É TÃO grande a multidão que começou a seguir Jesus, que Ele é forçado a usar a sua criatividade para que suas palavras possam chegar aos ouvidos de todos. Decide então subir a uma barca e dali falar à multidão. Entre muitas outras parábolas insiste especialmente em descrever as condições para que as sementes possam dar frutos. Trata-se de uma imagem com a qual o Senhor quer nos fazer refletir sobre a nossa disposição de receber sua mensagem e que, portanto, incita à sinceridade conosco mesmos.
“Os que estão à beira do caminho são aqueles nos quais a Palavra foi semeada; logo que a escutam, chega Satanás e tira a Palavra que neles foi semeada” (Mc 4, 15). O ensinamento de Cristo se dirige à pessoa inteira. Não se refere só a certos aspectos da vida, mas interpela todo o nosso ser e, portanto, requer uma adesão plena, pois o que ela busca é nossa felicidade na terra e no céu. Pode ser que hoje em dia, ao receber tantas notícias e estímulos, nos comportemos como caminhantes curiosos. Ouvimos informações diversas sem tempo para avaliá-las com pausa e sem discernir muito o que permitimos que entre em nosso coração. Assim, podemos ter dificuldade para perceber claramente o que pode ser relevante para nossa vida e o que é apenas superficial.
A semente da Palavra “já está presente em nosso coração, fazê-la, porém, frutificar depende de nós, depende da acolhida que dermos a esta semente. Muitas vezes estamos distraídos por excessivos interesses, por excessivas propagandas, e é difícil distinguir entre tantas vozes e tantas palavras, a do Senhor, a única que torna livre”[1]. Jesus convida-nos a deixar que sua Palavra toque nossa mente e nosso coração. É assim que ela poderá arraigar e crescer, e será mais difícil que o demônio a leve embora. “A fé não proporciona apenas alguma informação sobre a identidade de Cristo, mas implica uma relação pessoal com Ele, a adesão de toda a pessoa, com sua inteligência, vontade e sentimentos, à manifestação pessoal que Deus faz de si mesmo”[2].
“OS QUE receberam a semente em terreno pedregoso, são aqueles que ouvem a Palavra e logo a recebem com alegria, mas não têm raiz em si mesmos, são inconstantes; quando chega uma tribulação ou perseguição, por causa da Palavra, logo desistem” (Mc 4,16-17). A alegria é um sinal de que as coisas que ouvimos encontram ressonância em nosso coração. Toda notícia boa traz alguma alegria. Jesus, no entanto, convida-nos a refletir sobre a profundidade de nossa felicidade. Neste mundo, tudo o que vale a pena custa, e muitas vezes, as prioridades profundas de nosso coração mostram-se no sacrifício.
Isto não quer dizer que a vida cristã consiste em acumular sofrimento na terra para poder gozar depois na eternidade. “A felicidade do céu – escreveu São Josemaria - é para os que sabem ser felizes na terra”[3]. A proposta de Jesus compreende antes desejar aqueles ideais que dão um rumo à nossa vida e que nos preenchem por completo, e a manifestar esses desejos em nossa conduta. Ele sabe que há algumas alegrias mais fáceis de conquistar, mas que são superficiais, e outras que requerem um maior esforço interior porque são mais profundas. Em geral custa mais sorrir quando estamos de mau humor custa mais do que sentir prazer por um prato favorito, porém pode proporcionar uma felicidade mais duradoura porque o bem que procuramos é muito mais ambicioso: o desejo de que as circunstâncias externas ou internas não nos impeçam de ser semeadores de paz e alegria.
Finalmente, como dizia o fundador do Opus Dei, a verdadeira felicidade não depende tanto de acumular vivências intensas ou prazeres imediatos, e sim da disposição interior de sentir-se sempre acompanhado por Deus: “Estás passando uns dias de alvoroço, com a alma inundada de sol e de cor. E, coisa estranha, os motivos da tua felicidade são os mesmos que em outras ocasiões te desanimavam! É o que acontece sempre: tudo depende do ponto de mira. – ‘Laetetur cor quaerentium Dominum!’ – Quando se procura o Senhor, o coração transborda sempre de alegria”[4].
“OUTROS recebem a semente entre os espinhos: são aqueles que ouvem a Palavra; mas quando surgem as preocupações do mundo, a ilusão da riqueza e todos os outros desejos, sufocam a Palavra, e ela não produz fruto” (Mc 4, 18-19). Às vezes a semente da palavra divina pode ir perdendo espaço em nosso interior por causa das preocupações do dia a dia. Jesus não pretende, evidentemente, que não cuidemos delas. Nossa vida, como a de tantas outras pessoas, está concentrada no desejo de seguir a Deus no meio do mundo, e é lógico que os assuntos familiares e profissionais ocupem uma parte importante de nosso tempo e de nossa mente.
Essas ocupações configuram boa parte do caminho para a santidade. O Senhor deseja, por isso, que essas realidades não fiquem à margem de nossa vida cristã, mas que saibamos vivê-las com ele: “Dizia uma alma de oração: Nas intenções, seja Jesus o nosso fim; nos afetos, o nosso Amor; na palavra, o nosso assunto; nas ações, o nosso modelo”[5]. A mensagem de Cristo não é um tema entre outros em nossa existência, mas o horizonte a partir do qual se compreendem e ganham sentido todos os outros aspectos de nossa biografia. A semente pode crescer quando encontra bom terreno e inclusive se encontra algumas sarças em seu desenvolvimento. Se procuramos a união com o Senhor em todos os momentos, encontraremos pouco a pouco o modo de viver conforme a sua vontade.
A parábola do semeador, narrada por Jesus de uma barca, pode ajudar-nos a fazer exame sobre a sinceridade interior com que deixamos que Cristo reine em nossos corações. Sem dúvida temos o desejo, como Nossa Senhora, de ser contados entre aqueles em quem a palavra de Deus dá frutos que perduram e levam felicidade a todos os que os rodeiam. “Aqueles que recebem a semente em terreno bom, são os que ouvem a Palavra, a recebem e dão fruto; um dá trinta, outro sessenta e outro cem por um” (Mc 4, 20).
[1] Francisco, 12/07/2020.
[2] Bento XVI, Homilia, 21/08/2011.
[3] São Josemaria, Forja, n. 1005.
[4] São Josemaria, Sulco, n. 72
[5] São Josemaria, Caminho, n. 271.