A PREGAÇÃO do Senhor nem sempre foi bem recebida pelas pessoas que O ouviam. Um exemplo claro é o que aconteceu depois do discurso do pão da vida. Alguns dos que haviam seguido o Mestre até aquele momento comentaram: “Esta palavra é dura. Quem consegue escutá-la?” Qualquer projeto que valha a pena nesta vida implica renúncia. O casamento, que deve ser uma história de amor ao longo do tempo, também tem essa dinâmica. Isso é sugerido na segunda leitura, quando diz: “Por isso o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher, e os dois serão uma só carne” (Ef 5,31). Não há dúvida de que aprender a dançar no ritmo do outro exige abandonar-se em suas mãos, mas o que conseguimos é muito maior do que o que poderíamos conseguir sozinhos.
Na vida cristã, não se busca simplesmente a renúncia pela renúncia. Certamente, quando se procura viver de amor, a renúncia é inevitável. Como São Paulo nos lembra, aspirar aos bens de cima requer distância dos bens de baixo (cf. Cl 3,1-2). Contudo, se pensarmos nos grandes relatos épicos da história, o impacto deles não se deve tanto às renúncias que fizeram, mas aos feitos que realizaram. De modo semelhante, é verdade que às vezes podemos perceber que o relacionamento com Deus é marcado pela dureza, pois às vezes achamos muito difícil seguir os Seus mandamentos. No entanto, a vida cristã não é medida apenas por isso, mas, acima de tudo, é medida pelos bens do alto que procuramos ardentemente e que Ele quer nos dar. Esses bens não são saboreados apenas na vida eterna, mas também podemos começar a experimentá-los em nossa vida terrena. Como recordava São Josemaria: “Para amar de verdade, precisamos ser fortes, leais, com o coração firmemente ancorado na fé, na esperança e na caridade. Só a ligeireza insubstancial muda caprichosamente de objeto em seus amores, que não são amores, mas compensações egoístas. Quando há amor, há integridade: capacidade de entrega, de sacrifício, de renúncia. E, no meio da entrega, do sacrifício e da renúncia - com o suplício da contradição -, a felicidade e a alegria. Uma alegria que nada nem ninguém nos poderá tirar”[1].
NA PRIMEIRA leitura deste domingo, Josué convoca as tribos de Israel e as convida a tomar uma posição radical: “Se vos parece mal servir ao Senhor, escolhei hoje a quem quereis servir: se aos deuses a quem vossos pais serviram na Mesopotâmia, ou aos deuses dos amorreus, em cuja terra habitais. Quanto a mim e à minha família, nós serviremos ao Senhor” (Js 24,15). De fato, essa exortação de Josué é a conclusão de um discurso comovente em que o sucessor de Moisés relembra, desde Abraão, todas as vicissitudes pelas quais o povo de Israel passou e como Deus permaneceu fiel em todas as circunstâncias, protegendo-o de seus inimigos e inundando-o com muitas bênçãos (cf. Js 24,1-14). Não é de admirar que o povo, evocando a memória da presença fiel e protetora de Deus, exclame com decisão: “Longe de nós abandonarmos o Senhor, para servir a deuses estranhos. Porque o Senhor, nosso Deus, ele mesmo, é quem nos tirou, a nós e a nossos pais, da terra do Egito, da casa da escravidão. Foi ele quem realizou esses grandes prodígios diante de nossos olhos, e nos guardou por todos os caminhos por onde peregrinamos, e no meio de todos os povos pelos quais passamos” (Js 24,16-17).
Josué desperta no povo a lembrança das dádivas recebidas de Deus. O povo de Israel precisará, em muitas e muitas ocasiões, relembrar tudo o que o Senhor fez por eles. Com frequência, diante das dificuldades do êxodo, os israelitas passam a desejar o conforto da escravidão: “Quem nos dará carne para comer? Vêm-nos à memória os peixes que comíamos de graça no Egito, os pepinos e os melões, as verduras, as cebolas e os alhos. Aqui nada tem gosto ao nosso paladar, não vemos outra coisa a não ser o maná” (Nm 11,4-6). “O alimento que o Senhor nos oferece é diferente dos outros alimentos, e talvez não nos pareça tão saboroso como determinadas comidas que o mundo nos oferece. Então, sonhamos outras refeições, como os judeus no deserto, que tinham saudades da carne e das cebolas que comiam quando estavam no Egito, esquecendo-se, contudo, que comiam aqueles pratos na mesa da escravidão. Naqueles momentos de tentação, eles recuperavam a memória, mas uma memória doentia, uma memória seletiva. Uma memória escrava, não livre”[2].
Um povo que recebeu a liberdade, que experimentou o poder protetor do Senhor, tem saudades do aparente conforto da escravidão. Por mais paradoxal que possa parecer, a experiência de Israel também pode refletir a experiência de cada um de nós. Podemos acabar vendo Deus e a vida de fé como algo que nos complica, desejando a calma enganosa que o distanciamento de Deus proporciona. É então que, como Josué, podemos novamente colocar diante de nossos olhos todo o bem que o Senhor fez em nossa vida por meio de sua presença, de seus sacramentos, das pessoas que Ele colocou ao nosso lado. E quando consideramos que essa proximidade nunca se afasta, que esse Deus terno e providente não nos abandona se o deixarmos, podemos exclamar como São Pedro: “A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna. Nós cremos firmemente e reconhecemos que tu és o Santo de Deus” (Jo 6,68-69).
“Ó DEUS, QUE unis os corações dos vossos fiéis num único desejo, concedei ao vosso povo amar o que ordenais e esperar o que prometeis, para que na instabilidade deste mundo nossos corações estejam ancorados lá onde se encontram as verdadeiras alegrias”[3]. Assim pedimos na oração coleta deste domingo. Por meio dessa oração, a Igreja nos convida não apenas a fazer o que Deus ordena, mas a corresponder ao seu amor. Cumprir algo que nos é imposto de fora pode ser uma atitude louvável se o que é ordenado for lícito e contribuir para o nosso bem e o da comunidade. Entretanto, queremos ir além: queremos amar um Deus que é bom e só nos pede para fazer o que é bom para nós.
Amar exige conhecer o bem que está por trás do que Deus propõe por meio das Escrituras, da Tradição e do Magistério da Igreja. Uma compreensão que não é abstrata, mas que, com a ajuda da fé, é capaz de captar o bem que um mandamento ou uma instrução implica para si mesmo. Não cumprimos os preceitos divinos apenas porque eles são ordenados por alguém com autoridade, mas porque entendemos o bem que eles representam ou, pelo menos, porque confiamos em quem nos pede que façamos isso. Com a luz da fé e a ajuda da graça, podemos descobrir a bondade que os mandamentos contêm para nós. Podemos então entender o pedido de Santo Agostinho: “Concede-me o que me ordenas, e ordena o que quiseres”[4]. Por isso, podemos pedir ao Senhor que nos ajude a entender o significado de seus mandamentos para que possamos amá-los de todo o coração.
Nesse sentido, a oração, a leitura e o acompanhamento espiritual podem ser para um cristão os canais habituais pelos quais Deus nos dá essa sabedoria. Dessa forma, podemos abordar com serenidade os períodos de maior aridez ou as circunstâncias em que a renúncia se destaca mais em nossa história de amor com Deus. Essa sabedoria não só nos faz saber que o Senhor é bom e busca o nosso bem, mas também nos permite experimentar cada vez mais a sua bondade e todos os dons que ele nos concede continuamente, como diz o salmista: “Provai e vede quão suave é o Senhor! Feliz o homem que tem nele o seu refúgio!” (Salmo 34,9). Podemos pedir à Virgem Maria que nos ajude a reconhecer e saborear tudo o que seu Filho faz por nós.
[1] São Josemaria, É Cristo que passa, n. 75.
[2] Francisco, Homilia, 19 de junho de 2014.
[3] Missal Romano, oração de coleta do 21º Domingo do Tempo Comum.
[4] Santo Agostinho, Confissões, X, 29.