Paulo VI. Num mundo que tende a separar o sagrado do cotidiano, a sua proposta continua a ser radical e profundamente cristã: todo o trabalho, todo o compromisso familiar, cada pequena alegria ou sofrimento vividos com amor tornam-se ocasião de encontro com Deus. Este apelo à santificação do tempo presente, com realismo e esperança, é mais atual do que nunca.

2. O recente Congresso geral, evento de grande importância para o Opus Dei, coincidiu com os dias em que a Igreja conheceu o novo Papa. Que reflexões lhe vieram desta coincidência de acontecimentos?

Por um lado, houve a dor pela morte do Papa Francisco. Por outro, o sentimento de espera que nos uniu à toda a Igreja em oração e disponibilidade. A coincidência recordou-nos como a nossa identidade laical está profundamente enraizada na Igreja, nossa Mãe. A eleição de um novo Papa é sempre um momento de graça e responsabilidade, que chama cada um de nós a renovar a fidelidade a Cristo através do sucessor de Pedro. Fiquei impressionado com a alegria de tantas pessoas assim que avistaram a fumaça branca, uma hora antes de se saber a identidade do Papa; a festa de já ter um pai comum, quem quer que ele seja.

3. Poucos dias após a eleição do Papa, foi recebido em audiência. O que indica esta prontidão para poder dialogar diretamente com Leão XIV?

Foi um gesto de paternidade, durante o qual o Papa manifestou a sua proximidade e o seu afeto, como verdadeiro pai comum na Igreja. O Santo Padre, entre outras coisas, pediu informações sobre o atual estudo dos Estatutos da Prelazia. Leão XIV ouviu com grande interesse as explicações. Depois fez referência às festividades marianas que coincidiam com o dia da sua eleição. Num clima familiar e de confiança, concedeu a sua bênção a mim e a Mons. Mariano Fazio (o vigário auxiliar do Opus Dei). Foi uma alegria para todas as pessoas do Opus Dei.

4. As primeiras semanas com Leão XIV estão nos revelando um perfil humano e espiritual que a grande maioria da opinião pública não conhecia. O que mais o impressiona no Papa?

Impressiona-me a sua profundidade interior, a sua serenidade e, por assim dizer, a sua naturalidade. Num tempo muitas vezes marcado pela pressa e pelo ruído, o Santo Padre parece guardar um silêncio cheio de Deus, que se reflete na sua forma de falar, ouvir e olhar: atitudes que muito o ajudam no seu desejo de unidade. Sente-se nele uma fé firme e vivida, capaz de gerar esperança, e um sentido de misericórdia para com cada pessoa, como também relatam muitos testemunhos de Chiclayo, a diocese do Peru onde foi bispo até que o Papa Francisco o chamou a residir em Roma.

5. Que compromissos futuros surgiram para a Obra durante os trabalhos do Congresso?

O Congresso respeitou o luto que afetou toda a Igreja com a morte do Papa Francisco. Por esse motivo, os trabalhos foram mais breves do que o previsto. Ainda assim, foram nomeados os membros do Conselho Geral e da Assessoria Central, tal como previsto nestes congressos. E, além do próprio Congresso, houve um intercâmbio entre as pessoas vindas de todo o mundo para Roma sobre as reflexões oferecidas por todos os países onde a Obra está presente, graças às assembleias realizadas em 2024, que contaram com a participação atenta e, diria, entusiasta de milhares de pessoas.

Dessas assembleias surgiu uma grande unidade de propósito no compromisso com a evangelização no mundo do trabalho e um verdadeiro amor pela Igreja. Entre as muitas sugestões recebidas de todos os países, falou-se muito do apostolado do “primeiro anúncio” cristão, cada vez mais necessário num mundo aparentemente mais secularizado, mas no qual se descobre uma grande sede de Deus. São Josemaria definia a Obra como uma “grande catequese” no meio do mundo da vida diária: pedimos a ele luzes para saber levá-la adiante com alegria e generosidade nas circunstâncias atuais

Depois, os membros do Congresso também deram parecer favorável para que o prelado, com os seus novos conselhos, apresentasse à Santa Sé a proposta de Estatutos que considerasse mais oportuna, tendo em conta todas as sugestões já recebidas do Congresso de 2023 e da consulta prévia a todos os membros do Opus Dei. E assim foi feito: uma vez eleito o Papa Leão, no passado dia 11 de junho, apresentei a proposta ao Dicastério para o Clero. O próximo passo está agora nas mãos das autoridades da Santa Sé.

6. Em 2028 celebrarão os cem anos da fundação. Como o Opus Dei está mudando?

A Obra está chamada a mudar, sendo fiel ao seu carisma. Mudam os contextos culturais e sociais, e mudam as pessoas (que são quem encarna a mensagem em cada época), mas a essência permanece: ajudar cada pessoa a descobrir que Deus a chama precisamente onde está. As mudanças que estamos vivendo – também no processo de revisão dos Estatutos – são um impulso para guardar o essencial. Desejamos ser cada vez mais uma ajuda verdadeira, próxima e humilde para todos, na Igreja e na sociedade.

7. O que a Obra está aprendendo com o processo de revisão dos Estatutos iniciado pelo Papa Francisco?

A escuta, com espírito filial e verdadeira disponibilidade, caracterizou estes anos de trabalho, guardando o tesouro que nos deixou São Josemaria e olhando para o futuro. O Papa Francisco convidou-nos a um caminho de renovação, que também nos pede paciência e profundidade. Rever os Estatutos não é apenas um exercício jurídico, mas também espiritual: nos ajuda a nos perguntar o que realmente importa, o que melhor serve às pessoas e à missão. É uma oportunidade para viver mais profundamente a essência evangélica do carisma.

8. Que encontra hoje um jovem no caminho de fé proposto pelo Opus Dei?

A possibilidade de descobrir que a vida cotidiana, com os seus esforços e belezas, pode ser um caminho seguro que nos leva a Deus. Também encontra acompanhamento, um diálogo sincero na amizade, um clima familiar e uma proposta de santidade que não está reservada a poucos “heróis”, mas é para todos. Um convite, como dizia São Josemaria, a ser “cristãos cheios de otimismo e de garra, capazes de viver no mundo a sua aventura divina”, e assim fazer o bem e melhorar a sociedade que os rodeia. No meio das incertezas do nosso tempo, muitos jovens desejam autenticidade, e o Evangelho – vivido no cotidiano – responde profundamente a essa sede.

Die Tagespost, Alemanha (26-VI-2025)

Passaram 50 anos desde o falecimento de São Josemaria Escrivá, fundador do Opus Dei. Para aqueles que tivemos a graça de viver em Roma - na sua própria casa - em 1975, este meio século parece muito breve. Vê-lo deixar este mundo de um dia para o outro — enquanto desenvolvia normalmente sua missão de pastor e fundador — aumentou o impacto de sua morte. Já então percebíamos que o “Padre”, como costumávamos chamá-lo familiarmente, era um apoio sólido na vida e na alegria de muitos católicos de seu tempo.

A partir de um amor apaixonado por Cristo e de uma forte experiência do que significa ser filho de Deus, além da instituição que fundou, ele redescobriu e pregou durante toda a sua vida algumas mensagens hoje amplamente difundidas na Igreja e na sociedade: a busca da santidade – o encontro com Cristo – nas circunstâncias comuns do trabalho, da família e das relações sociais, a amizade pessoal como caminho de convivência e evangelização, o valor da liberdade e do pluralismo, o protagonismo do laicato na missão da Igreja e na vivificação da sociedade contemporânea, entre outras.

Ao avaliar o tempo decorrido, é fácil reparar nas muitas iniciativas educativas e sociais em favor de todo tipo de pessoas que, impulsionadas por seus ensinamentos, se materializaram em todo o mundo. No entanto, eu diria que o efeito mais transcendente do exemplo e da mensagem de São Josemaria é que ele inspirou centenas de milhares de pessoas a se aproximarem de Cristo através das atividades comuns e correntes de cada dia. Reconhece-se nisso uma sintonia com o que o Papa Francisco qualificou como os “santos da porta ao lado”, que exercem uma profunda influência ao seu redor, muitas vezes sem chamar a atenção: com a naturalidade daqueles que estão perto de Deus e irradiam seu amor com generosidade.

Pelas mãos dos papas

Em nosso tempo, o carisma que São Josemaria recebeu de Deus continua se multiplicando em histórias de vida, atitudes, gestos, iniciativas. Para aprofundar o núcleo de sua mensagem a serviço da Igreja, utilizarei como fio condutor algumas considerações feitas pelos últimos papas. Em primeiro lugar, o então Patriarca de Veneza, depois João Paulo I, assinalava: “Escrivá, com o Evangelho, dizia constantemente: Cristo não quer de nós apenas um pouco de bondade, mas muita bondade. Mas quer que a consigamos não através de ações extraordinárias, mas com ações comuns” (Il Gazzettino di Venezia, 25/07/1978).

Desde que São Josemaria começou a difundir sua mensagem em 1928, ele afirmava que, para encontrar Cristo e evangelizar o mundo, não era necessário mudar de lugar, de profissão ou de ambiente, nem realizar ações extraordinárias, mas colocar o amor de Deus nas ações cotidianas. Trata-se, acima de tudo, de uma transformação interior em Cristo, que envolve todo o coração, que enche toda a alma (Mt 22, 37; Lc 10, 27). Como ele gostava de repetir: “na linha do horizonte, meus filhos, parecem unir-se o céu e a terra. Mas não: onde de verdade se juntam é no coração, quando se vive santamente a vida diária…” (Entrevistas, n. 116). Em continuidade com essa ideia, o que é preciso para trilhar esse caminho – nos animava – “não é uma vida cômoda, mas um coração enamorado” (Sulco, n. 795).

Por sua vez, São João Paulo II definiu Josemaria Escrivá, no dia de sua canonização, como o “santo do cotidiano”. Em outra ocasião, acrescentava que ele havia recordado ao mundo contemporâneo “o valor cristão que o trabalho profissional pode adquirir, nas circunstâncias cotidianas de cada um” (14/10/1993).

Um ideal de serviço, um heroísmo possível

Em um mundo sofisticado, em que a interconexão digital e a inteligência artificial impõem anonimamente suas regras no âmbito profissional — como destaca um documento recente da Conferência Episcopal alemã —, a mensagem de São Josemaria nos lembra que esse trabalho é um meio de união com Deus e de ajuda ao próximo, como um lugar onde convergem a caridade e a justiça. Longe da lógica do sucesso, o ideal cristão do trabalho se expressa no serviço aos outros, esse é o melhor parâmetro do exercício profissional de um cristão.

Durante uma missa de ação de graças pela beatificação, o então cardeal Ratzinger (posteriormente Bento XVI) afirmou que “Josemaria Escrivá agiu como um despertador, clamando: (...) a santidade não consiste em certos heroísmos impossíveis de imitar, mas tem mil formas e pode se tornar realidade em qualquer lugar e profissão” (19/05/1992). Santificar as circunstâncias comuns não significa que os defeitos pessoais desaparecerão ou que tudo na vida correrá bem; São Josemaria dizia com frequência que ele desempenhava o papel de filho pródigo muitas vezes ao dia. Isso também faz parte do dia a dia: enfrentar as limitações pessoais e confiar na misericórdia de Deus, evitando que o pecado nos encerre em nós mesmos.

O serviço ao próximo através do próprio ofício se manifesta em um personagem habitualmente despercebido da parábola do bom samaritano: o estalajadeiro. Sua tarefa fica em segundo plano diante do gesto impressionante do viajante caridoso. O estalajadeiro apenas age com profissionalismo. E, no entanto, sua contribuição é fundamental. Ele nos lembra que o exercício de qualquer tarefa profissional é um serviço àqueles que padecem necessidades e que todo trabalho honesto contém, se aprendermos a descobri-la, uma dimensão de caridade.

Um dom recebido projetado para o futuro

Na bula Ad charisma tuendum, o Papa Francisco lembrava que “o dom do Espírito recebido por São Josemaria” impulsiona a realizar “a tarefa de difundir o chamado à santidade no mundo, através da santificação do trabalho e dos compromissos familiares e sociais”. Trata-se de uma mensagem projetada para o futuro e universal: para todas as pessoas, em qualquer lugar e tempo. Todos podemos ser amigos de Deus, porque “a Trindade enamorou-se do homem” (É Cristo que passa, n. 84). E a partir dessa amizade “contribuiremos para a paz, para a colaboração entre os homens, para a justiça, para evitar a guerra, para evitar o isolamento, para evitar o egoísmo nacional e os egoísmos pessoais: porque todos perceberão que fazem parte de toda a grande família humana. (...) Assim contribuiremos para eliminar essa angústia, esse temor por um futuro de rancores fratricidas, e para confirmar nas almas e na sociedade a paz e a concórdia: a tolerância, a compreensão, o relacionamento, o amor” (Carta n. 3, n. 38a).

Cinquenta anos após seu falecimento, a mensagem de São Josemaria está viva em nossos corações e nos convida a servir a Deus, à Igreja e à sociedade. Que saibamos guardar esta mensagem, encarná-la com alegria e colocá-la ao serviço das necessidades dos nossos contemporâneos. Com o Papa Leão XIV, nós, cristãos, desejamos construir “uma Igreja fundada no amor de Deus e sinal de unidade, uma Igreja missionária, que abre os braços ao mundo, que anuncia a Palavra, que se deixa questionar pela história e que se torna fermento de concórdia para a humanidade”.

El Mundo, Espaha (26-VI-2025)

Há um mês e meio, naquela tarde histórica da primavera romana, o recém-eleito Papa Leão XIV transformou a saudação de Cristo ressuscitado nas suas primeiras palavras como pontífice, dirigidas ao mundo inteiro da varanda da Praça de São Pedro: “Que a paz esteja com vocês!”. E, mais adiante, completou: “Gostaria que esta saudação fosse transmitida a todas as famílias, a todos os povos, a toda a Terra”.

A proposta do Papa indica uma trajetória: da paz nos corações à paz em toda a terra. Entre tantas coisas que poderia ter dito, escolheu um anúncio de paz. Entretanto, as manchetes dos jornais continuam a espelhar diariamente a inquietante falta de paz do nosso tempo. Falta paz nas grandes manchetes e entre as grandes potências, mas também nas pequenas mensagens do cotidiano: entre familiares, vizinhos, amigos, colegas. Falta paz também nas consciências, onde muitas vezes reinam o medo, a dúvida, a ansiedade, a preocupação.

Perante este panorama, o desejo de paz apresenta-se, na melhor das hipóteses, como uma utopia; e, na pior, como uma abdicação dos ideais pelos quais deveríamos lutar. Contudo, os cristãos sabem que Cristo é a nossa paz (cf. Ef 2, 14) e que a paz que desejamos é um dom de Deus, que precisamos aprender a acolher e a transmitir.

Hoje, ao completar cinquenta anos do falecimento de São Josemaria Escrivá – fundador do Opus Dei –, vem à memória uma das suas expressões mais recordadas: o convite a sermos “semeadores de paz e de alegria”.

Pode parecer uma frase bonita, mas pouco realista; no entanto, é o testemunho de quem viveu na pele uma guerra civil e as consequências devastadoras de uma guerra mundial. Nesse contexto dramático, São Josemaria procurou ser ponte, não trincheira; união, não divisão. As suas convicções de sacerdote e de cristão levavam-no a viver “de braços abertos para acolher todos: os da direita, os da esquerda, os da frente, os de trás, todos, todos, todos!”. De braços abertos, como Cristo na cruz, que implorou o perdão para os seus algozes e impulsionou na história – como Bento XVI gostava de dizer –a “revolução do amor”.

Assim, quando a violência parece ter a última palavra, quando a agressão surge como a única alternativa, aparece a oportunidade de desafiar a lógica terrena e levantar o olhar para o exemplo de Cristo. “Cristo vai à nossa frente – afirmava Leão XIV no seu primeiro discurso, minutos após ser eleito Papa –. O mundo precisa da sua luz. A humanidade precisa d’Ele como a ponte para ser alcançada por Deus e seu amor”. A paz é um dom de Deus que devemos pedir unidos.

Além disso, todos podemos contribuir para edificar a paz nos corações e nas relações, normalmente com pequenos gestos de pacificação: em nossa casa, no bairro, no local de trabalho. Por sua vez, a paz precisa de assentar numa justiça vivificada pelo amor. Quem se sabe filho de Deus descobre “irmãos” nos outros, como aconselhava São Josemaria: “Cada um de nós renasceu em Cristo, para ser uma nova criatura, um filho de Deus: todos somos irmãos, e temos de comportar-nos fraternalmente!” (Sulco, n. 317).

O anseio universal de paz é também uma urgência cada vez mais visível. Não basta lamentar a violência; todos, cristãos ou não, somos chamados a cultivar, a partir do nosso lugar, um ecossistema de paz: quem tem paz, transmite-a com a sua presença, com a sua forma de reagir perante as pessoas e os acontecimentos. Esta tarefa começa nas pequenas coisas: na linguagem que usamos, nas nossas conversas, nos gestos cotidianos em casa, no trabalho, na universidade ou no espaço digital. Há alguns dias Leão XIV fazia esta reflexão: “A paz não é uma utopia: é um caminho humilde, feito de gestos cotidianos, que entrelaça paciência e coragem, escuta e ação” (17/06/2025).

Neste sentido, quando São João Paulo II canonizou São Josemaria em 2002, chamou-lhe o “santo da vida cotidiana”. Esse título exprime o coração da sua mensagem: Deus encontra-se no cotidiano, e também aí se constrói a paz. Habitualmente, não se trata de realizar feitos heróicos, mas de construir vínculos através da paciência, da amabilidade, do perdão. As guerras da vida cotidiana não começam com bombas, mas com palavras duras, pequenos desprezos, gestos de egoísmo ou indiferença, que vão escalando.

Comentando a bem-aventurança – a alegria – dos que “trabalham pela paz” (Mt 5, 9), o Papa Leão convidava os representantes dos meios de comunicação a considerar que “a forma como comunicamos adquire uma importância fundamental; temos de dizer ‘não’ à guerra das palavras e das imagens” (12/05/2025)

Por isso, o primeiro terreno onde lançar a semente da paz é o nosso próprio coração. Alcançar a paz interior é um desafio particular nestes tempos de ansiedades e medos. Com palavras de São Josemaria: “não há paz em muitos corações que tentam em vão compensar a intranquilidade da alma com o bulício contínuo, com a pequena satisfação de bens que não saciam” (É Cristo que passa, n. 73).

As palavras do apóstolo São Tiago, que exprimem essa tensão entre o bem e o mal que carregamos na nossa natureza humana, têm hoje uma atualidade impressionante: “Onde há ciúmes e rivalidades, aí reinam a desordem e todo o tipo de más ações. Mas a sabedoria que vem do alto é, antes de tudo, pura, depois pacífica, indulgente, conciliadora” (Tg 3, 16-18).

Da paz interior nasce a paz ao nosso redor. Percebemos isso em nós mesmos e, de modo especial, agradecemos quando surge na nossa vida um artífice da paz: essas pessoas que são portadoras de luz, que tecem unidade e concórdia – sintonia dos corações –, que abrem horizontes e contagiam alegria. Evocando o Papa Francisco, são esses “santos da porta ao lado” que constroem a paz da porta ao nosso lado. Essas pessoas inspiram-nos com o seu exemplo de pedagogos da paz.

Muitas vezes, a contribuição que podemos dar para a paz ao nosso redor passa por desenvolver uma atitude de compreensão para com os outros. “A caridade, mais do que em dar, está em compreender” – ensinava São Josemaria. “O espírito de compreensão é expressão da caridade cristã do bom filho de Deus: porque o Senhor quer que estejamos presentes em todos os caminhos retos da terra, para espalhar a semente da fraternidade - não a do joio -, da desculpa, do perdão, da caridade, da paz” (É Cristo que passa, n. 124).

Recordar hoje São Josemaria é também renovar esse compromisso de trabalhar pela paz, sendo “irmãos de todas as criaturas e semeadores de paz e alegria”. A “paz desarmada e desarmante” de Cristo ressuscitado, anunciada por Leão XIV no seu primeiro discurso, bem pode inspirar o nosso dia a dia, não como um ideal abstrato, mas como uma atitude concreta: uma forma de estar no mundo que gere reconciliação, esperança e unidade.