Às vésperas de um momento histórico, o Opus Dei se prepara para celebrar seu primeiro centenário com o olhar no futuro e os pés firmemente enraizados no cotidiano. Nesta entrevista exclusiva, Claudio Caruso conversa com o prelado da Obra, Mons. Fernando Ocáriz, em um diálogo profundo que aborda os desafios da família contemporânea, o verdadeiro impacto da instituição em seus primeiros cem anos de vida e a vitalidade da Igreja em continentes como a África.
Com uma proximidade calorosa e uma visão claramente sobrenatural, Mons. Fernando também analisa o profundo significado da próxima e histórica visita do Papa Leão à Espanha, com o lema “Levantai os olhos” (Jo 4,35). Uma conversa imprescindível para compreender como a mensagem de São Josemaria — encontrar Deus no trabalho, no descanso e nas relações cotidianas — continua sendo uma resposta vibrante e transformadora para os desafios da sociedade atual.
“O que mais desejo para os próximos anos é que a Obra seja uma grande catequese para ajudar a tornar a santidade uma realidade na vida cotidiana”.
São Josemaria nasceu em uma família praticante. Começou seu apostolado junto aos jovens, muitos deles provenientes de famílias católicas. No entanto, ao longo de sua vida, a Obra se desenvolveu em outros países, onde a realidade era diferente. Ele falava até mesmo do apostolado “ad fidem”. O que o senhor considera fundamental no apostolado em ambientes onde a família não contribui para a fé e está desestruturada? Nesse sentido, como se poderia promover na sociedade as famílias como “lares luminosos e alegres”, como dizia São Josemaria?
Desde o início, São Josemaria deu grande importância à amizade como um meio privilegiado de evangelização, pois é por meio dela que compartilhamos o Evangelho de coração a coração. Nesses laços de amizade, a fé se expande para as famílias, os colegas, os vizinhos... e abre novos horizontes para cada um. Ele imaginava os primeiros cristãos agindo assim, demonstrando com naturalidade sua amizade com Cristo por meio de uma alegria contagiante. E isso continua válido. O encontro com Jesus lança as bases para a construção do próprio projeto de vida: ajuda a acreditar no amor para sempre, leva a reconhecer os filhos como uma bênção e dá forças para cuidar dos idosos e dos doentes. As famílias cristãs também são chamadas a ajudar muitas outras famílias.
São Josemaria dizia que a Obra existe para servir à Igreja. Qual considera que foi o principal serviço que a Obra prestou à Igreja nestes primeiros cem anos?
A principal contribuição do Opus Dei está ligada à essência do espírito que Deus quis difundir por meio da Obra, desde 1928: uma multidão de pessoas que querem amar a Deus em seu dia a dia, buscando formas de fazer com que o Evangelho confira sentido ao seu trabalho e ao seu descanso, às suas relações familiares e profissionais, contribuindo para humanizar e cristianizar a vida cotidiana, com seus sofrimentos, alegrias e desafios, transformando o trabalho cotidiano em um serviço generoso, uma sementeira de paz e alegria cristãs em todos os ambientes.
Seria mais fácil abordar essa questão a partir dos projetos institucionais e destacar a inspiração que a mensagem do Opus Dei proporcionou a tantas iniciativas educacionais, formativas, solidárias e assistenciais em muitos lugares do mundo. Há diversos exemplos, como o Strathmore College, no Quênia, a primeira escola interracial da África, fundada em 1961 e impulsionada pelo espírito de São Josemaria; centros de formação profissional na América do Sul, uma escola de administração no México ou uma residência universitária na Espanha. Estando em Roma, é conhecido o trabalho da Universidade Pontifícia da Santa Cruz, um centro de estudos eclesiásticos que formou estudantes de 129 países provenientes de mais de 1.200 dioceses.
No entanto, sem desmerecer isso, fiquei muito grato ao constatar, mais uma vez – depois de ouvir mais de 50.000 vozes de 70 países – que o modo mais fiel de servir à Igreja a partir do nosso espírito é nos identificarmos tanto com Cristo a ponto de termos os mesmos sentimentos que Ele, para não sermos indiferentes aos desafios do nosso mundo e dedicarmos a nossa vida a dar resposta às aspirações e necessidades de todos.
Os cem anos da Obra são um momento de ação de graças, de reflexão e de olhar para o futuro. Como vê a Obra nos próximos anos?
Meu desejo para os próximos anos é que o centenário da fundação do Opus Dei seja uma ocasião para que todos se renovem interiormente e, a partir dessa renovação interior – que envolve reconhecer e corrigir os erros –, possamos servir melhor a Deus, à Igreja e a todas as pessoas, inspirando a transformação do mundo segundo o coração de Cristo. Que haja pessoas do Opus Dei que ajudem a formar famílias unidas porque souberam pedir perdão mutuamente. Que haja jornalistas que digam a verdade, professores comprometidos em ensinar com humildade e coragem; idosos alegres e jovens solidários; casais que inspirem seus filhos na fé; doentes que suportem suas dores com serenidade; médicos que tratem seus pacientes com humanidade, e engenheiros que invistam suas melhores habilidades na solução dos problemas dos mais vulneráveis, mesmo que não seja o negócio mais lucrativo. Este é o meu maior desejo para os próximos anos: que a Obra seja uma grande catequese para ajudar a tornar a santidade uma realidade na vida cotidiana e contribuir para que “o amor e a liberdade de Cristo presidam a todas as manifestações da vida moderna” (São Josemaria, Sulco, n. 302).
O Papa realizou uma viagem de dez dias à África, passando por vários países. Quais foram, para o senhor, os temas principais dessa visita?
A intensa viagem apostólica de dez dias pela Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial foi uma manifestação eloquente da solicitude do Papa e da Igreja por toda a humanidade, especialmente pelo continente africano, uma terra de grandes esperanças e desafios. Ao mesmo tempo, é uma oportunidade para renovar a gratidão, o afeto filial e a oração constante pelos frutos do pontificado. Em cada viagem, o Santo Padre é uma testemunha do Evangelho e da proximidade de Deus com as pessoas que o recebem. Ele reiterou sua mensagem de paz e reconciliação como resposta cristã aos conflitos. Sua peregrinação à terra de Santo Agostinho nos revela a sua própria identidade como filho espiritual do santo de Hipona e nos convida a buscar em Jesus Cristo as respostas para nossas inquietações existenciais. As celebrações litúrgicas alegres e com a presença de multidões – como a comovente missa de encerramento em Malabo – demonstram que a Igreja na África transborda vitalidade. O Papa lembrou a todos que este continente é um autêntico pulmão espiritual e um tesouro de fé para o mundo inteiro.
E o que a Obra espera dos apostolados nesse continente?
A resposta breve é que esperamos muito, tanto em projetos de formação quanto na fidelidade pessoal a Jesus Cristo. Embora os dois aspectos sejam importantes, no Opus Dei damos importância primordial à espontaneidade apostólica de cada um, à sua iniciativa livre e responsável, guiada pelo Espírito Santo.
São Josemaria amava profundamente a África, com sua grande variedade de culturas e povos, e vislumbrava o bem imenso que seus homens e mulheres trariam para a sociedade e para a edificação da Igreja. Ele nos convidava frequentemente a sonhar com grandes ideais. O que mais me entusiasma na missão do Opus Dei na África é a vida dos africanos que vivem o espírito da Obra. O Opus Dei não está na África como algo externo, mas há quase 70 anos há africanos de vários países que vivem o espírito do Opus Dei, com seu próprio estilo, em sua própria realidade. O Opus Dei é africano porque é católico, universal, assim como a mensagem do Evangelho. E já podemos ver como o Opus Dei se desenvolve da África para outros lugares do mundo, levando um testemunho vibrante de fé e alegria.
No próximo mês de junho, o Papa Leão visitará pela primeira vez a Espanha. Como o senhor acha que devemos nos preparar para esse evento no país de nascimento da Obra?
O lema da viagem – “Levantai os olhos” – é um convite a olhar para a nossa realidade indo além da lógica humana e entrando nessa visão sobrenatural que nos é dada pelo amor de Deus. Ao nos aproximarmos de Cristo presente nos necessitados, com gestos e obras de misericórdia, preparamos o coração para receber Jesus neles: “Tudo o que fizestes aos meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes” (Mt 25,40).
São Josemaria chamava o Papa, evocando Santa Catarina de Sena, de “doce Cristo na terra”. Outra maneira fundamental de preparação para receber a visita do Santo Padre é rezando por sua pessoa e pelos frutos da viagem, para que os corações de todos estejam abertos para ouvir suas palavras, recebê-las com devoção e, depois, fazer com que cheguem a todos os ambientes da sociedade. A fé cristã tem grandes implicações sociais e isso costuma estar presente em uma viagem de um Romano Pontífice, que também é uma viagem de Estado. No entanto, o mais importante, o essencial, é que o Papa nos ajuda a encontrar Jesus Cristo. Somente em Jesus Cristo e com Jesus Cristo a vida tem sentido e os desafios da humanidade podem ser encarados com esperança.

