O que é a filiação divina
A vida cristã está fundamentada na realidade de que Deus nos ama. É a verdade fundamental que estrutura toda a nossa vida. Ele não nos ama só quando correspondemos a seus pedidos, mas também quando não o fazemos. Quando nos afastamos dele, Ele procura o modo de vir ao nosso encontro para que voltemos.
Chamamos a esta consciência do amor de Deus por nós de sentido da filiação divina: saber que Ele nos ama como um pai ama aos seus filhos e dá a vida por eles. Tal convicção baseia-se numa realidade sobrenatural: a nova relação que Deus Pai estabelece conosco mediante a graça, pela qual nos torna seus filhos em seu Filho Jesus Cristo, ao dar-nos como dom o Espírito Santo.
É um grande mistério. Por esta razão é difícil perceber esta verdade: somos realmente filhos de Deus. Cristo, com sua Paixão e Morte, ganhou-nos este dom incomensurável.
Parece ousadia que nós, pobres pessoas, nos dirijamos a Deus como Pai. Foi o próprio Cristo que nos ensinou a tratá-lo assim e o fazemos cada vez que rezamos o Pai Nosso. Jesus nos ensinou esta oração e com o Batismo tornou-nos partícipes de sua própria vida, a vida da graça: por ela somos filhos adotivos de Deus.
O Catecismo da Igreja assim o explica: “
Aquilo que o homem não pode conceber nem as potências angélicas podem entrever, isto é, a relação pessoal do Filho com o Pai (cfr. Jo 1, 1), eis que o Espírito do Filho nos faz participar nela (nessa relação pessoal), nós, que cremos que Jesus é o Cristo e (cremos) que somos nascidos de Deus (cf. 1 Jo 5,1)” (Catecismo da Igreja Católica, 2780).
Todos temos um conceito, uma certa ideia do que é a paternidade, condicionado em parte pela relação que tivemos com nossos próprios pais. Essa imagem de pai que albergamos em nós pode ser muito positiva, às vezes, porém, poderia também ser deficiente, pelo simples fato de que a relação com nosso pai da terra o foi. Deus, no entanto, é o Pai perfeito, não há nele nenhuma carência, nenhuma distorção, realizam-se nele plenamente as características da paternidade: seu amor infinito, o cuidado por cada pessoa, a providência pela qual dispõe os acontecimentos da melhor forma. O sentido da filiação divina pode então curar em nós qualquer ferida, que um vínculo paterno-filial infeliz tenha deixado em nosso coração.
Meditar com São Josemaria
“[A filiação divina] Pede um autêntico programa de vida interior, que tens de canalizar através das tuas relações de piedade com Deus (...), que te permitirão adquirir os sentimentos e as maneiras de um bom filho”. Amigos de Deus, 150.
“Descansa na filiação divina. Deus é um Pai – o teu Pai! – cheio de ternura, de infinito amor. – Chama-o Pai muitas vezes e diz-lhe, a sós, que o amas, que o amas muitíssimo! Que sentes o orgulho e a força de ser seu filho”. Forja, 331.
“A alegria é consequência necessária da filiação divina, de nos sabermos queridos com predileção pelo nosso Pai Deus que nos acolhe, nos ajuda e nos perdoa. – Lembra-te bem e sempre: mesmo que alguma vez pareça que tudo vem abaixo, nada se desmorona, porque Deus não perde batalhas”. Forja, 332.
“Um filho de Deus não tem medo da vida nem medo da morte, porque o fundamento da sua vida espiritual é o sentido da filiação divina: Deus é meu Pai, pensa, e é o Autor de todo o bem, é toda a Bondade. – Mas tu e eu procedemos, de verdade, como filhos de Deus? Forja, 987.
A filiação como dom
O que poderíamos chamar “sentido da filiação divina” não é algo teórico, não é um conceito conhecido. “É um dom divino, uma imensa graça de Deus destinada a orientar todo o pensar e o querer, o sentir e o agir (...). Mas é um dom que deve ser avivado, como uma brasa, para que leve sua luz e seu calor à conduta do cristão” (Vida cotidiana y santidad en la enseñanza de San Josemaría II, p. 20).
Para São Josemaria, a filiação divina é uma verdade que serve de fundamento para nossa vida. O fundador do Opus Dei tinha sempre na memória as palavras de São Paulo na carta aos Romanos, quando o Apóstolo recorda que não somos servos, mas filhos, que não atuamos por temor, mas que temos o espírito de adoção (cf. Rm 8, 15.27). E porque somos filhos, somos também herdeiros: nossa meta é chegar ao Céu e participar eternamente da vida divina. Esse pode ser o tom de nosso trato com Deus: Ele encomendou-nos uma tarefa que ocupa nossa vida inteira e nos assiste constantemente, nos leva pela mão como um pai ao filho que não sabe ainda andar sozinho. Por isso não temos medo de nada nem de ninguém, nem de nós mesmos, da nossa fraqueza ou das nossas rebeldias: Deus as conhece, conta com elas, e nos ajuda a seguir em frente. Sempre podemos voltar a começar.
Ser filhos de Deus traz o desejo e a vontade de nos tornarmos semelhantes a Ele. Fomos criados à sua imagem e semelhança, queremos que a beleza do Pai impregne a nossa alma (cfr. Catecismo, n. 2784). A experiência da filiação divina se dá também quando aparece o sofrimento, a cruz. É então que se realiza a identificação com Cristo, que sofreu e morreu por nós para cumprir a vontade de seu Pai.
São Josemaria compreende a filiação divina adotiva à luz do mistério da Encarnação. Graças a esta realidade divina todas as tarefas nobres podem ser atividades de um filho de Deus, porque todas foram assumidas por Cristo.
Outra atitude unida à filiação é a humildade e a confiança que nos faz ser como crianças. O próprio Jesus disse que o Pai se revela aos “pequenos” (cfr Mt. 11, 25; cfr Catecismo, n. 2785).
Meditar com São Josemaria
“A filiação divina é o fundamento do espírito do Opus Dei. Todos os homens são filhos de Deus. Mas um filho pode reagir de muitas maneiras diante de seu pai. Temos de esforçar-nos por ser dos que procuram perceber que, ao querer-nos como filhos, o Senhor fez com que vivêssemos em sua casa no meio deste mundo, que fôssemos da sua família, que as suas coisas fossem nossas e as nossas suas, que tivéssemos com Ele essa familiaridade e confiança que nos faz pedir, como uma criança, a própria lua!
Um filho de Deus trata o Senhor como Pai. Não como quem presta um obséquio servil, nem com uma reverência protocolar, de mera cortesia, mas com plena sinceridade e confiança. Deus não se escandaliza dos homens. Deus não se cansa das nossas infidelidades. O nosso Pai do Céu perdoa qualquer ofensa quando o filho volta de novo para Ele, quando se arrepende e pede perdão. Nosso Senhor é de tal modo Pai, que prevê os nossos desejos de sermos perdoados e a eles se antecipa, abrindo-nos os braços com sua graça”. É Cristo que passa, 64
“O Senhor é a minha luz e a minha salvação; a quem temerei? (Sl 26,1). A ninguém: relacionando-nos deste modo com o nosso Pai do Céu, não admitamos medo de e ninguém nem de nada”. Amigos de Deus, n. 95.
Não se pode dizer rigorosamente que haja realidades – boas, nobres ou mesmo indiferentes – que sejam exclusivamente profanas, uma vez que o Verbo de Deus estabeleceu a sua morada entre os filhos dos homens (...), trabalhou com suas mãos, conheceu a amizade e a obediência”. É Cristo que passa, n. 112.
Filiação e entrega aos outros
A consciência da filiação divina, unida a esta confiança em nosso Pai Deus, leva-nos a entregar-nos aos outros e a querer compartilhar este dom com todos os homens, pois já encontramos a razão da nossa existência.
Querer que outras pessoas participem da graça de Deus é parte da filiação, e nos leva a ser mais irmãos dos homens e a desenvolver a capacidade de nos doarmos aos outros sem contar apenas com as nossas forças, e sim com as que derivam de saber que somos filhos de Deus. Porque o sentido da filiação divina conduz-nos a difundir entre as pessoas que nos rodeiam esta realidade, para que elas também vivam animadas por tal confiança. O sentido apostólico autêntico surge da segurança de que o braço de Deus não se encurtou, que Ele está sempre junto de nós.
A confiança que a filiação divina proporciona permite projetar metas altas. De um modo muito belo, Santo Agostinho diz: “O que pode Ele, com efeito, negar à oração de seus filhos, quando já previamente permitiu que fossem seus filhos?” (serm. Dom. 2, 4, 16). No Salmo II, Deus Pai se dirige a Cristo dizendo: “Pede-me e te darei as nações em herança”. Esta confiança em Deus pode aplicar-se a todas as situações da nossa vida: as menores e as mais relevantes. A nova condição que o homem alcança com a graça batismal culminará na glória do Céu, que não é outra coisa senão “a plenitude da filiação divina” (São Josemaria Carta 2/02/1945, n. 8).
Meditar com São Josemaria
“Iesus Christus, Deus Homo, Jesus Cristo Deus-Homem. Uma das magnalia Dei, uma das maravilhas de Deus em que temos que meditar e que temos que agradecer a este Senhor que veio trazer a paz na terra aos homens de boa vontade, a todos os homens que querem unir a sua vontade à Vontade boa de Deus. Não só aos ricos, nem só aos pobres! A todos os homens, a todos os irmãos! Pois irmãos somos todos em Jesus: filhos de Deus, irmãos de Cristo: sua Mãe é nossa Mãe.
Na terra, há apenas uma raça: a raça dos filhos de Deus. Todos devemos falar a mesma língua: a que nosso Pai que está nos Céus nos ensina, a língua dos diálogos de Jesus com seu Pai, a língua que se fala com o coração e com a cabeça, essa que estamos usando agora na nossa oração. É a línguas das almas contemplativas, dos homens que são espirituais por se terem apercebido da sua filiação divina; uma língua que se manifesta em mil moções da vontade, em luzes vivas do entendimento, em afetos do coração, em decisões de retidão de vida, de bem-fazer, de alegria, de paz”. É Cristo que passa, n. 13.
“Frater qui adjuvatur a fratre quasi civitas firma” – O irmão ajudado por seu irmão é tão forte quanto uma cidade amuralhada. – Pensa um pouco e decide-te a viver a fraternidade que sempre te recomendo”. Caminho, 460.
Por isso repito hoje com São João: vede que amor teve o Pai por nós, querendo que nos chamássemos filhos de Deus e que o fôssemos realmente (I Jo III, 1). Filhos de Deus, irmãos do Verbo feito carne, daquele de quem foi dito: nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens (Jo I, 4). Filhos da Luz, irmãos da Luz: é o que nós somos! Portadores da única chama capaz de abrasar os corações feitos de carne. É Cristo que passa, 66.
O dom de piedade
O dom de piedade, um dos sete dons do Espírito Santo, ajuda-nos a tratar a Deus como Pai, a estabelecer esta relação filial de um modo habitual. Concretamente o dom de piedade “dispõe a alma para ser dócil ao impulso do Espírito Santo de tratar filialmente a Deus Pai” (Ernst Burkhadt – Javier López, Vida cotidiana y santidad en la enseñanza de San Josemaría. Estudio de teología espiritual, Vol. 2., Rialp 2011, p. 110). São Paulo diz: “os que são conduzidos pelo Espírito de Deus, estes são filhos de Deus” (Rm 8, 14).
Na filiação divina encontramos também a base para a autêntica liberdade, porque o filho não atua por dever, mas pelo desejo de agradar a seus pais, pela confiança que tem de que o que lhe pedem é bom para ele. O amor, que é o verdadeiro motor da liberdade, expressa-se no desejo de viver de acordo com a vontade de Deus, de fazer dos ensinamentos de Cristo parte da própria vida e de receber docilmente as inspirações do Espírito Santo.
A filiação divina também é, finalmente, o fundamento da nossa alegria. O que mais pode entristecer uma pessoa é a solidão. Podemos sentir-nos às vezes sozinhos no trabalho, em nossa família, mas se pensarmos bem, em todas essas situações estamos acompanhados pelo Senhor. Saber que contamos sempre com Ele constitui a maior fonte de confiança, serenidade e alegria.
Como dilatar este fundamento de nossa vida espiritual? Podemos pedir a graça de que esta confiança de filhos aumente, mas está também ao nosso alcance cultivar o trato com Deus, apoiar-nos nele, confiar nele em absolutamente tudo. Desconfiar um pouco de nós mesmos, de nossa opinião, de nossas forças. Que o prato da balança de Deus pese muito mais que o nosso. Perceber e valorizar tanta ajuda divina que tivemos em nossa vida e que Deus nos dá cada dia. Coisas muito pequenas, às vezes, mas que refletem o seu carinho de Pai por nós.
Meditar com São Josemaria
“Esta luta do filho de Deus não anda de mãos dadas com renúncias tristes, com resignações sombrias, com privações de alegria: é a reação do apaixonado que, enquanto trabalha e enquanto descansa, enquanto se rejubila e enquanto padece, põe o seu pensamento na pessoa amada e por ela enfrenta com todo o gosto os problemas mais diversos. Além disso, no nosso caso, como Deus – insisto – não perde batalhas, nós, com Ele, nos chamaremos vencedores”. Amigos de Deus, 219.
“Conta o Evangelista São Lucas que Jesus estava orando... Como seria a oração de Jesus! Contempla devagar essa realidade: os discípulos têm intimidade com Jesus e, nessas conversas o Senhor ensina-lhes - também com as obras – como hão de rezar, e o grande portento da misericórdia divina: que somos filhos de Deus e que podemos dirigir-nos a Ele como um filho fala com seu Pai”. Forja, 71.
“A vida de oração e de penitência, e a consideração da nossa filiação divina, transformam-nos em cristãos profundamente piedosos, como crianças diante de Deus. A piedade é a virtude dos filhos, e, para que o filho possa confiar-se aos braços de seu pai, deve ser e sentir-se pequeno, necessitado. Tenho meditado com frequência nesta vida de infância espiritual que não se contrapõe à fortaleza porque exige uma vontade enérgica, uma maturidade bem temperada, um caráter firme e aberto”. É Cristo que passa, 10.
“Porque Maria é Mãe, a sua devoção nos ensina a ser filhos: a amar deveras, sem medida; a ser simples, sem essas complicações que nascem do egoísmo de pensar só em nós; a estar alegres, sabendo que nada pode destruir a nossa esperança”. É Cristo que passa, 143.