De 9 a 20 de abril de 2025, participamos de dois convívios na Itália: o Itinerário Humanitas e o Congresso UNIV 2025. Inspiradas pelo espírito de “peregrinas da esperança” do ano jubilar, mergulhamos na arte, na cultura e na oração, em uma pequena viagem que, à maneira de Dante, nos convidou a contemplar o humano e o divino. Tudo isso sem perder a alegria e o bom humor de compartilhar cada momento entre amigas e de saborear as maravilhas e belezas italianas.
Itinerário Humanitas: A Beleza Salvará o Mundo
Florença, o berço do Renascimento e de Dante Alighieri
O Humanitas é um convívio cultural para jovens universitárias que ocorre anualmente em Brasília e São Paulo para que as participantes entrem em contato e reflitam, guiadas por aulas ministradas pela professora de filosofia Larissa, sobre temas caros às dimensões humana, pessoal e espiritual delas. Tudo isso enquanto desfrutam das amizades e momentos de lazer e oração. Já foram realizadas diversas edições desse convívio com temas como: os quatro amores, o trabalho, a beleza e a verdade.
“Para saber quem somos” é o lema que define a essência do Humanitas, que também marca uma promessa: é um convite para que as participantes olhem para dentro de si e, então, a partir do que descobriram, deem uma resposta às suas vidas.
No ano de 2024 o tema trabalhado foi “A beleza salvará o mundo” em que se investigou o tema da beleza pelo ângulo histórico, filosófico, literário, teológico e experiencial. Esse tema levantou questões como: “Qual a importância da beleza na minha vida e o que ela tem a dizer sobre quem eu sou?” Também foi apresentado um convite especial: o itinerário formativo de leitura e aulas sobre a Divina Comédia, de Dante Alighieri, vivenciando, ao final, um convívio na Itália, passando por Florença, Assis e Roma. Assim, nós, as universitárias que participaram, pudemos experienciar a beleza e conectar essa vivência com os conteúdos que aprendemos durante o convívio.
Vivemos dias de formação cultural e literária na cidade que respira a grandeza humana: Florença. Percorremos museus, galerias, igrejas e contemplamos a beleza presente em cada rua e detalhe da cidade. Acompanhadas por Larissa e Esther, aprendemos a interpretar as expressões artísticas locais e discutimos profundamente as imagens presentes em construções como o Batistério de San Giovanni, a Catedral de Santa Maria del Fiore e o Campanário. Identificamos referências filosóficas, literárias e alegóricas, muitas vezes representando virtudes humanas e valores que permeiam a cultura florentina.

Nesses dias tão intensos e contemplativos, caminhando às margens do rio Arno, visitamos também outros tantos belíssimos lugares: a Piazzale Michelangelo, onde acompanhamos o entardecer e vislumbramos a bela cidade de Florença, e a Basílica di Santa Croce, que guarda o monumento dedicado a Dante. Estivemos ainda na Galleria dell’Accademia e na Galleria degli Uffizi, espaços que nos colocaram diante das obras de Caravaggio, Botticelli, Rafael, Leonardo da Vinci, Ticiano, Michelangelo, entre tantos outros.
Essa experiência não foi apenas algo a contemplar, mas nos ajudou a formar nosso imaginário e visão de mundo. A verdadeira beleza não se limita ao gosto; ela é o esplendor da verdade, porque o que é belo nunca se fecha em si, mas aponta para a perfeição e raiz de todas as coisas. A beleza desconcerta, tira-nos de nós mesmas, porque nos instala na realidade e nos orienta de volta aos eixos. Dessa forma, dizer que “a beleza salvará o mundo”, como propôs esta edição do Humanitas, é reconhecer a profundidade desse chamado: descobrir quem somos e para onde queremos direcionar as nossas vidas.

Assis, a cidade santa
“Nasce um sol para o mundo” - Paraíso, XI (referência de São Francisco de Assis)
Assis é o reflexo da essência de São Francisco e de Santa Clara. A grandeza espiritual, o voltar os olhos para Deus e desapegar-se do material. Se por um lado Florença é o testemunho da virtude humana que busca tatear o divino, Assis é testemunho da vida divina atualizada na vida dos santos que se imprime no tempo e no espaço. Nenhum outro monumento é melhor exemplo disso do que a Basílica de São Francisco, onde o próprio santo está enterrado. Nela é possível, com um olhar atento, acessar em parte o reflexo do espírito daquele que lançou os alicerces para que a Itália florescesse.

Esse templo é composto por andares. No andar por onde entramos, havia dois altares principais em que se celebravam missas. No maior deles, o corredor era composto de várias cúpulas pintadas de imagens douradas e com pouca iluminação, de forma que não era possível obter uma imagem do todo em um único lance, era necessário avançar para aos poucos conhecê-lo. Esse corredor também dava acesso a várias capelas laterais escuras, só era possível ter acesso aos seus conteúdos entrando em cada uma delas. Nesse primeiro andar, tivemos a sensação de adentrar no coração de São Francisco, que assim como o coração de cada homem; só é possível conhecer avançando nele pouco a pouco.
Esse andar dava acesso ao subterrâneo, em que o próprio São Francisco foi enterrado de uma maneira pouco comum. Novamente a iluminação quente do corredor ditava o clima do ambiente, que agora era feito de pedras. Ao fim do corredor baixo e abobadado estava o túmulo, que era uma simples coluna grossa feita de pedra, como se essa coluna desse sustentação a toda aquela edificação. Essa imagem nos lembrou especialmente do ponto 590 de Caminho: “Não queiras ser como aquele cata-vento dourado do grande edifício; por muito que brilhe e por mais alto que esteja, não conta para a solidez da obra. - Oxalá sejas como um velho silhar oculto nos alicerces, debaixo da terra, onde ninguém te veja; por ti não desabará a casa.”.
Por fim, ao subir as escadas em direção ao último andar do monumento, chegava-se a um novo átrio com um belo altar. Esse cômodo era diferente dos anteriores, tinha o pé direito alto, era bastante claro e com um único lance se captava o desenho dele inteiro. Suas paredes eram preenchidas por grandes afrescos de Giotto e seus seguidores, que remontavam a vida do santo que dava nome à basílica e também da vida de Jesus Cristo, seu maior Amor. Essas imagens eram como se fossem as memórias e meditações do santo, agora a sensação é de que estávamos dentro de seus pensamentos. E depois de visitar toda essa beleza santa, o lado oposto ao altar terminava com uma sacada que fornecia uma visão privilegiada de Assis, como se aquela fosse a visão que Francisco contemplava e por ela rogasse.
Para além dessa extraordinária visita, também visitamos a Basílica e o túmulo de Santa Clara, dessa vez com um tom muito mais feminino, refletindo o espírito dela. Lá também tivemos acesso a diversas relíquias, como a Cruz de São Damião do milagre de Francisco, as vestes de Santa Clara e São Francisco e outros objetos dos santos. Tudo isso era um testemunho quase vivo que operava uma alquimia: transforma nossos corações de pedra em corações de carne.
Enfim, dentre os principais lugares em que estivemos, também visitamos o corpo exposto de Carlo Acutis, em uma pequena paróquia que quase nos passou despercebida. O que chama atenção ali era a simplicidade, que refletia a própria simplicidade de Carlo, e era um convite claro a cada uma de nós que ali estávamos a também sermos santas.
Congresso UNIV
Roma, la città eterna
Caminhar pelas ruas de Roma é surpreender-se com sua riqueza histórica, sua potência cristã e sua capacidade de ser atemporal em meio às suas maravilhas arquitetônicas e gastronômicas.
Dito isso, contemplar Roma é, antes de tudo, compreender a nós mesmos e o que ainda podemos ser. Suas ruínas e edifícios revelam que toda civilização nasce a partir do ideal, desenvolve-se pela ordem, alcança o esplendor com a beleza e declina quando se afasta de seus fundamentos. Assim, ao entender sua história podemos, de alguma forma, reencontrar o vetor para uma civilização sustentada por ordem, valores e beleza.

Ela nos convida a debater sobre estrutura, ordem, estética e propósito. O Renascimento, por exemplo, que uniu à arte uma dimensão espiritual e intelectual, também teve suas raízes na Cidade Eterna; não apenas na estética, mas na convicção de que a beleza pode elevar o homem e ajudá-lo a encontrar sentido no cotidiano.
Foi imersas nesse cenário que vivemos o Congresso UNIV 2025, encontro internacional de universitários que nasceu em 1968 sob a inspiração de São Josemaria Escrivá. O tema deste ano — “Cidadãos do nosso mundo” — nos desafiou a acolher nossa identidade como cidadãs e a refletir sobre a responsabilidade de transformar os ambientes em que vivemos e sobre quais virtudes e ações são necessárias para promover o bem comum: “Como nossas vidas têm contribuído para as comunidades das quais fazemos parte?”.
Participar do UNIV durante a Semana Santa, em pleno ano jubilar, foi uma experiência inesquecível e intensa. Tivemos a graça de ver o Papa Francisco na Missa do Domingo de Ramos e na Páscoa, e de participar de uma Tertúlia com o Mons. Fernando Ocáriz, prelado do Opus Dei. Também assistimos à masterclass de abertura desta edição com a Dra. Karen Bohlin e participamos dos workshops do UNIV Lab, que exploraram temas como diálogo, arte, mundo do trabalho, cidadania, contemplação e estudo; todos com o fim de refletir sobre os fundamentos cristãos dos valores na cultura global. Encerramos o convívio com o UNIV Fest, um momento descontraído e marcado por apresentações culturais, dinâmicas e música.

Além dessas experiências, visitamos lugares impressionantes, sagrados e marcados pela história da Igreja desde os primeiros séculos. As Catacumbas de São Calisto, onde Santa Cecília foi martirizada e onde celebramos a Santa Missa com o Padre Guilherme Ximenes; a Igreja de Domine Quo Vadis; a Escada Santa, junto à Basílica de São João de Latrão; a Abadia das Três Fontes, onde São Paulo foi martirizado; e Santa Maria da Paz, a igreja prelatícia do Opus Dei. Claro que também nos aventuramos pelos edifícios do Vaticano: a belíssima Basílica de São Pedro, cuja cúpula subimos, e o Museu do Vaticano. Além de outros pontos históricos, como o Coliseu, Fórum Romano, Fonte de Trevi, e as piazzas Navona e Espanha.
Ainda um ponto de destaque, que tocou o coração de cada uma de nós, foi a generosidade do Papa Francisco durante os dias em que estivemos lá. Sua delicada condição de saúde já nos era conhecida, mas quão surpreendente para nós foi a celebração da missa no Domingo de Ramos. Esse espírito de doação superabundante, nos impelia a viver aquele momento com maior devoção e entrega, a sede de almas do Papa era um elemento que dificilmente poderia passar despercebido por quem estivesse ali presente. Não menos tocante foi a bênção “Urbi et orbi” na manhã de Páscoa. Os nossos corações, já não mais aflitos, mas alegres, pois o Senhor verdadeiramente ressuscitou, se alegraram ainda mais com sua pequena aparição na sua sacada após a missa. A notícia da sua Páscoa no dia seguinte, eternizou o seu espírito generoso em nossas almas.
Despedimo-nos de Roma cheias de ideias e reflexões. Compreendemos que, como cidadãos, não devemos abrir mão da liberdade nem perder o sentido pessoal da responsabilidade. Ao contemplar o mundo, somos lembradas de que fazemos parte de uma ampla e diversa rede humana — e que devemos amá-la com espírito de unidade cristã, conscientes da comunhão dos santos, para dar ao mundo um toque de santidade. Como recorda São Josemaria Escrivá em É Cristo que passa: “Nenhuma pessoa é um verso solto: todos fazemos parte de um mesmo poema divino, que Deus escreve com o concurso da nossa liberdade”.
Conclusão
Considerações finais
Florença, Assis e Roma nos conduziram a uma beleza que não se limita ao olhar: o talento humano que se abre ao divino, a vida dos santos que nos chama a cultivar virtudes, e a responsabilidade de sermos cidadãs movidas pelo espírito de unidade cristã. O contato com tantas riquezas culturais, espirituais e humanas ampliou nosso entendimento sobre quem somos e sobre o legado que desejamos deixar no nosso tempo. E, sobretudo, reacendeu em nós o impulso de cultivar o mundo interior, a criatividade, o estudo e o espírito de serviço; de sermos uma alma em expansão capaz de refletir aquilo para o qual Deus nos chamou.
Por Lara e Rayssa

