O Forum Romano

Entre as ruínas do Forum Romano, é fácil que venha à cabeça o recurso que tantas vezes utilizava São Josemaria para descrever o Opus Dei em poucas palavras: "o modo mais fácil de entender o Opus Dei é pensar na vida dos primeiros cristãos"

Opus Dei - O Forum RomanoFoto: Stefan Bauer, http://www.ferras.at

Na época imperial, depois de um longo período de paz e prosperidade, Roma havia atingido o impressionante número de um milhão de habitantes. Apenas uma exígua minoria residia em tranquilas e espaçosas villas; o resto da população tinha de se contentar em viver em casas com outros vizinhos, ou insulae (ilhas). Eram edifícios de vários andares, construídos com materiais de pouca qualidade e muito próximos uns dos outros, de tal maneira que o plano da Urbe consistia numa densa e emaranhada rede de ruas e ruelas.

A Roma daqueles tempos usufruía de avanços muito notáveis para a época, tais como esgotos, termas e aquedutos. Mas para ter uma ideia das condições gerais de vida é bom saber que os apartamentos eram muito reduzidos – frequentemente cada família dispunha de um só cômodo –, e não tinham água corrente, aquecimento, nem vidros nas janelas, e que com muita frequência os incêndios dizimavam bairros inteiros devido, entre outras coisas, à estreiteza das ruas.

Os romanos atenuavam estas incomodidades das casas permanecendo ali o menor tempo possível. Levantavam-se muito cedo para aproveitarem ao máximo a luz solar: quando ainda estava amanhecendo, já tinham saído para a rua e dirigiam-se ao lugar onde desempenhavam a sua profissão ou ofício. Muitos deles encaminhavam-se para os foros, centro nevrálgico da vida citadina.

Reconstrução em 3D do Fórum Romano

O esplendor do Império

Que contraste entre as modestas construções dos bairros populares e a magnificência dos edifícios públicos…! Estes últimos refletiam o imenso poderio do Império e eram como um compêndio da história de Roma.

Ao princípio – no século VI a.C. –, o Foro Romano funcionava como mercado, mas passado pouco tempo, erigiram-se aí lugares de culto. Um dos primeiros foi o templo de Vesta, onde ardia perenemente o fogo sagrado em honra da divindade local. Ao lado estava a Regia, o palácio real que, segundo a lenda, foi construído por Numa, segundo rei de Roma. Quando caiu a monarquia, este edifício usou-se como arquivo para guardar os Calendários e Anais, onde se registava a história da Urbe.

Com a República aumentou a atividade política, e o Foro foi-se enchendo de construções destinadas ao governo e à administração. Ainda hoje se conserva em bom estado o da Cúria, onde o Senado deliberava. Em contrapartida resta muito pouco do Comitium, a praça circular onde se reuniam as assembleias para eleger os magistrados. Também são escassos os restos da tribuna dos rostra ou paredões – de onde se discursava para o povo. Os episódios mais cruciais da história de Roma durante a República tiveram lugar nesta zona do Foro: os discursos dos Gracos para melhorar a situação da plebe; a polêmica entre Mário e Silas; as diatribes de Cícero contra Catilina; a decisão do Senado exigindo a Júlio César que abandonasse o comando militar, ordem a que este desobedeceu cruzando o Rubicão e conquistando a Urbe; e ainda a concessão do título de Augusto a Otávio em 29 a.C., que se considera o início da época imperial.

Vista da Rostra em primeiro plano e o Arco de Sétimo Severo no fundo. Foto: Sailko.

A nova mudança de regime trouxe consigo ampliações e melhoramentos dos foros, cada vez mais espetaculares. Junto do antigo Forum Romanum, foram surgindo os chamados Foros Imperiais, construídos por César Augusto, Trajano, Nerva e Vespasiano. Tudo era grandioso nesses espaços públicos: as ruas amplas tinham pavimento de mármore travertino, sucedia o mesmo com as praças, que costumavam estar presididas por enormes estátuas; nos edifícios o brilho dos bronzes alternava com os tons cinzentos, brancos e ocres dos mármores. Cada pormenor era pensado cuidadosamente para durar e impressionar, tanto nas construções religiosas como nas civis.

Entre estas últimas, distinguiam-se pela sua elegância as basílicas, onde se celebravam os julgamentos e se realizavam transações comerciais. O seu interior era muito amplo, com o espaço distribuído em naves separadas por colunas. No exterior havia pórticos laterais sob os quais se distribuíam, em fila, numerosas bancas que vendiam todo o tipo de produtos. Os restos da basílica de Maxêncio e a de Constantino dão uma ideia das enormes dimensões que chegavam a atingir estes edifícios.

Os monumentos comemorativos e as estátuas que ornamentavam os foros, não tinham, em contrapartida, nenhuma finalidade prática, ao menos imediata. Os mais vistosos eram as colunas, como a de Trajano, e os arcos de triunfo, como os de Tito, Septímio Severo, Constantino… Em relevos lavrados, representavam-se graficamente as campanhas militares vitoriosas, para deixar memória para os séculos vindouros dos momentos de glória protagonizados por cada imperador que desfilava também com as suas tropas pela Via Sacra, entre aplausos e aclamações do povo.

O arco de Septímio Severo visto a partir do Fórum Romano. Foto: Jebulon

Naturalmente, existia o risco de que, com tanto louvor e aclamação, o poder subisse à cabeça do imperador e, lamentavelmente, pretendesse que os seus súditos esquecessem a sua condição de homem mortal. Assim sucedeu nalguns casos, quando a máxima autoridade atribuiu a si próprio a condição de deus, ou prestou honras divinas aos seus predecessores e inclusivamente a alguns dos seus parentes. Augusto, por exemplo, dedicou um templo ao Divus César; Antonino Pio construiu outro em honra da sua esposa Faustina; e Maxêncio edificou um terceiro para recordar o seu filho Rómulo.

O considerar o imperador como ser divino estava no auge quando o cristianismo chegou à Urbe. Para os romanos, era perfeitamente compatível com o seu politeísmo, como o demonstra o fato de que os próprios imperadores deificados construírem templos cada vez maiores e dispendiosos em honra de Marte, Vénus, Apolo, Cibeles… O que não se admitia, em contrapartida, era que uma religião pretendesse ser a única verdadeira e difundisse, como consequência lógica, a ideia de que as outras eram falsas. As autoridades toleravam uma qualquer novidade com tanto que se integrasse no relativismo que imperava. Mas esse não era o caso da fé cristã…

O sal da terra

Irmãos, como será bela a Jerusalém celeste, se assim resplandece a Roma terrena. Estas palavras de São Fulgêncio[1], transmitidas por um dos seus discípulos, refletem a grande admiração que suscitava a Urbe entre aqueles que, vindos das províncias imperiais, a visitavam pela primeira vez. Nessa época, nos começos do século VI, Roma já tinha sido evangelizada: os antigos templos pagãos haviam sido encerrados há mais de um século, e no próprio Foro Romano tinham-se construído algumas igrejas cristãs. O poeta Prudêncio, no hino que dedica a São Lourenço, exulta pela vitória da fé no coração do Império: os quirites, cidadãos romanos de antiga estirpe, enchem os átrios das igrejas; os senadores, que outrora tinham como grande honra desfilar como flâmines nas cortejos pela Via Sacra, beijam agora a ombreira dos santuários dos mártires; as famílias nobres veem com agrado que os seus filhos e filhas dediquem a sua vida ao serviço da Igreja; o fogo que ardia no templo de Vesta encontra-se extinto, e inclusive a decana das virgens vestais que o guardava, Cláudia, converteu-se ao cristianismo; em resumo, a Cruz domina sobre os antigos sinais do paganismo[2].

Como foi possível esta mudança? Além da ação de Deus, um dos fatores que a explicam é que os primeiros cristãos jamais se consideraram alheios à sua cidade e ao seu ofício pelo fato de terem abraçado a fé. Não eram poucos os que desempenhavam o seu trabalho nos Foros, muitas vezes em atividades diretamente ao serviço do Império: já nos tempos de Pedro e de Paulo alguns eram patrícios e faziam parte dos trezentos senadores que se reuniam na Cúria; outros eram jurisconsultos, advogados ou juízes; o Apóstolo Paulo, na Epístola aos Filipenses, que escreveu durante o seu cativeiro em Roma, envia saudações da parte dos santos que viviam na casa de César [3]; e na Epístola aos Romanos cita os nomes de Aristóbulo e de Narciso, que tinham sido colaboradores do imperador Cláudio[4].

Pode afirmar-se com uma certeza quase absoluta que alguns membros da família imperial tinham abraçado a fé já nos finais do século I. Tito Flávio Clemente e Flávia Domitila, por exemplo eram um casal aparentado com o imperador Domiciano. Tinham sete filhos, e os dois mais velhos haviam sido escolhidos como candidatos ao trono e educados para esse fim pelo famoso reitor Quintiliano. Contudo, no ano 95, Flávio Clemente foi executado repentinamente sob a acusação de ateísmo, que costumava dirigir-se contra os cristãos. Domitila, que foi desterrada para a ilha Pandataria, também é conhecida por serem propriedade sua os terrenos das catacumbas que tinham o seu nome. No entanto, os filhos nunca chegaram ao trono, pois no ano 96 o próprio Domiciano foi assassinado e a dinastia Flávia chegou ao seu fim.

A perseguição e o martírio representavam um perigo real para os primeiros fiéis cristãos. Mas, inclusive nas épocas de tranquilidade, a vida corrente não estava isenta de obstáculos. Na sociedade romana, os costumes cotidianos estavam imbuídos de atos de adoração às divindades: ao pedir um empréstimo exigia-se um juramento em nome dos deuses, antes de ocupar um cargo público tinha de se oferecer um sacrifício, ao passar diante de um templo ou da estátua de uma divindade era costume descobrir-se, e a lista de modos de atuar era longa; a omissão destes modos de proceder era considerada uma demonstração de incivilidade e uma traição aos costumes pátrios. Esta foi uma das acusações mais insidiosas que Celso dirigiu aos cristãos: Negam-se eles a observar as cerimônias públicas e a prestar homenagem a quem as preside? Então que renunciem também a trajar a veste viril, a casar-se, a ser pais, a exercer as funções da vida; então que partam todos juntos para longe daqui; sem deixar deles a mais pequena semente[5].

O grafite de Alexamenos: está escrito, em grego "Alexamenos adora [o seu] deus" e a resposta "Alexamenos fiel"

A opinião pública de então compartilhava em grande medida esta violenta intolerância em relação aos seguidores de Cristo: pelo menos, julgavam-se os cristãos como gente peculiar, que se eles se esforçavam por ajudar o próximo, ser fiéis no casamento, pagar os impostos ou evitar escrupulosamente qualquer fraude nos negócios, o faziam por fanatismo a uma estranha religião, e querendo assim mostrar-se superiores aos outros. Às interpretações mesquinhas, juntavam-se as calúnias e as injúrias, como a que sofreu um jovem chamado Alexameno no Pedagogium, a escola dos pajens que entravam para o serviço do imperador. As aulas desta escola estavam no Palatino, junto aos Foros, e ali os arqueólogos encontraram um grafitti que representava um homem a rezar diante de um crucificado com cabeça de burro. Ao lado, lê-se esta inscrição: Alexameno adora o seu deus. Por baixo, com letra diferente da anterior, está gravado: Alexameno fiel. Foi a resposta audaz do jovem Alexameno à troça dos seus companheiros.

Por outro lado, em muitos ambientes do Império a moralidade achava-se num estado lamentável: as festas integravam representações teatrais indignas, no circo aplaudiam-se matanças humanas e o mundo da arte exaltava frequentemente a voluptuosidade; admitia-se o divórcio e o índice de natalidade era muito baixo, entre outras coisas porque se recorria ao aborto e ao infanticídio. Certamente nem todos os romanos eram assim, e é verdade que a moral decaiu sobre tudo no final do Império. Mas era uma constante a existência de costumes pagãos, muito difundidos, que chocavam com a dignidade humana que o cristianismo tinha vindo a restabelecer.

Ante tudo isto – ambiente degradado, perseguição, calúnia, insultos e ameaça real de martírio –, os primeiros cristãos poderiam ter reagido desaparecendo das realidades temporais e refugiando-se num gueto, como Celso lhes sugeria: não lhes passou pela cabeça fazê-lo. Tinham encontrado a fé, a vocação cristã, a chamada à santidade, no meio do seu trabalho: no foro, em oficinas de artesãos, no exército, no carro onde transportavam mercadorias… Não se sentiam menos romanos do que os seus concidadãos: amavam a maravilhosa Urbe, e consideravam o Império não só bom, mas providencial, pois havia proporcionado uma unidade política e cultural em que se difundiria mais facilmente a fé. As únicas coisas que rejeitavam eram as divindades falsas e os costumes brutais, que desejavam purificar porque eram plenamente conscientes de ser o sal da terra[6].

Pessoas normais

Entre as ruínas do Foro Romano, é fácil que venha à cabeça o recurso que tantas vezes utilizava São Josemaria para descrever o Opus Dei em poucas palavras: o modo mais fácil de entender o Opus Dei é pensar na vida dos primeiros cristãos[7]. Muitas vezes terá repetido, durante os primeiros meses em Roma, frases parecidas às de anos mais tarde: Eles viviam profundamente a sua vocação cristã; procuravam seriamente a perfeição a que estavam chamados pelo fato, simples e sublime, do Batismo. Não se distinguiam exteriormente dos demais cidadãos. Os sócios do Opus Dei são pessoas comuns; desenvolvem um trabalho corrente; vivem no meio do mundo de acordo com o que são: cidadãos cristãos que querem corresponder cabalmente às exigências da sua fé[8].

O Concílio Vaticano II proclamou com força que todos os fiéis são chamados à santidade e que compete aos leigos a responsabilidade de levar Cristo às realidades temporais. Nos anos quarenta do século XX, muitos identificavam a perfeição cristã com a vida religiosa, e custava-lhes ter uma ideia clara de como se podia aspirar à perfeição cristã no meio do mundo, exercendo todas as profissões e ofícios honrados.

São Josemaria nunca se cansou de repetir que os fiéis do Opus Dei são pessoas comuns, como os primeiros cristãos. E muitas vezes comentava que contam com os mesmos meios que eles para vencerem na luta interior e alcançar a santidade: Pensa no que diz o Espírito Santo, e enche-te de pasmo e agradecimento: "Elegit nos ante mundi constitutionem" escolheu-nos antes de criar o mundo, "ut essemus sancti in conspectu eius!" Para que sejamos santos na sua presença. Ser santo não é fácil, mas também não é difícil. Ser santo é ser bom cristão: parecer-se com Cristo. Aquele que mais se parece com Cristo, esse é mais cristão, mais de Cristo, mais santo. E que meios temos? Os mesmos dos primeiros fiéis, que viram Jesus ou O entreviram através dos relatos dos Apóstolos ou dos Evangelistas[9].

Com esses meios os cristãos dos primeiros séculos tornaram-se santos no meio de uma sociedade pagã, ao menos em parte corrompida e que os perseguia com sanha. E com esses meios, fizeram apostolado ali onde se encontravam, até transformar a partir de dentro uma civilização hostil à fé. Para seguir as pegadas de Cristo, o apóstolo de hoje não vem reformar nada, e muito menos desentender-se da realidade histórica que o rodeia... Basta-lhe atuar como os primeiros cristãos, vivificando o ambiente[10].



[1] Vida de São Fulgêncio de Ruspe, III, 27.

[2] Cf. Prudêncio, Peristephanon, II, 513-529.

[3] Cf. Fil 4, 22.

[4]Cf. Rm 16, 11.

[5] Citado por Orígenes, Contra Celso, VIII, 55.

[6] Mt 5, 13.

[7] Entrevistas com Mons. Josemaria Escrivá, 24.

[8]Ibidem

[9] Forja, 10

[10] Sulco 320.