“Posso fazer alguma coisa?”

Que diferença pode uma pessoa realmente fazer para melhorar uma situação tão complexa como a crise global de saúde em que estamos? O exemplo de Joanna, de Singapura, mostra-nos que um pouco de iniciativa pode fazer grande diferença.

Opus Dei - “Posso fazer alguma coisa?”

Em Singapura vivem cerca de 350 000 trabalhadores estrangeiros, vindos principalmente da Índia e do Bangladesh. A maior parte mora em dormitórios espalhados pela cidade-estado, mas os seus espaços são comuns e, quando a Covid-19 começou a difundir-se entre eles, foi difícil contê-la. Os que estavam com saúde tiveram de ficar em quarentena nos seus dormitórios, enquanto unidades médicas móveis foram abertas no local, para que os médicos pudessem testar cada um dos trabalhadores. Os que testaram positivo foram enviados para hospitais e instalações médicas da comunidade. Os dormitórios ficaram em isolamento durante a maior parte de abril e até ao fim de maio, tal como o resto do país.

Nada disto estava nos pensamentos de Joanna quando estava com um grupo de amigos num tempo de oração e reflexão durante uma transmissão ao vivo do Santíssimo Sacramento. A oração de Joanna era simples: “Senhor, o que mais quer que eu faça? Posso ser as suas mãos, os seus olhos, os seus pés…”. Embora na altura não tivesse aparecido nenhuma luz específica, a resposta chegou no dia seguinte, durante uma conversa com o marido, médico num hospital público.

Uma coisa leva à outra

Verificou-se que o hospital, onde o marido de Joanna trabalha, tinha sido encarregado de prestar cuidados médicos móveis a quatro dormitórios de trabalhadores estrangeiros em quarentena, o que quer dizer que mais de 27 000 homens teriam de ser sujeitos a triagem e testados quanto ao vírus. Joanna perguntou de que mais precisariam esses trabalhadores além de cuidados médicos, provisões básicas e acesso a Wi-fi. A resposta foi simples: lanches! Ou pelo menos qualquer coisa que os ajudasse a passar pela longa provação. (Já estavam recebendo três refeições por dia)

Lanches? Isto é algo que uma mãe de seis filhos está bem habituada a preparar, mas para tanta gente? E preparar não só algo para morder e para beber, mas uma coisa mais substancial? Talvez com alguns donativos de amigos conseguisse fazer isso para um dos dormitórios, com 6000 trabalhadores…

Levar amigos e vizinhos a fazer donativos para este projeto foi mais fácil do que Joanna pensava. Muitos estavam desejosos de ajudar de qualquer modo. Quando estava pensando como recolher os donativos, Lynette, uma amiga e organizadora de grandes projetos tais como missões médicas em Camboja, apareceu do nada com uma saudação simpática, e acrescentou: “Se precisar de ajuda em alguma coisa, é só dizer”, Joanna teve certeza de que a mão de Deus estava por trás disto, porque logo que Lynette começou a fazer parte do projeto, envolveu várias outras pessoas que dirigiram facilmente a recolha de fundos, providenciando até contabilidade profissional pro bono. Numa semana, tinham conseguido $40.000. De repente, o projeto tinha levantado voo: agora já podiam mandar lanches a cada um dos residentes dos quatro alojamentos.

O plano consistia em que cada trabalhador recebesse 3 itens: um pacote de 90 gramas de bolachas, um bom pedaço de murukku (lanches indianos) e tâmaras. Na sua maioria, os trabalhadores eram muçulmanos, e a maneira tradicional de quebrar o jejum do Ramadã é com tâmaras. Fornecer estes alimentos trouxe para a frente de batalha outros “anjos”; amigos de amigos puseram Joanna em contato com fornecedores de bolachas, incluindo o dono da Julie Biscuits. Na verdade, Haniffa Pte Ltd coroou o negócio quando cobrou menos de metade do preço de revenda para o murukku e as tâmaras para ajudar nesta aventura.

Desafios logísticos

Como frequentemente acontece com este tipo de iniciativa, surgiram mais desafios. Claro que ninguém podia simplesmente entrar nos dormitórios, agora em quarentena sob rígida supervisão. Porém, a encomenda dos alimentos não podia ser finalizada sem permissão expressa de entrega. Com muita oração, a luz verde chegou finalmente às 10h de uma noite, depois de uma enchente de mails e telefonemas. Embora finalmente pudessem ter acesso aos dormitórios, tinham apenas um total de cinco horas para entregar em bloco os todos os lanches – pré-embalados para distribuição individual. Graças a Deus, o oficial da polícia de serviço coordenou a distribuição final a cada trabalhador com a ajuda de elementos das forças policiais e voluntários dos alojamentos.

Mas os desafios não tinham acabado. Olhando para as embalagens originais dos fornecedores, Joanna percebeu que eles tinham de voltar a embalar alguns dos alimentos. Calculando o tempo necessário para carregamento, trajeto e descarga, concluiu que precisavam alugar os caminhões necessários para fazer a entrega em 3 horas; nem todos os fornecedores tinham caminhões para fornecer simultaneamente os 4 alojamentos nesse período de 3 horas. Nesta altura, apareceram voluntários do Hospital Ng Teng Fong (Departamentos de Apoio à Comunidade e Tecnologia de Informação) para realizar a imensa tarefa de produzir 27 000 embalagens individuais de bolachas dentro da zona de carga do hospital. Após 3 dias refazendo as embalagens para distribuição, as bolachas estavam agora prontas para entrega nos dormitórios.

Quando o dia finalmente chegou, quatro caminhões de 4 metros de largura apareceram no hospital, e todas as mãos disponíveis ajudaram a carregá-los tão depressa quanto possível. Joanna e o marido também levaram o filho Gabriel, de 19 anos, para uma ajuda com mais músculo. Com precisão militar, o caminhão deles e os fornecimentos diretos de Haniffa chegaram a tempo e conseguiram completar a descarga em 3 horas. Os alimentos ficaram empilhados ordenadamente e prontos para distribuição individual no fim de semana. Na última noite, Joanna e o marido terminaram a entrega final ao último alojamento entre as 20 e as 22h. Finalmente, 2,5 toneladas de bolachas, 4,3 toneladas de murukku, e uma tonelada de tâmaras tinham sido distribuídas a mais de 27.000 trabalhadores estrangeiros. Tinham cumprido o prazo!

“Vamos ultrapassar isto juntos! Com o afeto dos Singapurenses”

A distribuição individual a cada trabalhador foi realmente um momento especial. A coordenadora do Ministério do Trabalho, Miss Wei Shi, simpaticamente enviou algumas fotos à medida que os trabalhos se processavam e viam-se mesmo alguns rostos felizes. Cada dormitório recebeu quatro pôsteres desenhados por um amigo, dizendo simplesmente em inglês e em bengali: “Vamos ultrapassar isto juntos! Com 0 afeto dos Singapurenses”.

A generosidade dos doadores deixou um excedente de vários milhares de dólares. Os encarregados dos alojamentos perguntaram se poderiam usar essa quantia para comprar ventoinhas de pé e cafeteiras para ferver água, o que seria particularmente útil para os trabalhadores. E assim a aventura continuou…

Quando perguntaram se teria feito tudo isto se soubesse previamente toda a agitação que iria envolver, Joanna não teve dúvidas: “É claro! O meu sofrimento foi pequeno quando comparado com o medo e a ansiedade que estes trabalhadores devem ter sentido nestes tempos incertos”. Mas estava mais convencida de que tinha sido o próprio Deus que o tinha querido, pois Ele foi abrindo uma porta atrás da outra. Foi um gesto para com estes trabalhadores, para que soubessem que não estavam sozinhos no seu isolamento; que as pessoas deste país, para onde eles tinham vindo trabalhar, não eram indiferentes aos seus medos e preocupações.