Quem diria que eu ia me converter?

“Quem dos meus amigos seria capaz de apostar na minha conversão? Quem na minha família? Nem eles, nem eu.” A história da conversão de Henrique contada em primeira pessoa.

Nasci numa casa socialista, recebi uma educação “soviética” assente na cultura, na música, na literatura e no desporto! Reinava a ditadura do proletariado, como dizia muitas vezes (por piada) a minha mãe: “Eu trabalho, eu mando, vocês obedecem!” Aos domingos, era certo visitarmos um museu, ver uma exposição na Gulbenkian ou no CCB ou em qualquer outro sítio… isto sempre que não havia jogos de hóquei comigo ou competições de patinagem da minha irmã.

Desde cedo que fomos educados para lutar e agir sempre em prol de uma ideia de bem, justa e igualitária. O dia mais celebrado lá em casa é, sem surpresas, o 25 de Abril - dia da Liberdade!

Ao entrar para o 9º ano, segui os passos da minha irmã mais velha e juntei-me à Juventude Comunista Portuguesa. A partir do ano seguinte, a minha atividade política intensifica-se brutalmente, tornei-me uma figura de destaque na escola (incluindo ser presidente da associação de estudantes) e passei a fazer a vida negra a professores e diretores “reaccionários e fascistas”! O facto de ter sido sempre bom aluno e bem-educado permitiu-me terminar o secundário com “cadastro limpo”, apesar das inúmeras ameaças de suspensão que ouvi no gabinete do diretor. Para além disso, vivia intensamente as atividades extracurriculares: jogava hóquei e estudava música!

Mais tarde, na faculdade fui membro da direção da associação de estudantes da faculdade, numa altura em que já pertencia aos quadros da JCP como membro da Direção Nacional e da Comissão Nacional do Ensino Superior.

Até certa altura, o meu conhecimento do cristianismo estava baseado em inúmeros preconceitos. Conhecia apenas uma rapariga católica, que hoje é freira. Mas no dia em que, por força das circunstâncias, me mudei da escola de música, o Conservatório Nacional, para o Instituto Gregoriano, passei a conviver com muitos católicos de famílias católicas praticantes e apostólicas!

Cheguei mesmo a ter uma namorada católica, através de quem fui mudando a minha forma de olhar para a realidade. Não porque os argumentos me servissem! Continuava a considerar um fetichismo, uma superstição antiquada! Mas porque a alegria destes meus amigos era genuína e contagiante. Eu vivia angustiado por querer mudar o mundo, não percebendo que quem tinha de mudar era eu…

Cheguei ao ponto de procurar, em vão, nos textos do magistério da Igreja a demonstração da verdade do famoso anacronismo: Jesus, o primeiro comunista da História! Mas com o Papa Francisco, que tinha sido recentemente eleito, através do seu estilo cativante e da extraordinária “Alegria do Evangelho” que ainda hoje marcam o seu pontificado, fui-me convertendo sem querer...

Quando chegou a hora de ir para a faculdade, decidi fazer provas para me licenciar em teatro e ser ator. Estava totalmente confiante. Mas não fui admitido. E aqui começou a ser posta em causa a minha crença materialista da autossuficiência do ser humano. Como se não bastasse, passados seis meses, a tal namorada católica põe fim à nossa relação…

O desespero imperava!

Na manhã do dia seguinte, no meio de uma angústia inenarrável, de um modo inexplicável (só depois lhe chamei uma extraordinária graça de Deus), sou levado, diria mesmo: puxado!, até à Igreja do Campo Grande. E aí, pela primeira vez, encontro-me sozinho, cara-a-cara, com Jesus. Toda a tristeza foi sugada por Deus presente no Sacrário… Estava a converter-me e não sabia ainda como explicar este misterioso fenómeno! Eu que antes dizia: “Nunca acreditarei em Deus!”, fui obrigado a reconhecer que nunca mais poderia voltar a afirmar que não acredito em Deus...

O longo caminho que percorri a partir daí, apesar de rápido, demorou uma eternidade! Nove meses depois, fui convidado a cantar no casamento da irmã de uma amiga. Conheci então o noivo, e estava longe de imaginar que o noivo viria a ser o padrinho do meu batismo.

Tínhamos ensaios todas as semanas, e em todas as vezes quem me dava boleia eram estes noivos, que estavam a poucos meses de se casar! Eram, e são, do Opus Dei. Conversávamos muito, recebi as sessões de catequese de preparação para o batismo que sistematizaram a doutrina cristã que já tinha recebido entre boleias e almoços.

E foi em julho de 2016 que fui batizado, fui confirmado, e recebi, nas duas espécies, o Santo Corpo e Sangue de Cristo!

É certo que na nossa Igreja existem inúmeras vocações necessárias para a conversão do mundo, e a cada pessoa Deus encaminha para os enquadramentos mais adequados para cada um. No meu caso, teve impacto grande a proposta de São Josemaria.

Recordo-me de ter lido no Caminho o ponto 291: “Tens obrigação de santificar-te. - Tu também. - Quem pensa que este é trabalho exclusivo de sacerdotes e religiosos? A todos, sem exceção, disse o Senhor: «Sede perfeitos, como o meu Pai Celestial é perfeito».”

O dia do meu batismo foi marcante e inesquecível - provavelmente o dia mais feliz da minha vida. – e esse dia existiu e teve tal dimensão para mim também por efeito da fidelidade de S. Josemaria à inspiração fundacional que recebeu e transmitiu. Espero um dia, ao chegar ao Céu, agradecer-lhe por tudo.

Agora tudo segue igual e, ao mesmo tempo, diferente. Ser cantor lírico vai-me fazer andar perto do Belo, que é onde melhor se experimenta a Verdade.

Conto com a ajuda de todos, e de Maria, para ser fiel!