Meditações: 22 de agosto, Virgem Santa Maria, Rainha

Reflexão para meditar no dia 22 de agosto, Memória Litúrgica da Virgem Santa Maria, Rainha. Os temas propostos são: o reinado de Maria nas nossas vidas; necessidade de purificação; um coração que vibre com o serviço.


A FESTA de hoje convida-nos a elevar os nossos olhos para contemplar a Rainha de toda a criação: a Virgem Maria. Neste dia, podemos meditar aquelas palavras de São Josemaria: “Queira Deus Nosso Senhor (…) que se erga dos nossos lábios um cântico de ação de graças, porque a Trindade Santíssima, ao escolher Maria para Mãe de Cristo, homem como nós, pôs cada um de nós sob o seu manto maternal. É Mãe e Deus e nossa Mãe nossa”[1]. Sentir que estamos protegidos sob o seu manto nos enche de confiança na adversidade e de alegria no sucesso. De Maria Rainha podemos esperar a intercessão atenta nas dificuldades e com alegria oferecemos a ela os primeiros frutos da nossa luta e do nosso amor.

Contudo, celebrar o reinado de Maria na nossa vida também pode causar em nós uma certa inquietação. Normalmente, preferimos acentuar a nossa liberdade e independência em vez de destacar o senhorio que outra pessoa possa ter na nossa vida. Por isso podemos vir a acreditar que, para manter um bom relacionamento com a nossa Mãe é necessário renunciar a sermos nós mesmos. No entanto, se pensarmos um pouco mais profundamente, podemos perceber que, assim como existe um tipo de reinado que tira nossa liberdade, há outro que, pelo contrário, nos torna felizes e liberta em nós as energias que nos levam à nossa melhor versão. É o reinado do amor, pelo qual nos abrimos à vontade de outra pessoa e que nos leva à nossa própria realização.

“Jubilosamente compartilhamos a beleza de ter Jesus como nosso Rei: o seu domínio de amor transforma o pecado em graça, a morte em ressurreição, o medo em confiança”[2]. O reinado de Cristo consiste na transformação das nossas vidas; Ele nos eleva e nos torna filhos de Deus. De certo modo, foi isto que aconteceu com a Virgem Maria. Ao aceitar ser a escrava do Senhor, a sua existência mudou completamente. Não ficou diminuída, mas, pelo contrário, com seu sim à vontade divina, ela se tornou a Mãe de Deus e acabaria sendo a Mãe de todos os cristãos. Podemos lhe pedir que nos ajude a dizer que sim aos planos divinos, que são muito maiores e mais ambiciosos do que podemos imaginar. Como escrevia São Josemaria: “Nunca te tinhas sentido tão livre, libérrimo, como agora que a tua liberdade está tecida de amor e de desprendimento, de segurança e insegurança, porque já não te fias em nada de ti, e te fias em tudo de Deus”[3].


PARA QUE SE manifeste a autoridade de Maria em nossas vidas, é necessário, em primeiro lugar, que nos purifiquemos de tudo o que pode nos separar dela. “Derramarei sobre vós água pura e sereis purificados – anuncia o profeta Ezequiel – Eu vos purificarei de todas as impurezas e de todos os ídolos” (Ez 36, 25). Aproximar-se de Maria e do domínio do seu amor é abrir-se à purificação interior, para que possamos receber, sem nenhum tipo de obstáculo, as graças de seu Filho.

O termo “purificação” do ponto de vista do culto e da liturgia, significa limpar uma pessoa ou objeto para que seja digno de Deus. Por isso, o primeiro ato de purificação na nossa vida se realiza por meio da água do batismo, que nos leva de um estado de separação de Deus à filiação divina. É agradável pensar que uma das tarefas de Nossa Senhora é nos purificar para que sejamos capazes de manter a nossa união original com a Santíssima Trindade. Às vezes, são as suas lágrimas que nos purificam das feridas dos nossos pecados, outras vezes ela derrama em nossas almas o bálsamo da sua ternura quando nos vê mais desanimados e, nos momentos de alegria, limpa-nos com uma mistura dos seus perfumes que proporcionam às nossas almas uma profunda presença de Deus.

Essa tarefa de purificação requer um esforço diário para limpar nossas almas, a fim de podermos perceber o reino de Deus. São Josemaria perguntava numa ocasião a um dos seus filhos: “Tens desejos de retificação, de purificação, de mortificação, de um contato mais frequente com o Senhor, de aumentar a tua piedade, sem teatro nem coisas externas, com naturalidade?”[4]. Se queremos que Nossa Senhora reine verdadeiramente em nossos corações, para nos transformarmos em bons filhos de Deus, podemos nos perguntar neste tempo de oração: Que aspectos da minha vida precisam de purificação? Procuro passar todos os meus afetos e pensamentos pelo coração de Maria? “Pede ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, e à tua Mãe que te façam conhecer-te e chorar por esse montão de coisas sujas que passaram por ti, deixando – ai! – tanto depósito… – E, ao mesmo tempo, sem quereres afastar-te dessa consideração, diz-lhe: – Dá-me, Jesus, um Amor como fogueira de purificação, onde a minha pobre carne, o meu pobre coração, a minha pobre alma, o meu pobre corpo se consumam, limpando-se de todas as misérias terrenas… E, já vazio de todo o meu eu, enche-o de Ti; que não me apegue a nada daqui de baixo; que sempre me sustente o Amor”[5].


A PURIFICAÇÃO é o primeiro passo para alcançar a liberdade que a Virgem Maria quer nos oferecer com o seu reinado. Ao nos dar Nossa Senhora como Mãe, Jesus confiou-lhe uma tarefa muito concreta: formar no nosso interior um coração novo que seja capaz de ter os mesmos afetos que os de seu Filho. Assim, Maria ajuda a que em cada um de nós se cumpram as palavras proféticas de Ezequiel: “Eu vos darei um coração novo e porei em vós um espírito novo. Removerei de vosso corpo o coração de pedra e vos darei um coração de carne. Porei em vós o meu espírito e farei com que andeis segundo minhas leis e cuideis de observar os meus preceitos” (Ez 36, 26-27). Não é a principal tarefa de uma boa mãe cultivar pouco a pouco a sensibilidade de seus filhos, para que eles possam desfrutar deste mundo dando glória a Deus?

O reinado de Nossa Senhora consiste, portanto, em difundir pelo mundo esse Amor infinito do seu Filho na cruz. D’Ele aprendeu que o autêntico reino não se baseia em privilégios ou honras. “Existe uma ideia vulgar, comum, de rei ou rainha: seria uma pessoa com poder e riquezas. Mas este não é o tipo de realeza de Jesus e de Maria. Pensemos no Senhor: a realeza, o ser rei de Cristo está imbuído de humildade, serviço e amor: é sobretudo servir, ajudar, amar. Maria é rainha precisamente amando-nos, ajudando-nos em todas as nossas necessidades”[6]. Maria exerce a sua realeza, velando por nós e oferecendo-nos a sua proteção maternal. Mas para receber esse amor e transmiti-lo às pessoas mais próximas, é necessário possuir um coração novo que vibre com o serviço. Nossa Senhora quer quebrar a carapaça do nosso egoísmo que nos leva a nos fecharmos em nós mesmos, para que possamos nos abrir às graças do seu Filho e às necessidades de todos os homens. Como os criados da parábola da boda do filho do rei, a nossa Mãe não se cansa de convidar a todos os homens e mulheres a descobrir que só quando procuramos fazer a vontade Deus, a nossa existência se converte numa grande festa. “Prepareio banquete, os bois e os animais cevados já foram abatidos e tudo está pronto. Vinde para a festa” (Mt 22, 4).

Podemos terminar este tempo de oração dirigindo-nos à nossa Mãe com umas palavras de São Josemaria “Santa Maria Regina apostolorum, rainha de todos aqueles que desejam dar a conhecer o amor do Teu Filho; Tu, que compreendes tão bem as nossas misérias, pede perdão pela nossa vida, pelo que em nós poderia ter sido fogo e não passou de cinzas; pela luz que deixou de iluminar, pelo sal que se tornou insípido”[7]. Mãe, ajude-nos a ter um coração tão livre e limpo quanto o seu.


[1] São Josemaria, Amigos de Deus, n. 275.

[2] Francisco, Homilia, 20/11/2016.

[3] São Josemaria, Sulco, n. 787.

[4] São Josemaria, Em diálogo com o Senhor, n. 22.

[5] São Josemaria, Forja, n. 41.

[6] Bento XVI, Audiência, 22/08/2012.

[7] São Josemaria, É Cristo que Passa, n. 175.