“Ó Senhor, ouvi a voz do meu apelo, atendei por compaixão! Não afasteis em vossa ira o vosso servo, sois vós o meu auxílio!”[1]. Estes pedidos de socorro, que se atribuem ao rei Davi (Sl 26, 7.9), constituem o pórtico da liturgia de hoje. Cheios de confiança, elevamos um cântico ao Senhor, neste domingo, para que atenda às nossas necessidades e nos acompanhe nas dificuldades que podem surgir no nosso caminhar diário. Como afirmou Santa Teresa de Lisieux, a nossa oração é “um impulso do coração (...), um grito de gratidão e de amor no meio da provação como no meio da alegria, enfim, é alguma coisa de grande, de sobrenatural”[2] que nos dilata a alma e nos une a Jesus.
O Evangelho deste domingo propõe-nos duas breves parábolas: a da semente que germina e cresce sozinha e a do grão de mostarda (cf. Mc 4, 26-34). São imagens familiares tiradas do mundo rural, compreensíveis para todos os Seus seguidores. “O reino de Deus é como quando alguém espalha a semente na terra. É como um grão de mostarda” (Mc 4, 26.31). Tomando como exemplo a maneira como cresce a semente, Jesus quer explicar que não é possível julgar a ação misteriosa de Deus pela pequenez dos seus primeiros passos. Embora, no início, o seu Reino pareça um tanto discreto, na realidade tem uma força enorme que se irá desenvolvendo com o decorrer do tempo.
À primeira vista, a semente é muito pequena. Às vezes, é quase imperceptível. O seu valor é quase insignificante. Contudo, uma vez enterrada, a semente cresce, sem que nada a possa parar, dando um fruto que chega sem se saber muito bem como, superando todas as expectativas que o agricultor possa ter tido. A ação de Deus no mundo e na história, normalmente, não é espetacular, nem costuma trazer resultados imediatos. De fato, às vezes até com aparentes fracassos. Mas nessa semente, pequena e discreta, já se esconde a promessa do que virá. Quando vemos que os frutos demoram a chegar, que os nossos desejos de conversão nem sempre são eficazes, podemos recorrer a Nosso Senhor para depositarmos n’Ele toda a nossa segurança. É verdade que, à primeira vista, as coisas melhoram mais devagar do que desejamos, e que podemos nos sentir sozinhos e sem meios humanos. Jesus recorda-nos que os começos são pequenos, porque a semente primeiro tem que crescer para dentro, no seio da terra. E depois, quando Deus quiser, chegará o tempo de colher os seus frutos, pois os seus ritmos não são necessariamente os nossos.
A PRIMEIRA parábola centra a nossa atenção no dinamismo da sementeira. A semente que é plantada na terra germina, quer o agricultor durma, quer esteja acordado, e cresce sozinha. Ao semear, o camponês confia que o seu trabalho não será infecundo; conhece o poder da semente quando recebe a água necessária para o seu crescimento. Basta esconder bem a pequena semente no solo e regá-la com regularidade. A confiança na bondade da terra que abraça a semente que ele depositou também o sustenta no seu trabalho. “A terra, por si mesma, produz o fruto: primeiro aparecem as folhas, depois vem a espiga e, por fim, os grãos que enchem a espiga” (Mc 4, 28).
“O tempo presente é época de sementeira, e o crescimento da semente é garantido pelo Senhor. Então, cada cristão sabe bem que deve fazer tudo aquilo que pode, mas que o resultado final depende de Deus: essa consciência ampara-o no cansaço de cada dia, especialmente nas situações mais difíceis”[3]. Colaborar na sementeira da Palavra divina no coração dos outros é muito semelhante ao trabalho do campo. O fruto não é imediatamente perceptível, e talvez nem mesmo o vejamos com os nossos próprios olhos. Mas temos a segurança de que a semente está crescendo de uma forma que supera as nossas expetativas. “Nunca esqueçamos, quando anunciamos a Palavra, que até onde parece que nada acontece, na realidade o Espírito Santo age e o Reino de Deus já cresce, através e além dos nossos esforços”[4].
O nosso otimismo e o nosso compromisso baseiam-se nessa sólida confiança. Se ouvimos o apóstolo Paulo dizer, quando escreve aos cristãos de Corinto: não duvideis, “é Deus quem faz crescer” (1Cor 3, 7), nós somos simples “cooperadores” seus (cf. 1Cor 3, 6-9), podemos ter a tranquilidade de saber que o fruto não depende do que sabemos fazer com as nossas poucas forças. De fato, Deus contenta-se com que façamos o que pudermos. Nessa linha de pensamento, São Josemaria nos incentivava a usar todos os meios humanos, como se os sobrenaturais não existissem, e, inversamente, a usar todos os meios sobrenaturais, como se não houvessem meios humanos ao nosso alcance[5]. “Age como se tudo dependesse de ti, mas consciente de que na realidade tudo depende de Deus”[6]. A obra de Deus na história é fecunda, porque Ele é o Senhor do Reino. Muitas vezes o que podemos fazer é trabalhar, esperando pacientemente os frutos. A vitória do Senhor é certa.
O PEQUENO grão de mostarda, conta a segunda parábola, “cresce e se torna maior do que todas as hortaliças, e estende ramos tão grandes, que os pássaros do céu podem abrigar-se à sua sombra” (Mc 4, 32). Uma realidade tão pequena se torna, com o passar dos dias e dos meses, em algo difícil de imaginar. Esse grão, cheio de vida, é capaz de romper o terreno, sair para a luz do sol e crescer até se converter em árvore, chegando até três metros de altura. “Só quando é esmagado é que espalha a sua força”[7].
Como na primeira parábola, aqui também brilha o contraste entre a pequenez da semente e a grandeza do que produz. Talvez seja que também vivenciamos em nossa própria vida. Sabemos que o Senhor nos chamou para coisas grandes, mas talvez sintamos que não estamos à altura. Na realidade, Cristo chamou-nos não pelos nossos próprios méritos, mas porque quis. Ele não espera que façamos coisas extraordinárias, mas que tenhamos a humildade de O deixar crescer na nossa vida e de, em cada dia, confiar na Sua oferta incondicional de amor. “A debilidade é a força da semente, o romper-se é o seu poder. E assim é o Reino de Deus: uma realidade humanamente pequena, formada por quantos são pobres no coração, por quem não confia na própria força, mas na força do amor de Deus, pelos que não são importantes aos olhos do mundo; e, no entanto, é precisamente através deles que irrompe a força de Cristo e transforma aquilo que é aparentemente insignificante”[8].
A nossa pequenez não interessa muito. A nossa fragilidade não constitui um obstáculo intransponível à ação da graça. Deus faz crescer tudo o que é grande com a superabundância dos seus dons. “Lança para longe de ti essa desesperança que te produz o conhecimento da tua miséria. – É verdade: pelo teu prestígio económico és um zero..., pelo teu prestígio social, outro zero..., e outro pelas tuas virtudes, e outro pelo teu talento... Mas, à esquerda desses zeros, está Cristo... E que cifra incomensurável isso dá!”[9].
A Virgem Maria acolheu, como “terra boa”, a semente da Palavra divina. Podemos pedir-lhe que fortaleça em nós essa confiança perante a evidente “desproporção entre os nossos meios e os frutos que Deus suscita. O Seu poder salvífico não diminuiu, mas espera de cada uma e de cada um de nós, bem como das pessoas que se abrigam à sombra desta árvore frondosa, uma correspondência generosa, a maior de que formos capazes, com a sua ajuda”[10].
[1] Antífona de entrada.
[2] Santa Teresa de Lisieux, História de uma alma, cap. 11.
[3] Bento XVI, Ângelus, 17/06/2012.
[4] Francisco, Ángelus, 16/07/23.
[5] cf. Ernst Burkhart - Javier López, Vida cotidiana y santidad en la enseñanza de San Josemaría. Estudio de teología espiritual, Rialp, Madrid 2013, vol. III, p. 187.
[6] Santo Inácio de Loyola, citado em Pedro de Ribadeneira, Vida de san Ignacio de Loyola.
[7] Santo Ambrósio de Milão, Expositio in Lucam, VII, 179-182: SC 52.
[8] Bento XVI, Angelus, 17/06/2012.
[9] São Josemaria, Caminho, n. 473.
[10] Javier Echevarría, Carta pastoral, 01/10/2016.