Maria Cecília Ferraz Luz, uma vida dedicada às pessoas

Maria Cecília Ferraz Luz faleceu em São Paulo, na manhã de 5 de setembro, aos 85 anos. Foi a primeira pessoa a pedir a admissão como numerária no Brasil e participou dos primeiros passos do Opus Dei no país. Ao longo de mais de seis décadas, esteve próxima de muitas pessoas, especialmente das mais velhas e das que precisavam de ajuda.

Maria Cecília nasceu em São Paulo, em 8 de novembro de 1940, segunda filha de uma família de nove irmãos. Sua mãe era supernumerária e seu pai, cooperador do Opus Dei. Cresceu em uma família muito unida e, como segunda filha, acabou desempenhando desde cedo um papel importante entre os irmãos. Anos mais tarde, seria conhecida por eles como “Mãe Cecília”.

Família Ferraz Luz
Maria Cecília era segunda de nove irmãos.

Seu primeiro contato com o Opus Dei aconteceu no começo de 1960, quando as primeiras numerárias que haviam chegado a Marília começaram a viajar para São Paulo. Maria Cecília conheceu Bi e Charo e logo se envolveu com o que elas estavam fazendo. Em pouco tempo, passou a ajudá-las nos trabalhos necessários para a instalação das primeiras atividades da Obra na cidade.

Ela costumava contar com bom humor como aconteceu seu pedido de admissão. Quando lhe perguntaram se queria ser da Obra, respondeu que sim e ficou com a impressão de que, a partir daquele momento, já era. Só depois lhe explicaram que precisava escrever uma carta a São Josemaria pedindo a admissão. Ela o fez prontamente, em 15 de outubro de 1960, sendo a primeira pessoa a pedir a admissão como numerária no Brasil.

Casa do Moinho, 1974
EM 1974, quando São Josemaria veio ao Brasil. A foto foi tirada na Casa do Moinho. Maria Cecília está à direita de São Josemaria e sua irmã, Maria Olívia, à esquerda.

A história da família também se cruzava com a do Opus Dei. Em certa ocasião, João, o pai de Maria Cecília, contou a São Josemaria que, entre os sete filhos homens, esperava que algum se tornasse sacerdote. Deus, porém, não quis. “Mas Ele me pediu minhas duas filhas, e eu não me opus, dei”, disse, brincando com o nome da Obra. O trocadilho ficou como uma lembrança familiar. João guardou durante toda a vida o terno que usou naquele encontro com São Josemaria.

Sâo Josemaria e João Ferraz Luz
João Ferraz Luz, o pai de Maria Cecília, recordou sempre o dia em que recebeu um abraço de São Josemaria

Os primeiros anos foram de muito trabalho. Pouco depois de pedir a admissão, Maria Cecília foi para Marília para ajudar as primeiras mulheres que trabalhavam na cidade. Em 1961, voltou para participar da mudança delas para São Paulo e depois permaneceu na capital e continuou colaborando nos começos da Obra. Anos mais tarde, escreveria de próprio punho uma recordação detalhada daqueles primeiros tempos, com os nomes das primeiras casas, das pessoas que por ali passaram e de algumas das situações que viveu.

Maria Cecília era uma mulher polifacética e muito trabalhadora. Formada em Contabilidade, trabalhou como contadora durante muitos anos, inclusive no escritório de seu irmão José Roberto. Também foi professora de Educação Social e Cívica em uma escola estadual e de Ciências Domésticas. Ao longo da vida, dedicou-se ainda à administração de centros do Opus Dei e fez parte da equipe que começou o trabalho da administração no Sítio da Aroeira (a primeira casa de retiros do Opus Dei no Brasil), acolhendo e cuidando  das pessoas que chegavam para participar de retiros e cursos.

Em 1971, foi para a Itália para estudar no Colégio Romano de Santa Maria, onde permaneceu até 1974, uma experiência que se inseriu em uma vida marcada tanto pelo trabalho quanto pela formação e pela expansão do Opus Dei.

De volta ao Brasil, dedicou muitos anos ao trabalho com supernumerárias, especialmente as mais velhas. Visitava as que moravam fora de São Paulo longe ou já não conseguiam se deslocar. Acompanhava também pessoas doentes, em casa e no hospital. Entre as supernumerárias que visitou durante anos estava Antonieta Freitas, de quem se tornou muito amiga.

Sua disponibilidade não diminuiu com a idade. Mesmo depois dos 80 anos, continuava dando formação, inclusive pela internet para pessoas do Nordeste. Quando se instalava uma casa nova, podia aparecer costurando toalhas e cortinas ou cuidando dos detalhes do oratório. 

Em julho de 2022, Maria Cecília (segunda à esquerda) teve a alegria de fazer um curso anual em Saxum (Israel) com um grupo de brasileiras e portuguesas.

Era também muito independente. Dirigiu até o fim da vida, fazia seu próprio imposto de renda e praticava hidroginástica três vezes por semana. Aos 84 anos, incomodada com a qualidade da internet de sua casa, resolveu ela mesma o problema e providenciou outro provedor. Era, como lembram as pessoas que conviveram com ela, muito “antenada”.

Maria Cecília tinha personalidade forte e gostava de resolver as coisas. Mas o temperamento decidido vinha acompanhado de muito bom humor. Tinha excelente memória e gostava de contar episódios dos primeiros anos do Opus Dei, sobretudo os engraçados. Muitas de suas histórias vinham acompanhadas de algum trocadilho, uma característica que também atribuía ao pai. Mesmo quando não estava bem, procurava rir e fazer os outros rirem.

Na família, essa presença se manifestava de maneira muito concreta. Era a segunda filha e estava acostumada a atender a todos, do irmão mais velho ao mais novo. Um de seus irmãos recordou, depois de sua morte, seu talento para a culinária — especialmente os bolos de chiffon que fazia nos aniversários da família — e o modo como seu estado de espírito, alegre e característico, lembrava os pais.

Talvez seja por isso que a expressão que mais se repete nos testemunhos seja tão simples: Maria Cecília tinha um coração enorme. O Padre Fábio Carvalheiro, vigário do Opus Dei no Brasil, usou essas palavras na Missa de corpo presente, celebrada no dia seguinte ao seu falecimento. Ao recordar os muitos testemunhos recebidos sobre ela, falou de sua grande bondade, de sua maneira prática de se entregar e de seu gosto por cuidar das pessoas mais velhas.

Na família, o mesmo carinho apareceu de outras formas. No final da Missa, Abílio leu um texto atribuído a Santo Agostinho como se fosse Maria Cecília quem falasse aos que ficavam: “Eu não estou longe, estou apenas do outro lado do Caminho”. A escolha do texto dizia algo sobre a maneira como a família queria despedir-se dela, sem deixar que a morte apagasse a proximidade vivida durante tantos anos.

Chico, outro de seus irmãos, leu alguns versos que havia escrito para a ocasião. Neles, lembrava a irmã “prestativa”, que agora deixava os familiares “carentes” e cuja presença permanecia na “lembrança eterna”.

Maria Cecília enfrentou problemas de saúde ao longo dos anos. Na casa dos 40, passou por um câncer de útero, tratado com radioterapia. Mais recentemente, sofria de um problema intestinal crônico que se agravou nas últimas semanas e levou a uma cirurgia. Recebeu a Unção dos Enfermos antes de entrar no centro cirúrgico. Depois, quando o sacerdote havia acabado de sair, perguntou: “E a Comunhão?”. 

Maria Cecília morreu em São Paulo na manhã de 5 de setembro de 2026.

Na Missa do dia seguinte, o Padre Fábio também recordou sua vida de oração e seu amor pela Eucaristia. Nos últimos dias, já muito fraca, continuou procurando participar da Missa. Falou de uma mulher que viajou de Marília a Roma, participou dos primeiros trabalhos do Opus Dei no Brasil, cuidou de pessoas mais velhas e ensinou muito ao longo da vida. “Entregar-se a Deus era o mais natural”, disse. E acrescentou que a vida de Maria Cecília tinha dado muitos frutos.

Ao final, retomou a imagem que a família havia escolhido para ela: “Todas essas virtudes juntas são características de uma mãe. Era chamada de Mãe Cecília”. Mas não se tratava apenas de uma maternidade feita de cuidados cotidianos. “Com o dom do celibato, gerou muita gente para Cristo”, afirmou o padre Fábio, referindo-se à fecundidade de uma vida entregue a Deus e aos outros.