Querer ser filhos, abrir-nos a um lar

No dia 12 de dezembro recordaremos o quinto aniversário do falecimento de Dom Javier Echevarría. Por esta ocasião refletimos sobre a paternidade e a filiação na família do Opus Dei.

Cada vez que um novo sucessor de São Josemaria é eleito e, posteriormente, nomeado pelo Papa, essa pessoa passa de ser filho a ser pai – Padre - desta família sobrenatural. O Espírito Santo opera uma transformação em seu coração. Aconteceu em 1975, ano do falecimento do fundador, em 1994, e em 2017, e continuará a acontecer enquanto a Obra seguir o seu caminho. Quando essa sucessão acontece, cada fiel da Obra também aprende a ser filho de uma maneira nova. Na verdade, é uma oportunidade que se apresenta a nós, diariamente, toda a vida.

Mesmo sendo filho por geração natural ou por vínculos espirituais, essa relação pode permanecer simplesmente como um “fato”, algo que está aí, talvez esquecido, e que a pessoa não escolheu no presente com uma força pessoal. Porque, além desse “fato”, também podemos escolher “viver como filhos”. Da mesma forma, um pai de família vai de simplesmente “saber que é pai” para escolher de verdade “viver como um pai”, e assumir a beleza dessa relação. Aquela escolha supõe não nos contentarmos com “ser filhos”, que já é bastante, mas também “querer ser filhos”, abrindo-nos ao calor de um lar.

O Espírito Santo: escola para ser filhos e para ser Padre

Sem irmos muito longe, São Josemaria teve de aprender a ser pai. “Até o ano de 1933 dava-me uma espécie de vergonha chamar-me ‘Padre’ de toda esta minha gente”, comentou, referindo-se aos primeiros anos que se seguiram à fundação do Opus Dei. “Por isso chamava-lhes quase sempre ‘irmãos’ em vez de ‘filhos’”[1]. No entanto, pôs-se a ouvir o Espírito Santo, e logo pôde vislumbrar em suas expressões aquele sentimento de saudável orgulho pelos seus: “Não posso deixar de levantar a minha alma agradecida ao Senhor, de quem procede toda a família no céu e na terra, por ter me dado essa paternidade espiritual que, com a sua graça, assumi com plena consciência de estar na terra apenas para realizá-la. Por isso amo-os com coração de pai e de mãe”[2].

Muitas vezes o fundador do Opus Dei confessou que, inexplicavelmente, sentia o coração expandir-se cada vez mais, à medida que mais pessoas se aproximavam ao calor desta família. Ao mesmo tempo, era consciente de que ele, pessoalmente, não era imprescindível. Sabia que seríamos bem cuidados quando ele não estivesse mais fisicamente na terra para exercer a sua paternidade: “Meus filhos, amo-os - não me importa dizê-lo, porque não estou exagerando - mais do que os seus pais. E tenho a certeza de que no coração dos que me sucederem encontrarão esse mesmo carinho – eu ia acrescentar que mais até, embora me pareça impossível–, porque terão bem no fundo de suas almas esse espírito de família que informa a Obra inteira. Chamem-nos de Padre, como fazem comigo”[3].

A família é maior do que a parte

A decisão de assumir a paternidade ou assumir uma filiação - querer viver verdadeiramente como pais ou como filhos - implica superar a lógica do isolamento e entrar na lógica da família. São João Paulo II dizia que “Deus, no seu mistério mais íntimo, não é solidão, mas uma família, dado que tem em Si mesmo paternidade, filiação e a essência da família, que é o amor”[4]. Por isso, sempre faz germinar a sua palavra no solo fértil daqueles laços humanos: uma família, um grupo, um povo ... até chegar à comunidade universal que é a Igreja. De Deus Pai, afirma São Paulo, “recebe o nome toda paternidade no céu e na terra” (Ef 3,15).

Diz o ditado africano: “Se você quer ir rápido, vá sozinho, se quiser chegar longe, vá acompanhado”. A família nos dá um olhar mais amplo: nos enriquecemos com muitas outras sensibilidades e perspectivas. No caso da Obra, somos enriquecidos pelos fiéis de todas as latitudes, guiados pelo Padre. O Papa Francisco falou muitas vezes sobre a bela tarefa de conjugar o nosso desejo santo de melhorar o que temos à mão, com a pertença a uma família que se estende além do que conseguimos tocar: “O todo é mais do que a parte, sendo também mais do que a simples soma delas. Portanto, não se deve viver demasiado obcecado por questões limitadas e particulares. É preciso alargar sempre o olhar para reconhecer um bem maior que trará benefícios a todos nós. Mas há que o fazer sem se evadir nem se desenraizar. É necessário mergulhar as raízes na terra fértil e na história do próprio lugar”[5].

À medida que os filhos crescem, ficam entusiasmados quando o pai lhes confia algo importante. Sentir-se valorizado faz parte do processo que leva à vida adulta. E esses atos de confiança tendem a ser cada vez maiores. O pedido nem sempre tem que ser expresso. Quando o filho aprendeu a antecipar as necessidades da família, basta uma insinuação. Tenta compreender a vontade do pai, quer assumi-la como sua, oferece-se para cumpri-la. No caso da família da Obra, podemos receber esses sinais do Padre por meio de suas comunicações frequentes em mensagens e cartas; ter a atenção desperta para detectar as suas preocupações quando participa de reuniões ou entrevistas; procurar reconhecer a sua orientação nas indicações e sugestões que nos envia para toda a Obra e que, de alguma forma, tem prioridade sobre o particular. Os filhos procuram surpreender o pai mostrando-lhe que não só compreendem bem as suas palavras, mas vão mais longe: lembram-se delas em todos os momentos, são impulsionados por elas e as tornam fecundas.

Dificuldades para atuar com o ritmo divino

Olhando para a vida de Cristo entendemos bem que a filiação e a cruz não são incompatíveis, mas justamente o contrário: ambas são marcadas pela promessa da ressurreição. Toda filiação natural e espiritual também tem, de alguma forma, essa dupla dimensão. O seu fundamento é o amor e, portanto, a dor pode estar presente: não para estragar tudo, mas para mostrar até que ponto essa relação é firme, segura, resistente à força dos vaivéns. Ser filho implica estar unido à vontade amorosa de um pai. E não deve surpreender-nos que isso requeira, às vezes, o sofrimento.

Esta atitude não anula as dificuldades que possamos encontrar, nem mesmo nos garante que escolheremos a melhor solução do ponto de vista humano, pois todos podemos errar. O que sabemos é que quem nos guia é o Espírito Santo, e que para Ele não há obstáculo intransponível, nem caminho sem volta. Este dinamismo faz parte de saber-nos inseridos numa lógica sobrenatural, de Deus, com muitas mais dimensões do que somente aquele comprimento e largura que aparecem diante de nossos olhos. Muitos santos agiram com essas coordenadas, às vezes sem muita concordância humana, mas de acordo com o Espírito Santo que toca uma melodia que às vezes não entendemos totalmente. “Para ser um bom dançarino com Deus - dizia uma escritora do século XX, referindo-se à docilidade àquela música divina - não é preciso saber aonde a dança conduz. É necessário seguir em frente, ter alegria, ser leve (...). Não há razão para querer avançar a todo custo, mas aceitar se virar, andar de lado, saber parar e deslizar”[6].

Essa cruz que pode vir junto com qualquer filiação normalmente não será grande e pesada. Não pretendemos suportar todo o peso, mas apenas o que um filho pode carregar. O nosso maior desejo é contribuir, com nossas economias, um grão de areia para o negócio da família.

Uma mensagem velada

Entre os costumes que São Josemaria, por inspiração de Deus, quis que as pessoas do Opus Dei vivessem, estão a oração e a mortificação diárias pelo Prelado. Aos olhos humanos pode parecer pouco, mas, unidos e animados com a caridade de Deus que os impulsiona, tornam-se um poderoso fluxo de graça.

É lógico que os sucessores de São Josemaria tenham sentido o peso daquela bendita carga que Deus colocou sobre os seus ombros. Ao mesmo tempo, é o Espírito Santo quem desempenha verdadeiramente a missão sobrenatural que lhes foi confiada como pastores. O Padre confessava, no final da sua carta de 14 de fevereiro de 2017, poucos dias depois de ter sido nomeado Prelado do Opus Dei pelo Papa: “Filhas e filhos meus, se neste mundo tão belo e ao mesmo tempo tão atormentado, algum se sentir sozinho alguma vez, saiba que o Padre reza por ele e o acompanha de verdade, na Comunhão dos Santos, e que o leva em seu coração. Gosto de recordar, nesse sentido, como a liturgia canta a apresentação do Menino no Templo (...): parecia, diz, que Simeão estivesse segurando Jesus em seus braços. Na realidade era o contrário, (...) era o Menino quem sustentava o ancião e o dirigia. Assim nos segura Deus, ainda que às vezes só consigamos perceber quanto as almas nos pesam”[7].

Por trás dessas palavras, talvez possamos intuir uma mensagem oculta e discreta para cada um. É como se o Padre nos dissesse que somos nós que o apoiamos. Sente o peso de ser o Padre, de ter se tornado guia e pastor deste rebanho, mas fica aliviado ao descobrir que somos nós que o sustentamos com a nossa oração, com o nosso sacrifício e com o nosso impulso na aventura que propõe para nós. Deus se serve de nós para sustentá-lo.

[1] São Josemaria, Anotações íntimas, 28-X-1935. Citado em A.Vázquez de Prada, O Fundador do Opus Dei, volume 1, Quadrante, São Paulo 2004, pg. 508.

[2] São Josemaria, Cartas 11, nº 23.

[3] São Josemaria, Comunicação lida por dom Álvaro del Portillo no início do Congresso Eletivo do primeiro sucessor do Opus Dei, 15/09/1975.

[4] São João Paulo II, Homilia, 28/01/1979.

[5] Francisco, Ex. ap. Evangelii Gaudium, nº 235.

[6]Serva de Deus Madeleine Delbrêl, “El baile de la obediencia”.

[7] Mons. Fernando Ocáriz, Carta Pastoral 14/02/2017, n. 33.

Diego Zalbidea e Andrés Cárdenas M.