Mons. Ocáriz ao Avvenire: Jesus está realmente presente nas pessoas

Apresentamos a entrevista com o prelado do Opus Dei, Mons. Fernando Ocáriz, publicada no jornal italiano “Avvenire” no dia 12 de dezembro de 2021.

Todo cristão deve procurar a amizade com Cristo, para poder amá-lo mais. Acontece o mesmo no namoro: é preciso conviver porque se duas pessoas não se encontram, não podem chegar a amar-se. E “a nossa vida é vida de Amor”. Esta é uma expressão típica de São Josemaria Escrivá, que a incluiu entre os 1055 pontos de Forja, um pequeno volume de breves pensamentos para oração pessoal que faz parte, com Caminho e Sulco, da trilogia que tornou o fundador do Opus Dei um clássico da espiritualidade laical contemporânea, precursor do Concílio com a chamada universal à santidade que ele “viu” a 2 de outubro de 1928, em Madri.

Seguindo os seus ensinamentos, Mons. Fernando Ocáriz – um espanhol, embora nascido na França, 77 anos de idade, desde 2017 o terceiro sucessor de Escrivá à frente da que desde 1982 é uma prelazia pessoal – imprimiu as suas notas de oração diária em páginas que, muito tempo depois de escritas as primeiras linhas pessoais, nos chegaram agora numa versão editorial (“À luz do Evangelho”. Textos breves para meditação), incisiva e intensa.

A forma manteve intacta a brevidade tão característica da natureza sóbria do autor que nos lembra de forma muito próxima o estilo essencial dos pontos de meditação escritos por Escrivá nos seus três livros mais famosos. A entrevista exclusiva que concedeu ao Avvenire ocorreu alguns dias após a audiência privada com o Papa, no dia 29 de novembro: meia hora com Francisco, juntamente com o vigário auxiliar da prelazia, o argentino Mons. Mariano Fazio, para informar o Pontífice das iniciativas apostólicas do Opus Dei em todo o mundo, de escolas a hospitais, das inúmeras iniciativas para jovens e famílias aos centros profissionais, tendo a formação cristã como o eixo da prelazia, da qual está em curso uma simplificação organizativa a todos os níveis (um dos temas do encontro no Vaticano).

Mons. Ocáriz, a espiritualidade do Opus Dei consiste em descobrir – e ajudar os outros a descobrir – os “caminhos divinos da terra”, como disse São Josemaria Escrivá. Na sociedade de hoje, por onde passam estes caminhos?

Todos os caminhos, as estradas da terra, são divinos, na medida em que os descobrimos como caminhos que nos conduzem ao Senhor. Se contemplarmos este mundo com os olhos de quem se sabe filho de um Pai amoroso, que nos colocou aqui para O amar e para amar os outros, para semear a paz e a alegria, então a vida normal assume uma tonalidade completamente diferente. A nossa existência torna-se uma aventura de amor: podemos encontrar Deus no meio das coisas mais comuns.

No Evangelho, há muitas referências a “caminhos”. Penso naquele que ia de Jerusalém a Jericó. O Bom Samaritano descobriu Deus no pobre homem que jazia à beira do caminho. Todos podemos descobrir o Senhor no rosto dos outros, nos deveres familiares e sociais, ao fazermos as coisas pequenas, se as fizermos com amor.

No livro, partilha com os leitores as suas notas pessoais para oração e pregação, recolhidas desde 1977. Porque decidiu publicá-las?

Aceitei o pedido da editora para dar a algumas destas notas uma forma mais “sistemática” com o desejo de que, com a ajuda de Deus, pudessem encorajar os leitores a procurar o contato direto com Jesus, partindo da contemplação e da oração que, como São Josemaria disse no Caminho, “nunca é um monólogo”.

Como conquistar intimidade com as palavras de Jesus? O seu livro é um convite ao diálogo pessoal...

É certamente útil procurar ler o Evangelho com amor. Mesmo se lemos apenas algumas palavras, elas são um presente de Deus, é a forma que Ele escolheu para ficar perto de nós e continuar a falar conosco. Então, em conjunto com o amor, é bom que haja também uma certa continuidade tal como nas relações humanas: a amizade cresce através da familiaridade com os outros. Lembro-me de um artigo que o então Cardeal Ratzinger publicou por ocasião da canonização de São Josemaria. O futuro Bento XVI escreveu que a santidade consiste em “falar com Deus como se fala com um amigo”. A leitura do Evangelho com amor e perseverança permite-nos tornarmo-nos amigos do Senhor.

Como pode o Evangelho inspirar os cristãos leigos de hoje que estão absorvidos numa vida que é frequentemente tão exigente que mal conseguem respirar?

É precisamente o Evangelho que nos pode dar alento, que nos pode ensinar a viver com a paz de Cristo no meio de uma vida tão exigente. Cultivando a amizade com Jesus, podemos aprender a viver o presente com amor, amando a realidade que o Senhor nos dá. Não há situação humana que não possa ser iluminada pela amizade de Jesus que é possível cultivar por meio do Evangelho. Além disso, as pessoas encontram sempre tempo para as coisas que lhes interessam. Se estivermos verdadeiramente interessados na nossa vida espiritual, encontraremos o espaço necessário para uma leitura pausada e contemplativa, da qual poderemos retirar a força para enfrentar os desafios de cada dia com paz e serenidade.

A sua meditação é sempre centrada na pessoa de Jesus: como podemos encontrá-Lo na vida cotidiana?

Às vezes, antes de começar a trabalhar, São Josemaria dizia ao Senhor: “Jesus, vamos fazer isto juntos”. Este é um belo ato de fé que nos permite perceber que Ele está realmente ao nosso lado. E tão simples... Além disso, podemos também ter momentos ao longo do dia dedicados ao diálogo com Jesus. E também o podemos encontrar nas pessoas com quem entramos em contato por razões familiares, de trabalho ou outras. Isto não é simplesmente uma técnica para fazer o bem: o próprio Jesus nos disse que está verdadeiramente presente nas pessoas que nos rodeiam. Assim, teremos os nossos corações abertos às necessidades dos outros. No final, e com a graça de Deus, é possível transformar o dia em um diálogo com o Senhor.

A “santidade no meio do mundo”, tão característica da mensagem do Opus Dei, pode parecer quase uma pretensão, um propósito nobre, mas algo exagerado. Será realmente possível?

É possível, e há o exemplo de tantos santos leigos dos séculos XX e XXI. Para a procurar, é necessário conhecer, pelo menos em certa medida, a dinâmica do tempo em que vivemos, as potencialidades, os limites e as injustiças, mesmo que graves, que a atormentam. Acima de tudo, porém, é necessária a nossa união pessoal com Jesus, deixando-O amar-nos nos sacramentos e na oração. Esta “pretensão” é já patrimônio de toda a Igreja. São Paulo VI disse que a mensagem central do Concílio Vaticano II é o chamado universal à santidade. O Papa Francisco dedicou recentemente uma exortação apostólica, Gaudete et exsultate, precisamente à chamada dos leigos à santidade no mundo contemporâneo.

Os jovens (mas também os adultos...) estão imersos num clima cultural que parece equiparar todas as escolhas. Como podemos ajudá-los, hoje, a descobrir os valores cristãos que dão à vida o seu fundamento?

Mais do que de “valores cristãos”, prefiro falar da pessoa de Jesus como o fundamento da vida dos jovens... e, obviamente, de todos. O cristianismo não é principalmente um conjunto de princípios morais, nem um sistema de valores. Trata-se primeiro que tudo de se apaixonar por Jesus, Caminho, Verdade e Vida. Todos nós – jovens e velhos – queremos ser felizes. Todas as escolhas que fazemos, afinal, são explicadas pela ideia de que nos farão felizes e de que podem contribuir para a felicidade dos outros (família, amigos...). Muitas vezes cometemos erros, mas podemos sempre voltar ao caminho certo. Descobrir que Jesus sacia todos os desejos de felicidade é o grande desafio dos cristãos. Mostrar, com as nossas vidas e as nossas palavras, que Jesus é o único que pode saciar a sede de bondade, verdade e beleza que todos – e os jovens em particular – sentem nos seus corações. Trata-se de um belo desafio pastoral.

Neste tempo de recuperação difícil e incerta, em muitas paróquias, assiste-se a uma contração das presenças, uma das consequências da pandemia. Como podemos trazer aqueles que, por alguma razão, têm dificuldade em “voltar”?

O Papa Francisco indicou várias vezes que precisamos de comunidades onde as pessoas se amem e se convertam através da atração, e não através de planos organizados. Um aspecto fundamental da atratividade é cuidar da unidade, ou seja, o de ter “um só coração e uma só alma”.

Como consequência do amor, esta unidade chama-se comunhão e é de fato atraente, também porque é uma unidade na diversidade. Por outro lado, trata-se de fomentar a verdadeira amizade pedindo a Jesus que sejamos capazes de olhar para todas as pessoas com o seu olhar amoroso.

Francesco Ognibene

Tradução do original publicado no jornal Avvenire, onde a entrevista pode ser lida em italiano.

Francesco Ognibene Articolo originale pubblicato su Avvenire